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Full text of "Historia De Goa Vol. 1"

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HISTORIA DE GOA 

(POLIT1CA E ARQUEOLOGICA) 




(POLITICA E ARQUEOLDGICA) 


PADRE M.J. GABRIEL DE SALDANHA 

VOLUME"!, HISTORIA POLITICA 
PART 1: GOA P R E- PO R i U G 1 j FS A 
PART If: GOA PORTUGliESA 

VOLUME-!!, HISTORIA ARQUEOLOGICA 
PART III: MON U MENTOS ARQUKOIjOGICA 


HISTORIA DE GOA 

(POLITICA E ARQUEOLOGICA) 


PADRE M.J. GABRIEL DE SALDANHA 

COM UMA CARTA-PRGFACIO 

POR 

I. A. ISMAEL GRACIAS 


D1VID1DA EM DOES VOLUMES 
SEGUNDA EDICAO 

VOLUME-! 

HIST6RIA POLITICA 



ASIAN EDUCATIONAL SERVICES 
NEW DELHI * MADRAS A 1990 




ASIAN EDUCATIONAL SERVICES. 

* C-2/15, S.DA NEW DELHI- 1 10016 

* 5 SRIPURAM FIRST STREET, MADRAS-600014. 


Price ^ Set) 

r , f Volume | 

First Published: 1098 Pangim First Edition 

AES Reprint 1990 
ISBN: 81-206-0590-X 
81-206-0S91 -8 

Published by J. Jetley 

for ASIAN EDUCATIONAL SERVICES 

C-2 / 1 5. SDA New Delhi- II (X) 1 6 

Processed by APEX PUBLICATION SERVICES 

New Delhi- 11 00 1 6 

Printed at Nice Printing Press 

Delhi- MOO 92 



(Folitica e arqueolOgica) 


por 


£Padre SVC. J. Gabriel de Saldanha 

ProfoRflor aposentado do Liceu Central do Nuva-Croa, 

Socio do tit: f 'oirnltrti , 

Anti go Vogal da Comissno Perinanontc de Arqnenlogia 
da India ]*ort.ugnesa 


■v*. '•V ■ 


COM UMA CARTA-PREFACIO 

por 

Ov. vl> * 2 ? ‘vVXOv^V 

0 S 

Da Aradf'inia das Soi&noias do Liehoa 


S e { ) u n d a E d i ca o 


Volume i-Historia Politica 

^ \. .S r ^Si -} — 

'V-e.-ci^y -* 


Casa Koitoka 
Livraria Coelho 
Nova Goa 


13 a stora —X i pog ra fi a R a n <j e I — 4 1 2-24 





Palavras necessarias 


Tendo-se esgotado, ha muitos anos, a 1.* edi- 
?ao do meu Besnmo da Hiatdrla do Croa, publi- 
cada ern 1898, resolvi fazer esta segunda edicao 
totalrnente refmidida, ampliada e dividida ern 
dois volumes, compreendendo o primciro a his 
toria poli'tica e o scgundo a historia arqueolo- 
gica de Goa. 

Este trabalho, como .ja o disse na edicao ante 
rior, nao aspira a orig inalidade ; e antes uma 
eoordena^ao metbdica do que encontrei disperso 
em v^rias fontes autorizadas, que vao indicadas 
em log a r* competent^ e numa relacao final, de- 
vendo mencionar partieularinente o importante 
livro de Jose Nicola u da Fonseca. 

Na coordenacao esforcei-me por apuna i* 
com o possfvel rigor* a verdade liistbrica atravds 
da divergdncia dos autores. O mesmo cuidado, 
por6m, nao pude empregar na revisao das provas 
da imprensa, por nao mo permitirem a vista 
embaciada e os outros achaques da minha a- 
vangada idade de 72 anos ; o que deu margem a 
algumas incorrecgoes, das quais as mais not6- 



veis vao emendadas n a lista das erratas. 

Com a publicacao d6ste opusculo julgo ter 
prestado um servico, embora insignificante, ao 
meu pais, cuja historia se ressente da falta de 
um livro adequado aos que queiram ler sum&- 
riamente a histdria de Goa, com informa^oes 
precisas sdbre o i vasto imper io portuguds no 
Oriente. 


^Pe. Gabriel de Saldanha 



oarta-prbfAoio 


Men raro padre Gabriel de Saldanha 


Nos curtissimos ueios que as obrigagOes me conce- 
dem, percorri, em agradiivel e nlpida leitura, o seu 
MS. <lo Resumo da / / istoria de Goa , que, — se a minha 
desvaliosa palavra pode *cr inoentivo, — julgo deve 
publicar sem hesitaijilo. 

Vazado em bons moldes, rovelador de refiectido es- 
tudo e de acurada claboraqRo, o seu compendio pre- 
enchera uma lacuna muito sensivel na bibliografia 
local, que, npresentando muitos e a precidvois mimeros 
sobre vririos eapitulos da nossa h istoria, acusa, contu- 
do, a falta dum livro (pie, em sintetico esbdqo, com- 
preenda os factos nobiveis desde a mais remote an* 
tiguidade ate aos nossos dias. 

Pois, a dizer a verdade, nao temos ainda a histdria 



rr 


conxpleta, einlxora abruviadn, de Goa, ou antes, do im- 
perio portugues na India, que aqui teve o seu consa- 
grado ni'icleo, — historia como pode e deve fazer-se 
hoje : com observagao, classificaqao e generalizacjSo ; 
com factos, nietodo e leis ; com invcstigagao, criterio 
e eclectismo ; com a parte estatica e a parte dindmica ; 
— histdria, que esta ainda por escrevcr, formando as 
longas e interrompidns crdnicas, as colecqbes de do- 
cumentos o varias monografias, uma congerie inex- 
tricavel de elementos, a que s<l uma inteligencia culta, 
servida pulo trabulho assiduo, como o raeu amigo, 
podia dar ordem, uuidn<le e consistencia, para os cou- 
cretizar e reduzir a um xumdrio, como este, de cardter 
diddetico ( J ) e de filed assimilaqilo. 

K hem se vo, no decurso da leitura, quanto capital 
de aplicayflo e energia despendeu o uutor, recorren- 
do a 1‘ontes de infornmguo, de origem e procedfencia 
di versa, para apurar, com prudente escollxa, os mate- 
riais no abundaute cabedal, que maos experimentadas 
tem sueessivamente acuuxulado. 

Realmente, muito se tem esci’ito sobre o assunto, 
e, por isso, muito ha que api’oveitar, jd nos velhos 
ci’onistas, jd ein livros rnodernos, publicados no reino 
e na provxneia, jd nas relajoes dos viajantes europeus 
e. finalmente, nas obrns de investigagilo arqueoldgica, 
que exornam a litei~atura anglo-indiana. 

Dentre os primeiros — os escri tores antigos das 
cousas irxdianas — avultam Gaspar Correia, Jo.*lo de 


(*) Rofere-sc a pri mcira edifilo deste livro, qne havia sido 
dtbtinada a aervir do texto na Escola Normal. 



Ill 


Barros e Diogo do Couto, que laneunun os primeiros 
fundamentos para a histdria de Portugal no Orionte, 
e mereccra p referenda pelo sen ti men to de justi«;a e 
de verdade, que evidentemente os domina. 

Gas par Correia d o Polibio portugues. (Juando o 
seu MS., que, por longos tres seculos, esteve esqueeiilo 
no pd dos arquivos, foi impresso, trouxe a piiblioo re- 
velaqoes importantes, damlo nm novo aspecto a muitos 
factos de que havia conhecimento por outros historia- 
dores. As Lend as sao a erdnica mais important^ 
desde a arrojada expediigio de V r asco da (lama ate 
ao ano de 1550 ; escritas em uma linguagom ru- 
de e quasi bar I vara aim, mas natural o sineera, o que 
nao qnere dizer que hajasempre escrupulo o exaetidiio, 
cheia de pitorescos relevos, que atraem e eneantam, 
manifestiun am engcnho not A v el, end warn inculto. O 
seu grande merito, eomo ponderei algures, e eonden 
sar em am t.ra<;o, cm poueas palavras de adoravel sin- 
geleza, duma ingenua candura ■ -candor iin/emnis — 
uma epoca ou uma individualidado para o sen julga- 
mento moral ; tern por vezes ditos silbiamente coneei- 
tuosos, ag udos, esmagadores, duma simplieidade pene- 
trante o flageladora. Com Caspar Correia a vista, 
eseritores nacionais e estrangeiros tern gizado brilhati- 
tes eslmeetos, c ressurrei<;oes hisldricas ; contndo a 
mina ainda so nao esgotou. 

Se, tomando por ponto de partida o descobrimento 
do eaiuiuho maritimo da India, Caspar Correia eo 
mais antigo ci’onista, pois eomeqou a eserever no go- 
verno de Afonso d’ Albuquerque, o livro que Duarte 
Barbosa, comtemporaneo do viajante milancs, Tubs 



IV 


Varthema, escreveu por 1510 , sol) o titulo Relagdo 
do que vm e ouinu no Oriente , geralmente se considc- 
ra a mais antiga descriqAo da India. Esta opini&o 
passaria conio facto incontroverso, se uma modema 
publicaffio aleina, do epic nos ehegaram tardios ecos 
pelas re vistas inglcsas, nao viesse tirar ao eserivSo da 
feitoria de CananAra prioridade, por longo tempo in- 
contestada. D. 1 ' Kunstman fez, ha poucos anos, im- 
primir pela primeira vez, era Augsburgo, uma inte- 
ressante narrativa a respeito da India na primeira 
decada do seculo XVI, a qnal sc diz escrita por urn 
Conrad Hem, e que poe cm evidencia factos graves 
pela novidade, graves pelo alcance, nada mais. nada 
menos que uma reivindicagiio honrosa para Portugal, 
como se vai ver. 

Passa por averiguado que os portugueses, depois de 
abrirem o eaminho niaritimo e de se assenhoiearem 
das ehavos do eomereio oriental, cram tao ciosos, 
quo consideravam e defendiam esse comercio como 
urn monopdlio, inuito sen, nao consentindo que estran- 
^eiros quaisquer tivessem relates mcrcantis na 
India, tratando como entreliipos os que a isso por- . 
ventura se atrevessem. Que esse exclusivismo, ten- 
do origem na antiga doutrina do mare dausum , expli- i 
ca a falta de concorrcncia, durante a primeira £poca, 
das outras nacionalidades, concorrcncia que mais tarde 
se iniciou por parte dos holandcses, ingleses e fran- 
ceses, transformando-se numa encarniqada luta de 
interesses e ambiqoes. 

A publica<;&o alcmS, a que aludimos, vem, con- 
tudo, patentear o exagero desta apreciaqSo ; e que, 



V 


se os portugueses empolgaram e centralizaram nas 
suas maos o trafieo indiano. nao exerciain com tal 
rigor, de modo a totalmente excluir os cstrangeiros ; 
apcnas cxigiain, como direito de supremacia, quc fos- 
scan naoiotmis os barcos e os (rijmlantes empregados 
no transporte. Assim e que alguns ricos negoci antes 
da florescento delude de Augsburgo, live ram pennissilo, 
cnv 1504, para annar tres nans, trinuludas e comau- 
dadas por portugueses ; nans quo vieram a India com 
a expcdic'.o do primeiro viceroi 1) Francisco de Al- 
meida c ainda depois, por dnas vezes. Os alemaes 
quc fizeram cssas viagens, toinaram nota do quc vi- 
ram, e o MS. de Conrad Hem, on quern quer s«ja, 
editado polo d. r Kunstinan, c visivelmente a descri- 
c;ao da India anterior a de Duarte* Barbosa. 

Jofio do Barros, quc segue* a Caspar Correia, vai 
mais alcm. Nao so tem o mereeimonto quo Hie gran- 
geou o oognome de Li'vio portugues, mas re vela- se 
na sua obra urn ]>olitico e economista esclarecido, 
mini tempo cm que a economia politica ainda estava 
no seu crcpusculo matutino, quasi desconhecida cm 
Portugal, onde, mesino de])ois de elevada a dignidade 
de scicncia, tardc e muito tarde fez resplandecer as 
suas luzes. Pois — se no sceulo XVIIT, Adam Smith, 
do canto da sua diamine, impds ao muudo maiores re- 
forrnas do que as de uni primeiro ministro (palavras 
textuais de Herbert Spencer) — Joao de Barros, 
muito antes, tinha manifestado nas DJcadns alguns 
conhecimentos e ideas sobre a economia publica e o fu- 
turo do coinercio asiatico. Feitor da casa da India, 
zeloso pelo engrandecimento da pAtria, . previu a im- 



portunciu da ex|>iiiisfio portuguesa no oriente, onde, 
alias, nunca os t eve, e o proveito que dela redundaria 
pam a ritjueza nacional. E’ assim que, emquanto 
deserevc pormenor e em cor recta dieeao, os sucessos 
que so propbs referir : navegagoes e conquistas, o ve- 
mos disoorrer uitidamentc sobre o que sc denomina 
hoje foil ten to, — sobre a justiga c ordem natural das 
cousas, sdbre a paz e a eoncordia, a liberdade civil, o 
direito <lr propriedado, o trabalho, a invengao das ma- 
(juinas pam o abroviar e aperfe’ujoar, a agricultura, o 
eomeivio, a industria, a political, o prego, os mono- 
pdlios, a fung/io da moeda, o intcresse privado, a 
distribuigfio com quo a Providcncia repartc sens dons, 
para farilitar o comercio, a fe piiblica e particular, a 
defoza do Kstado c* varies outros assuntos conexos. 

Se Joao dr Burros e inn bistoriador econornista, 
Diego do (.-onto e bistoriador fildsofo, que aprecia 
os factos liviemeul'\ com a independence compa- 
tivel com as eircunstaneias do tempo, nCio rcccando 
mat />clo (jue disses&e, nent esperando bem pelo que 
lourdsse . Esteve em Goa assistindo a franca declina- 
(jfio da estrela portuguesa, e os seus ultimos escritos 
sao repassados do mesrno pesar e indignagao dos pro- 
fetas bi'blicos sobre as desgragas de Israel. 

A par destas autoridades, triumviros da nossa his- 
tdria, outras ha, dignas de memjao, como Castanheda, 
Antonio de Castilho, Faria e Sousa, Antdnio Bocarro, 
Jacinto Freire e mais alguns, que figurarn em piano 
inferior. 

Nota-se depois uma longa reticencia no s^culo 
Will e nar primeira metade do presents seeulo* 



VII 


Apds a consolidaqSo do regime constitucional na In- 
dia, desponta uma nova aurora, corner;* nm movimen- 
to civilizador, que sucessivamente alcan<;a mais tens to, 
site* iliuninar a periferia e prineipiam as conquistas 
intelootuais. A iinprensa toma assento definitivo, ti 
instrugao come<ja a difundir-se, e os tiltimos cincoen- 
tti anos oferecem um extenso invent, iirio bibliogni- 
fico, considerAvel com relaqilo k historia e a admiuis- 
traefto local, salientando-.se os trabalhos de dois ho- 
mens inteligentes e sabedores, um enropeu, que, j)or 
longos 22 anos, servin na India, on<le imprimiu itidc- 
levclmente o cunho da sua individualidjulc e fez epoca, 
e o outro, indigeua, ocupando um emprego, a que o 
chamaram as traditjoes de sua familia, exercitando 
corajosamente as prdprias formas, consoante o meio cm 
<jue se criou e vivia, ambos bonein^ritoa do pais. Re- 
firo-mc a Cunha Rivara e Filipe Neri Xavier. 

De Cunha Rivara nilo se pode esetever sem aeata- 
meuto : e o mais douto enropeu dentre os que tern 
aqui estado no secnlo XIX. Antiqmirio erudito, que 
passava a maior parte do dia enclausurado nas biblio- 
te<*as e arquivos, humanista e paledgrafo, deixou uma 
grande cdpia de contribui<;des para a histdria luso- orien- 
tal, assim como guiou com m;lo (irme e benevola os 
juvenis espiritos que desabrocharam sob sua paternal 
direc§ao no ensino, exercendo uma elicaz e sal u tar 
infhiCncin na evol ttcjilo mental e liter.iria do (ioa. 
Era um trabalhador perseverante e infatigavel. Pet> 
eorreu uma grande parte do Hindostiio, desde Dili 
ate ao ’ calx> de Comorim, desde a costa de Muluhtr 
at d a de Coromandel, o que lhe permiflu ver os loga- 



VIII 


res, onde era outras eras flntuon vitorioso o pendilo 
das quinas, e coligir bastantes e curiosos subsidios. 
Com igual faeilidade escrevia era portugu6s, latim, 
francos e inglt*s. Tentou coin inuita diligencia ressus- 
citar o concani, tendo sido o primeiro que compds urn 
ensaio historieo e fez imprimir alguns trabalhos didAc- 
ticos antigos dessa lingua. 

A sua dicqSo portnguesa era correctissima, imped- 
ed vel. Tendo feito as suas primeiras armas ao lado 
de Garret, Herculano, Castilho, Meades Leal e 
outros proceres das letras piltrias, apaixonado pelas 
antigualhas, familiarizado com os elassieos, lli vara era 
zeloso, ate ao fanatismo, da pureza da liugungem. 
Para ole todo o neologismo era urn dosacato impcr- 
doavel, toda a irrupeao de formas ou vooUmlos pore- 
grinos utna afronta criminosa a Camoes e Ferreira, a 
Bernardes e Vieira, a Barros e fr. Luis de Fouza. 
N.lo admitia outros mestres da arte de esrrever, e 
repugnavam-lhe as inovagoes modcrnamcnte impor- 
tadas do estrangeiro. Ainda hojc nao faltain cm 
Portugal exeraplares dosse genero, poucos, raros , 
corao cm Franca ha tao eserupulosos scrvidores da 
lingua, que soraente reconhecem a autoridade dos li- 
terates do grande periodo de Fenelon e Bossuot. Que 
diria hoje, se lease a erudita dissertagao que o emi- 
nente filblogo, M. Michel Breal publicou, o ano passa- 
do, no Journal des Savants . , combatemlo enorgi- 
camente essa intransigente escola ? 

Ouqamos por urn momento o siibio dmulo francos 
dos Max-Mullcr e dos Nordau. F bastante instru- 
tivo o sen arrazoado, do qual nao s< ra ocioso recortar 



IX 


algumas consideraqoes. 

Piscorrendo jV cerca da adopq&o de vocdbulos novos, 
que geralmente costuma acompanhar a importable 
de uina sciencia, arte, raoda, ou simples jogos oriun- 
dos do estrangeiro, diz Breal : 

“Os amadores intransigentes do purismo deve* 
riam ponderar que a mesrna cousa se efectuou em 
todos os tempos e, visto invocarein a tradi<;:lo classica, 
pode-se-lhes dizer que, em tal capitulo, os antigos fize- 
ram exactamente o mesmo. Os comauos receberam 
dos gregos a sua escrita, tudo que diz respeito & arte 
de escrever e grego, a oomegar por scribere e litterae. E 
nao sbmente quer se trate de escrita, de direito, de 
ritual, quer da arte militar, de navegacjtlo, de pesos e 
medidas, de eonstru<;oes, de objectos de arte, em tudo 
se ei icon tram em latim vestigios da tJrecia e dos Ho- 
mes gregos. 

“ Os emprestimos silo de todas as epoeas, — acres- 
eenta Breal — s;lo tao antigos eomo a civilizagao, 
porquo os objectos uteis a vida, a tecuologia das scion - 
cias e das artes, assim eomo as coneepqoes abstractas, 
que elevam a dignidade do homem, nao se inventain 
duas vezes, mas propagam-se dc povo, a povo para se 
tornarein patrimonio comum da humanidade. Nilo 
sera, pois, legitimo conservar-llies o tiome ? 

“ Os homens nao pertencem apenas a 11m grupo 
etriieo ou nacional, fazem parte igualmente, — segundo 
os sens estudos, a sua profissao, o seu genevo de vida, 
o sen grau de cultura, — de comunidades sociais, que 
sao ao mesmo tempo mais gerais e mais limitadas. 
O inatemdtico permuta ideas com os matcmdticos 



X 


dos outros paises. 0 gedlogo francos tem de corres- 
ponder-se com os seus colegas da America ou da 
Australia. () negociante qucrc sal>er o que sc passa 
nos tncrcados do muudo inteiro. Scria carecido de 
fundament© pur obstaculos. cm nome de uma idea 
de pnrismo, ao emprego de termos que sao a proprie- 
dade comura dos liomens votados aos mesmos Inte- 
rBases e aos mesmos estudos. 

“ A adopguo de palavras estrangeiras, j>ara 

designar idtias on objectos importados do estrangeiro 
e dandologar a uma troca internacional de relagoes, nao 
e, portanto, cousa censunivel cm si e pode perfeita- 
mente justificar-se. Em semelhante caso, c apenas 
para desejar que o emprestimo seja feito com inteli- 
gencia, e que, ua passagem de uma lingua para a 
outra, nao haja substituiqao denenhuma especie.” 

M. Michel Breal, que exemplifica largamente o scu 
discurso, entende maisquenaoe da mistura de termos 
estrangeiros que a pureza de uma lingua tem a recear, 
mas do emprego improprio de termos scientific©?, e 
do fabric© de vocdbulos superfluos e preteneiosos, de. 
que tanto torn abusado os simbolistas c.decadentcs, 
substantivaudo verbos e vice-versa, de um inodo desas- 
trado e pedante. Condenar em principio, e do um 
modo absoluto, os neologismos, julga a mais esterd 
das proibigoes; pois, uma lingua e um organismo vi- 
vo, que sc desenvolve sempre, e em cujo desenvolvi- 
mento todos n<Ss colaboramos inconsciente e inscu- 
sivelmente. 

E’ convincente e decisiva a argumentagito . do aba- 
lizado fildlogo. E a pequena digressao, que acabo 



XI 


tie Inzer, nfio siguifica cle modo algum o meu desres- 
peito ou descarinho pela forma classica. Mas, a seve- 
ridade da velha eseola tem de moderar-se perante a 
cxigoncia do progresso, seru contudo aprovar a ex- 
cessiva liberdade dos que, por gusto, aspira$So 4 
singulari dude ou sciencia, sdein usar uma termi- 
uologia con ven cional e camprtnuda, quereiulo a seu 
modo Inzer uma testa de esti/o , quail do sai de tudo 
uni j >a fj ode estonteador , brigando <»m a grambtica, 
com a Ibgica e ate com o sen so eomurn; caindo em 
indesculpuveis e repctidas faltas, que,, mu it as vezes, 
u rot ilia legitima, com manifesto prejm'zo para o genio 
c t radioes da lingua nacional. Entre os dois extre- 
1110s, facilmente sc impdc o meio tcrino a seguir. 

Tornomos a Uunha llivara. 

Os sens reconhceidos prestirnos c os estudos que 
encetoii logo ao chegar a India, valeram-lhe a nomea- 
i;ao regia para continual - os trabalhos de Burros e de 
Ctmto. No desempenho desta comissao, iiilo se sub- 
ordinou, porein. ao piano de arcaicas crbnicas ; ins- 
piron-se na sisteinatizuc.no moderna e foi mn essayst 
de superior criterio. Entre as suas obras sobressaem 
o Archive Portuyuez— Oriental, repositbrio enorme e 
preeioso de documentos habiimente coordeuados, — a 
volumosa colectjiio relativa aos direitos do Real Pa- 
tlroado Portugues no oriente, tie que foi estrbnuo e 
vigilante defensor, o que lhe acarretaria o desgosto de 
mlo ser arcebispo de Goa, se fora eclesibstico, eomo 
Pio IX o supunha, — o peribdico Ckronista de Tis * 
suary e tantos out.ros, que opulentam a sua herantja 
literaria. 



XII 


Aqui veni a talho de fonce tuna recordtujao. Todos 
os homcns de letras torn os sens quartos do. hora do 
feitio do de Rabelais, e Rivara nao 1‘oi excepgtio dessa 
regra. Quando, exumando do | ><> dos arqui vos, com 
a raais pacientc solicitude, os dociimeutos antigos, 
Isolados ou acompnnhados de ilustrativas ini'ormayous, 
os publicava no lioletim do < Hocerm , onde sairam 
primeiro em grande parte (no que nao so fazia uni 
louvavel servitjo, mas cumpria as avizudas instnujoes 
dad as pelo Conselho Ultraniarino para a redact;;! o dos 
Boletins dos governor djdein-mar, (instruynes que o 
modernismo, ingrato para com uin passtulo glorioso, 
tem esquecido), — dois jornalistas do pais, alias homcns 
ilustrados (esque^o outros de Imixo coturno, esgri- 
bas sem scieneia neni conscieneia, quo de vez em tpian- 
do lhe atiravam pedradas de garbto) — dois jornalistas, 
repito, no calor com quo agrediam o score tario do 
governo, nao raro absorvido cm Imtalhas eleitorais, 
nos moment is em que so lazia relielde a natural 
quietaqao, serviam-se ainda dessa publieaoao, eomo 
arraa contra o douto honieiu do letras. Um classifi- 
cou de jnjjoi'rticoi s (sic) os (asficidox ; c.o outro nao 
duvidou dizer que o Boletim so servia parti embrullitir 
tabaco e asmt-ar ! K Cutiha Rivara nao soubc desa- 
nimar ; prosseguiu coin imperturliavel screnidtnlc o 
persistence ; tmnquilo c impassivcl, antevendo a jus- 
tiqada imparcial postcridadc, a cada arrochadti d>'ste 
jaez, respondia coin hoinericas gargalha'las, tilo suas, 
que retiniam como bronze aos ouvidos dos eircunsttm- 
tes. Hoje os sens volumes torn mna procura forte, niio 
s6 no pais, mas ainda no estrangeiro, pagando-se avul- 



XIJI 


tado preqo pelos que we acham esgotados. E a ambos 
esses jornalistas ouvi eu, com os meus bons ouvidos, 
falnrem dele com reverente consideraqsto e aludirem 
com sul>i<lo apreqo i\s suas luzes, experiencia e es- 
critos, que de muito prestimo lhes t'oram cm certas 
ocasiocs. E ! caso para se repetirem as prdprias pa- 
lavras do sabio portuguos, sentcnjas, qtic a propdsito 
dimanavam da sua longa pratica dos negocios : as 
paixdes po/itkas fazem virar as cahepax alnda as mats 
hem on/anizadas , — on, melhor, eslas de Chateau- 
bri and com <jue kccscihIou uina vez: u Qtiando seiscen- 
tos on sctecentos hoviens (nas cnmuras parlamen tares) 
tern o direito de f alar e urn pom inteiro o dr escrever, e 
mtster resiynur-iws a onrir e a ler nwifa toll re. Quern 
se amofinar com isso , dura mostra de ser f-rara catena, 
ou pare.cera cmau<*u *\ 

Ao rc^ressar a metrnpole, em 1877, levou valiosos 
MS*., uns acal)ados e outros por acabar, que, apes o 
sen falccimentn em 20 de fevereiro de 1879, sua 
ex." 1 " viuva ofereceu <\ Biblioteca Publica de itvora, 
de que Hi vara, antes de vir A, India, fora solicito di* 
rector. Aincla uao chegaram a imprimir-se, excepto a 
colecqao das inscriqoes lapidares da India Portugue- 
sa, que ssiiu em 1894 no ’ Boletim da Sociedade de 
(ieogralia, de Lisboa, e depois em volume especial, 
infelizmente com graves defeitos de ediqfto, que pre- 
judicam o valor dessa preciosidade epigrdfica. 

Resumindo, Cunha Rivara 6 hoje a maior autorida- 
de nos assuntos s6bre que escreveu. 0 seu nome, 
que Sle gravou, com m&o diurua e noctuma, em mo- 



XIV 


numentos imperecivois, tem uin credito abalizado, e e 
o seu melhor elogio. 

Filipe Ndri Xavier foi mn investigador assiduo e 
incan swivel. E’ vasta e merifcdria a sua obra, podendo 
dizer se hoje, feito o nosso balanco bihliogrnlieo, ;pie 
e o mais fecundo escritor indigena. Funcionario 
distin to, ditma actividadc scmpn'. juvenil, vigorosa e 
energies, aproveitou-se da ana posi<;ao oticial e das 
variadas comissoes, de que o incumbiain, para fazer 
demorados estudos do organismo administrative local 
em todas as snas engrenagcns, constituindo-se assim 
uma espBcie dc dicionario vivo das especialidades 
goenses. 

Deixou valiosos trabalhos, luio so de simples Inte- 
rBase histdrico, mas, principalmente, sobre <|uilsi todos 
os ramos da governaqfio da provineia. Em 11m dcstes, 
o mais importante 11a cconomia interna — a udininiatra 
qslo das comnnidades agricolas — cnja indecisa histdria 
e andmala legishujao foi o primeiro a coordenar, lia de 
cadeira, tendo durante a sua vida, logrado a reputa- 
5S0 de oraculo. Acerrimo e fervoroso defensor des- 
sas utilissimas institutes, numa ocasiao em qne 
apareceu tpiem lcmbrasse a convcnicncia da dissolu- 
<jfto das g&ocarias, sain de lan<;a em riste com vigo- 
rosa defeza nurn livro, quo o douto padre mestre 
Miguel Filipe de Quadros qucria qne servisse de 
cartilha maternal nas familias gancariais : como a 
pretdrita geraqao, esmaltada de nomes i lustres, se 
apaixonava por essa secular e grandiosa heranqa. que 
abona o elevado engenho hindu 1... 



XV 


Com igual desvelo escreveu sobre as confrarias, 
administra<;iio das Novas Conquistas, dessaiados, usos 
e costumes dos habitantcs nao cristftos, seuados e 
camaras, nobiliarquia, numismatica, etc. 

Pelos sens muitos c prcstantes servigos, adquiriu 
indiscutivel jus a gratidao do pais, que aiuda se ndo 
desendi ividou para com esse sen predaro filho, fazendo- 
lhe pelo menos uma modesta consagraqito piiblica, ( l ) 
embora o seu mais dumdouro padriio — fere perennius 
— 'file mesino o tenha orguido nos seus trabalhos, que 
honrnm a sun memorin , como disse uma autorizada 
voz 11a eainara dos pares eui 1888 , — emlxira a sua 


( 1 ) Depois da priraeira publicu(;ao desfca carta foi fcita esfcft 
eonsagra^iio, leinbntda pelo aaudoso Ismael Gracias, por m#io 
(luma fcsta piiblica, promovida pur seu irtriao, o sr. Atnancio Gra- 
cias, para comemorur o centemirio do nascimento dc Filipe Neri 
Xavier. 

Por essa ocasiao, alem de ser reeditado, por subscricSo piiblica, 
o seu livro O liosqucjo lli&lorico dus Gomunidades de Goa, foi 
colocada, sendo deace r rad a pelo govurnador geral, uma lapide de 
marinore na faohada principal do prcdio era ijue residiu, no bairro 
Fontainlias, da capital, na rua ijue leva o sen notnc. A lapide 
traz esta inscri^ito : 

NEST A CASA VIVEl! E MORREU 
FIL.L.I PPE NERY XAVIER 
NASOIDO AOS 17 l)K MAR^O 1801 
FALLEOIDO AOS 16 DE MAIO 1875 
HOMENAGEM DOS SEUS CONOIDADAOS 
NO SEU PRIMEIRO CENTENARIO 
1901 



XVI 


mais viva comemoraqao seja a que todos os dias sc 
repete entre os homens e nos estabelecimentos piibli- 
cos, recorrendo k sua autoridade e invocando-a no 
estudo e resoluffio de importantes questdes locais. 

Preparado com a escassa instruqllo da sua epoca, c 
repartindo o seu tempo por entre imensos e acabru* 
nhantes afazeres, nao teve elementos suficientes, item 
vagar para aperfeifoar os seus escritos, dai algumas 
incorreeQoes que nao deslustram contudo o se » raerito 
intrinseco. Diz o sr. Frederico de Ayala que Filipe 
Neri. a quern d& justo logar como o mais notavel es- 
critor Indio, foi o melhor discipulo de Cunha Uivarsi. 
Ha nisto um equivoco. Quando Rivara chegou a 
Goa, Filipe Neri eraja publicista considerado, e nos 
seus livros posteriores nao ha a caractemtica literaria 
em que o primeiro o excedia. Filipe Neri era mu 
espirito independente e brilhou sempre com luz pro- 
pria. Foi obra de si mesmo. Alem de que e tradiqfio 
que ambos nunca se entenderam bem, ligando-os ape- 
nag a proximidade da hierarquia oiicial. Um Bos we 1 
comum poderia neste ponto acumular citaqoes opor- 
tunas. 

Seguiu-lhe a esteira Miguel Vicente' de Abreu, tum- 
bem funcion&rio publico, que empregou I'ltilmente as 
suas horas feriadas. E’, porem, de menor importancia 
o seu espdlio. Comeqou a escrever sob os directos 
auspidos de Cunha Rivara que sempre o encaminhou, 
e isto lhe deu bastante incentivo e conhecidas vantn- 
gefis. Dentre as suas publicaqoes, as mais aprecia- 
,veis sfto as versCes do Boaguejo historico de Goa pelo 
abade Cottineau, e da Narragdo da Inquist'ciio , pelo 



XVII 


medico frances Dellon, ambas prefaciadas por Cunha 
llivara, a Relayao das alteracjoes politicas de 1821-22 
e a memdria sbbre o governo do Ccude do llio Pardo, 
estas ultimas amplamente documentadas, no que por- 
ventura consiste o sen linico merecimento. A memd- 
ria sbbre os filhos distintos de Goa, louvdvel como 
homenagem patridtica, e um punhado de apontamen- 
tos, sem uexo, mas do utilidade; e a quo trata da aula 
de quimica tern interesse limitado. 

Ao lado de Filipe Neri e de Miguel Vicente 
d'Abreu, surgiu urn noro, habilitando-se com suficiente 
educaqslo literaria para delinear uma obra histdrico- 
critica, segundo os modernos processos. lteduziu os 
principais assuntos a breves quadros, trabalhados 
com esmoro e com o dosassbmbro proprio da sua ju- 
vcntude e posi$ao social. Nao teve aspiraqoes parti- 
darias, de que injustarnente o argiii o sr. Frederico 
d’Aiala, pois nunca sc mostrou liliado em partido 
algura, nem entrou em quostoes politicas, nem mesmo 
os seus escritos jornalistieos, 11 a maxima parte, de li- 
teratura histdrica, denunciam qualquer laivo de virus 
partiddrio ou castista. K’ certo quo -a sua obra nfio e 
muito reflectida, so domiuada pela ldgica. Fa-la-ia, se, 
assim como sc Camiliarizou com a literatnra francesa 
em voga no sou tempo, tivesse conhecido Macaulay, 
Gibbon, ou Hume. 1% ii parte alguns pequenos 
senoes, que se perdein no cou junto da obra, os Qua- 
dros histdricos de Goa podem eonsiderar-se uma es- 
plendida e inconfundivel manifcstaijao literdria, e ser 
manuseados com proven to porquemnfto pode entre- 
gar-se \ fastidiosa leit.ura de pesados volumes. Mais, 
b 



XVIII 


tern a vantagem de abranger os sucessos politicos da 
terra ate uma 6poca menos afastada. Creio que os 
leitores sabem de quem falo. Barreto Miranda muito 
daria iis letras, em que ilustrou seu nome, se cir- 
cunst&ncias particulares o niio tivessem desviado para 
uma prosaica e laboriosa fungao pdblica, e se a morte 
o niio tivesse colhido ante-saziio. 

Sobrc os trabalhos dos escritores, ultimamente 
mencionados, e com outros a que recorreu, o sr. 
Frederico Diniz d’Aiala, que mais duma vez citei, 
escreveu a sua Goa antiga e moderna , um tra- 
balho de andlise e de erltica, como ele prtfprio o 
classifica, um livro de eombate, direi eu. Jovem de 
claro eutendiinento, residindo dcsde muito tempo em 
Portugal, estava em eircuustancias de produzir um 
livro melbor; mas, dominando-se pelo seu tempera- 
mento ardente e nervoso, aliou uma oragfio pro domo 
sua a um irritante libelo acusatdrio. E’ este o seu 
defeito culminante. Le-se o volume dum folego, e 
afiual 6 uma surpresa ver um intelectual esperangoso, 
arrastar-se por sentimentos a que devia ser superior, 
perder a serenidade — como bem lhe reflectiu um arti- 
culista da f ’rovincia, do Porto, que revistou esse li- 
vro — e deseair em apreciagoes apaixouadas e inexac- 
tas, tendo em vista exaltar incondicionalmente uma 
determinada classe, e num parti-pris de amesquinhar 
por todas as formas uma outra, a que atribiie intentos 
sinistros, tendeucias uacionalistas (ou nati vistas, na 
frase minaz dos patriotas de 1895) alvejando £ran- 
camente — e parece ser este o seu fito principal— um 
homem respeitavel pela sua capacidade e aervigosj 



XIX 


aquSle a quern o talentoso Moniz Barreto, quando es- 
crevia no Reporter a respeito da mesma obra, acertada- 
mente chamou o ultimo don chefes da aristocracia bra- 
manica. No entanto, Goa antiga e moderna revela-se 
uma obra de arte. A par de estilo embaraqado. que 
tanto prejudica os escritos do autor, (o que ainda lhe 
notou o precitado articulista), tem pAginas de grande 
felicidade nas describes, de belo vigor de traqo, 
assim as que retratam as simpAtieas figuras de 
Afonso d’Albuquerque e Francisco Xavier, o heroe 
ierribil e o padre santo, dois vultos vencrandos do 
ciclo glorioso do Portugal conquistador, e as que 
esboqam as fonnosas paisagons indianas. 

0 tomo TII da Descrigdo geral e histdrica das moe~ 
das, por Teixeira de Aragao — mal se perceberA que um 
volume deste titulo cncerra muita informa^ao util alem 
da numismatica — as sucintas narrativas que, s6b a 
epigrafe Os Portuguezes no Oriente , publicou o sr. 
Eduardo de Balsemfio — e A India Portugueza de An- 
tdnio Lopes Mcndes, silo dignas de ler-se. Teixeira 
de AragSo acompanhou em 1871 o infante D. Augusto 
a India e do seu magnifico livro se deduz que estudou 
muito, tanto aqui, durante os poucos meses da sua 
permanencia, como em Lisboa nos arquivos piiblicos. 
E. de Balscmilo, que, por muitos anos, foi secretArio 
do governo, inteligente, activo e ilustrado, fez um 
subst&ncioso extrato dos cronistas e deu a lume nao 
poucos documentos ineditos do arquivo do govemo. 

A obra de Lopes Mendes, principalrnente apreciavel 
pelas estampas de conventos, igrejas, pagodes e ou- 
tros edificios, muitos dos quais foram completamente 



XX 


destruidos. substituindo-os hoje den*os palmeirais, 
acusa contudo uma falta de ordem e metodo, que 
ateniia sobremaneira o seu merecimento. 

0 ultimo livro, digno de nota, 6 firmado pelo sr. 
Bruto da Costa, redactor do Ultramar , jornal mais 
antigoda India Portuguesa. Intitula-se Goa sob a do- 
minagcio portiu/ueza , e ai encontra o lcitor urn bem 
coordenado bosquejo histdrico desde 1510 a 1897. 
Recomenda-se pela grande copia de factor e infonna- 
cjoes f pela exactidao com que o autor os apura, citando 
logo a autoridade de que se serviu e, finalmente, pela 
siirplicidade da linguagem que o torna acessivel ;\s 
mais comezinhas inteligencins. 

Chegado, meu [amigo, a este ponto, seria injustiqa 
esquecer a literatura relativa as conquistas espirituais 
no Oriente, onde a espada e a cruz resplandeceram 
aempre unidas, em combinado esfor<;o ; sendoa propa- 
gacjao da fe nestas partes o maior titulo de gloria v be- 
nemerencia, a que Portugal tern legitimo direito pe- 
rante a histdria e a civiliza<;;io, — a unica grandeza que 
lhe resta dentre tantas da sua aurea idade, e que ain- 
da lhe guarda vivo e respeitado o riomc nas imensag 
regioes por que se estendeu outrora o seu senhorio 
religioso. A histdria politica da India Portuguesa 
nao pode desprender-se da sua histdria eclesiastica, 
que apresenta uma legiao de escritores, pela maior par- 
te cldrigos regulares, que se distinguiram nas letras e 
deixaram preciosos livros, ocupando-se nao sdmente 
do estabelecirnento e servigos das suas ordens, missoes 
e missionaries, mas igualrnente dos feitos dos portu- 
gueses, dando miudas noticias das diEerente* terras 



XXI 


asi&ticas e das instituicjoes, usos e costumes dos seus 
habitantes; o que lhes aumenta o valor. Seria longo 
enumerar essas obras, desde as cronicas ixonasticas 
impregnadas do maravilhoso e cheias de mistiea poesia, 
em que a imagmaqao domina freqiientes vezes o crite. 
rio, interessantes contudo em variado gencro, ate aos 
escritos de seculares. Registarei apenas a Xoti cia 
histurica e letjisluriiti da histrm-rao pnldiva , do nosso 
lamentado colegs i f p. g Filipo Neri de Souza, sis Insti- 
f a iron $ portutjnezas do cdacarao v instrurrdo no ( h'ien- 
ft\ < lo malogrsulo p." Cnetann Francisco de Souza — du- 
sis pub]iea<;dos de incoutosisivel valia — c, sobretudo, 
uma outra de reeente data, que 6, a l>ein dizer, o oom- 
pendio de toda a nossa histriria e direito oclesiastico : 
sis Mitra* luxitanas no Orient* polo sr. p/ Uasimiro 
Oistovam de Nazare, quo sieabsi de publicsir em I/isIku 
si segunda edi<;ao. I la muito aplieado si similhantes es- 
1 udos, vive esse digno sacerdote lisi penumbra em que 
st* recolh cu, professando a Immildade. crisis! e empre- 
gando, como um boneditino, o sen tempo em lueubrsi- 
yoes frutuosas. Mas, esse sou magmfico livro basis 
para o levantar nos escudos dsi i'anm. c impoe-sc a lei- 
turn. Deveni possui-lo todos os que estudam ascou- 
sas patrias e cspecialmonte os eclesinsticos. Xslo estou 
a i'azer reclame. Quer-me parecer que o nosso elero 
esta bem compenetmdo do que, ha muitos anos, lhc 
disse um ssibio prelado : que o sacerdote deve ser emi- 
nente assim na sciencia como 11 a virtude, e que esta 
sein aquela o torna servo iiiutil na csisa do Senhor, 
compar&vel aquele de quem o Divino Mesrre tala em 
S. Mateus. E niio padeec duvida quo na sictusdidsule 
b* 



XXII 


6 apenas am £acto histdrico a ordem dada pelo Mar* 
ques de Pombal, para cada pdroco de Goa comprar 
um cate .smo, pondo a sua assinatura na primeira, 
pdgina do livrinho ! 

A par das cbras nacionais, ha outras estrangeiras, 
devidas principalmente aos viajantes europeus que 
vieram A India em diferentes epocas para variados fins, 
como o holandes Linschotten, 0 maritimo Hawkins, 
sobrinho do grande Hawkins, companheiro de Drake, 
que esteve na corte do cdlebre imperador mogol 
Jehangir, de quem foi intimo e obteve grande pro- 
tec(jao, da qual tirou extraordinarias vantagens, ao 
invez da imprudente perseguigao que em Surrate 
lhe moveram os portugueses, — Sir Thomas Roe, 
Newberry e Ralph Fitch, — Manucci, Carreri, Ber- 
nier e Fryer, medicos,— Tavernier e Thevenot, joa- 
lheiros— Terry e Ovington, eclesidsticos, — Herbert 
outro maritimo,— Mandelso e Pietro della Valle, no- 
bres, — Pyrard, c taotos cujas relagoes de viagem estao 
hoje ao alcance de todos, gragas a empresas-vulgariza- 
doras, como a conhecida Hakluyt Society , de Londres, 
e outras. Sfto extremamente curiosas essas relagoes, 
muitas demostran'do larga observagao e boa compre- 
ensfio das cousas, — e porisso, ao passo que lan gam 
muita luz sobre as epocas a que respeitam, servem para 
corrigir as crdnicas indigenas, que, estando traduzidas 
em linguas europeias, sobretudo a inglesa, tem de ldr-se 
cum grano salts, jd pela propositada omissSo de suces- 
sos dignos de memdria, que desonrariam certos sop- 
ranos, — ja pelas amplificagoes que nelas pululam; nem 
outra cousa se podia esperar desde que — falo dos gran- 



XXIII 


des reinados — alguns imperadores, como Babar e Je- 
hangir, deixaram as suas auto-biografias, — outros, co- 
mo Humayun e Akbar, fizeram escrever seus feitos 
por secretdrios particulares ou sujeitos estipendiados, 
que tinham de submeter os seus escritos a real com- 
plac6ncia. 

E a proposito de Jehangir, cujo nome caiu dos bi- 
cos da miuha pena por mais duma vez, sejam-me per- 
mitida^ mais algumas linhas. 

E’ sabido que diligentes missiondrios portugueses 
foram nos fins do seculo XVI, sucessivamente, k c6r- 
te de Akbar, o mais sdbio e poderoso de todos os ru- 
lers da India, que o solidtou, ndo pelo desejo de se 
converter, ou de introduzir nos seus dominios o cris- 
tianismo, mas pelo prazer de conhecer e tratar com a 
nova gente europeia, que andava pelo Oriente, espa* 
lhando fama de grandes feitos. Depois, no reinado 
de Selim, que sucedeu no tr6no a seu pai, assumindo o 
pomposo titulo de conquistador do mundo , que outra 
cousa nao significa a palavra Jehangir , os nossos mis- 
siondrios conseguiram ainda baptizar quatro sobrinhos 
do monarca e ver gravadas nas portas do encantador 
paldcio da magnificente Lahore as effgies de Jesus Cris- 
to e da Virgem Maria. Mas, porque o filho de Akbar, 
cuja feroddade era tal que os sentenciados por crime de 
roubo eram mandados lanqar aos caes, e as mulheres 
que tivessem ofendido o decdro eram enterradas vivas 
atd aos braqos, queria o cristianismo? como o compre- 
endia? E’ o que os nossos missiondrios nunca soube- 
ram ou fingiram n&o saber.'; mas contam-no informa- 
dores de boa nota. 



XXIV 


Jehangir era dado & intemperanqa. Entrettnha-se 

em banquet os ltixuosos o dissipava as noites cm or- 
gias babildnieus. Xum jantar, a que assistiu o roan* 
datario ingles (a Inglaterra mandava embaixadores 
ao Grao-Mogol, para firmar contratos comcrciais 
extmordinariamente lucrativos, enquanto Portugal 
se limitava apenas A <lilata<;ao (la fe), jantar que Gus- 
to 11 — diz I.d. Holden — 150 mil libras, Jehangir, im- 
pacientc com a proibi<;ao dos sous medicos, rclativa- 
mente a carnes impuras, preguntou aos doutorcs da 
cSrtc, se havia alguma religiao que lhe permitisse 
comer toda a especie de carnes. So a crista — 
responderam — . Pois facamo-nos todos cristaos, 
bradou file vontente ! 

De resto, para os principes mogois a religiao era 
uina cousa indiferente, considcravam-na como nm 
assnnto de especulaijoes filosoficas, e, neste particular 
nao estabelcciam diferenQa alguma entre os seus vassa- 
los. Kstavam ainda longe, infelizmente bem lohge 
deste pensamento politico de largo alcance, os nossos 
herois c missionaries, dominados pela intolerSneia 
religiosa, sem rctlcctirem nos cfeitos provaveis da 
violenta campanha de externunio einpenhada contra 
as religioes orientais — , sem pensarem que a propa- 
ganda catdlica desta arte se desviava da verdadeira 
concepqao do cristiniasmo, do alto valor filosdfico e 
moral das doutrinas do amoravel e divino Jesus. 
Os resultados regista-os a histdria. 

Nenhum dos escritores que citei e outros que por 
brevidade omito, tratou, porem, da histdria anterior A 
dominaqfto portuguesa, e alguns, intentanio faze-la, 



XXV 


cairam, a minsrua de fontes autorizadas, em deplori- 
vei> ern»>, lipmmido^e mi tradi<;ue> vagus, onvolven- 
do-se numa ntninsfera do mnmvillioi-o, nuina rede 
de in Indus e\travngnnte> tpie <e e>vaem eomo subtil 
fuino no mnis ligeiro sbpr«> da r-nlirn. Ksta grandiosa 
tarefa otava destinnda a um pud it vigoroso, quo 
igualmento dispnsesse de iuteligeiicias de vontades 
e de rerursos pecuniarios. Koi o quo eneetou o le- 
\ on a bom termo a Inglaterra. Os dnminantes da 
vasta peninsula indostanica, npds longus trabalhos 
agrnpndos e uniticados, nan dispersivos e isolados, 
sempre primorosamente remnnerados, tern recolbido 
tesonros de saber arena da India. 

Pcsliando e perquirindo, conm urn pacieutc anato- 
mista. o iinenso mosaieo de povo* e rswjas, de reli- 
gioes e linguns ipie se esiendem [mi* rodo o Hin- 
dostao,- — fazemlo, ein toda a parte, profundus eseava- 
joes arcpieoldgieas, desentermndo ridades e civilizajdes; 
mortas, de eujas oinzas emergem raios luminosos — , 
tern eouseguido reeonstituir, pagina por pagina, a 
histbrin <la India, em todas as suas manifestiu'des, e 
em todos os pen'odos, desde os tempos primitives, 
t.fio rieos do lendns o do mitos, ate o strucjyle euro- 
pen, histdria que se aeha divulgada em obras mo- 
numentais, eomoo Indian Antit/uary, os Sacred Books 
of the East, os t rat ados histdricos ex -professo^ os re- 
latdrios do Great iirchroloyirnl survey , a Numismata 
Orientalia , o Imperial Gazetteer , a serie dos Rulers 
of India , a colee^ao dos documentos do arquivo da 

Companhia das Indins K’ estc um relevantfesimo 

servijo da bra vitoriaua, devido a Pax Britannica — 



XXVI 


primeiro e maior factor da ressurreiqSo do gdnio indiano, 
— e prestado por gloriosos lidadores, corao Briggs, 
Elliot, Dawson, McCrindle, general Elphinstone, 
Grant-Duff, Elphinstone, Cunningham, Max-Muller, 
Malleson, Strachey, Hunter, Bird wood, Danvers, e 
tantos outros, que formam a conspicua pldiade dos in- 
dianistas britanicos; mlo sen do inenos fulgente a dos 
literatos indigenas, que apresenta nomes de reputaqSo 
europeia, como Keshub Chunder Sen, Toru Dutt, Surn- 
bhoo Chunder Mookerjee, Trimbak Telang, Ragen- 
dralala Mitra, Romcsh Chunder Dutt, Bunkim Chun- 
der Chatterjec, Rajaram Mohun Roy e Ishvar Chun- 
dra Vidvasagar. 

Todos esses trabalhadores, diuna sdlida instruqao 
e rara tenaeidade, tem apurado e deslindado o que ha 
sobre a India antiga e medieval, uns explorando as 
multipiices fontes de investigaqao, outros reconstruin- 
do e galvanizando sobr.e os dados por aqucles colhidos 
a verdadeira histdria; e nfio sAo de somcnos interesse 
para nds as sir, is magistrais publicaqoes. 

Quern sabcria alids que Goa, a famosa e dilecta 
porqao do Parasurama Kshetra, f6ra assinalada em 
pristinas epocas? --que Visnii, depois de derrotar c 
imperador Saharsarjuna, a designara para estAncia 
dos dcz munis que trouxera do norte? — que nos pura- 
nas fora eelebrada, ora como recesso escolhido por 
Siva, depois de abandonar a esposa nos inacccssiveis 
pincaros dos Himalaias, — ora como purgatdrio dos 
sete rishis durante sete milhoees de anos, — ora,' fi- 
nalmente, como teatro da sanguinolenta batalha tra- 
vada entre Krisna e Jarasandha? Quem poderia 



XXVII 


reconstruir a linha das dinastias que reinaram ua 
bela Gowapur e as respectivas crdnicas? Quem, a 
nao ser os tradutores das antigas obras indianas, nos 
daria a descrigao de Sindhabur ou Sundapur, da 
famosa Goa hindu e maometana? 

Com nao menor dcsvelo tern os indianistas ioglescs 
procurado estudar as particularidades da supremacia 
portuguesa, a mais antiga entre as nagbes europeias, 
nos mares e terras da India. Dao disto irrefragdvel 
testimuuho as versoes das nossas obras antigas, feitas 
pela ja citada Hakluyt Society , de Londres, o impor- 
tante esbb$o histbrico de Goa. escrito pelo nosso 
erudito compatriota Josb. Nicolau da Fonseca, por 
honrosa incumbencia do governo indo-britdnico, livro 
que foi uma contribuiqao para o Imperial Gazetteer , 
e que bem merece traduzir-se, — o do padre D’Orsey, 
sobre as descobertas e missoes portugnesas na Asia, — 
a missao especial que foi cometida ao sr. Danvers, 
superintendente dos arquivos da India Office em 
Londres, para examinar os arquivos de Lisboa e Evo- 
ra, onde o laborioso investigador encontrou opima 
colheita, de que deu uma sumula no seu relatdrio jd 
impresso, acrescentando uovos subsidios, — a notavel 
obra do mesmo funciondrio, intitulada The Portuguese 
in India etc. 

Ndo me alongo nestc vasto assuuto, que era o ca- 
pitulo obrigado dos meus relatdrios oficiais ao govbrno 
provincial, todos do dominio publico, quando dirigi a 
nossa biblioteca nacional, onde, ao sair, deixei uma 
rasodvel livraria indiana, de que tenho visto, com sa- 
tisfajlo, auEerirem proveito os cstudiosos. 



XXVIII 


Olhando agora para tras, reconhego que tenlio es- 
crito demais para lima despretenciosa carta como esta. 
Tfto ampla e a materia que serA necessario um volume 
para a so menqao das obras aeorea da histbria da India 
Portuguesa. O sou MS., apenas de ler, 

iinpressionou-me vivameuto, a pouio que sc me i’oi 
deslizandoa pena seni interrupt;, *io, a von fade, traduzin- 
do fielmente, natural men l c\ as minims ideas. Assim 
poderei dizer, aplicamlo-me as palavras <lo inimitivel 
autor das iruepes : — u estas linhas destinam-se a Inzer 
conhccer a cxpTOssao sineera e incxoravel do men pen- 
samento s6bre os homons ou so Lire as euusas, absolute - 
mente fbra de quulqiier idea de arnbigao e de qualquer 
influoncut de partido \ (Quanto ao men amigo, itfio Ihe 
quero dcniorar a exprossilo do men ealoroso aplauso 
pelo sen exeeleutc traballio. K vi.Mo ser um e.spirifo 
lirmo e justo, se Hie faltar quern Um aprecic o mcrito 
e o amine, deve eoutentar-so em sentir dcntro de si a 
independence e a tranquilidado que da a conseieueia 
num valor atirmado ante os priiprio* olhos. 


Pangim, 29 de Agosto de 1898. 


jjf. lm/ * Jbmat/ 



HISTGRIA :,E GOA 


PARTE I 

Goa pre-p- rtuguesa 

OA I’l'TI 'LO I 


Goa, sua si timer geogrdfien, 
po pul actio o classes. 

0 teri itorio de Goa, omTftvndo no Ooncfio rneri- 
clic»n;i ! , ostn <*om proendido eutre 14° 

Sitnarfio lie 53' e la IS do latitude N., e 
** osl entre 7»*> ' i.V c 74° 24 de longi- 

tude K. ili/ Greenwich. 

0 sen maior compriinentr- e de 105 * juildraetros, 
desde Patardeu an X. Me I'oleni ao S., e a sua maior 
largura, de GO qnilrtiretrus. eutre MormugaoaoO. eo 
cuihe dcs Gates ue Tinom a K. t abrangendo a buper- 
fieie de 3.370 quildmetros quadrados. 

Confina ao N. com o rio de Araundem ou de Tira- 
col, e alguns eontrafortes d. s Gates ; ao 0. com o 
mar da Arabia ; ao R. e a K. com a cordilheira dqs 
Grates. 



0 aeu come indi&DO 6 Govern ou Govd, derivado 
do s&nscrito Govd-puri , ( isto 4 

“ povoa$SLo pastoril com qne an- Origem do 
tigamehte se designava toda a ilha * en nom * 
de Tissuari e, especialmente, a sua 
primitiva cidade, ( hoje a Goa-Velha ). Posterior- 
mente o nome Govern ou Godrn estendeu-se a todo o 
territdrio que constitue a provincia de Goa. Na lite- 
rature indiana 6 tarnb^m dado a este pais o nome de 
Gomanta ou Gomantaka , e 6 ainda possivel que se 
Ihe aplicasse a palavra Gova-rastra ou Gopa-rasfra , 
designac&o duma das anligas sete divisoes do ConcSo 
( Saptalconkana ). 

A populagao do pais, segundo o censode 1910, e de 
406. #51 habitantes, al6m dos que, 
aos milhares, se acham emigrados Populsujao e 
especialmente para a India brMnica sna divisdo 
e a Africa Oriental. Sob o ponto de 
vista da sua religiSo, divide-se em trts grupos : os 
crist&os, os bindus e os mussulmanos, que s£o em m'l- 
mero muito limitado. 

E quanto a proceduncia e uaturalidade, coranreen- 
de, aldm dos nativos, os europeus, os descendentes 
destes, estabelecidos no pais, e poucos estrangeiros. 

Com a religiao hindu, iinportada pelos primitivos 
habitantes, veio tambern a sua constitui§ao social, 
baseada no regime das castas. (*) 

Os hindus de Goa admitem numerosas castas, 


( 1 ) Casta 6 um termo qne os portaguesesqintroduziiam c 
foi depois geralmente adopts o para designar as diferentes divi- 
s5ea de families na India. Eram primitivaraente quatro : a 
brdmane on sacerdotal, a kxalriya on militar, a viixya ou agrico- 
lo-comercial e a pr.dra on servil. Segundo o censo ingles de 
1901, haao presente na India 2,378 castas principals, al6m de nu- 
merosas sab-castas. 



3 


que, segundo a sua suposta Hierarquia, podem ser dis- 
tribuidas era tres grupos gerais: a) casta superior — 
os br&raanes; b) castas tnedias — os vanis, ourives, car- 
pinteiros, ferreiros, lavandeiros etc; c) castas iuferio- 
res— alparqueiros, farazes etc. 

Os Im'unanes dividem-se em: os sarasvatas , proce- 
dcntcs, segundo a tradigiln, de Punjab e de Bengala; 
os rhitparans e os /car adds, aqueies oriundos de Chi- 
plun (Katuaguiri) e estes do lvarad. nos Oates. 

Os sarasvatas ainda se subdividein era Sasticares, 
Bardescares, Pednecares etc, que eutre si nao se rela- 
cionain pelo casamento, uem se associam nas relei- 
§oes. 


Os cristaos, a-pesar-de seculos da sua conversao, 
ainda nao se desprenderaiu de todn das castas dos seus 
antepassados. 

A lingua vernacula e o concani. Os Hindus culti- 
vam tambera o tuarata e os raaorae- 
tanos o urdu ou Hindustani. A lin- 
gua oficial «'• a portuguesa, que 6 
ialada pelas classes ilustradas. Ac- 
tualraente e tarabern inuito cultivado o ingles, devido 
as necessidades da eniigrayao. 


Linguas 


CAPITULO II 

Breve noticia dos antigos Estados 
vizinhos de Goa. 

Antes de entrarmos ua Histdria de Goa convera, 
para a sua raelhor inteligencia, dar uraa- nor-iio snrad.- 
ria dos estados vizinhos que de al- 
Os Kadambas guraa forflia tiveram relajoes corn 
o nosso pais. £ assirn teinos, em 



4 


primeiro logar. n reino dos Kadambas (cerca de 200 
A. C. a HOO E. V.). J5ste reino nmito antigo, ocupava, 
no sal do Decao, o territorio correspondente A parte 
ocidental de Maissor (Mysore) e, na base dos Oates, 
toda a costa do Canard. A sna capital era Banavasi 
ou Vaijayanti, que Hcava ao norte do Maissor, nas 
margens do Tunga-bltadra. Igioru a data da fnn- 
da^ilo deste reino; mas, o norne da sna capital encon- 
tra-se mencionado nas inscrigoes de Axoka, que datam 
do seculoIII A. C. A dinastia reinante, provdvelmente 
de origem ariana, cognomina va-se Kadamba. porqiie, 
segnndo a mitologia hindu, o sen fundador, que foi 
uni Trinetra on Trilochann Kadamba, nasceu duina 
gota de suor caida da testa de Siva na raiz da drvo- 
re Kadamba , especie de palmeira ( Nauclea Kadam- 
ba ), que eles, talves porisso, tinham em venerayao e 
plantavam ao pe de sua:-: rasas. 

Os Kadambas reinaraiu cmno indepeudentes ate os 
fins do seculo VI, em que to ram subjugados pelos 
Ohalukyas. 0 seu escudo de annas represetitava mu 
leao e a bandeira uni macaco. No seu vasto ter- 
ritdrio eratn faladns algmuas lingnas, sendo a principal 
a cauaresa. 

Da dinastia de Banavasi nasceu um ramo, que e 
conhecido corao o dos Kadambas de Goa , dos quais 
trataremos no capitnlo segninte. 

Os Kadambas amiaram em lreqiieutes hostilidades 
com os Pallavas, Oholas e outros soberanos vizinhos, e 
devem ter sido monarcas poderosos, a julgar pelo facto 
de terem celebrado 1<S sacrificing de asvamedha. (’) 


0) Axvainedha era u in s:n»> ; fn;io tie cavalo, qne no periodo 
epipo tinha a!t-i si^nilica^.io j olitica. Uui rei que quizesse adqnirir 
o uiieito tic suscraniu sdbrc t»s outros, uxiiiialhea a vassalagein 
mandando u;n cavalo, prjviitniente consagradoe acornpauhado de 
podcroso excrcito, percorrcr siioessivatnente as terras d^ssea monar- 



Cora a decadencia dos Kadambas adquiriram a ira- 
portancia os Chah'ikyas, tribu lunar 
ou Soma-vaxa de rajputras, estabe- Os Chalukyas 
lecida no Decao jd no seculo II E. 

V. Esta dinastia deu tres raraos: a ) os Chalukyas 
do ocidente, cuja capital era Vatapi, hoje Badami, 
no distrito de Bijapur; b) os do oriente, com a sua 
capital era Vengui e depois era Rajaraandri, na costa 
oriental; e c ) os de Kalyani, que tinham por capital a 
cidade (loste norae, hoje nos donnnios do Nizam. 

Os reis raais notaveis da dinastia de Badarai foram 
Kirti-varman l.°, que venceu os Kadambas de Bana- 
vasi e fez deles seus tributaries, e Pulakexin 2.®. que 
subjugou a revolta dos referidos Kadambas, coligaaos 
com os Mduryas do Concao. 

Pulakexin conquistou os Pallavas de Vengui era 
615 e nomeou vice-rei de Vengui seu irraao Vixnu- 
Vardhana, que era 632 declarou a sua independence, 
fundando a dinastia dos Chaliikyas orientais. 

0 rei de Kanouj, llarxa, que era urn poderoso ira- 
perador no norte da India, tendo atacado Pulakexin, 


cas. Se aceitassem a submis&o por vontade, ou fossem vencidou 
uo combate, o rei, feito suserano, celebrava o seu trinnfo com a 
aasistdncia dos vassalos, terminando-o por uma soleue festividade, 
em que se sacrificava o proprio cavalo, ou sua efigie, e o principe 
vitorioso era proclamado. itnperador on . rei dos reis. No caso 
de ser derrotado, perdia muito do seu prestigio, mas a So serin 
vassalo do vencedor, 

Se chegasse a cclebrar 100 sacrificios desta ordem, o rei term 
o direito de destronar o proprio Indra e fazer-sc soberano do uni- 
verso e de todos os deuses. Era portanto este sacrificio siual de 
independdneia e poder. 

Oonforme o Brahmam do Yajur Veda , abatiam-se, na ocasiSo 
da ceremonia do Axvamedha, nada menos de 180 animais domesfci- 
cos, cavalos, touros, vacas, cabras etc, distribnindo-se as partes 
das reses por diversas entidades. 

1 



foi por 6ste derrotado e obrigado a desistir da pre- 
tenjfto de extender o seu dominio ate o Decfio. 

A faoia do rei Chaldkya cliegou ate Persia, cujo 
rei, Khusru 2. 8 , Ihe mandou urn einbaixador coni car- 
ta? e presentes ( em 625 ), honra que foi retribui- 
da pelo monarca indiano. 

Em 754, estes ChaUikyas foram desbaratados pelos 
Eastrakutas ou Rattas, que lhes mataram o rei Kirti- 
varraan 2.°. e extinguiram o reino de Badami. 

Decorridos pouco mais de dois sdculos, o valoroso 
Chaldkya Taila ou Tailapa destronou em 973 o rei dos 
Rastrakutas e reconstituiu o imperio, fixando a sua 
sdde em Kalyani, cujos principes ficaram sendo, dai 
em diante, suseranos dos Kadambas. Estes siio os 
ChaUikyas de Kalyani, que reinavam ate 1185. 

0 monarca mais poderoso desta dinastia fci Vikra- 
maka ou Vikramaditya ( 1076-1126 ), que se fez 
« 8enhor do Decao ■>•, impondo a sua suserania aos 
Rattas, Kadambas, Yadavas e outros. 

0 brazSo dos Chalukyas representava um javali. 

Contempordueos dos Chalukyas eram os Rastraku- 
tas, ou Rattas, que ocupavam uma 
# Os Rattas grande parte do territdrio mais 
tarde chamado Maharastra. A sua 
capital, que, ao principio, ticava no distrito de Nasik, 
foi depois transferida para a cidade de Malkhed, no 
pais do Nizam. 

0 principe dos Rattas que mais nos interessa co- 
nhecer e Danti-durga. Aproveitando a ausencia do 
rei Chaldkya Kirti-varm i 2.°, que se achava no sul, 
em guerra com os Pallavas, Danti-durga conquistoua 
sua capital Badami ( 754 ), tornando os ChaUikyas, e 
portanto os Kadambas, seus feudatarios. Mas, corao 
jd vimos, o Chaldkya Tailapa, de Kalyani, dois sdcu- 
los depois, venceu os Rattas e trouxe os Kadambas 
sob a sua suserania. 



Entretanto, formou-se em Deuguiri uina nova c6rt« 
hindu : a dos Yadavas, ou descen- 
dentes de Yadu, tribu que figurou Os Yadavas 
na antiga guerra do Mahabharata. 

Um dos seus ramos veio do norte para o DecSo, e es- 
tabeleceu-se no pais do alto Godaveri, donde Bhilla- 
na, sen primeiro rei, conseguiu eonquistar algumas 
terras aos Chaliikyas. — Seu neto, Singhana, que foi o 
rei tnais notavel desta dinastia, conquistou todo o im- 
perio dos Chaliikyas, de Kalyani, e portanto Goa, e 
estabeleceu a sua capital em Deugairi, (1210-1247). 

Nestas alturas aparecem na histiiria do DecSo 
dois novos Estados : o hindu de Vijayanagar e o naao- 
inetano dos Bamanidas. 

0 Sultao de Delhi, Jalaluddin, da dinastia Khiljida, 
que trazia sob o seu scetro todo o norte da India, am- 
bicionava eonquistar o Decao. Esta dificil e.mpresa 
foi levada ao cabo pelo seu sobrinho Alauddin, que, 
em 1294, marchou para o sul e tomou de surpreza 
Deuguiri, capital dos Yadavas. Nos princ'pios do 
sec. XI V, no sultanato do mesino Alauddin, o seu 
general Malik-Kafur tornou a invadir o DecSo, irapon- 
do o tributo a v&rios soberanos hindus. 

Para fazer face its constantes invasoes dos maome- 
tanos, dois irmaos hindus, Harihara 
e Bukka, constituiram um novo ® e ' no ^ e 

reino, fuudando, na margem direita vijayanagar 
do Tunga-bhadra, uma cidade, a que 
chamaram Vijayanagar ( J ) ou Bisnagar (1336). Um 
dos sens sucessores foi Narasinga, de cujo norae os 
antigos jportugueses chamaram a este Estado o retno 
de Nursinga. Um dos maiores reis de Bisnagar foi 


p) Nome derivado de Yijaya ^ trinnfo e nagara — cidade, 
ou, segundo outros, de «;/rfyd*8oidncia e nagara. 



Krixna Deva-RAiya. Piste f^stado teve de lutar, du- 
rante todo o tempo da sua exist^ncia, com os maometa- 
nos vizinhos, mas manteve sempre as melhores rela- 
tes com o govflrno portugues de Goa, e estendeu-se 
rapidamente por todo o sui da Tndia, ate que foi des- 
truido, era 1 565, na batalha de Talikota, por uma 
coligaq&o dos principados maometanos do Decao. 

Doutro lado, um oficial maometano do sultao de 
Delhi, de nome Hassan Gangu Ba- 
Os Bamanidas. man, (*) tcndo-se apoderado de Dau- 
latabad, que a esse tempo pertencia 
a Sate sultito, proclamou a independence, assumindo 
o titulo de Alauddin l.° e estabelecendo a sua capital 
em Kulbarga. hoje nos doimnios do Nizam (13-17). 
Foi o primeiro reino maometano que se fundou no 
Decao, seodo conhecido na histdria como o sultana - 
to dos Bamanidas. 

Este sultanatu fragmentou-se, mais tarde, em cinco 
reinos, dos quais os principais foraru: o de Ahmad- 
nagar, sob a dinastia de Nizam ShAh ; o de Golconda ; 
e o de Bijapur, cujo soberano levava o titulo de Adil- 
Shdh, Adil-khan ouldal-Khan (o Idalcao dos nossos 


(*) Tomou o nome de Bahrnan, porque pretendia descender 
dam primitivo rei da Persia, nssira chamado e melhor conhecido 
por Artaxerxes Longimano. Ontros, porem, dizem que Bahrnan e 
corrupyAo da paiavra Brahman , porque este sultao estivera, na 
infftncia, ao servifo de nm br&roane, ae nome Gangu, astrologo de 
profiss&o; e, tendo restituido honradamente ao seu arno am tesou- 
ro que encoutrara nos seus trabalhos de laroura, o amo, tirando- 
Ihe o horoscopo, Ihe profetizara que ele viria a ser rei, pedindo- 
lhe que, ae assim acontecesse, Sle, Hassan, tomasse o seu nome 
Gangu Brahman, e o fizesse seu ministro. Esta Ultima variante 
4 hoje rejeitada oorao iucrfvul e falsa, e nAo tem apoio nas raoedas 
nem nas inscriqSes. (a) 

(a) 7. Smith The Onfori Hietory of India-, pas'- 275 e Aft Hint. of the 
Marat ho People by 0. A.. Kinoaid. pag. 59. 



9 


cronistas). E’ este ultimo reino, fundado, etn 1489, 
por Yussuf Adil-Khan, que possuia Goa quando da 
sua conquista pelos portugueses. 


CAP1TULO III 


Goa sob a dominaqao hindu ; dominio dos 
KLadambas, Chalukyas, Rastrakutas, 
Yadavas e de Vijayanagar. 

Nao estA ainda historicamente definida a proceden- 
da do povo que primitivamente habitou este pais, Se- 
gundo uma tradifao local, poetizada 
Origein dos pelo Sahyadri-khanda do Skanda- 

^tantegde Goa 1 " Pur ana, os habitantes de casta bra- 
mane teriam vindo, ein remotas eras, 
das margens do rio Sarasvati (Punjab) e da cidadede 
Trihotra, hojeTirhut. em Gauda (Bengala). Daqui a 
designajao de Gauda-sarasnatas tomada por esses 
brAmanes. Conforme essa lenda, eles seriara, pois, de 
origem ariana. Jofio de Barros, eutretauto, consigna 
uma outra tradi$S,o, talvez posterior, segundo a qual 
Goa teria sido primitivamente habitada por uma popn- 
lagao pobre e industriosa, procedente do Canard, que, 
repartindo entre si a terra maninha e desaproveitada, 
a teria trazido a cultura, semeando-a de arroz e plan- 
tando os seus arecAise coqueiros. 

E’ certo que o territorio de Goa esteve, como logo 
veremos, s6b a dominagfio de dinastias canaresas, 
como ados Kadambas ; mas foi isso uuma epoca em 
que este pais ja possuia uiu certo grau de civilizaqao 
Arica, como se reconhece pelas referenda* elogiosas 
1 * 



10 


que lhe fazero os Puranas (*) e pela pouca influencia 
nxercida pela lingua canaresa, de origem dravidica, 
sobre o idioma do pais, que d puraraente sanscritico. 

Estendendo-se a populag&o, que, cadadia, f6ra cres- 
cendo, e multiplicaaos os beneficios da agricultura, 
que devia ter tornado am certo de- 
seuvolvimento, sentiu-se provavel- Comnnidades 

meute a necessidade de retalhar as agricolas 
terras em aideias, e por essa ocasiilo 
se fundaram as associaqdes agricolas chatnadas co- 
munidades, cujos membros assumiram o titulo de gdo- 
cares , isto d. senhores, bemfeitores e governadores 

das aideias ”, como diz o primeiro Foral. 

A origem destas institutes, t5o proficuas aos asso- 
ciados e k economia social, como vantajosas para os 
inter&sses do Estado, d ainda objecto de opinioes e 
conjecturas, nenhuma das quais tem adquirido atd 
hoje valor histdrico. 

Supoe-se tauibein que o governo teocr&tico, a prin- 
cipio estabelecido, tomou depois a forma comunal, 
decidindo os guocares em cauiara geral os negdcios 
da colectiviuade, econdmicos, civis e criminais : urn 
principio activo e sdlido de governo munieipal. 

lgnora-se por compieto a histdria primitiva de Goa 


(') “ Ao norte de Gokarna fica urn kxetra ( logar sagrado) de 

sete yojanas de circunferGncia, e no qual esba situada Gova-puri, 
que desbroe todos os pecados. Pela simples vista de GovA-puri 
fica desbruido qualquer pecado cometido na existencia anterior, 
como a escuridao que desaparece ao nascer do sol. Ate o voto 
de tomar urn ban ho em GovA-puri e bastante para se adqnirir 
uma situayao elevada ( noutra vida ). NAo ha certamente ontro 
kxetra que se possa comparar a Gova-puri, onde se encontram 
muitos bramanes profundamente versados nos Vedas e Vedangat, 
e onde todos os bramanes sc dedicam aos seis karmas e trazem 
Nubjugadas qs paixoes por meio de mantras, hervas, penltencias e 
yoga," — Suta-Sdhita, cap. IB. 



n 


anterior ao seculo XT da era vulgar. E’ provavel que 
do sec. , TIT A. C. o sen territririo tenha feito parte 
do iinperio de Axoka, neto de Chandragupta Maury a, 
que, tendo subido ao trono cm 273, cstendeu os seus 
doimnios desde Afganistao ate Bongala o desde o 
Himalaya ate ao rio Kalvanpuri, ao sul de Goa; 
ao meoos por toda esta imcnsa area se encontram, cm 
rochas e pilares rnonoliticos, os numerosos edictos, 
sobre a moral pilblica e privada, que ele mandoii ins- 
crever. Com a f ragmen ta^ao doste impdrio, apds 
a morte de Axoka ( 232 ), reinou ainda no Concao 
uma dinastia Mdurya, que talvez continuasse a pos- 
suir Goa. 1 

0 que ha de positivo e que, uni dia, passou Goa 
para o domfnio dos Kadambas de Banavasi, que 
abrangia, al6m duma grande parte do lV'efio, o Canard 
e o Concao meridional ( pg. 4 ). llestes Kadambas 
veio, mais tarde, estabe!eeer-se em Goa. um ramo, 
formando aqui o reino dos Kada tubas de Goa , alguns 
dos quais reconheceram a suscrania dos Clialukvas de 
Kalyani (pg. 5 ). 

0 primeiro principe Kadamba de Goa cujo Dome 
revelam as inscribes ultimamente 
Kadambas decifradas c Guhalla deca, que pare- 
de Goa ce f er re j nac | 0 nog dltimos anos do 
s^cylo X. ou no comejo do sdculo 
XI da era cristil. Foi cognominado Vat] mart por ter 
sido um insigne cajador de tigres. 

0 filho e sucessor de Guhalla-deva foi Xasta-Dera. 
que reinava cerca do ano 1007 ( 1 ). Diz-se ter 
conquistado, alew de alguns rein os prdximos, a ilha 
de Ceilao, aprisionando os seus principes. 

Jayalcexi l.°, que sucedera a seu pai Xasta-Peva, 


( l ) Barnctt % AntiquitUs of India, pag. 76 



12 


elevou a cidade de G-oa h capital do seu imp4rio, tendo 
reinado nela em 1052 ( 1 ). Pretendia ter conquistado 
os Alupas, Cholas e outros povos. A 4sse tempo, em 
Abril de 1054, foi fundada em Goa uma Casa Mis&ri- 
cordiosa ou asilo de mendicklade, e dotada com uma 
coutribuic&o langada s6bre o comercio e sdbre as he* 
ranqas dos que viessem a falecer sem testamento. 0 
documento relativo a essa casa 4 um form&o do rei 
Jayakexi, cuja traduqao foi publicada por Filipe Neri 
Xavier (*). 

A 6sse tempo, por obra duma lenta evolu$ilo, Goa 
jd se achava traDsformada numa pro- 
rincia populosa, e importante pelas Prosperidade 
vdrias fontes do Beu progresao. A de ® oa 
sua capital era situada na extremi- 
dade meridional da llha, sdbre a margem direita do 
rio Zuari, sendo deBignada nas inscribes canaresas 
como Gove , e em sanscrito sob os nomes de Gopaka- 
purt, Gopaka-patiana e Gova-puri. Entre os gregos 
era provavelmente conhecida, segundo uns, pelo no- 
me de Nelkinda, segundo outros, por Tyndis ou 
Trieadiba Insula ; e entre os drabes e persas era 
denominada Kawe e Sindabur. 

Elevada k capital do vasto impdrio dos Ka- 


P) Idem, pag. 80. 

( 2 ) Gabinete Liter ario das Fontainhas, vol. l.°, pag. 16. 

Esta tradu^ao, visivelmente incorreda , como diz Ismael Gracias, 
foi, junto com o original, que eram umas laminae de cobre, remeti* 
da, por c 6 pia, para Lisboa pelo vice-rei Jo&o de Saldanha da Ga- 
ma, ao Secretario do Estado, Diogo de Mendonja Corte Real, em 
1727, para poder servir ao estudo academico. L. das monfSes, 
n.° 98, fl. 1892. A mestna trad 1158,0 foi publicada tambem, h 8 
ponco, no jornal A Epoea de Lisboa, pelo no? so patricio, Mona. 
Gustavo Coubo. Vid. Heraldo, de 25 de A ril 1924. De resto, 
deve-se nobar que, nessa epoca remoba, j 8 1 *. via na India alguns 
esbabelecimeutos huraanitirios entre os hind is. 



13 


dam has, esta cidade era notarel pela aua opulSncia e 
coradrcio, que prosperavam com o concareo de vA- 
rios povos orientais, pelos seus magestosos edificios e 
pelos seus estabelecimentos de instrugfto, educagfto e 
caridade. Ha uma inscrigao que alude aos seus nu- 
merosos letrados, panditas , os quais percorriam as ruas 
em palanquins, ostentando as valiosas dddivas, recebi- 
das da munificgncia real, emquanto que outra inscrigao, 
na sua linguagem hiperbdlica, com para os encantos 
da cidade &s bejezas do paraiso de Indra. Alguns 
dos seus grandiosos edificios ainda estaram de p6 
quando os portugueses entraram em Goa, mas hoje 
nem se encontram sequer vestigios. 0 local 6 conhe- 
cido entre os indigenas pelo nome de VhoddUm Gohn 
eentreos portugueses pelo de Goa-Velha, hoje mo- 
desta aldeia. 

A Jayakexi sucedeu seu filho Vijyaditya l.°, que 
era muito instruido e amigo de excursOes e viagens 
maritimas; a este seguiu-se sen filho Jayakexi 2.°, que 
exerceu a autoridade s6bre o Concilo, Kavaduipa, 
Haive e Palasige, e casou com a filha do grande 
imperador Chalukya, Vikramaditya 6.°, que empunhou 
o scetro desde 1076 a 1127 (pg. 5). 

Jayakexi, no intuito de sacudir a suserania dos 
Ohaliikyas, e tornar-se independents, levantou, de 
ac6rdo com todo o Concao meridional, o estandarte 
de revolta contra o imperador ; mas foi derrotado 
pelo eo<Srgico general Sindavansa Achugideva. 

Nesta ocasifto a cidade de Goa foi reduzida a cin- 
zas, segundo se depreende da inscri<;;io que se v6 nu- 
ma ldpida descoberta em' Patadakal, no distrito de 
Kaladgi ( l ). 


( x ) Git. Antiq. of Ind. p. 88 seg ; Fonseca Hist. Sketch, p. 
- 122 . 



14 


Jayakexi raorreu era 1147. HA quern diga que 

S assou os ultimos auos de vida recolnido no templo 
e Sapta-kotesvar, de NaroA. 

A cidade de Goa ressurgiu em poucos anos e atin- 
giu a sua antiga prosperidade no reinado doe filhos 
e sucessores de Jayakexi 2.®, Siva-chifa Permmli 
( Paramardin ), que reinou atA 1171 c Visnu-chita 
ou Vijyaditya 2.°, a quern sucedeu seu filho Jayakexi 
3.°, que governou ate 1201. 

Depois da inorte de Xaxta-deva 2."', ultimo rei da 
dinastia dos Kadambas, passou o trdno, talvez por 
falta de sucessao masculina, para sen eunhado Karna- 
(leva, com quern rc extinguiu esta dinastia, que exer- 
cera o poder pouco mais ou rnenos ate aos mcados 
do seculo XIII. Pois, Singhana, o 
mais notuvel dos reis Yadavas de Domiua^ao 
Deuguiri, hoje Daulatabad, conquis- dos Yadavas 
tou todo o imperio dos ChalAkyas, 
e portanto os feudatArios destes, os Kadambas de 
Goa. 

Mas esta dominaquo himlu durou pouco, pois em 
1294 Alauddin Kliilji, vice-rei maometano de ht-iigala, 
e sobrinho do imperador de Delhi, Jalaluddin, da di- 
nastia Khiljida, infestou o territdrio do Decao, sitiou 
e saqueou Deuguiri, ninda ah* ali capital do principe 
hindu liamadeva, e retirou-se com enormes riquezas 
apanhadas nessa ocasiuo, deixando o soberane de Deu- 
guiri, senhor do seu pais, mas sujeito a forte tribute. 
De volta da sua expediqito a Deuguiri, Alauddin, <jue- 
rendo apossar-se de todo o imperio, mandou assassinar 
o tio, que viera de Delhi para o felicitar pcla sua 
vitdria ; e, feito assim imperador, tentou a conquista 
da India meridional por meio de frequentes expedi- 
tes, comandadas pelo seu insigne general Malik- 
Kafur. 

Goa, iuvestida pela ultima destas expediqOes, caiu 



15 


nas tn&os dos maometanos, que, 
tendo confiado o govemo dgste pais lamia 
a Malik-Tubliga, se retiraram com awaniftiM 
valiosos despojos. 

Os habitantes de Goa, desgostosos com os qovos 
dominadores, eujas feiqSes carateristicas eram o dee- 
potismo e o exterminio do progresso, nSo os deixa- 
ram por moito tempo na posse pacifica da ilha ; pois, 
com repetidas hostilidades se esforparam por sacodi- 
-los, opondo, ao mesmo tempo, viva res>st$ncia aoa 
ataques que lhes dirigia Jamaiuddin, chefe oc rei 
maometano de Onor. 


Em uma das suas emprezas. e apds renhida lota, 
Jamaiuddio conseguiu subjugar dutq assalto a ilha de 
Sindabur ou Goa, segundo escreve o c^lebre viajante 
Ibn Batuta, que esteve na India dob roeados do-s4culo 
XIV e tomou parte nesta expedig&o. 

Mas os hiodus nao descangaram sob Sate jugo : 
reu Diram os seus esforgos e sitiaram a cidade, como 
refere o mesmo viajante, afim de a libertarem das 
garras do rei de Onor e alcam;arero a iradependSneia, 
o que era provdvelmente a sua idea predominant^ A 
iortuna, contudo, nao lhes foi propicia ; pois, ao que 
parene, ou uao conseguiram o seu propdsito, ou, ape* 
nas conseguido, tornaram a cair sob o dominio maome- 
tano ; pois consta que §ste dominio peson sftbre Mas 
por mais alguns anos. 


Nesta dpoca surgiu na India um novo poder, que 
veto suplantar os maometanos. Harihara, poderoso 
rajd de Vijayanagar ou Bisnagar, 
reino florescente e recentemente _^ 0 

fundado ao sul do rio Tunga-bhadra, Vijaya nagar 
( Pg* ^ ) concebeu o designio de ex- 
pulsar de Goa o*s seus dominantes, e encarregou desta 
missfto o seu general e priraeiro tninistro Vidyaranya 
Madhava, que entilo goveruava Jay anti pur ou Bane- 



16 


vasi. 0 general, chegou h cidade de Goa, e venceu 
os maometanos numa batalha renhida ; e estes, total- 
mente desbaratados, foram compelidos a sair da cidade 
etn 1367. 

0 resultado desta vitdria nao foi para Goa a sua 
apetecida emanoipagao, mas apenas a mudanqa de 
um jugo para outro menos intoleravel. 

Madhava encorporou a cidade nos dominios do seu 
soberano, governou-a durante o tempo etn que nela 
viveu (1367-1391), e restabeleceu o antigo templo de 
Saptanatha ou Sapta-Kotesvar, que havia sido des- 
truido pelos mussulmanos. (*) 

Segundo alguns historiadores, Goa permaneceu sob 


( ! ) O templo de Saptanatha ou de Sapta-Kotesvar, nome quese 
deu a Siva, era situado na aldcia de Naroii, da ilha de Divur, fun- 
dado ein tempos imemoriais pelos Sapta-Riskis ou sete sabios. 

Conta-se que, ernqnanto os Saptu-Rishis se ocupavam nas suas 
devogdes, numa regiiio subterranea (Rasa tala), uma grande ser- 
pente veio inter romper- Ih'as, cotnpelindo-os a ir para as margens 
do Pancha-Ganga oil a ailneucia de cinco rios, em Xarou, para 
glorificar a Mahcsvara. Foi is to no mfs fie Sravana (agosto- 
seteinbro). Aqui, dies fabricarani um li/iga de sete metais, a 
saber: ouro, prata, estanho, chmnbo, cobre, ferro e bronze, e 
eooservando-o em Naroi, o veneraram por 7 crores de anos, 
quando Siva, altamcnte lisonjeado pula sua pcrsistente devogau, 
Ihes aparcceu cm pessoa, e llus pergunton o que desejavam. 
Os sabios pedirarn-lhe que permaneoesse com r-les sempre, <*, to las 
as vezes que, no infortunio, reeormssern ;i sua protcegfio, tivesse 
a condescenddncia de Hies aparecer. 1:1 Siva retirou-se para o 
templo de Naroii. c desapareceu. Desde eutao idea deram-lhe o 
nome de S 'apta-kotesvara oil Saptanatha. Uto 6, senhor dos 
sete sabios. 

Kate templo foi vitirna da intoierancia roligiosa dos maome- 
tanos, que o destruirain no govOrno dc Malic-Tubliga (1312); 
sendo, pouoo.s anos depute, resvibeleoido por Madhava (i:;r»7-l3tU). 

Depuis que os portugueses tomaram Goa, ej pelo zelo do cris- 
tianiZar o pais, eomegaram a destruir os tern plus, o templo de Sap 
tanatha foi doiuolido pel a segunila ve/„ rondo sidt v ;s sens guard&s 
obrigados a fugir com o ling a para a aMeia vizinha na terra 



17 


liidepenriciuda 
lie In oil 


o dominio dos sucessores de Madhava por espa^o 
de quasi 100 anos, ate a sua definitiva conquista 
pelo sultao da dinastia Bamanida. 

Os cronistas portugueses dignos de cr&lito re- 
ferem, porcm, que, antes deste acon- 
tecimento, o pais sacudira o jugo do 
rei de Bisnagar e se tornara inde- 
pendente em 1440, tendosido, nessa 
ocasifio, transferula a capital para a nova oidade, fun- 
dada na aldeia Kid, quasi duas inilhas no nortc da 
antiga e na margern esquerda do rio Mandovi ; e hoje 
conhecida corn o nonic do Vf'Hia cidaile de Goa ou 
Ve/hu-Goa . 

Nflo estii ainda assentc a data da construgfto desta 
cidade, hoje em ruina.se quasi deserta. Uns a fazem 
rein on tar ao primeiro govcrno dos maometanos, com o 
lundamentode *|iie o refcrido viajantc Ibn Batata, que 
devia ter visitado esta terra entre 1343 a 1349, diz ter 
visto, em Simla bur ou (ioa. duas cidades, uina hindu 
e outra maometana. Outros fixani o referido ano de 
1410, em que Goa adquiriii a independence, e liouve. 


ttvinc, ondc se estabclecerum no logar chamado Novo Narod . F»i 
depois construido uqui mn novo templo com a mesma invocay&o, 
o quid ainda hoje existc nas limrgens do Panclta-Ganga. E' tr«- 
div a ° popular que esfce templo foi alargado e embolezudo, as snas 
expensas, por Sivaji, o fundador do impcrio m a rata. 

Do vellio templo niio rests vestigio algum; mas o local c conhe- 
cido com o uomc de vellio Naroa. 

Ao presente, o novo Naroa e uni dos principals logares da devn- 
9*0 popular hindu ( tirtha ). Uma grande feira se realiza annalmen- 
te pela festa de Gokul-Astami , em honra de Krisna, no 8 .° dia da 
lua cheia do mes Sravuna, em que tomam parte hindus de varius 
edistantes partes do pais para se banharem nas sagradas aguaa de 
Pane ha- Uant/a, que supoem, nestc dia, purific£-los dos peeados. 

Os hindus de Ooa creem que neste dia o Bilva on Bel (jEgle 
marmelos), planta consagrada a Siva, surge, repentinameote. 
opulenta do fumlo do rio a superficie das aguas, misturada com ar- 
roz e muitas substancias odoriferas. ( Indian Antiquary , vol 3. rt ). 


Mas AtttA T\r* 



IS 


u a opiniao d6stes, a necessidnde de remover a capital 
da margem do Zuari, que se tormira menos profundo e 
incapaz de acolher os grandes navios mercantes que, 
nessa 4poca, frequentavam o p6rto. Finalmeute, ha 
quem a refira ao ano de 1479, em que alguus maorae- 
tanos, escapando duma conjuraqfto, vieram de Onor, 
comandados por Malik-Hussen, buscar abrigo em 
Goa, 19 anos antes da chegada de Vasco da Gama 
a India oil 40 anos antes da couquista portuguesa. 

0 certo d que esta cidade floresceu rapidamente e 
adquiriu importancia, principalmente pelo sen colndr- 
cio dos cavalos importados de Ormuz, os quais eratu 
muito procurados pelos habitantes de Bisnagar e 
doutros reinos vizinhos. A cidade possuia, ale in 
disso, conforme resam os Comentdrios de Afonso 
d ’Albuquerque, numerosas formas compostas de cava- 
laria e infantaria, com valentes e liAbeis frecheiros, 
que prestavam relevantes serviijos ao Estado, particu- 
larmente na crise das inrasoes. ’I'fio prdspero, ua 
realidade, era o Estado de Goa, que dizem ter sido, 
a sua capital, a unica cidade na costa, que, nessa 
dpoca, tinha de renda 200.000 pardaus ou 10,000 
libras esterlinas. 


CAPITULO IV 

Dominaij&o maometana 

A cidade de Goa, tflo faruosa pela sua riqueza e 
com^rcio, e tilo importaute pela sua 
C °los U reis vantajosa situa^ao, era o pomo ar- 
Baman idas dentemente cubiqado, desde certa 
data, pelos principes maometanos do 
Decfto, que, tendo rompido a sua alianqa com o impe- 



rador de Delhi, haviam fundado am reino indepen- 
dente (pg. X). Repelidos nas suas vdrias tentativas, 
nao abandonaram o seu projecto de conquistar Goa 
e reivindicar o direito da sua antiga soberania neste 
pais, donde tiuhaui side expulsos inn 1367. 

Em 1469 Muhammad Shah 3.°, 13. 3 rei da dinastia 
Bamanidti , do Deefto, expediu para o sul uma po- 
derosa fort; a, sob o comando do seu general Muham- 
mad (I a wan afim de sul'oear as tentativas revoluciond- 
rias de alguns sobevanos ohstiuados. 

Os habitautes de Goa, reccaudo o perigo que os 
aineatjava, lizeram causa comum com os vizinhos 
para repelir o ataque e apressaram-se a guarnecer as 
passagens montanhosas, que defendiam o pais aberto. 
Mas. foram iufrutiferos os seus esforyos. Gawan 
atravessou os Gates, sitiou e tomou a fortaleza de 
Kelna, reputada inexpugiuivel, e, com o exercito 
vitorioso, marchou em seguida sftbre Goa. 

Uma I'rota de 120 navios apareceu ua foz do 
Mandovi e, colaboramio com a fortja, que atacava por 
terra, reduziu a cidade a extremos apertcs. 

Goa, a-pesar-dos baluartes e torres com que era 
fortificada, espeoialmentc pelo lado mais exposto ao 
inimigo, into podeudo continual’ a defesa por muito 
tempo, foi obrigada, emfim, a render-se e a abrir as 
portas aos invasores, que tomaram posse dela e dos 
seus arrabaldes ( 1473 ). 

Esta vitdria, sabida cmn extrema satisfag&o na corte 
de Bedar on de Muhammad Shah, 
foi celebrada com as mais cstrondo- Festas em 
sas festas populares. 0 rei ordeDou Beilar 

o n<‘bnt ( celebrapTo do triunfo por 
7 dias), recebeu outre as mais ruidosas demonstragoes 
e subidas houras o seu ministro, que, tendo deixado 
uma guarni(;ao em Goa, regressava clieio de gldria e 
de despojos, agraciou-o generosamente ccm os mais 



20 


elevados titulos em recompensa de tfio eminentes ser- 
vi^os, e, a seu pedido, nomeou, para o governo da 
nova conquista, Kush Kadam, fidalgo de considerdvel 
m^rito, tendo-o previamente lionrado com a mercc 
de Kislivarkan. 

Mas os habilantes ainda nutriam a esperanqa de 
recobrar o dominio Hindu. Em 1472 Vikrama, raja 
de Belgao, instigado pelo rei de Bisnagar e, com o 
auxilio do raja de Bankapur, resolveu arranuar a 
cidade das miios dos inaometanos ; Muhammad Shah, 
porem. sabedor da resolucjao, marchou pessoalmento 
a testa dum grande exercito, e atacou a fortaleza de 
Belgao por todos os lados. O raja, surpreendido com 
esta inesperada invasuo, foi obrigado a ir acudirao 
sen dominio assaltado, e oferecendo a pass depois 
dutna resisleucia inutil, teve de abandonar para sem- 
pre o prqjecto da conquista de Goa. 

O rei no Bamanida completava agora o ciclo da sua 
maiur extensfio. Com a mira de ser melhor adminis- 
trado foi. em 1478, dividido em 8 lurnfs ( torofos ou 
provincias ), tendo cada uma delas inn goveruador 
e oticiais subalternos, todos nomeados directamente 
pelo rei ; e nesta divisao Goa foi agregada s\ pro- 
viucia de Juner e o seu governo conliado a Najm- 
ud-din Gillaui. 

Em 1481 Siva-Hajd, rei de Bisnagar.com um pode- 
roso exdrcito tentou toinarGoa; mas M uhammad Shah, 
que prezava muito a sua nova aquisii;a.o, deseuvol- 
veu tao energica del'esa, que lhe inutilizou os est'ory.os. 

\o ano imediato a esta vituria Muhammad Shall 
morreu, deixaudo por sucessor um Hliio muito 
no Vo e, por isso, sem prestigio baslante para eonser- 
var reu nidus sob a autoridade de liuico imperante too 
dilatadas conquistas. Esin circumslaneia proporcio- 
nou ensejo para os goveruadores tic difeientes pro 
viucias sc declavarem iudependentes da autoridade 



central ; e a desorganisaqfto nao se fSz esperar. 

A primeira revnlta rebenton em Goa. Depois da 
morte do governador Najmiuldin, urn dos seus ofi- 
ciais, por notne Bahadur Khan Gillani, arvorou-se 
em soberano absoluto, estabclecendo a sua sdde 
num territdrio viziuho, e, ntio satisfeito com estes 
exorbitantes cometimeiuos, expcdiu uma armada coin 
a especial missile de pi ra tear no mar alto, abtiso que, 
em breve, lhe custoo a perda da prripria vida ; pois, 
tendo-se queixado dole a c6rte de Bedar o governa- 
dor de Guzerate, cnjos navios mercantes haviam sido 
assaltados e roubados nesta louea empress, veio 
despacliado dai um formidtivel exdrcito, que aba- 
foil a revolta e restaurou o sossego, sendo morto o 
olicial rcbolde em 1 t()d. O governo de Goafoientao 
entregue a Maliken-ul Mulk Gillani. 

A insubordinacao dos governadores das provincias, 
que, sucessivamente, se declararam 
independentes, e a falta de poder Governo de 
real, que os mantivosse obedientes e Bijapur 
ligados dinastia Bamanida, emhora 
ostensivamente, como o eram nos ultimns dias, foram 
as ca lisas do desmembratnento do reino maometano, 
que foi dividido em cinco principados distintos. O 
mais poderoso dostes foi o reino de Bijapur, fundado 
por Abdul MuzalTar Vusuf Adil Slnih, filho de Aga 
Murad on Amuralh, sultoo de Tunpiia. 

Yusuf Adil Slu'i! i eognominava-se tambdin Saudi, ou 
Sabaio conl’orme os crouistas portu- 
gueses, da cidade de Sava na Persia, IdalcSo 

para onde fora mandado pela mae 
passar sens primeiros aims para se livrarda morte ma- 
quinada pelo irmao, que sueedCra ao pai no trouo em 
1451. Gste principe, nansportando-se para India, 
fora adoptndo por (lawan, primeiro ministro do im- 
perador Bamanida. e, investido como titnlo de Khan , 



22 


passara a chamar-se Adil Khan, nome que os por- 
tugueses corromperam em Idalcao. 

Nomeado governador de Bijapur, Yusuf acordou 
com os governadores de Berar e de Ahmadnagar prc- 
clamarem-se reis independentes, di vidindo entre si o 
territdrio Bamanida ( 1489 ) e nesta divisilo coube a 
cidade de Goa e os logares vizinhos a Yusuf, que 
impds alianya e submissao a Maliken-ul-Mulk Gill&ni, 
entao governador desta cidade. Itlste aceitou-a de 
boa vontade e reconheceu a autoridade daquele so- 
berano. 

Refere-se que o rei de Bijapur, encantado com a 
situayfio da cidade de Goa, e apreoiando as vantagens 
do seu pdrto, residia aqui freqiieDteniente e que a 
escolhera, de p referenda, para faztr nela ura dia a 
sede do seu governo. 

Goa realmente tinha atingido nes- 
EstadodeGoa te pen’odo um alto gniu de prospe- 

SmS^St! ridkde material • moral. 

Era um dos principals emporios do comdrcio ori- 
ental, para onde afluia gente de varias ray as e crenyas 
de diferentes partes da Asia pelo grande ntimero de 
navies, que concorriam de Meca, Aden, Ormuz, Oam- 
baia e Malabar ; e no seu porto vinhatn embarcar 
para Meca os peregrinos maometanos. A sua opu- 
lencia e comercio florescentes obrigavam muitos prin- 
oipes orientals a proourarem a sua alianya e inante- 
rem relaqoes de amizade com o seu governo. 

A cidade, bem construida e iortificada, possuia vis- 
tosos e alinhados editicios, separados por excelentes 
ruas e prayas adornadas de jardins. As suas dimen- 
soes erara ^ de milha no comprimento e quasi ^ na 
largura. 

A rauralha que cercava a cidade nfio era muito 
alta, mas circundada dum f6sso sempre cheiode dgua 



23 


e estendia-se pelo Norte, desde o mandvi ou Al" 
fandega — uin edificio espa§oso e contiguo ao actual 
convento de S. Caetano. — ate o Arsenal, que ficava 
ooutra extremidade. Pelo Oriente, chegava ate & raiz 
do oiteiro depois chamado de N. Senhora do Monte ; 
pelo Ocidente, ate o referido Arsenal e pelo Sul, ao 
sitio da egreja de N. Sra. da Serra, que serve actual- 
mente de cemit^rio da catedral ; ficando fdra do re- 
c'mto tnurado o monte que se denominou depois o 
Monte de N. Sra. do Rosario e o local onde existe a 
egreja do. Born Jesus. 

Aldm das porta3 da Alfiindega e do Arsenal, tinha 
esta muralha, no sitio da egreja da N. Sra. da Serra, 
uma porta dupla ou duas portas juntas, que se cha- 
mavam as portas dos bacaes, ( l ) por onde se saia da 
cidadela para os subiirbios, e utn porta o no lugar 
onde, posteriormente, foi levantado o Arco dos Vico- 
-reis, o qual dava entrada para o sunluoso palAcio de 
Adil Shah, com urn jardim cheio de plantas arom&ti- 
cas. 

Nao eram s6 estas as fortifiea§oes que prote- 
giam a cidade, existiam tambctn fortalezas e torres 
exteriores, outrora levantadas eni algo ns passos prin- 
cipals da ilha, as quais impediam a passage m do 
esteiro aos inirnigos da terra firme. 

Entre os edificios que embelezavam a cidade, os 
mais notsiveis eram a mesquita principal e o mages- 
toso palAcio do Sabaio ( Adil Shah ), que tinha es- 
plendidos saloes e espaqosos alpendres com colunas 
de madeira lavrada. Abria-se defronte do pal&cio (*) 


(*) Bacais, ter mo hiudostano-Arabe, qae sigrniflca negociantes 
de cereais, tendeiros. ( M ins. Dilgaio, Gloss. Luso-Asial . ). 

Beta palavra tem dado in.irgem a varies corrup^es, como ha- 
fats, backes e ate bach-ireis que se Id na plants olicial da velha 
cidade de Goa, ultimamcnte levantada. 



uma vasta pra^a. conhecida, ainda depois da conquista 
portuguesa, como o Terreiro do Sahaio ; e nas proxi- 
raidades desta havia uni tanque lavrado de cantaria, 
provavelraente oonstrmdo para o recreio dos reis de 
Bijapur. 

Os edificios particulares eratn espaqosos e como* 
dos; mas, pela inaior parte, de mn so andar. Nilo 
faltavam casas de recieio e estabeleciraentos de in- 
diistria, distinguindo-se entre estes as ourivesarias, 
coni a reputagao das melhores da India. 

Conforme Barros, so a cidade de Goa rendia a Adil 
Shah 5.000 libras, alem das 20.000 que aquele mo- 
narca recebia dos distritos vizinhos que forraavam o 
territdrio de Goa. Esta receita, pela maior parte, 
provinha dos direitos aduaneiros, principalmente do 
imposto que pagavam os cavalos importados de 
Ormuz k razao cie 2 libras por cabega. 

Tal era o estado de Goa, quando Vasco da Gama 
descobriu o caminho maritimo da 
Chegada dos India em 1498 e, na viagem de re- 
P ° r ind”a SeS * gresso, reeebeu em Angediva a visi- 
ta auni juden polaco, capitao-mdr da 
frota de Adil-Shah, o qual, tendo sido descoberto 
como espiao, que procurava destruir a armada portu- 
guesa, foi preso e condnzido para Portugal, onde foi 
batisado com o nome de Gaspar da Gama. 


35 


SUMARIO ORONOLbGIOO 


Hitt, de Portugal— —Hist, da India 

Antes da era vulgar 

c. 273 — 232 — reinado de Axoka 

Era vulgar 

530 — Estabelecimentodos Oha- 
liikyas oc. em Badami 
566 — Kirti-varraa l.° aubjuga 
os Kadambas. 

606 — 647 — Reinado de Uarxa, de 
Kanouj. 

i Pulakexi 2.* derrota oa 
M&uryas do Concao. 
Fnnda^fio da dinasfcia 
dos chaluk. orientals ou 
de Vcngni. 

620 — Derrota de Harxa por Pu- 
lakexi 2 tt . 

650 — Dantidurga funda a di- 
nastia dos Ilattas, 

753— Os Rattas snbjugam oe 
chaluk. ocid. 

953 — Tailapa vencc cs Rafctaa 
v funda a diuastia dos 
Clmlukyas, de Kalyant. 
980 — Uuhalla-dcva funda a di- 
nastiu dos Kadambas d<* 
Goa. 

1007 — O Kadamba Xasfca-deva 
1052— Jayakexi l.° de Goa — 
Os Cholas vencidos pe- 
los Chaluk. 

Funda^&o do coudado 

Portucalensc -1084 



26 


1076 — 1 126 — Vikramaditya Chalk. 

1122 — Goa incendiada por A- 
chugideva. 


D. Afonso Henriqnes 

—1145 

D. Sanoho l.° 

—1185 

D. Afooso 3.° 

— 1212 

D. Sancho 3.* 

— 1228 

D. Afonso 8.° 

— 1248 

1). Dioiz 

—1279 

1294 — Toraada de Deuguiri por 
Alaaddin. 

1802 — 1811 — Invas&o do DeoSLo por 
• Malik-Kafur. 

1318 — Nova invas&o de Deu- 
gniri. 

D. Afonso 4.° 

— 1325 

1836 — Fundagflo do reino de 
Vijayanagar, 

1346 — 0 reino de Vijayanagar 
no sen apogeu. 

1 847 — F undagao do snltanato 
dos Bamanidas no Dec£o. 

D. Pedro l.« 

—1357 

D. Joao l.° 

—1385 

D. Daarte 

—1433 

D. Afonso 5.* 

—1438 

0. Joao 2.° 

— 1481 Independ. de Bijapur. 
1490 — Conaego do desmetnbra- 


mento do Snltanato do 
Decfto. 


(Descobrimeoto da America) — 1492 
Bala da partilha — 1498 

D. Manoel — 1495 

1498 — Chegada de Vasco da 
Qamn a Calicut. 
1510— Tom' <la d.. Goa per A1 
bn- jerque. 



HISTORIA DE GOA 


— — 

PARTE IX 

GOA PORTUGUESA 

CAPITULO 1 

1508-1809.— Portugueses na India antes 
da eonquista de.Goa — D. Francisco 
de Almeida, l.° vice-rei 

Quando Vasco da Gama chegou pela primeira vez 
a Calicut a 20 de maio de 1498, o 
soberano desta cidade era um hindu Vasco da Gama 
com o titulo de Samorim ou Sarau- cm Calient 
dri-rajd^ 1 ), tendofpor subditos mais 
importantes e mais ricos os fan&ticos moplas , mucul- 
manos naturais da terra ou procedentes destes, al6m 
dos arabes, persas, guzarates e outros estrangeiros 
estabelecidos all e chamados Pardetis ou Pardexis. 

Estes mouros, que haviam contribuldo para dilatar 
o imp4rio do Samorim, eram senhores do comercio 


P) fiste pomposo titulo de Samudri-rajd, em sauBcrito rei 
do mar, ( em concani Somdiracho raeJ), em malajralam Sd- 
tnuri , depots significurtdo rei da terra e do mar, correspondia 4 sua 
BituajSo politics. 


do Malabar coni Aden e com o Mar Vcrmelho, cons* 
tituindo o seu principal empdrio em Alexandria, don* 
de se exportavam as mercadorias orientais para a 
Europa. A prosperidade de Calicut e sua hegemo- 
nia comercial era por isso devida k sua popula$3o 
muQiilmana, principalmente & classe dos Pardetis. 

Daqui resultou que, a-pesar-do Samorim ter recebi- 
do o argonauta portugues com a maior cortesia, os 
mouros tenazmente se opuseram A, idea de um trdfico 
directo com a Europa, obstando tambdm a que Vasco 
da Gama deixasse, como queria, um estabelecimento 
comercial era Calicut ; porqae viam ua execugSo 
desse projecto, sobretudo dum estabeleciraento per- 
manente, a proxima rinna do seu comdrcio (*). 

Mas, acentuando mais a oposqjao, conseguiram, por 
intrigas do catual ( autoridade local ), deter por al- 
guns dias em terra Vasco da Gama e seus doze com- 
panheiros com fingida hospitalidade, retardaudo o seu 
embarque, e prender os dois feitores do projectado 
estabelecimento portugues, os quais sd foram postos 
em liberdade *depois das represdlias feitas pelo almi- 
rante com surpresa dos uuupilmanos. 

Os vexames sofridos por Vasco da Gama foram 
terrivelmente punidos por este na sua segunda via- 
gem. 

Concluida a empresa do descobrinaento do caminho 
maritime da India e acolhido Vasco da Gama em 
Lisboa com o maior entusiasme, el-rei D. Manoel, 
querendo tirar vantagens deste caminho comeQou, des- 


('•) Os veno/.iiinos e os genoveses. que, antes dos portngueses, 
eomeuiavam no imir das India*, niio hnviatn conseguido fundar 
feiiori:i inMiliuniii. IVtrros, dec. 1 lie. 4, cap. 6 ; Lendas da In- 
din tomo 1 pag. <1:5 —Roleiro da viaijem de Vasco da Garna — 
Stephens, Hist, dr Pori. peg. li; — David Lopes, Hist, dos Port, 
no Malabar, pg. XLVI. 



29 


de logo, despachar cada ano novas 

armadas hem aparelhadas, com des- VuglmsIT 

tino ao oriente, para comerciar, ( ) Oriente 

estabelecendo na costa do Malabar 

feitorias, que pudessem reunir os mais valiosos pro- 

dutos da tndia e tnandd-los anualmente para Portugal 

era navios reais ; estas armadas levavara, ao raesmo 

tempo, alguns religiosos para propagaretn o cristia- 

nismo no oriente (*). 

0 trdfico era monopdlio regio protegido pelas ar- 
madas, sendo as feitorias servidas por tropas e mis- 
sionaries. ,( 3 ). 

Pedro Alvares Cabral, que comandou a primeira 
destas esquadras, depois de ter, propositada ou casual- 
inente, descoberto o Brazil, surgiu 
era Calicut e com permissao do Sa- Primeiraafel- 
morim fundou nesta cidade uma fei- torias 

toria numa casa vasta, que tinha 
sido feitoria dos Chineses, chamada Chinacotcr, mas os 
mouros a destruiram logo, assassinando barbaramente 
o feitor Aires Correia e seus 49 corapsrtiheiros. Pedro 
A’lvares, que nSo tinha podido acudir aos seus, vin- 
gou- se bombardeando Calicut por um dia inteiro, (16 
de Dezembro de 1500), e passou para Cochim, onde ; 
favorecido pelo raj&, fundou outra feitoria. Aqui 
estabeleceram-se alguns dos oito religiosos francisca- 


p) As nans que desde 1497 a 1612 forarn construidas para o 
com6rcio e conquista do oriente, foram 806 e custaram mais de 
100 milhOes de cruzados ; e destas regressarara a salvamento ao 
pdrto de Lisboa apenas 425. 

(*) Stephens, peg. 168 ; e Ensaios »6bre a estaiistka por F. 
Maria Bordalo, 2.* s4rie, Hvro 5.°, pag 2. 

p) Aos navios nSo portugueses so era perraitido navegar 
quando inuuidos de cartazes ou passaportes, que emitiam os capi- 
taes dos portos ; o quo dava considerAvel reudimento ao tesouro. ' 



30 


nos, que, tendo por superior fr. Henrique de Coimbra, 
se haviam transportado na armada, para implantar 
nestas paragens a doutrina de Cristo, sendo massacra- 
dos tres deles era Calicut ('), Cabral, tendo feito, 
aqui e em Cananor, grandes carregamentos de piraen- 
ta, canela, gengibre. cravo, cardamoino e outras espe- 
ciarias iudianas, regressou ao reino. 

0 acolhimento dispensado aos portugueses pelo 
rajd de Cochim irritou o de Calicut, que reservou a 
vinganja para mais tarde. 

Joao da Nova, almirante da segunda armada, fun- 
dou em boa paz a feitoria de Cananor e descobriu as 
ilhas de Ascenqao e de S. Helena. 

Em 1502 Vasco da Gama chegou pela 2.* vez a 
Calicut, e, em desforra dos antigos agravos, intimou o 
Samorim a que lan^.asse fora do sen reino todos os 
mouros de Meca e de Cairo, que eram para cima de 4 
mil (*). Como a resposta do Samorim f6sse nega- 
tiva, bombardeou novamento Calicut e Ihe destruiu ? 
todos os navios do p6rto, enchendo de terror aqueles 
mares. Enterifieu que sd assim podia assentar nestas 
regioes a preponderance de Portugal e esmagar o 
orgulho dos irouros. 

Em 1503 vieram para a India tres armadas coman- 
dadas peloscapitfles Francisco de Albuquerque, Afonso 
de Albuquerque, o futiiro berdi da India, e Antdnio 
de Saldanha ; cada armada era composta de tres ndus. 

0 capitao Saldanha levou por missao especial cru- 
zar na emboeadura do Mar Koxo e apresar as ndus 
da India, que Hzessem o comercio concurrente ao dos 


(*) M. Stephens, pag. 182 ; e Historia Serdfica da Ordem 
dt S. Francisco 4 por fr. Fernando da Soledade, vol. 3 de 1448- 

1600. 

(*) Barros, Dec, 1, liv. 6.°, cap. 5.°. 



31 


portugueses. 

Afonso de Albuquerque estabeleceu uma feitoria ecu 
Coulao ( hoje Quilou ), que foi a terceira no oriente, 
nfio contando com a de Calicut, que durou um s6 dia. 

Francisco de Albuquerque socorreu o rajd de Co- 
chim, que havia sido ferozmente atacado pelo Samo- 
rim por causa da sua amizade aos portugueses, sendo 
mortos, nesta guerra, dois principes herdeirosdaquele 
raja ; (*) e, tendo desbaratado o Sainorini, conseguiu 
construir em Cochirn uma grande 
fortaleza, que foi provida de artilha- Primeira 
ria e duma guarnqjao de 900 homens fortaleza 
sob o cornando de Duarte Pacheco. 

Foi a primeira fortaleza que Portugal possuiu nestas 
parageus ( 2 ). 

Depois da partida de Francisco e Afonso de Albu- 
querque a guerra acenden-se de novo 0 Samorim 
enviou contra o rajd. de Cochirn um exercito de 50 
mil homens ; mas, Duarte Pacheco o derrotou coro- 
pletamente no passo de Cambalam Esta estron- 
dosa vitoria imortalizou Duarte Pacheoo e, firmando a 
reputa§So das armas portuguesas, trouxe para as fei- 
torias a vantagem de poderem adquirir sem dificuldade 
as mcrcadorias que quisessem, inspirando a El- Ret 
D. Manoel , segundo escrevem alguns liistoriadores, a 
idea de que poderia ndo sd absorver o comdrcio India- 
no , mas ate conquistar a propria India, (*). 

De facto, o comdrcio, a conquista e a propagagao 
da religiao crista constituiram o grandioso piano que 
Portugal pds em execugao no oriente. 

0 comdrcio foi prosperando e atraindo ao Tejo os 


(') Lendas, T. l.°, pag. 349-365. 

(*) Barros, Dec. j, liv. 7, cap. 2 ; Lendas , t. l.°, pag. 849. 
(*} M. Stephens, pag. 170. 



32 


mercadores de todas as nacionalida- 

ComAreio des para obterera, por permutajao, as 

florescente apetecidas riquezas do oriente, que 
seguiam por via maritima o carainho 

de Portugal. 

Lisboa, transformada durante urn seculo, num 
grande impdrio comercial, distribuia, a bom prego, pe- 
los paises europeus, o ouro e a prata das minas de 
Mocaranga e Cuama, os rubis e as safiras de Ceilao e 
Pegu, os diamantes de Grolconda, as esmeraldas de 
Babildnia, as perolas e os aljofares de Manaar, as 
sedas e tape$arias da Persia, as musselinas de Ben- 
gala, os cavalos da Ardbia, que Ormuz exportava, as 
poreelanas da China e do Japao, o marfim e o ebano 
de Mozambique, o benjoim de Sumatra, o am bar das 
ilhas Maldivas, a cdnfora de Borneu e, sobretudo, as 
faladas especiarias da India, como a pimenta e o gen- 
gibre do Canard, o cravo, a eanela, o cardamomo e a 
noz moscada das Molucas e vdrios produtos, inclu- 
indo os perfumes, oriundos das novas terras desco- 
bertas. Os mercadores europeus estavam livres 
dos vexames que sofriam dos mogulmanos no Egipto 
e na Siria e do monopdlio dos venezianos. 

0 trdfico deixava fabulosos lucros ao tesouro pti- 
blico; pois, so o estanco regio da pimenta da India 
dava uma receita anual de 600 mil cruzados, e mais 
cerca de 300 mil de direitos de entrada, o que cor- 
responds a pouco menos de £ da receita - global do 
reino. 

0 monopolio mercantil conservou-se nas maos dos 
portugueses ate 1595, (') emquanto nao houve com- 
petidores europeus. 

0 impdrio luso-indiano, f undado sobre inumeraveis 


0) Of. a Garla-Preficio pags. IV-V. 



33 


conquistas, nfto durou muito al6m de um s4culo, 
como veremos adiaDte. 0 cristianismo, por6m, im- 
plantado pelos missiondrios, floresce at^ hoje pela 
India, mantendo o amor &s tradi§oes gloriosaa de Por- 
tugal. 

0 programa do com^rcio obrigava a cria^ao de nu- 
merosas feitorias pela costa, que tinbam de ser prote- 
gidas por outras tantas fortalezas sob a jurisdiqao dos 
respectivos capitaes ou governadores ; e, para que 
entre Sates e os comandantes das esquadras, que cm* 
zavam nos mares, houvesse uma harmonia de pianos, 
era indispensAvel uma autoridade superior. 

E ! o que ponderou el-rei ( D. Manoel, e, em 1505, 
determinow estabelecer na India um seu represen- 
tante, que governasse de perto todos os portugueses, 
combateutes ou nSo combatentes, 
que andassem por estas longes terras; 
e para esse elevado cargo nomeou 1505-1509 
D. Francisco de Almeida, filho segundo 
do 1° conde de Abrantes, conferindo-lbe o titulo 
de vice-rei da Tudia. 


fiste priraeiro vice-rei saiu de BelSm em 25 de 
marqo do referido ano, capitaneando uma luzida es- 
quadra de 22 vdlase 1500 homens de armas, entre es 
quais havia numerosos fidalgos ; e, depois de conquis- 
tar Quiloa e Mombaga, na A’frica oriental, surgiu, a 22 
de setembro, no p6rto de Angediva (*), onde corne- 
<jou a levantar uma fortaleza, conforme as ordens que 
trazia. Como, entretanto, tivesse recebido embaixa- 
dores do reide Onor e propostas de amizade de outros 


(') A ilha de Angediva fica sitnada ao sul de Goa, na latit. 
N. de 14°, 68' e long. L. de Greenwich 7 4°, 49'. Figure no 
roteiro da primeira viagern de Vasco da Gama 4 India. Superfi- 
cie. l, kq 5; — popnlaf&o — 50. 



34 

uiouros vizinhos, 0. Francisco enlregou o govcrno 
desta ilha a Manoel PeQanha e, deixando com Sle nns 
80 homens, partiu com a t’rota para deraandar o pOrto 
de Onor ; mas, nfio tcndo encontiado aqni senilo ma 
fe e evasivas da parte dos mouros, castigou-os des- 
truiudo-lhes os navios ancorados no porto. Daqtii na- 
vegou para Oananor, ondc, obtkla a permiss'io do so- 
berano, construiu uma fortaleza e, a 22 de outubro, 
assumiu o titulo de vice-rei. na conformidadc das 
suas provisoes. 

No emtanto os niugulmanos de Dabui, aproveitan- 
do a ausencia do vice-rei, cercaram 
Fortaleza em e bateram a furtaleza de Angediva, 
Angediva cnjos defensnrcs lutaratn heroica- 

mente por rauitos dias. 0 vice-rei, 
informado da ocorrcncia. enviou sen filho D. Lonren- 
qo d’Almeida com nm pequeuo retor<;o, e bastou so 
a sua presenga para os sitiantes se porem em deban- 
dada. 

D. Francisco estabeleceu a s6de do sen govurno em 
Cochim e, tendo sabido nesta cidade que os rnonros 
haviam assassinado os portugueses 
no*nortwnfj» residentes tia feitoria de Conhlo, 

em Cochi in expediu logo uma flotilha, sob o co- 
mando de D. Louren<jo, para punir 
o atcntado. fistejovem capitfio cumpriu fielmente 
as ordens, queimando as nans que encontron no pArto 
de Coulfto e, com elas, muitos rnonros e hindus tri- 
pulantes. 

Em 18 de inarqo de 1.506 o Samorim de Calicut 
aprestou uma armada de 400 velas com o anxilio dos 
maometanos de toda a costa do Malabar, quo se jul- 
gavatn prejudicados uo seu comercio, e vein atucar a 
esquadra do vice-rei pr6ximo a (Oananor; D. Francis- 
co, porAm que era urn insigne almirante, ordenou tiio 
hAbeis e audaciosas manobras, que surpreendeu 



35 


essa grossa coluna de navios no meio do seu raovi- 
mento e varejon-a com a artilharia. Esta estrondosa 
vitdria, ganha por I). Francisco, on, segundo ontros, 
isoladamente por D. Loureuqo, espalhou terror por 
todo o llindosttlo e adquiiriu para os portugueses a 
famade invenciveis. 

Em 1507 D. Loureuyo sain de Cochim a desci»brir 
e reoonhecer as ilhas Maldivas, mas. 


por uni feliz acaso, aportou A ilha 
de Ceilflo. pAtria da canela e das pe- 


Oescoberta 
de t'eililo 


rolas, a qnal se reconlieceu tributaria 

da coroa de Portugal. K, pouco depois de voltar 


desta arriscada em prusa, foi morto na barra de Chaiil, 
combatendo contra a forraidAvel esquadra de Mir 
Hussein, enviada pelo Sultlo do Egito e auxiliada 
pela de Melik-yaz, senlior de Diu, os quais, devora- 
dos pelo chime comercial, haviam jurado expulsar 


da India os portugueses. 

A este tempo Afonso d’ Albuquerque, que devia 
suceder ao vice-rti, foi encontrA-lo a Cananor, para 


tomar a posse do governo; mas, D. Francisco re- 


cuson entregar-lhe o poder, em quanto nao vingasse 
a morte de seu lilho, pots quern n frangdo comeu, dizia 
ele, referindo-se a morte de D. Lourenjo, hade comer 
o galo ou pagd-Io] e, partindo com toda a armada do 
Estado para curaprir este desejo, reduziu a opulenta 
e populosa cidade de Dabul a uin raontao de ruinas e 
cinzas, e destroqou totalinente as armadas cotnbinadas 
de Mir- Hussein, de Melik-yaz e do Samorim de Ca- 


licut, que encontron no pOrto de Diu ( 2 de r eve- 
reiro de 1509). Mas, ainda depois desta vitdria, 
com que esraagou os seus inimigos, insistiu em con- 
servar o governo da India, que, alias, Ihe era pesado, 
e ate mandou o seu sucessor preso para a fortaleza 


de Cananor ! 


Foi preciso que, em outubro do referido ano, che- 



36 


gasse de Lisboa a Oochitn D. Fernando Coutinho, 
marechal do reino e sobrinho de Albuquerque, com 
iustruqoes precisas e uma armada de 15 navios, 
para, sd entdo, o vice-rei, sera a mais leve observa- 
qao, largar o govfirno, corao se cedesse k f&rga o que 
nao cedia ao direito. 


Esta luta, mesquinha e deploravel, era que anda- 
ram eDvolvidos aqueles dois egregios herdis, foi visi- 
velraente creada e alimentada pelas intrigas dos 
partid&rios de cada um deles. 

Dura lado, tres capitaes, que, coin seus navios, ha- 
viam fugido de Afonso de Albuquerque na carnpanha 
de Ormuz, receosos do seu genio severo, instigavam 
o vice-rei, iraerso na dor pela perda do fillio querido, 
a que lhe nao entregasse o goveruo ; e, doutro lado, 
os apaniguados de Albuquerque insistiam com Aste 
para que o reclamasse. E, de tal inodo irritaram os 
dnimose azedaratu a disputa, que uai resultaram os 
factos escandalosos e indignos do car&ter de D. Fran- 
cisco, vulto, alids, cavalheiroso e sinipdtico, que sein- 
pre dera provas da aobreza dos seus sentimentos e da 
elevagao do seu espirito. 

D. Francisco goveruou quatro anos com fina tslctica 
e sem outro pensamento politico que 
Politics o de adquirir e sustentar o exclusivo 

eomercial do comercio raaritirao, para onde 

dirigiu todo o seu esforgo. Persua- 
dido coino estava de que era bastante dorainar o mar 
para ter sujeita a terra, liraitou a sua ambigao a edi- 
ficar feitorias no litoral para a comodidade das carre- 
gaqfies e nao quis conquistas nera pragas fortes na 
India, a ponto de mandar urn dia desfazer por indtil 
a fortaleza de Angediva. 

De regresso ao reino raorreu no Cabo de Boa Es- 

S eranga, vitim a de azagaias dos lmgros, a 1 de marqo 
e 1510, tendo de idade 60 anos. 



37 


CAPiTl'LO II 

1810-1818 — Afonso de Albuquerque e a sua po- 
litica.— Tomada de Gca. Malaca e Ormuz. 


Afoi|SO de Albuquerque ( 1 . r »ui»-] 5 ' foiomaiorde todos 
os heibis portuguoses quo militaram na Iodiaedevea 
sua fama prineipalmente aos sens min erosos feitos de 
annas, e a sabedoria e justiya da sua administrate. 
Suceden. coino esta dito. a I). Francisco de Almeida 
nos tins de outubro de 1 509. mas com o simples 
titulo de i/orernador. 

Apartnndo-se da liulia da politica seguida pelo seu 
antecessor. Afonso de Albuquerque 
conccbeu. na sua ardente iinagina$a<>< Politica 
o vasto piano de destruir o poder imperial 
dos mourns e fundar um imperio 
oriental, cuja cabe^a seria (Ion e eujos poderosos bra- 
fos deviant scr Ormuz e Malaca. 

Jnfelizmente. inaugurou o seu governo com uma 
expedite*, que n:io logrou o cxito desfcjado. A 
instantes pedidos do marechal D. Fernando Cou- 
tinho, foi tornar Calicut, o, a 4 de Janeiro de 
1510, derrotados os naires { nobreza militar ) que 
lhe tinliaui saido ao encoutro, conseguiu inceudiaf o 
paltieio do Mnmorim e arrninar uma boa por^io da 
cidade; mas, crescendo a resistencia dos liabitantes, 
teve de retirar magoado com a perda de 80 portu- 
gueses mortos na luta, entrando neste ntimero 10 ou 
12 fidalgos e o propria iharecliul D. Fernando, que, 
confiado na sua bravura, pouco caso iizera dos pru- 
dentes avisos do Albuquerque. 

£sie dcploravcl progndsiico foi desmentido pelos 



Prime! ra 
Couqieista 
de Goa 


posteriores acooteeimentos, que vierara abrilhantar o 
governo e entre os quais o mais interessante para 06s 
4 a tomada de Goa. 

Afonso de Albuquerque, tendo saido de Cochim 
com unia esquadra de 23 vdlas, tri- 
puladas por 1200 soldados, ia cami- 
nho de Ormuz para a conquistar, 
quando, cbegado a barra de Onor, 
recebeu a visitadum hindu, pornorae Timoja, sobera- 
no deste territorio, inimigo dos monros e amigo dedi- 
cado dos portugueses. $ste indio, que, pelos seus 
valiosos servijos. a ole prestados, mereeera a Albu- 
querque aceitajiio e certa confianja, aconselhou-o 
a mudar de rumo e dirigir a expediqfio sobre Goa, 
informando-o, entre outras cousas, de se acharem 
neste pais alguns rumes (turcos) fugitivos do des- 
barato de Dili — rel’erido no capitulo anterior — e 
os quais, auxiliados pelo sonlior da terra, projecta- 
vam vo I tar contra os portugueses. 

Albuquerque, que procurava na costa do Malabar 
um ponto central pars a capital do iraperio planeado, 
e j 4 tinha lanjado suas vistas para a cidade do Goa, 
iuduzido pelos eonselhos de Timoja, que se compro- 
metia a ajuda-lo na empresa com suas tropas, facil- 
mente resolveu tomar esta cidade. 

0 estado interior do pais era de si favoravel ao 
prgjecto do herdi portuguGs. O governo maometano, 
opressivo e tiranico cotno era, tinha-se feito odioso 
aos habitantes: nem Gstes eram capazes duma acjfio 
uuida contra qualquer invasor pelo motivo da diver- 
sidade de crenjas e rajas. Alem disto, o rei de Bija- 
pur, a quem pertencia Goa, andava em guerra com 
o rei de Vijaynagar, no intuitu de consolidar os seus 
doroinios ultiraamente adquiridos; e tinha encarrega- 
do o governo da cidade a Yusuf Gurgi, que, com 
200 turcos &s suas ordens, maltratava hcrrivelmente 



39 


o povo. 

Nesta conjung&o de circunstftncias favorAveis, e pelo 
meado de Fevereiro de 1510, aparecen. inesperada- 
raente, Albuquerque cora a sua frota no porto de Goa; 
e D. Antdnio de Noronha, seu sobrinho, tendo desem- 
barcado com alguraa gente, atacou e tomou o castelo 
de Pangim (hoje palAcio do governo), desbaratando oa 
defensores, que lhe opuserarn fraca resisteneia. 

feste unico sucesso abriu aos portugueses a entrada 
para a cidade, e os cidaditos, descorfjoados pelas profe- 
cias dum mendigo asceta ( jotjui), que aludiam a sua 
conquista por urn povo estrangeiro de terra distante, 
se renderam imediatamente. A 17 de Fevereiro, 
oito mouros principais do logar oferccerain, de joe- 
Ihos, a Albuquerque as chaves da fortaleza, junto com 
mua grande bandeira, quo se costnmava desfraldar 
nas ocasioes das festas publicas ; e Albuquerque, 
montado em um cavalo soberbo e ricamente ajaezado, 
entrou na cidade em procissao triunfal, ao clangor das 
trombetas e rufo de tambores, com a bandeira portu- 
guesa conduzida pela flor da nobreza lisbonense e com 
uma cruz dourada, que levavam a testa os clerigos 
dominicanos; e dirigiu-se para o palAcio de Adil- 
Shah entre as aclama^oes da imensa multidao, que 
cobria o novo dominant? de flfires nligranadas de 
ouro e prata. 

Albuquerque, feito, quasi pacificamente, senhor da 
sua ambicionada capital, tratou os habitantes cora a 
mAxiraa moderagao e clemencia, e, por meio dum pre- 
gSo, langado em lingua vernsicula, garantin-lhes a com- 

J leta seguranga pessoal e da propriedade, dos sens 
ireitos e privileges, prometendo justiga e protecgao 
igual para todos os que, dai para o diante, fossem 
sdbditos de rei de Portugal. 

As provincias de Salsete e BardSs entregaram-se, 
tambdm pacificamente, a Albuquerque, que as arren- 



dou a Timqja, obrigaudo-se ciste a pag.ar por elas 00 
mil pard&us cm ouro, livres de todas as despesas. 

Emquanto Albuquerque estava, por ostes meios, 
conciliando o povo e lirmaDdo a sua autoridade em 
Goa, Adil-Shdli reuniu uma esmagadora forga de 
60,000 homens e, ajudado secretamente pclos rnugul- 
manos da localidade, que, arrependidos da sua preci- 
pitada eutrega, suspiravam pela antiga dominagiio, 
vein cercar a cidade, tres meses depois de tomada pe- 
Ios portugueses. 

Ap6s urra curta e improficua resisteneia, Albu- 
querque viu-se obrigado a abandonar a sua preciosa 
acquisigao e recol!ier-se a frota com os sens conterra- 
neos, nilo tan to pela superioridade das forgas inimi- 
gas, quanto pelas discordias que lavra vain entre os 
pr^prios capitftec portugueses. 

fiste aconteeimento teve logar a 23 de Maio de 
1510, quando comegou a estnvao invernosa. Como o 
tempo proceloso inlo consentia a frota largar o porto, 
resolveu Albuquerque perma never ancorado, durante 
o inverno, del'ronte da fortaleza de Pangim, onde os 
portugueses tiveram de sofrer terriveis privagoes e 
extrema roiseria por falta tie provisoes, ehegnndo a 
comer ratos e couio, como os antigos romanos encer- 
rados no Oapitdlio, 

Contudo, Albuquerque nao perdeu a eoragein e. a 
15 de Agosto, logo que se diminuiu a 
Searundn con- for<;a da estagfio, parti u para a ilha 
quista de C.oa Angediva. Na sua viagem rece- 
beu um inesperado reforvo, vindo de 
Portugal em 10 navios, e a agradsivel noticia. que 
Timoja Hie deu, de ter-se ausentado de Goa o prinoi- 
pe maometano. Em oonseqiieneia disto, partiu para 
Cauanor c, feitos os preparativos necessdrios, com 
uma grande armada de 28 navios, tripulada por 
1.700 homens, aldm das tropas de Timoja e do 



41 


raja <le Garsopa, ( x ) voltou para Angediva, onde 
reuniu em conselho os seus capitfies e fidalgos, e, por 
tneio de uin frisante e patftico discurso, persuadiu-os 
da necessidade de retomar a cidade de Goa. 

Recebido o sen projecto com grande aplanso e eu- 
tusiasrao, ainda por aqueles que a principio the eram 
adversos, Albuquerque deu as instrufoes precisas 
para um bem planeado ataque a cidade, e, a 24 de 
noverabro, a frota, entrando no porto de Goa com as 
bandeiras desfraldadas e a toque de trotu betas, fun- 
deou imponente defrotite do vale de Banguinim. 

Era bem escolhido o memento para o assalto. 

0 rei de Bijapur, Yusuf Adil-kliau, falecido nesse 
inesmo ano, deixava por herdeiro do trono seu 
lilho menor de blade, por nome Ismail Adil-Sliah, 
que mal podia calcular a graudeza do perigo que 
ameaoava os seus dominies na costa. A defeza da 
cidade liavia sido conliada ao seu governador Rasul- 
Khan, quo tinlia debaixo de si a torqa de 4,000 solda- 
dos na cidade e mais 4,000 nos arrabaldes. 

No dia 25 de novembro ( segunda-feira, dia de S. ,n 
Catarina ) os portugueses, divididos em tres colunas, 
coraecaram o ataque na direcgao da Ribeira ou Arse- 
ual ; mas. encontraram uma vigorosa resistcncia da 
parte adversa. Apds um porliado combate, subiratn 
alguns as muralbas e plantaram sobre elas a bandeira 
das quinas. ao tempo que os outros, conseguindo 


(0 < iarsopa, liojc- Gairsapu ou Gerusapc, foi, outrora, uma 
cidade famosu. capital dum dos estados sujeitos ao rci de His- 
uagiir. e nao distant*! de Onor. Afonso de Albuquerque assistiu 
ao casamento dutnit lilha do l'aja de Garsopa com Timoja. sobe- 
rano de Otter. Garsopa produ/.iu abundante pimenta, tptc os 
portmrncseR iatti Imsjar, cliamando A rainha, que governava a 
terra *-mi h'.i'f, a nun h > ila /uiwttta. I. Gracias. A India cut 



42 


abrir a porta com valentes esforgos, penetraram na 
cidade no meio de vibrantes gritos levantados era 
honra de S. Catarina. 

Dentro da cidade a batalha foi sangrenta. Os mu- 
gulmanos investiram com valor e desespDro ; os por- 
tugueses guerrearam com redobrado vigor e, a custa 
de sangue e heroismos, venceram. Estava pois to* 
mada Goa. 

Sucumbiram na luta qu&si 2000 mu$ulmanos e 
o resto salvou-se escapando pela porta principal da 
Alfandega. Os vencedores perderam apenas 40 ho- 
mens, ficando 150 feridos. 

Dentre os habitantes, que, acossados de medo, qui* 
seram fngir pela porta meridional, diz-se terem pere- 
cido qu&si 3 mil, pela maior parte muqulmanos, na 
sua tentativa de atravessar o rio. 

Afonso de Albuquerque, que estava postado com a 
sua coluna no monte vizinho a dirigir o combate, 
logo que o fidalgo Antao Nogueira Ihe foi dizer : 
“ Senhor, a cidade e entrada dos nossos e ganhada 
nesle dia, que neste logar ainda estard a casa de N. 
S/*do Rosdrio ”, respondeu : “ Casa de N. S. ra do Ro- 
sdrio e do bem-aventurado Santo An- 

Entrada do tdnio”, e, descendo, entrou na cidade 

'’na'cidade 1 ' co,n a bandeira real desfraldada a 
frente, e pondo*se de joelhos a ren- 
der gramas a Deus pelo bom sucesso das sjas arraas, 
fr. Domingos de Sousa entoou solenemente a sua 
oraffdo ( Te Deurn ). Era seguida, Albuquerque 
abraqou comovido os seus capi tiles, louvou-os. pelo 
seu valor herdico e lhes conferiu condecoragdes. ( l ) 

Concluida a conquista, Albuquerque tratou de con- 
sol idar o seu domirno, e, dominado por urn sentiraento 
de vindicta, que Rt o seu seculo podia desculpar, 

(>) Lends*, vol. 2 pag. 152. 



43 


ordenou passar a fio de espada toilos os nnujulmanos 
da ilha, por julga-los nocivos ao sossego dela. Fo- 
ram mortos mais de 6 mil, sem diferenga do sexo 
oem da idade ! 

Ao depois, deu-se ao cuidado de reparar e aumen- 
tar as fortificaqoes ; embelezou a cidade com a erec- 
qao de vdrios edificios; levantou uma 
capela em honra de S. Catarina, que Politics 
logo foi convertida em igreja da an- Governativa 
tiga Se, com um hospital contiguo; 
e transformou o paldeio do Subaio em pal&cio dos 
governadores. Organizou o governo municipal j\ gui- 
za do de Lisboa; estabeleceu leis e tribunals de juati- 
5a, animou o comercio, conservou o sistema das co- 
munidades agricolas, que vigorava em Goa, aliviou 
possivelmente os impostos pesados, tnandou cunhar 
moeda portuguesa nuroa casa fundada para esse efeito; 
tolerou as eren$as religiosas, proibiu a pratica do 
sati, (*) isto e, que a viuva liindu se incinerasse em 
vida na pira do marido; favoreceu muito os casamen- 
tos de europeus com mulheres indigenas ; e tinal- 
mente nilo poupou esforgo algum para toinar a cidade 
mais florescente e digna de ser um dia a metrnpole 
do imperio oriental. (*) 

Deixando Goa deHnitivamente portuguesa, e, con- 
fiado 0 comando da fortaleza ao valente fidalgo Ro- 


(') Coinent'irios de Alonso de Albuquerque. parte pag. 

116-117. 

(*) Em mcruoria do feito de 25 dc noveinbro, Albuquerque 
mandon p6r um padrao, em logar conspicuo, coin inscrif&u come- 
morativa dos cupitiies (pie bavin 111 tornado parte na batalha. Sus- 
eitaratr-se logo competdncias e inelindres; motive porque o glo- 
rioso heroi mandou gravar apeuas estas aigniticativas paluvras. — 
Lapidem quern reprobnverunt (vdificantes. 



44 


Conquista de 
Mala ca 


drigo Rebelo, partiu o heroi, com umagrossa armada, 
para conquistar Malaca, que havia sido descoberta 
por Diogo Lopes de Sequeira em 
1509. No primeiro assalto, em que 
obrou prodigios de valor, nSo conse- 
guiu o intento; porque o cansago, 
que se apodenvra das suas tropas, obrigou Albu- 
querque a recolher-se & frota, mas, no segundo co- 
metimento, e, depois de alguns ligeiros eombates, 
assenhoreou-se daquela regiao, em 17 de julho de 
1511; e, consolidado all o poder portugues por sua 
politica de conciliagao e brandura para com os venci- 
dos, voltou a Goa. 

Enquantn, por6m, Albuquerque expugnava Malaca, 
a ilba de Goa se contorcia numa crise assustadora. 
Historiemos. 

Quando pela priraeira vez, o grande herdi tomou 
paciticamente posse da cidade e ilha de Goa, as terras 
de Salsete, Bardes, Ponda e outras, que estao na 
terra firme, incluindo Belgflo, passafam, tambem, para 
o dominio portugues, por serem tanadarias (distritos 
administrativos e judiciais), sujeitas a essa cidade, sua 
capita), pagando os seus babitantes osdireitos e as con-* 
tribuiqdes, que costumavam pagar ao seu antigo pos- 
suidor, Adil-Khan ; e foram todas arrendadas a Ti- 
moja por 60 mil parddus de ouro, livres de todas 
as despesas. 

lleconquistada a cidade em 25 de Novembro de 
1510, Albuquerque apossou-se tambem dessas tanada- 
rias e as arrendou, por 52 mil pard&us de ouro, a um 
outro hindu, por nome Mei-Rau (Madbav-Rau), que as 
defendia com uma guarniqAo de 5 mil homens de terra. 

Em 1511 Adil-Khan, querendo 
Adil-Kban ex* recuperar os seus dominios, mandou, 


polso de Ba- 
nastarlui 


na ausencia de Albuquerque, um 
capitdo com um numeroso exdrcito, 



45 


o qual, tendo desbaratado Mel-llau, invadiu a ilha de 
Goa, sustentando-se valorosamente na antigafortaleza 
de Banastarim, que restauroa na ocasiao ; Albuquer- 
que, pordm, voltanlo de Malaca, cercou-o por mar 
e terra e, envolvendo-o mini ci'rcub de fogo da arte- 
lharia, o derrotou e expulsou da fortaleza e da illia, 
a 2 de abril de 1512, consoliJando assitn o estabe- 
lecimento portugues Desta ilhd, onde o inimigo ntfhca 
mais entrou. 

Entre as pe§as, que guarneciam o forte, encontrou- 
-se o grande pedreiro, de 16J palmos de comprimen- 
to e de 14 polegadas e 3 linhas de calibre, construido 
de barras de ferro, da espessura de uma polegada, 
abra^adas por fachas de bronze, chamado Pega de 
Benastarim , que, por rnemoria do brilhante feito, 
esteve, por muito tempo, guardado no Arsenal e hoje 
se encontra no Campo de D. Manoel, em Pangim. 

Mas, Albuquerque nao pode, por falta de sufi- 
eiente for<;a, reaver as tanadarias, que ficaram em 
poder do inimigo, das quais sdmente 
duas, Salsete e BardSs, passaram Perda das ter- 
definitivamente para o dominio por- ras *' r,,,es 
tugues mais tarde em 1543, corao 
adiante veremos. 

A sua expediqilo para a costa ocidental nao foi tflo 
feliz. No intento de segurav a cdiave do monopdlio 
do comdrcio oriental, planeou tomar Aden ; e em 
1513 atacou a cidade, no domingo da Piiscoa, com 
uma f6r$a de mais de 200 soldados; mas a tenaz re- 
sistencia que sofreu obrigoti-o a adiar para outra vez a 
execuqilo do sen piano. Explorou em seguida o Mar 
Vennelho em todas as direcgoes, bombardeou as cos- 
tas e espalhou tamanho terror, que, & noticia d6stes 
sucessos, acudiram a G6a embaixadores de qudsi todos 
os Estados orientais, procurando a paz e a alianga; 
e muitos d§stes se fizeram seus tribut&rios ; e o novo 



46 


Saraorim, irtnfto e sucessor de quera tora nosso velho 
inimigo, consentiu, ern 1512, que os portugueses 
levantassera nos sens dominios uma 
Fortalez;. em fortaleza, com a conditio de qne os 
(alu'ut mouros pudessem, obtidos os carta- 
ges dos portugueses. comerciar com 
a costa da Arabia cm quatro navios. Ksta fortaleza 
dnrou ate 1525. 

Ena fevereiro de 1515, Albuquerque levou a expe- 
di^ao sobre Ormuz, que era entao a jdia mais pre- 
eiosa da coroa da Persia, apoderou- 
Conquista lie se desta eidade, cujo soberano se 

Ormuz obrigou a pagar a cl-rei de Portugal 

15 mil xeralips de ouro por ano ; e, 
sentindo-se gravemente cnformo, regressou a Goa, 
aonde jA havia chegado o sen sucessor no goveruo da 
India Lopo Soares ; mas, autes de desembarcar 
faleceu, apurado de desgostos, a 15 de dezembro de 
1515 (*), na idade de 63 anos, mal com el-rei por 
amor dos homens e run I com os homens por amor a el- 
rei. A iutriga, que trabalhava na corte, havia con- 
snrnado a sua obra. 

Os indigenas, que o nao criam morto, por vezes 
recorriaiu t\ sepulturado herdi, na igreja de N. S. r * da 
8erra, edificada por ele em 1514, pedindo-lhe justiqa 
contra os desmandos e vexaqoos dos portugueses ; e 


(•) E’ a verdadeiva data do falecimcnto, sogundo so vO da 
inscri^flo gravada no surcdfugo de Albuquerque, que baponco 
se descobriu na velha eidade dc Goa, e que, tvausportado para 
Lisboa era Dezembro de 18i)5, a bordo do courayado Vasco da 
Gama, pc.rtci-ce lioje a Sociedade de Geografia. Vide : Ismael 
Gracias, R*Iahfio da flibliofi’ca Publico, de 1803-1804. png. 
23-24, e i ’n ski tla Gama c o desrobriineufo do caminho niariliino 
dalttlia, pa«*. 52, acta, — Luciano Cordciro, Kelntdrio publiendo 
no tioleliin da S. G. L. n.° 4. 15.® s<'*rie. 



47 


tal era a piedade com que guardavam e veneravam 
essas preciosas reliquias, que tenazmente se qpuserain 
h sua translada^ao para Portugal, tendo side final- 
mente obrigados a ceder a uma bula pontificia, que os 
ameagou de excomunhao. 


CAPlTULO III 


( 1515-1523 ) — Os tr£s primeiros sueessores 
de Albuquerque 

Depois da morte do grande Albuquerque nao hou- 
ve um piano de governo fixo neui seguido. A disci- 
plina come§ou a afrouxar, a corrugao foi enervando 
o brago e o prestigio, as dissenqoes entre os portu- 
gueses tornaram-se vulgares e escandalosas, e, faltan- 
do a politica com ( que o prinieiro governador havia 
mantido a paz na India, surgiram guerras em todos 
os pontos. Foratn os primeiros sintomas que se 
manifestaram da nossa decadencia. 

Contudo, o imperio indiano n&o so subsistiu, alimen- 
tado pela bravura e homogeneidade, com que os por- 
tugueses domavam as revoltas, mas, ate cresceu pela 
heroicidade, que desenvolviam nas guerras de con- 
quista que por algutn tempo prosseguiram. 

UTo govSrno de Lopo Soares de Albergaria, (1515-18) 
sucessor de Albuquerque, Fernfio Peres de Andrade 
partiu com uma armada para desco> 
brir a China e, passando pela ilha de Relates de 
Sumatra, construiu uma fortaleza ^ 0> a china 0m 
no reino de Pacdm, com a permissao 
do Sultao; e, tendo' aportado a Cochinchina e depois 
a Cantfto, estabeleceu pazes com os mandarins e 



lanqou a semente cle boas relagoes entre Portugal e a 
China ; relagoes que, tres anos mais tarde, se trans- 
tornaram pelo procedimento irapolitico de Siraao de 
Andrade. 

Entretanto a armada do Egipto, que fora derrotada 
no tempo de D. Francisco de Almeida, e que, com a 
morte de Albuquerque, ganlidra forgas e atrevimento, 
artelhada com mais de 500 canhoes, saiu de Suez, 
sob o comando de Bas-Suleiman, para atacar as pos- 
sesses portuguesas. Lopo Soares, em fevereiro de 
151fi, foi em pessoa procurd-la no Mar Vermelho, e, 
por tal forma a perseguiu e aperton, que, nao podendo 
destruil-a. deixou-a paralizada no porto de Jidd : e, 
para niio voltar sem algum triunfo. incendiou a cidade 
de Zeila, na costa da Etiopia. 

Na ausencia do governador, porem, deu-se em Goa 
um episodic vergonhoso. que esteve para oeasionar a 
pei'da desta cidade. 

I). Guterres do Monroy, capitao da cidade (*), an- 
dava enamorado da mulher dum Fernilo Caldeira, que, 
tanto por este motivo, como por cau- 
Consequnu ia sa rixa com o capitao Ilenrique 

Voinaiitieo 10 ^e I’oro, a quern decepara uma per- 
na. se refugiou em Pondd, sob a 
protecgao do capitao mouro que governava essa terra, 
pertecente a Adil-Shdh. D. Guterres, nao podendo 
couseguir a entrega do hotniziado. que solicitdra, 
enviou um sicdrio a Pondd e fez assassinar secreta- 
raente Fernao Caldeira. Tndignado por esta traigao. 
o capitao mouro prendeu imediatamente o sicario 
e o tnandou enforcar. 1). Guterres, para vingar a 


(0 Cargo naqnela epoea inaportante c imediato ao do goverua- 
dor on vice-rei. Correspondia, pelas fnn$<5c9, ao do administrador 
dc con<.«lho na raodcrna linguagcna administrate va. 



morte do seu emissario, t’oi assaltar Ponda,; mas, a-pe* 
sar-de conservar no roaior segredo o seu projecto. 
achou o raouro preparado e sofreu tfio brava derrota, 
que deixou ali 200 homens, eutre inortos e prisionei- 
ros. Nflo i’oi cste, coutudo, o maior descredito : 
Adil-Shah, sabendc o caso, vein cerear Goa com nuine- 
rosas formas muqulmanas, espalhou anguslia e terror, 
e ter-se-ia apossado da cidade, se nfio llie tivesse 
acndido, vindo de Ormuz, D. Aleixo de Xlenezes, que 
fez levantar o cerco e a reputable das armas portu- 
guesas. (') 

Em 1518, lima esquadra de 17 navios, comandada 
por Lopo Soares, velejou para Ceilao. eonstruiu, a 
pre$o de sangue, uma fortaleza era 
Colombo, contra a vontade do seu Fortaleza eni 
soberano ; e abriu comereio com Ceilao 

essa rica ilha, que acabava de avas- 
salar, mas que, cm breve, viria a ser mais uma 
causa de constante luta para os portngueses. 

A esse tempo, Malaca era o teatro de disedrdias en- 
tre os capitaes, que ambicionavam a sucessao no 
comando da fortaleza, vago pelo 
falecimento de Jorje de Brito, e que Disedrdias em 
prendiam uns aos outros, descui- Malaca 
dando-se tanto na defesa da cidade, 
que o rei de Bintam, urn dos nossos mais terrfveis ini- 
migos, chegou a nutrir esperan^as, de se apoderar dela. 

Durante o govC-mo de Diogo Lopes de Sequeira 
(1518-22), que sucedeu a Lopo Soares em Dezembro 
de 1518, travaram os portngueses 
relates amigaveis com a Abissinia e Fortaleza em 
com as Mulucas : e, emquanto An- €hanl 

tdnio Correia, numa viagera ao Golfo 


0) Barron Dec. 3/ 



50 


P 6 rsico, tonoava a ilha de Bahrein o, voltaudn da ern- 
baixada de Pegd, salvava Malaca do apertado c 6 rco 
posto pelo rei de Bintam, Diogo Fernandes de Beja, 
nao conseguindo fundar nma Fortaleza era Dili, muito 
reepmendada por el rei D. Manoel, fnndava era cora- 
pensapilo uraa outra era Chaul. 

Continnavara assira os portngueses a ampliar as 
raiasdo seu imperio, sera calendar os inconvenientes de 
se espalharem as tropas, para snstentar estabeleci- 
raentos t.;io dispersos. E esses inconveuientes apa- 
receratn logo. 

A Fortaleza de Conlito foi sitiada pelos indigenas 
sublevados, e o governo de (loa, pedidopara socorrer, 
nao pode enviar-llie senao uni refor- 

Assalto As go de 25 liomens para coadjnvar 

fortalezas 0R 3 q Ue se achavam era defesa 

daquela prapa ! 

Caso igual repetiu-se era Ceilfio. Vinte mil habi- 
tant.es da ilha, provocados pelos despotisroos e irapru- 
denciasdos portngueses, ce roar. am a Fortaleza de Co- 
lombo, qne, depois de geircr cinco meses a falta de 
forpas, recebeu de Cochitn apenas 50 soldados era 
auxilio. 

Contudo,#*) que sc riao deve calar. e que estas 
pequenas guarnipSes. cvnpenhando urn extreraado es- 
fdrpo e suprindo o mimero pelo valor, 00 mo era habi- 
tual nos portngueses dcssa epoca era seraelhantes 
conjunturas, desanimaram os assaltantes e, salvando- 
se ambas as fortalezas, ditaram a pazaos respectivos 


inimigos. 

Ern 1520, emquanto Diogo Lopes de' Sequeira in- 
rernava era Ortnuz, as tanadarias de Bardes, Salsete, 
e PondA passarara dos mouros para 
Tanadarias 0 dominio portugues. Foi 0 caso. 
cedidas Tendo partido Diogo Lopes com 
grande armada para Ormuz, Adil- 



Khan julgou a ocasiao propicia para vir ataoar a 
cidade de Goa, que se achava desprevenida, Mas 
Krisoa Rdy, rei de Bisnagar, i’oi contra ole e 
lhe toraou as cidades do Radiol. Belgiio e todo o 
territ<$rio vizinlio a (i 6a, eiu 1!) de Maio de 1520 e 
avisou Rui de Melo, capitaodo Goa, quo viesse tomar 
posse das tanadarias dc Hardos, Salsete. e Pondii. 
porque ele havia por bem i’azer delas doagao a el-rei 
D. Manoel. Rui dc Melo agradeceu-llie o favor e. 
entrando na terra fir me com alguma cavalaria e peu- 
nagem, tomou posse das tanadarias, as quais se per- 
deram depois e tornaram a ganhar-so 

O ano de 1521 foi assinalado pc la revolta de 
Ormuz. 

Sob o pretexto de que eram roubadas as rcndas 
desse Estado tributario, os portiigueses, sogundo a 
determinagao do rei I). Manuel, me- 
te ram seus oficiais na allandega da- Kevolta ein 
<piela cidade; mas, o soberano do Ormuz, 
pais, a quern era suspeito tamanho 
zelo pelo seu inleresse, iiisurgiu-so. A. revolta reben- 
tou com um aspecto temvel, muitos portiigueses 
foram mortos e os outros, apertadamente cercados 
na fortaleza, puderam, contudo, salva-Ja gramas nos 
socorros prontos quo lhes vieram de Mascato e de 
Calaiate. 

0 rei de Ormuz, que cm tudo se deixava dominar 
pelo seu imperioso minislro Rais Xaral'o, vendo o 
man resullado dos seus esfory.os. retirou-se *coiu ele 


(*) Oamifio de Gois Chronica dc 1). Manuel loam pag. 
65f> ; Castnakcdn, Hist, dos dcscobrinunlox livro b." pan. -:>7. 

Scguudo Joao dc Ltarros, ( Dee. 3.* liv. 4 c ;> ) Rui de Melo 
conqniatou as terras lirrnos depois do dcsbnrato de Adil-Kliuu: c 
nSo foram oferecidas. 



para a proxitna ilha de Queixorne. Xarafo era ini- 
migo figadal dos portugueses, porque desejava read- 
quirir e exercer, era noinc do rei o poderio que Afon- 
so de Albuquerque llic havia tirado e os portugueses 
Ihe niio consentiam. 

A esse tempo comegara a goveruar a India D. Dnarte 
d8 l(01)8Z0S (1052— 24), cuja admiuistragao foi lima ram- 
pa de vergonha, por unde foi rolando o uosso imperio. 

D. Duarte, avisado da ocorrencia de Ormuz, mandou 
logo seu irmfio, l). Luis de Menezcs, com uma. esqua- 
dra; mas, quando este chegou, estava a revolta domada. 

D. Luis quis restabeleeer as relaqoes amig&veis 
com o rei de Ormuz, que no fundo tamhem as dese- 
java ; mas Xarafo. obstinadamente se opunha e inuti- 
lizava todos os esforgos dos portugueses, tendentes a 
composigao. 

D. Luis de Menezes, segundo o espirito pouco es- 
crupuloso do seculo, tratou de estabelecer inteligen- 
cias secretas com o rei de Ormuz para se desfazer de 
Xarafo pelo assassinio. Xarafo presentiu a combina- 
gfto e antecipou-se. Pez assassinar o rei, substituin- 
do-o por outro maisc^nveniente a seus projectos. 

Ketirando-se D. Luis para a India, os portugueses 
que estavam em Ormuz, para se verem livres de 
Xarafo, que cootinuava a embaragar a conclusao das 
negociagoes, julgaram iudispensavel mata-lo, e um 
homem, chamado Rais Xemesim, se encarregou de por 
em execugao este projecto; Xarafo escondeu-se longe 
da ilha, ate que, seudo descoberto, foi preso e ficou 
esperando a deteruiinagao do governador, quo, breve, 
chegaria a Ormuz. Apenas se realizou a prisfio deste 
cmnipotente miuistro, o novo rei da cidade, que 
ralia urn faDtasma, apressou-se a fazer as pazes. 

Em h evereiro de 1523, chegou D. Duarte a Ormuz, 
e entendeu que era melhor trabalhar para si do que 
para a p/itria; pois, com graude espanto de todos, deu 



53 


soltura a Xarafo, mandou, por intrigas deste, matar 
Xemesim, amigo dos porcuguescs, e assentou um tra- 


tado com o rei de Ormuz com inuito 
rnenos vantagens do que as que 
Afonso de Albuquerque tinha dei- 
xado firmadas. E’ que a cobiga de 


Procedimento 
igndbil 
de D. Duarte 


D. Duarte encoutrara algum repasto na grande 
riqucza de Xarafo. D. Luis de Menezes, um dia, 
langou em rosto ao irmao esse seu igndbil pocedi- 
rnento, dizendo ser indigno dum representante da 
pessoa real andar fazeodo oficio de pirata. D. Duar- 


te accitou a repreensiio, mas niio se corrigiu. 

Entretanto, um capituo maudado por Adil-Xa 
vciu pela parte de Ponda, com mais de 5 mil ho- 


meus, atacar as tauadarias, que Ruy 


de Melo admiuistrava e, por dois 
dias, cercou o tauadar-mdr Fernao 


Perda das 
tanadarias 


Anes do Souto-Maior num ternplo 

de Mardol (em Verna de Salsete), que tinlia a forma 

duma fortaleza. Fernao Anes, apenas livre do cer- 


co pela presenga do socorro levado por Antonio Cor- 
reia, travou um ligeiro combate, em que os mouros 


perderam mais gente do que os nossos, mas levaram 
as tanadarias; pois, o governador nfio tratou de recu- 


pera-las, pelo pretexto de nao quebrar as pazes que 
tinhamos com o Adil-Xa. 


No ano de 1522, Ant6nio de Brito, partindo de 
Malaca, foi construir uma fortaleza em Ternate (Mo- 
lucas ), a pedido do sult&o dessa ilha, que quiz 
ter os portugueses a seu lado, porque andava em 
constante guerra com o seu vizinho, o sult&o de Tido- 
re. A fortaleza foi edificada em paz, sendo a undeci- 
raa que tiveram os portugueses na Asia. Mas, em 
seguida, Antonio de Brito, descontente com o sult&o 
de Tidore, por @ste ter recebido favordvelmente os 
castelhanos da expcdig&o de Fernao de Magalhaes, 


4 



proibiu-lhe a livre vendagem de cravo e provocou- 
com esta tiranica exigencia uma nova guerra, em 
que, e verdade, o sultao foi derrotado, mas os portu- 
gueses, alem de perderem mnitas vidas, gannaram 
nele um implacdvel adversario do nosso prcdominio 
nas Molucas. 

Coustruida essa nova l'ortaleza, eliegou a vez de se 
perder uma das velhas no extremo oriente, a de 
Pacera, na ilha de Sumatra. 0 co- 
Perda da forta- mandante desta l'ortaleza era D. 
leza de Pacdm Andre Henriques, liomem que, por 
sua cobiqa e roubos, excitava o odio 
dos indigenes e tremia, depois, diante da sublevagao. 
Seu cuniiado Aires Coellio, alcaide-mor da fortaleza, 
ambicionava-llie o logar e i'azia dele um instrumento 
do seu piano. Felizmente os soldados valiam mais 
do que o coinandante, e defenderam a forta leza valen- 
temente nao so das agressoes dos indigenas, mas, e 
principalmente, das do sultao de Aquem, inimigo 
irrequicto do nosso estabelecimento de Pacem. Mas, 
a final, naseeram iais dissensoes entre o comandante 
c seu cuniiado, que os. part ids trios de cada um deles, 
nao ousando confiar uns dos outros e com o receio de 
uuituas traiqoes, abandonaram a merce do inimigo 
a fortaleza com toda a artilliaria, que a guarnecia e 
constava de 120 bocas de fogo. 

No tneio destes vergonhosos episddios nao deixa- 
va de fulgir de vez em quando um relaxnpago de he- 
roicidade. 

A cidade de Malaca tinha por acdrrimo inimigo o 
sultao de Bintam, quo, no primeiro ano do governo de 
D. Duarte, havia alcanqado uma vitdria contra os por- 
tugueses no rio de Muar. Auimados com esta derro- 
ta dos nossos, os outros regulos da costa n3o duvida- 
ram hostilizar-nos, eo sultflo de Pam, que, ate ai, pro- 
curara a uossa alianqa, teve a ousadia de mandat 



assassinar todos os portuguescs quo iam comerciar ao 
seu reino. 

D. Sancho Henriques, que, para vingar o desastre 
do rio de Muar, corria a costa com urn galeao e dois 
navios, a fazer presas, separado dos 
navios por uina tempestaile, foi pa- t’ni keroismo 
rar com o galeilo ao p6rto de Pam, ^ os Portuguese* 
onde estavam 30 lancharas do sultilo 
de Bintam. D. Sancho, embora recebido com mos- 
tras de amizade, percebeu logo que era traido. 
Sessenta luncharas vieram atacar o galeao portugues, 
e, a-pesar da grande despropor<;ao de forqas, a luta 
foi l’eroz e horrivelmente sanguinolenta. Os inimigos, 
a custa de graves pcrdas, conscguiram matar a maior 
parte dos nossos. Contudo, I). Sancho nao pensou, 
urn memento so, cm reuder-se; pelo contrdrio, reunin- 
do ainda os 13 homens que Ihe restavam, continuou 
o combate com ardor e sein treguas, ate que, caindo 
ostes valeutes portugueses um a urn, inorreu afinal o 
prdprio D. Sancho, e o galeao, coinnlhtamente ermo, 
haloi^oit sdbre as sign as do oceano como urn enorme 
caixao inortuario atulbado de cudaveres ! 

Hsta vitdriu custou aos inalaios a perda de algumas 
erobaroayoes c de tnais de 500 homens. 

Contudo, a cidade de Malaca continuou a ser opri- 
inida. Pois, o sultilo de Bintam, confortado com as 
vitdrias, veiu p6r cerco a essa cidade reduzindo-a ao 
extrerno npcrto. Restabeleceu-se, porem, ( a fortima 
portuguesa, quando cliegou o socorro da India, co- 
inandadu por Martim Afonso de Souza, capitito va- 
lente, que infligiu um castigo cruet a Bintam, Pam e 
Panane. 

Com D. Duarte fecha a sdrie dos governado- 
res da India, nomeados por D. Manoel. que faleceu 
om 1521. 



oti 


CAPlTULO IV 

1324-1329.— Vice-reinado de Vasco da 
Gama ; vias de sucessao 

Inforroado el-rei D. Jofto 3.° do desprestigio do 
predominio portuguds na India, lembrou-se de enviar 
o prdprio Vasco da Gama ( 1 524 ) como vice-rei, na 
esperan$a de que este carncter inflexivel poria c6bro 
As desordens e a corrup<;fio interna das colbnias. 

E de facto, durante o seu eurtissimo governo Vasco 
da Gama raostrou que a sua avan$ada idade nao tinha 
afrouxado o vigor do seu espirito, nera ado^ado a 
severidade do seu carActer. 

Quando a armada que o conduzia cbegou As costas 
do Malabar, uma convulsSo submarina agitou o mar e, 
imprimindo um terrivel balan§o aos 

Caracter de navios, espalhou terror na tripula^ao. 

Gama “ Nao hajais medo ; tremem de nds 
os mares ”, disse Vasco da Gama, 
erguendo-se impAvido no meio dos marinheiros ater- 
rados ('). E essa frase hiperbdlica bastou naqnele 
momento para dissipar os sustos dos tripulantes. 

Chegado a Chatil, entregou a capitania da forta- 
leza, a Cristdvao de Sousa, que nela vinha provido 
da metrdpole, ordenando-lhe que nao reconhecesse 
como governador a D. Duarte de Menezes, se apa- 
recesse ali de volta de Ormuz, onde entao se achava. 

Em Goa deu posse da capitania a D. Henrique de 
Menezes, que tambAm vinna nomeado para ela e, 


(’) Oamoes refere-se a Sate facto nos Lusiadas, c. II. eat. 47. 



57 


atendendo aos queixosos, obrigou o antigo capita o 
Francisco Pereira Pcstana a pagar os prejuizos ique- 
les a quem os havia causado por suas exacQoes : e 
Pestana teve de obedecer. 

Ainda em Goa Vasco da Gama mandou agoutar 
tres mulheres que tinham vindo de Portugal escon- 
didas na sua frota contra as suas ordens ; e, nao 
obstante os einpenhos respeitdveis que se interpuse- 
rain para obter o perdao, a sentenqa foi executada ; 
porquc Gama entendia que, vindo ele para coibir os 
abusos, nao podia comegar por perdoar. Mais tar- 
de, porem, reconheceu talvez que a sua severidade 
fora demasiada e bora da morte legou 100 mil 
reis a cada uma das agoutadas. 

Em Cochim ordenou que D. Duarte de Menezes, 
inandado regressar de Ormuz, recolhesse preso ao 
reino t\s ordens de el- rei. Substituiu o governador 
de Ceilao e intimou-o para vir a Cochim dar contas 
da eoncussao de que era acusado. Fez restituir aos 
armazens reais a nossa artilharia, que liavia chegado 
ao mercado para ser vendida aos mouros. E, en- 
quanto fazia preparativos para uma guerra geral con- 
tra os corsarios do Malabar, quando o rigor da sua 
administraguo prenunciava a volta dos saudosos tem- 
pos de Albuquerque, salteado duma doenga faleceu 
em Cochim com pouco mais de 3 meses de governo, 
a 25 de Dezembro de 1524, ano em que, segundo a 
opiuiilo mais prbvavel, uasceu em Lisboa Luis de 
Catndes para cantar nos seus Lusiadas os sublimes 
feitos desse heroi, que, 27 anos antes, descobrira o 
caminho maritimo para a India. (') 


Vide Teixeira de Arag&o, Vasco da Gama e a vila da 
Viiligucira , 2.* ed. “ Os verdadeiros restos mortals do grande 
almirantc, cuja gloria Portugal comemorou estc ano em sojene 
jubileu uentcuario, ussouiando-sc-lhc as principals na$oes, foram 

4 * 



58 


Foi com Vasco da Gama que o governo da rnetrtf- 
pole, como que por um pressentimento da prdxima 
morte dcste vice-rei, inaugurou o 
Vias de sistema das sucessoes, que consistia 
sucessao em trazer cada governador tres car- 
tas cerradas, chamadas vias de su- 
cessdo , nomeando tres dos capitfics das fortalesas da 
India, que lhe deviam suceder. Dessas cartas, que 
vinham numeradas ordmalmente, seria abertasd a 1* 
no caso da morte do governador que as trazia ; niio 
existindo o sucessor nela indicado, abrir-se-ia a 2. a ; e 
repetindo-se o caso, a 3.\ Este processo tinha por 
fitn prevenir as desordens que podiam nascer ao tem- 
po da transmissao do governo. (*) 

Por morte de Vasco da Gama a primeira via de 
sucessao indicou para governador D. Henrique de WJene- 


trasladados da igreja da Vidigueiru para a dos Jeronimos, dc 
Belero, a 9 dc maio ultimo, corrigindo-sc assirn o lamentavel 
engano havido em cgual trasladagOo feita no ano do 1880. No 
escrnpulo 80 exame a que se procedeu, notou-se no jazigo a falta de 
algumas pegas do esqueleto, scndo u mais important^ um femur. 
0 dr. Serrano, professor da escola mcdico-cirurgica de Lisboa, 
media com um compasso de espessura o craneo que se acfoa muito 
bem conservado e naostta ter de dhimetro longitudinal maximo 21 
centimetros, — de diametro transversal maximo 15 centimetres — 
circunferencia 56-i, o que corresponde a index cefalico de 71 con- 
tilIletros. ,, (0 Seculo , de Lisboa, n.° 8862 de 9 de maio de 1895). 

( l ) As vias de sucessao guardavam-se no convcntodc S. Fran- 
cisco dc Assis, dentro de um cofrc dc ferro feebado por 3 chaves. 
Em caso de morte do vice-rei ou governador o cofre era conduzi- 
do solenemcnte pelas principals autoridades a Catedral, onde se 
abriam as cartas sucessivamente ate quo o nomeado para suceder 
fdsse o que estivesse na India. 

Na falta das vias de sucessao procedia-sc de diferentes modos : 
umas vezes nomeou-se o primeiro conselheiro do Estado ; oubras, 
foram convocados os tr£s Estados ( clcro, nobreza e povo ) para 
fazer a eleigao, etc. — Vide Ounha Rivara, Archive Portuguez- 
Oriental , fasc. 6.°, doc. 114. 



59 


zfls > ( 1525-26 ), que era capit&o de G6a. 

Educado na escola da severidade, D. Henrique, 
a-pesar de con tar apenas 29 anos, colocou-se altura 
do vellio Gama, como era necessArio para nao deixar 
reagir com maior forja a hidra das paixoes, que, du- 
rante a curta administragfto anterior, havia sido eu6r- 
gicamente comprimida. Querendo arredar-se do pro- 
cedimento culpado dos seus predecessores caia por 
vezes no excesso contrdrio. “ Eu nao sou como os 
outros governadores ”, repetia file a cada passo. 

Ejfectivamente foi ura homem intrepido e desinte- 
ressado. Iiejeitando uin rico presente que Melik -Yaz, 
senhor de Diu, enviava para resgatar os males por- 
ventura^ causados pelos seus corsArios ao comercio 
portugues, D. Henrique respondeu que o nao podia 
aceitar por serem armas que os portugueses n&o 
tomavam dos mouros sendo nas querras que tem com 
ties. 

a 0 facto mais importante do seu govfirno foi o 
cerco de Calicut, onde D. Henrique e.mpregou toda a 
sua atengHo e energia. 

f Client era o ponto principal donde saiam os cor- 
sarios a prear os nossos navios comerciantes na costa 
do Malabar. No intiiito de repritnir 
essa turba de piratas, D. Henrique CCrco da forta- 
declarou guerra ao Samorim e des- leza de Calicut 
truiu-lhe Panane e Coulete. (*) 0 

Samorim resolveu travar uma luta de morte e veio 
com 40 mil homens cercar a fortaleza de Calicut, co- 
mandada por D. Joao de Limae a reduziu a extremos 
apuros. 

Havia no exercito inimigo um renegado siciliano, 
mestre na arte dos assAdios, que inventava diversos 


( T ) Barros Dec. 3., liv. 9, cap. 4. 



HO 

engenhos, com que fazia grande dano »\ fortaleza. 
Mas o condest&vel da artilharia, FernSo Peres, homem 
perito na sua arte, desfazia com tiros de canhoes 
nma grande parte dessas mkquinas. 

Entretanto aos sitiados faleciam provisoes ; e os 
auxilios que, nao obstante o rigor do inverno, iam de 
Cochim mandados por D, Henrique, e de Cananor 
trazidos pelo capitao Heitor da Silveira, nao conse- 
guiam introduzir-se na fortaleza senao em pequena 
porgio e k custa de muito sangue derramado. Nestns 
circunstdncias valiosos servi§os prestaram k defeza 
uns dois espioes que viviam fora dos muros ; Duarte 
Fernandes, que, andando entre os indios disfarqado 
em fakir (penitente respeitkvel), iuformava D. Joao 
de Lima das emboscadas e dos pianos secretos dos 
inimigos por utn meio de eomunicagao que havia con- 
vencionado ; e uni grumete por nome Bastido, que 
cantava em torno da muralha denunciando os segre- 
dos do ass6dio e ate as minas que os mouros come- 
fassem a abrir. De maneira que os portugueses, 
repelindo os assaltos, destruindo os engenhos do 
ass^dio, crivando de balas as emboscadas e inutilizan- 
do as minas pelas contraminas, opunham uma resis- 
t£ncia de desesperar os sitiadores, ato que, no fim da 
estagao invernosa, chegou de Cochim a Calicut 1). 
Henrique de Menezes i\ testa duma esquadra de '2n 
navios e, juntando os socorros que se achavam no 
pdrto, vindos de Cananor, Goa e Cochim. apresentou 
em linha utn Eorraid/ivel cxorcito de raais de 8 mil 
homens, mas, quando o Samorim veio pedir a paz, os 
portugueses minaram a fortaleza e a abandonaram por 
ser de dificil conservagiio nuin reino inimigo. Os 
mouros que nela penetraram morreram na explostto (‘). 


( l ) Lend. T. 2.® pag. 810 e seguintea ; Haros, Dpe. 8.», 1. 9.°, 

Cap. 7. 



61 


Depois do abandono da fortaleza de Calicut as hos- 
tilidades com o Samorim continuaram ; mas eradesti- 
no que fosse curto tamb6m este go- ... 
rtmo: D Henrique . faleceu « , Ua- 
nanor a 2 de Fevereiro de 152o, e Calicut 
a India teve de presenciar scenas 
tristissimas Acerca da sucesstXo no governo, entre 
Pero Mascarenhas e Lopo Yds de Sampaio. 

Ap6s a morte de D. Henrique de Menezes a 
2.* via de sucess&o, aberta com toaas as formalidades, 
indicou Pero tyascarei]has ( 1526 ), para governador 
da India ; mas. como este estava em Malaca, donde 
chegaria dai a alguns rneses, levantando-se grandes 
discussoes em Cochim sobre o governo provisdrio, 
Afonso Mexia, vedor da Fazenda e inimigo de Pero 
Mascarenhas, conseguiu por sun infiuencia que se 
abrisse a 3. a via, e Lopo Vas de Sampaio, (1526-29) indi- 
cado nesta, assumiu o governo, jurando entregd-lo a 
Pero Mascarenhas logo que chegasse. 

Mas, enquanto Mascarenhas, prosseguindo na guer- 
ra que tinha principiado comlo sultao de Biota in, ter- 
rninava a campanha com uma brilhante vitdria, to- 
mando-lhe a prdpria capital, e livrava Malaca das suas 
persegui$oes, Lopo Vas de Sampaio, pondo as fortale- 
zas da India nas maos de seus parentes e partid&rios, 
e creados os elementos em t Cochim para uma obra de 
iniquidade, vinha para Goa com a maior parte dos 
fidalgos cavilosameute arrastados e preparava o tcrre- 
no para conservar deiinitivamente o governo. 

Vindo de Malaca coroado de recentes louros e 
reconhecido como governador pelo capitilo de Coulao, 
Pero Mascarenhas chegou &[ Cochim 
e foi recebido as tangadas e ferido Luta sobre a 
por Afonso Mexia, que repicando o sucessao 
sino da fortaleza, <le que era capitao. 
alvorotou contra elo o povo. 



62 


A-pesar de maltratado e ferido, Mascarenhas, con- 
fiado na justiga da sua causa, veio a Goa esperando 
aqui melhor recep<;ao ; mas Lopo Vds vedou-lhe o 
desembarque, mandoii por-llie ferros e conduzi-lo 
preso para Cauancr: espectaculo que indignou a India 
toda e infainou a nagao perante os nossos inimigos. 

0 capitdo de Cananor D. Simao de Menezes pos 
em liberdade Pero Mascarenhas e reconheceu-o solbne- 
mente como governador, porque Lopo Vds ndo lhe 
aprescntava o alvard que dizia ter vindo de Portugal 
nomeando-o governador era prejuizo de Mascare- 
nhas. 

0 capitao de Chaul, que tambdrn reconhecia o di- 
reito de Mascarenhas ao governo e que, com a sua 
adesao ao partido dcste, esperava arrastar a de todos 
os fidalgos, o aconselhava a que partisse, nesse mo- 
mento, de Cananor para Goa e prendesse Lopo Vds 
no palacio onde residia. E de facto, se Pero Masca- 
rennas tivesse recorrido ft violencia ou pelo menos 
tivesse reclaraado a autoridade com energia e firmeza, 
teria conseguido o apoio de um grande numero de 
fidalgos hesitantes e teria vencido ; mas o herdi de 
Bintaro receou provocar uma guerra civil e prejudi- 
cou h, sua pnipria causa. 0 que valia mais ao usur- 
pador era a sua audticia. 

Em Goa tal era a exaltagSo de dnimos contra Lopo 
Vds, que rebentou uma conspiragdo, que oste conseguiu 
domar por meio de ameacjas e violoncias. Lopo Vds, 
finalmente, abalado com as insist&ucias do povo e da 
cdmara de Goa, com os repetidos requerimentos de 
Pero Mascarenhas e com os conselhos dos seus pr<5- 

S rios partiddrios, concordou em que a questdo fosse 
ecidida por drbitros eleitos entre os fidalgos da 
India, tomando provisdriamente o governo Antdnio 
de Miranda. 

Reuniram-se em Cochim os doze juizes nomeados 



63 


e, a-pesar da justiqa incontroversa da causa de Pero 
Mascarenhas, houve divergoncia ; votaram seis a 
favor doste e os outros seis a favor de Lopo Vas. 

Segundo estava previsto, foi chamado urn decimo 
terceiro, Baltazar da Silva, ura dos capitaes das naus 
do reino ; e cste, provavelmente por insinuates de 
Afonso Mexia, desenipatou a favor de Lopo Vas. Es- 
tava consumada a iniquidade. 

Mascarenhas, vencido, partiu para a metrdpole e a 
relagao de Lisboa anulou imediatamente a sentenga do 
tribunal de Oochim, condenando Lopo Vas a pagar a 
Mascarenlias os ordenados de governador e dez mil 
cruzados de imlenisagiio. lias, D. Jofto 3.° con- 
tentando-se com essa satisfagito a justiga, nao 
recompensou Pero Mascarenhas mais que com a ca- 
pitauia de Azamor em Africa ! 

Lopo Vas de Sampaio foi mais feliz; pois, a-pesar 
de ter ido preso para Portugal e de novo condenado a, 
perda dos seus honorarios e a alguus anos de degredo 
para Africa, soube captar a protecgfio do monarea, 
<pie lhe perdoou todas as penas e ate o favoreceu 
com o sen valimcnto. 

Lopo Vas foi um governador activo e cuergico. 
Prosseguiu a guerra com os rajas de Calicut e de 
Cambaia, e queimou-lhes os paraos onde quer que os 
cnconlrasse. Era 1525), ultimo auo do seu governo, 
tomou e iuccndiou a cidade de Porka, situada a 12 
lcguas de (Jochim. Ueparou e ampliou as fortalezas e, 
activando as construqoes navais, deixou aos sucessores 
uma boa esquadra, a par do tristissimo exemplo que 
ihes legara no seu procedimento com Pero Mascare- 
nhas. 



«4 


CAPITULO V 


1829-1837— 'Aquisiqao de ; Diu e de Bacaim. 

Nano d& Cantyl ( 1529-37 ) empunhoti as rddeas 
do governo era 1529 em condi<;oes dificeis. A 
pretensao dos governos anteriores ao monoprilio do 
com£rcio e as suas exorbitantes exigencias tinham 
sublevado contra os portugueses alguns monarcas po- 
derosos do oriente. 0 sultiio de Cambaia e o raja 
de Calicut estavam era guerra aberta conosco desde o 
terapo de D. Duarte de Menezes. 

Nuno da Cunha vinha coin o projecto de levautar 
uma fortaleza em Diu, fortaleza cuja fuuda$ao, desde 
os tempos de Afonso de Albuquerque, havia sido in- 
cessanteraente recomeudada pelo governo a todos os 
governadores da India. 

No intuito, pois, de castigar o sultao do Cambaia, a 
quern Diu pertencia, e, ao rnesmo tempo, satiefazer ao 
desejo do governo da metropole, re- 
Expedi<;ao solveu Nuno da Cunha conquistar a 
para Diu fortaleza de Diu. Preparou uma 
esquadra raais poderosa de todas 
que at4 ai os ]>ortugueses haviam apresentado e 
extraordinariaraente luxuosa : era de 400 velas, trans- 
portando alem de onze mil combatentes ricamente 
vestidos, numerosas mulheres, 8 mil escravos, alguns 
jiegociantes, que levavam vinho e outras mercadorias, 
para as venderem aos tripulantes, e rnuitas familias. 
que iam para se estabelecer era Diu, logo que csta 
fosse tomada. Chegando a Darnao, cuja fortaleza foi 
logo abandonada pela guarni<;ao do rei de Cambaia, o 
govertiador mandou aprcgoar prctuiob do 1000. 500 e 



do 

300 pardaus aos primeiros que sucessivamente subis- 
aem a hastear nas rauralhas de Diu a bandeira por- 
tuguesa. 

0 luxo e os prAmios exprimem bem a transforma- 
$ao que o tempo havia operado no carActer e nos 
costumes dos portugueses. Parecia uma expediqSo 
mercenaria composta de mouros. 

Em seguida, demandou a ilha de Beth e, vencendo 
uma resistencia herdica que encontrou, destruiu por 
raeios horriveis a povoa$ao dessa ilha, que, por alas- 
trada de cadaveres, tomou c sinistro nome de ilha dos 
mortos. 

Nodia 22 de Fevereiro de 1531 surgiu Nuno da 
Cunha em frente de Diu ; esperava que a vista da 
sua formidAvel esquadra moveria o governador da 
cidade a render-se ; mas ficou desapontado, quando 
viu a cidade em uma respeitAvel atitude de defeza. 

Depois de quatro dias de espera por algum parla- 
mentario, rompeu o bombardeio, e, continuando-o por 
um dia inteiro, meteu medo aos ha- 
bitan tes da praga ; mas afinal, vendo Sen cesultado 
que nao podia destruir os muros da desfavoravel 
cidade, que, por serem de pouca es- 
pessura, se deixavam atravessar pelas balas sem se 
aluirem e que pelo contrdrio a artilharia inimiga, vo- 
mitando fogo e ferro, destro<;ava os nossos navios que 
dela se aproximassem, desistiu do projecto e regres- 
sou a Goa com a esquadra, ja sc vc, avariada, justifi- 
cando o seu procedimento com umas ordens de el-rei, 
que nfio apresentou a ninguem. Foi ridiculo o resul- 
tado desta expedi^Ao em vista da enormidade dos 
preparativos ; e o suits o de Cambaia, Bahadur-XA, 
com jdbilo e orgulho cantou o triunfo, conferindo ao 
seu general MustafA, que enviara paraidirigir a^defesa, 
o honorifico titulo de Khan. Este titulo, junto a desig- 
nagfto da sua nacionalidade, substituiu o nome pr6- 



66 


pe- 


Tomada dr 
Bacaim 


prio de Mustafa, o Rumi-Khan foi transformado 
los nossos cronistas em Rumecao. 

Nuno da Cunha porem viogou-se. A’testaduma 
pequena expedi^To partiu para Baqaim, pertencente 
ao sultilo de Carubaia e com tal im- 
peto investiu as trincheiras avanga- 
das, que os guzerates, cedendo ao 
terror, abandonaram a fortaleza e a 
cidade, que o governador arrasou completameote, 
levantando corn esta rApida vit(»ria o nonie dos por- 
tngueses, que Bahadur julgava ter desfeito. 

Quatro anos depois da expedi$ao de Diu, Bahadur, 
perseguido pelos rnogois de Delhi, que lhe invadiam 
o reino de Cambaia, viu-se na neces- 
sidade de pedir auxilio aos portu- 
gueses e ofereceu-lhes por esta oca- 
sifio a propriedade plena e inteira de 

ilhas de Salsete, Bombaim, CaranjA, 

Elefanta e Trombay, e o logar que eles escolhessem 
em Diu para construir a desejada fortaleza. Nuno 
da Ounha, aceitando de boa vontade o oferecimento 
maudou Martim Afonso de Souza tornar po38e de 
Ba$aim e foi eru pessoa le van tar a fortaleza era Diu, 
ue, com o auxilio do prdprio Bahadur, agora amigo 
ios portugueses, em pouco tempo p6de ser construida. 
Diogo Botelho Pereira celebrizou-se entSo pela sua 
inaudita temeridade de partir, em uma pequena fusta, 
da India para Portugal levando esta boa nova a el-rei 


Construcfio da 
fortaleza de 
Bin 

Bayaim e das 


I 


em 1535. 

Durante este tempo a arabiyfto dos portugueses ha* 
via rompido hostilidades com os mouros de Bijapur. 
Tendo falecido em 1534 Ismail Adil-Khan, levanta- 
ram-se questfies de sucessdo entre os seus dois fi- 
lhos : (') Ibraim, que era o mais velho, mas bastardo, 


(*i Lendas. vol. pag. 630. Algnns anfcores dizom qnc 



e Meale ( Mallu ) mais novo e legitimo. 0 prinieiro 
apossou-se do trono e o seguudo, pelo veceio de ser 
morto, desterrou-se para Cambaia. 

Assad -Khan, (Acedecao) utn digniturio da corte de 
Uijapur correspondeDte ao nosso condestavel, senlior 
de Belgao ede muitas terras ricas, favorecia o prmeipe 
Meale e o seouudava nas suas pretengoes ao trono ; 
pelo que, sendo perseguido como chefe do partido 
revoltoso, veiu acolher-se a soinbra dos portugueses 
c, para obter a sua protegiio, ofereceu-lhes as terras 
tie Salsete e Bardes, que llie pertenciain por doagfio 
do rei falecido. Aceitou logo a ol’erta o capitao de 
Goa 1). Jofio Pereira e, para lirmar a sua posse, 
maudou construit unm tranqueira forte ein torno 
do tcmplo de Mardol em Salsete ('), e cuja capitania 
den a Oristbvao de Figueiredo, tanadar- mdr de Goa. 

Term insulas as disedrdias outre os prineipes indios, 
Assad -Khan foi obrigado pelo sen soberano a reaver 
as terras cedidas aos portugueses, mas o capitao de 
Goa iusistiu em eouserval-as. Daqui veio uma serie 
de escaramugas. 

IT ma importante forga expcdida por Assad-Khan, sob 
o comando de Suleimao Agii, asset) horeou-se das 
aldcias de I'lmeolim, Assolna c Mar- 
gin). (’ristdvao de Figueiredo, iufor- Guerra por cau- 

inado da luvasao, euviou de Mardol salsete e Barites 
sou gonro Miguel Krocs, com poucos 

Meale era lil'lio c [Imutn nolo tic Adil-klian c outros nurraru 
a liistoriu das tjucbLocs utn pouco divertimento. () ccrlo c que 
tlois priueipcs do Bijapur dispute vatu o trono. 

( 2 ) Este tcmplo foi. na convcrsfio, transfer! do polos sens >hti- 
xancs para o bairro Murdoj. da aldoia Priol, de Ponila, ondc conli- 
mm com a invouac;fio tit: Mhla.-.V. E’ nosso templo que os hindns 
bnimanes do pais pros tain o juramento decisorio. Vide Filipc 
Neri Xavier, Coll, de Bandos , l.° vol. pug. 06, c Deer, de 16 de 
Dezcrabro de 1880, art. 27.° § mi. 



68 


cavaleiros e pedes para espiar o inimigo; mas, apenas 
chegados a Verna, a meia ldgua da tranqueira de Mar- 
dol, os portagaeses chocaram-se com os mouros e 
vieram dirigindo-se, de envolta com dies, para a proxi- 
midade da traaqaeira. Acudiu com socorro CristovSo 
de Figueiredo e, ap6s uma luta muito arriscada, porque 
andavam baralhados ambos os conteudores, conseguiu 
desprender os portugueses e recolhe-los na tranqueira, 
que os mouros pouco depois ccrcaram. 

Avisado D. JoSo Pereira, marchou com 1,500 ho- 
mens para libertar o red u to; mas a esta noticia, o ini- 
migo ja tinha levantado o cerco e £6ra estabelecer seus 
arraiais no campo de Verna. Deu-se pois urn 
combate nesse campo ein 7 de Fevereiro de 1586, era 
que os mouros forarn derrotados e Suleimao saiu ferido. 
Para completar a vitdria, urn tanadar mouro, que pc- 
lejdra valentemente pela uossa parte, aceso em furor 
guerreiro foi com alguns eseravos e peoes no encalyo 
dos inimigos e, colhendo-os a tres lcguas de distancia, 
junto ao rio de Cuncolim, inatou-lhes muitos, alem 
dutn grande numero que se afogou ao atravessar 
o rio. 

A esse tempo Nuno da Cunha, regressaudo de Diu, 
tratou de prover de forga e in undoes a fortaleza de 
liachol, porque receava que o inimigo voltasse. 

Efectivaraente urna poderosa forga de 15,000 ho- 
mens enviada de Ponda. por Assad-Khan, assaltou a for- 
taleza de liachol repetidas vezes; mas, 

Ataque a os portugueses, a quern Nuno da Cu- 
Racliol nha, postado em Agagaim, mandava 
refor$os e depois Ole prdprio fdra 
auxiliar, opuscram uma defesa endrgica e repeliram 
os assaltos. 

Vendo entilo os mouros que era de necessidade to- 
lher a eutrada aos socorros que y inham de Agaqaim, 
mandaram uma parte das suas tropas para levantar 



6n 


uma tranqueira s6bre um peuedo que se via do rio de 
Borim e vedar com a artelharia a passagera; mas, isto 
nsio Ihes den o resultado que esperavam, porque os 
bateis portugueses escapavam de noite ao fogo da ar- 
telharia. Atravessaram entao o rio com cadeias de fer- 
ro presas em grossas traves. Os portugueses, porcm, 
baldarara-lhes aioda Ostes esfor<;os abrindo um canal 
pela banda de Loutolim. 

Afinal Nuno da Gunha enviou o capitito de Goa D. 
Gongalo Coutinho para expulsar o inimigo de Boritn; 
mas, vitima d'e traifslo, I). Gougalo t’oi completamen- 
te derrotado, e duina ferida, que recebeu no braqo, 
veiu a morrer em Agagaim. 

Nuno da Cunha desejava viugar Gste desastre; mas 
as lutas tnais serias que lhe cliamavam a atenqslo em 
outra parte, o compeliram a satisfazer as exigencias 
de Assad-Khan. 

Uma das guerras niais importantes que preocupa- 
vam o governador, era a que fervia entre o Samorim 
de Calicut e o nosso aliado, o raja de Cochim. 

0 rajd de Calicut queria ir coroar- se a ilha de 
Repelim s6bre uma pedra sagrada que ali existia: e, 
como por esta cerimonia religiosa ele adquiriria Uma 
grande influencia entre os rajas do 
Malabar, o de Cochim queria irnpe- Ciueira com o 
dir-lho. Nascendo a guerra entre Samorim 
arabos, os portugueses foram obriga- 
dos a auxiliar o de Cochim e, com a sua bravura, 
conseguiram vedar a passagem ao raja de Calicut, o 
qual, sabendo que os seus inimigos iam ser refonjados 
por Martim Afonso de Souza, homeni de grande repu- 
ta$ao railitar, retirou-se para reunir um exercito 
poderoso e voltar contra os portugueses. 

Nuno da Cunha achava nao dever coixtiuuar esta 
guerra para ndo distrair uma parte das suas tropas, 
que lhe eratr mais neccssarias cm Diu, onde a atmos- 



70 


fera comegara a turvar-se. Mas, Martim Afonso, 
quo estava ancioso por terminar a luta, lembrou-se 
de simplificar o problems. A’ testa de 800 homens 
valentes inarchou directamente sobre a ilha de Re- 


pelim, atacou com impeto irresistivel as tranqueiras 
defendidas por 15 mil naires, que, tornados dum 
verdadeiro pdnico, desapareceram ; arrasou a cida- 
de deserta e transporter a celebre pedra sagrada para 
Cochim. Nfto podia haver solu^o melhor, nem mais 
rdpida. 

O raji de Calicut, vendo o seu projecto frustrado, 
quis ir vingar-se do rajd de Crauganor, que entrara na 
amizade dos portugueses; Martim Afonso porem com 
90 soldados, iofligiudo-lhe uma derrota na passagem, 
obrigou-o a retroceder e calar-se. 

Outra luta de ruaior importancia que absorvia a 
atengao do governador e a que nas- 
0 ceu em Diu entre os portugueses e o 
‘A'Sf-jf sultaodeO.mb.ia. 

Bahadur, que era um hometn ver- 


sdtil e caprichoso dc indole, a ponto de nunca ter um 
pensamento fixo, logo que se viu lirre dos mogois e 
pdde respirar, arrependeu-se das concessoes feitas aos 
portugueses, e, pelo pretexto de que estes praticavam 
freqhentes desordens em Diu, convidou todos os sobe- 
ranos do Malabar a expulsd-los da Iudia, ousando, em 
um momento de embriagues, revelar, entre ameagas 
sinistras, cate seu piano de exterminio ao prdprio 
capitfio da fortaleza de Diu, Manoel de Souza. 

Houve quern afirmasse que o sultao projectava ofe- 
recer um banquete a Nuno da Cunha e aos princi* 
pais fidalgos portugueses na quinta do Melique perto 
ae Diu e nesta ocasiao prende-los a todos, e mandar 
o governador para o Cairo, de presente ao QrSo-Turco, 
metido em uma jaula de ferro, sendo diatribuidos os 
fidalgos como escravos polos calms da guerra mugul- 



71 


manos. (*) 

Nuno da Cunha, informado do que se tramava, 
partiu para Dia e fingiu-se doente na frota com o fim 
de chamar Bahadur a uma entre vista 
e o mandar prender tanto que saisse Ulorte de 
do galedo e mete-lo na fortaleza (*). Bahadur- xi 
Bahadur, que a este tempo audava k 
caqa, sabeudo da chegada do governador, obsequiou-o 
com os despojos da cagada, que consistiam em 
veados e gazelas, uns sem cabegas, outros sem p6s, to- 
dos mutilados — o que era considerado entre os mouros 
um desafio — e pouco depois foi com a sua comitiva e 
contra a opiniao dos seus amigos visitd-lo ao galedo. 

Esta visita tinha por nm, segundo diz um escritor 
inaometano, dcsvanecer as suspeitas dos europeus e 
induzi-los a aceitar o convite para o banquets prqjec- 
tado. 

Os fidalgos, indignados com as perfidias do sult&o, 
esperavam com impaciencia ve*lo prfiso. Terminada 
rapidamente a entrevista, que foi quasi muda, Bahadur, 
suspeitando talvez que os seus pianos secretos fossero 

conhecidos do governador, e receando ser atacaao, 
apressou-se a retirar saltando para a sua fusta. 

Nuno da Cunha, que ainda tinha escrdpulo de o 
mandar prender por ter vindo em hdbito de paz, deu 
ordens aos seus para o acotnpanharem, concor iando 
finaimente, segundo se escreve, em que c condtizissem 
preso para a fortaleza. Os portugueses, laoyaado-se 
com toda a pressa nos seus bateis, foram alcangar a 
fusta, que remava de voga picada para o pdrto ; e, tra- 
vado um furioso combate entre as barc *s (em que raor- 
reram alguns de parte a parte, entrando no ndraero 


0) Barros, Dec. 4, part. 2, 388. 

(*) Lend. 8. 778. — Hist, do eireo de Diu , pag. 76. 



destes Manoel de Souza), Bahadur ou, vendo-se per- 
dido, atirou-se ao mar ou caiu a dgua virando-se 6 
barco, mas o certo 6 que, estando a nadar perto de 
um dos bateis portugueses, foi ferido por urn raarujo 
com uma chuga pelo rosto e em seguida algumas 
chugadas o acabaram. 

Eis o resumo do que se passou em Din a 14 de 
Fevereiro de 1537, quanto o permitem as 8 versoes 
que hd sobre este facto, quatro portuguesas e quatro 
maometanas, todas diferentes em detalhes. 0 enro- 
ll el W. Watson, que foi agente politico no Kathiavar. 
e escreveu o periodo maometano no Bomba// Gaze- 
teer , depois de ter examinado essas versoes conforme 
as regras da critica, cliega a conclusilo de que na 
morte de Bahadur houve culpa de parte a parte; e que 
o sultSo foi morto nas dguas de Diu pelos raarujos a 
chugada. 

Este facto foi o formiddvel elemento de apoio para 
os mouros prepararem raais depressa a execujilo do 
seu piano jd tragado da expulsao dos portugueses da 
India. 0 verdadeiro e temivel iniraigo destes, Khoja 
Safar, em cujas mitos o pobre sultao havia side tncro 
instruraento, ainda estava vivo para atear contra oles 
urn incOndio de conspiraqSes, vingangas e guerras in- 
termindveis. 


CAPTTULO VI 

Primeiro edreo de Diu Diocese de Goa 

0 assassinio de Bahadur produziu conseqiiencias 
funestas, como era de esperar. Uma terrivel tera- 
pestade comegou a rugir por toda a India, e Antdnio 
da Silveira, capitiio da fortaleza de Diu, percebeu que 



a guerra era inevittivel. Infelizmonte os portugueses 
n3o podiam concentrar todas as f6rr;as na defesa de 
Dill; porque Martim Afonso de Souza, com uma 
armada, andava empenliado na guerra contra uma po- 
derosa esquadra que o Satnorirn expedira para vingar 
a afronta sofrida em Kepelim e Crangauor. 

0 astuto Khoja-Safar, que dissiinulava com os por- 
tugueaes, ate qae chegasse o auxilio dos rumes do 
Egipto que esperava. logo que teve a 
noticia de que estava pronta em Primeiro c6rco 
Suez uma formidavel esquadra dos de Diu 
tureos, partiu de siibito a Ahmeda- 
bad a conferenciar com o novo sultfio de Cambaia e 
voltou para Diu a testa de 4 mil liomens e em 
•lunho de 1538 assaltou u baluarte avangado, que 
Nuno da Cunha tinha construido proximo dum sitio 
chamado a vila dos rumes ; mas Francisco Pacheco, 
capitao do baluarte, conseguiu repelir o assalto. Em 
Agosto vierarn juutar-so ao inimigo mais 12 mil ho- 
mens comaudados por Lurkau. governador de Diu ; e 
Antonio da Silveira, vendo que as formas espalhadas 
pela cidade pouca resisteucia podiam oferecer, con- 
centrou*as todas na fortaleza abandonaudo a cidade, 
e, depois de avisar Nuno da Cunha do perigo em que 
se achava, dividiu as estancias e ordenou o servigo 
da fortaleza, preparando-se para resistir a urn longo 
assedio. 

Em 8 de Setembro chegou a armada turca coman- 
dada por Suleyman Paxa, governador que f6ra do 
Egipto, e assestou a sua colossal artelharia e mons- 
truosas maquinas para atacar o baluarte da vila 
dos rumes, que por estar afastado da fortaleza nao 
podia ser socorrido. 

A este tempo ( 14 de Setembro de .1538 ) chegou 
de Lisboa D. G&rdl de Noroilha, com o titulo de viee-rei, 
para substituir Nuno da, Cunha, que governara ex- 



74 


cepcionalmente 10 anos. fisfce, de regresao ao reino, 
morrea prdximo dos Azores, com a frase de Scipido 
na boca ( Ingrata pdtria, ndo possuirds os' mens os- 
sos ). A morte livrou-o de ser preso e agrilhoado 
pelo delegado del-rei, que o esperava na ilha Ter- 
ceira. (‘) 

D. Garcia de Noronha ( 1538-40 ) avisou Antdnio 
da Silveira de que, em breve, seria socorrido e come- 
gou a preparar uma esquadra. 

Eotretauto os turcos comegaram a bombardear o 
baluarte da vila dos rumes e derribaram um pano do 
muro, por cujas ruioas, que lhes serviam de escadas, 
subiram 700 homens ao assalto. Mas, imediatamen- 
te, apareceram no alto do baluarte dois portugue- 
ses intrepidos, que, atirando panelas de pdlvora infla- 
madas, rolando penedos e com toda a especie de 
armas, que lhes passavara os seus poucos companhei- 
ros, quAsi todos feridos, que sobreviviam ao bornbar- 
deio, sustaram o impeto dos inimigos. Nao podeudo, 
porem, contiuuar com uma defesa tao extraordinaria, 
Francisco Pacheco, obtida a licenga de Antdnio da 
Silveira, capitulou com a condigao de que teriam 
todos a vida salva, mas os turcos nao respeitarara a 
capitulagdo e degolaram todos sem piedade. 

Ufanos com esta vitdria intimaram Antdnio da 
Silveira a que se reudesse ; mas tiveram uma repulsa 
dignameute audaciosa. 


(*) Dedo de Deus! Lopo Vas de Sampaio prendeu 6 seu 
rival Pero Mascarenhas. Nnno da Oanha remeteu prdao para 
Lisboa a Lopo Vis, na pior das naus e tendo cdmara na est&ncia 
dos ( 5 ru metes ; mas tambem <5le teria isjual sorte se a morte o nio 
poupasse a bio hnmilhante infortunio. No aeto da prisSo, Lopo 
Vas dirigin-se ao onvidor genii nestas palavras : — c dizei ao go* 
vemador, que en o prcndi, etc me prende, II virl qncm o prcnda 
a elu. » — Dcdo de Ileus, repefimos. 



75 


Roraperam o fogo contra o baluarte de Gaspar de 
Souza e, alnida a inurallia, viram com espanto um 
novo muro interior, que Antrfnio da Silveira havia 
mandado construir. Assaltaram e repetirarn os as- 
saltos era dias sncesxivos ; mas. o brioso capitfio com 
um punhado de valentes opos uraa resistencia ver- 
dadeiramente heroica, repelindo as ondas do inimigo, 
que vinha crescendo. 

Entretanto a fortaleza ia perdendo defensores, que 
niio podiam ser substituidos ; o socorro prometido 
pelo vice-rei nao chegara ; os assaltos continuavam 
e. para o remate de tantos infortiinios, o escorbuto, ge- 
rado pela nni alimentagao e pessima dgua da cisterna, 
dizimara a nossa guarnigao. 0 desanimo, que a in- 
vadia, teria perdido tudo, se nao acudissem as mu* 
lheres a compartir com os homens as fadigas. Ana 
Fernandes e Isabel da Veiga foratn duas heroinas, 
que, inspirando aos combatentes o amor da gldria, 
pensando e curando os leridos, ora assistindo aos mo- 
ribundos, ora rendendo as sentinelas fatigadas e fa* 
zendo transportar os materiais das casas, que se des- 
truiam, para reparar os muros, levantaram osespiritos 
do profundo abatimento em que jaziam. 

Em 30 de Outubro quiseram os turcos fazer um 
esfSrgo decisivo e fingiram a retirada com certo apa- 
rato ; mas Antonio da Silveira, que, receoso de algu- 
raa traigao, mandara redobrar a vigiUlncia, surpreen- 
deu-os ao escalarem alta noite o baluarte e conseguiu 
derrubd*los. Em seguida, tentaram entrar pelas rui- 
nas da muralha e arvorar a sua bandeira. Deu-se, 
entao, um combate furioso, em que os portugueses, 
pelejando como leoes, oferececam uma resistencia 
s6bre-humana. (') Antdnio da Silveira foi uma mon- 


(‘) « Ha uma frase de Diogo do Gooto, qne em quaesquer 
outras circunstanciaa teria o aabor picaresco do hiperbole andala* 



76 


tanha de energia e obrou prodigios. A guarnigilo da 
fortaleza, porera, ficou reduzida so a quarenta homens 
v&lidos ; ninguem pensou contudo em render-se. Os 
turcos, que ignoravain o estado dos advers/irios, 
avaliando-o pela energia da resistencia, julgaram que o 
mimero deles era igual on superior ao seu, e, desani- 
mados com o uiau resultado do combate, embarcaram 
detinitivamente ern 1 de Xovembro e retiraram-se. 

Esta brilhante vitdria, a mais famosa de todas, 
alcangada sobre os turcos, que n§3se tempo eram o 
terror da Euro pa, conquistou para 
Vitoria os portogueses imenso prestigio e 
gloriosa consolidou o seu poder na India. 

llm dos rajas de Ceilao solicitou a 
nossa alian$a e o Samorim de Calicut, nosso impla- 
c&vel inimigo, pediu a paz, que Ihe foi concedida, assi- 
nando-se o tratado em Janeiro de 1540. 

Dois meses depois da vitdria chegou a Diu a ar- 
mada de D. Garcia de Noronha, que navegara com 
todo o vagar ; porque o vice-rei, que era um fidalgo 
pobre e que nao vinha a India senao para levar di~ 
nheiro , como ele prdprio dizia, f6ra cuidando, pelo 
caminho, mais dos seus interesses particulars do que 
das urgencias do Estado. 

Em Diu D. Garcia de Noronha reparou a fortaleza 
desmantelada e concluiu com o sultao de- Cambaia 
uraa paz vergonhosa, cedendo-lhe a peso de ouro a 
alfanaega da vila dos rumes e o levantamento dum 
muro entre a cidade e a fortaleza, alem de lhe fazer 
muitas concessoes que ele a ferro e fogo nao tinha 
podido obter. 


za, mas que egrandiosa em lances tais : A que os homens, diz ele, 
pelejavam com as tripas n'uma das mflos e t espada na ouira. 
So assim se pode compreender o que fizerar i ! » Bnlh3o Pato, 
Portuguese s na India, pag. 209. 



77 


Duraule este vice-reinado erigiu-a© em Goa uma 
diocese sufragtinea h da Madeira, coinpreendendo to- 
dos os estabelecimeutos portugueses 
desde o cabo de Boa Esperanga Diocese de Goa 

at£ os coDfins do oriente, e que te- eseH 1,0 bispo 

ve pela prirneira vez bispo e cabido. 

0 primeiro bispo que governou csta diocese, foi D. fr. 
Joao de Albuquerque, que chegou a Goa em 1538. ( l ) 

Faleceudo D. Garcia de Noronha em 3 de Abril do 
1540 ( 2 ), foi reconhecido por governador D. EstevIO 
da Gama, ( 1540-42 ) indicado na 2." via de sucessito, 
por estar ausente em Portugal Martini Afonso de 
Souza, norueado na l.“. Foi um governador algum 
tanto honesto. 

No principio do ano 1541 partiu D. Estcvao com 
uma expedigao an Mar Vermelho no intuito de des- 
truir a nova esquadra, que o PaxA 
do Egipto estava preparando em Kxpedlgao ao 

Suez ; mas, vendo o estado da defesa ‘ 1 ** ar Vermelho 

em que ela se achava, regressou a 

(’) Para mais desenvolvida noticia vide P.® 0. C. de Nazareth, 
Mitras Lu si tanas, ed. de 18U7, onde os leitores encontrarao 
grande copia dc valiosas informa^oes sobre a historia da Igrcja 
lusilana do Oriente. 

(*) K’ o primeiro governador que faleeou na cidade de Goa. 
Jaz no centra da capela-mdr da so catedra! com cpitiifio. De 
passagem diremos que a historia da India, entre outros importantes 
servi^os, deve ao infatigavel Cunha Hi vara o conhecimento das 
iuscrigOes e epitdfios existentes em varias partes da India, A 
coleajio dos que cncontrou e trasladou desde Vclha Goa ate ao 
convento do Cabo c que deixara afnda M.S., foi publicada em 
volume especial no Boleiim da Soriedadc dc Gcografta de Lisboa , 
n.° 8, 1?.* seVie, com o titulo Inscrifdes lapidarcs da India Por - 
luguesa, sob a direegio e com o prefacio dc Gabriel Pereira. No- 
tarn se, contndo, graves defeitos nessa publicagSo, como num arti- 
go inserto no Boleiim Ofidal , n.° 100 de 1897, pag. 775, observe 
Ismael Gracias, dando ao mesuio tempo uma resenha completa 
de tod as as inscrigOes e epitifios publicados por Cunha Rivara. 



78 


Massuah, donde enviou seu irm&o Cristdvfto da Gama 
com 400 portugueses era socorro do Negus de Abis- 
sinia ( ou Preste-Joao ) contra o Xeique da Zeila, 
qne, tendo levantado uma guerra cruel, estava a 
ponto de substituir era toda a Abissinia a religiito cris- 
ta pelo islamismo. Cristdvfto da Gama foi derrotado e 
morto pelo Xeique ; mas os 130 portugueses, que 
escaparam k derrota, reorganisando um exdrcito com 
os soldados do Negus, salvaram a dinastia abissinia 
e o predominio do cristianismo naquelas regioes. 

Foi no mesmo ano que se fundou em Goa o Semi* 
ndrio ckamado de Santa Fe, convertido, mais tarde, 
em o Coldgio da Companhia de Jesus. 

A D. Estevao da Gama sucedeu jfartim AfoljSO dt 
Soon, que chegou a Goa em 6 de Maio de 1542 tra- 
zendo em sua companhia o padre mestre Francisco 
Xavier, que foi o Apdstolo benemdrito e 6 o santo 
dilecto da India. 

Martim Afonso de Souza, ( 1542-45 ) que, poucos 
anos antes, em capitao-mdr do mar da India praticara 
faqanhas herdicas, investido no governo deste Estado, 
tornou-se escandalcsamente avarento. Contudo, in- 
tr5pido e activo corao era, houve no seu tempo muitos 
feitos gloriosos ; descobriu-se o Japao e sujeitou-se o 
reino das Molucas. 

0 facto por£m mais importante 
para nds e o de se anexarem ao Es- 
tado as provnicias de Salsete e Bar- 
d6s. 

As dissenqdes entre os principes de Bijapur, que 
haviam dado e tirado aos portugueses ( 1536 ) as 
duas provincias, renasceram com aspecto novo. 
Meale*Khan, jd proscrito, foi novamente perseguido, 
mas Assad-Knan, que o ajudava, acareou-lhe a peso de 
oiro a protec^fto dos portugueses e mandou ao gover- 
nador 40 mil pardaus de oiro, prometendo ainda doar 


Anexaqio de 
Salsete e Bardes 
e a qnestSo de 
Heale 



79 


a el-rei de Portugal as terras tiradas ; e Meale-Khan, 
na esperanqa dc entrar na posse do trouo que dispu- 
tava, veio de Cambaia acolher-se cidade de Goa. 

Ibraim Adil-Khan, logo que soube do acolhimento 
dado no seu competidor, mandou embaixadores a 
Martim Afonso, pediudodhe a entrega do principe 
com o protesto de o nao matar, e, como nao conse- 
guisse o seu desejo, receando que lhe fosse movida a 
guerra era favor de Meale, fez doa§ilo perpetua das 
provincias de Salsete e Bardes a corfia de Portugal, 
com a condiqao de guardar o seu rival era seguranga. 

Foi assirn que era 1543 estas peninsulas passarara 
pela quarta vez, ( l ) para o dominio portugues, onde, 
a-pesar-de repetidamente invadidas por Adil-Khan, 
como logo verenios, permaneceratn, ficando mais 
tarde incorporadas no Estado pelo tratado de paz 
de 1571. 

O governador, ouvido o seu conselho geral, assen- 
tou nao romper a paz com Ibraim Adil-Khan, deixando 
ticar Meale ein liberdade, como estava. 

Assad-Khan, depois de receber esta noticia, faleceu 
de desgosto por lhe terem falhado as esperanqas de 
meter o Meale na posse do trono. 

Ibraim, ainda que satisfeito com a confirmag&o da 
sua amisade com os portugueses, todavia, desgostoso 
com a situa$ao de Meale, cuja sum bra lhe fazia raedo, 
mandava valiosos presentes ao governador, rogando- 
lhe encarecidamente que o removesse para Malaca ou 
outro sitio afastado, donde nao houvesse receio de 


(') Estas terras foram temporariamente portugnesas duas ve- 
zes pela conquista dc Albuquerque em 1510, e pela terceira vez 
por doag&o de Krisna Ray, rajii dc Bisnagar em 15*0. 

A parte do territorio goes, permanentemeate ocupada pelos 
ixtrtugucses desdc a conquista. eompreendm somentc a Ilha dc 
Goa e as Ires ilhas viziubas : Divar, Chor&o c Jua. 



80 


rebelido. 

Al£m disto, fez rnerco ao rei de Portugal do tesouro 
de Assad-Khan, que se achava em Canauor guardado 
por urn tesoureiro mouro, e do qual Martini Afonso 
tomou para si uma parte, conforme a conta que ole 
prdprio deu a el-rei por carta, eujos trecjios vao abai- 
xo transcritos. (*) 


S ) Carta notavcl dc Martim.Afonso de Souza, Governador da 
ia, a Sua Magestade. 

aDepois de ter escrito a Vossa Senhoria me fez Deos ca tantas 
incrc£s, qne vos afirrao que me faz eatar tremcndo, porque sei 
mui bem que lhe n&o raereyo nenliuina dclas; mas ele faz como 

quern he * 

Ca estao doua Senho.-ea ein grandes diferenyas: Hidalcao e 
Acedacao levantado que queria que fosse Hidalyiio o Meale sen hot* 
do Balagai. \ que estavc nm Goa; arnbos tinhfio grande necessidade 

de my 

Determined me pelo Hidalcao, que parecia ter mais justiya, e 
mais firme; ainda que vos certifico que da outra avia taotas razoes 
e contrarios, que me foi neceasario socorrer-me a raissase devalues. 
Mas a fim assente como IlidalyOo, o qual me de opera El-rei 
nosso senhor as terras firmes daqui, que reudem 45 mil pardaos de 
juro e erdade, com grandes prometimentos e doayoes e soletiidudes, 
e alein disso me mandou 70 mil pardaos pera ajuda das armadas 
del Rey nosso senhor, e 20 mil pera my, a saber: 10 mil pera huma 
joia de rninha mother, e 10 mil pera urn bauquetc: c isto feito 
ncava-nos o outro por contrario. Vem Deos a mata-o dahi a seis 
dias, e fica o Hidalyao por senhor pacifico de tudo. E nao con- 
tents oom isto veo-se a my om mouro, que era muyto privado do 
Acedacfio, e meu amigo da outra vez que ca andey, e desta que 
tern recebido de my muyto boas obras: disse-me que pois seu se- 
nhor era morto, que nao queria outro senhor senao a my, e que 
me queria entregar 500 mil pardaos que tinha de seu senhor, dos 
quays mando 800 mil a El-Key nosso senhor para ajuda do casa- 
mento da senhora Ifante. Porcm destes tomey 30 mil para my, 
que e o dizirao que 1& mando a minha mol her; porque em razao 
esta que tenha alguma parte disso, pois o pod era ter tr>do; que cu 
podera ter tornado este diuheiro sem o uinguem saber, e que o 

souber&o, tiverao raui pouca justiya contra my 

E outros 200 mil pardaos quo fic&o hao-sc de repartir com o 



81 


O governador prometendo serapre satisfazer As 
inst&ncias de Ibraira, deixava viver o Meale ora em 
Goa ora em Cananor e com as honras de ptiocipe. 

Finalraente Ibraim concertou com o governador a 
entrega do Meale em troca de 50 mil pardaus de 
ouro ; mas 6ste concerto ndo chegou ao efeito. (*) 
Esta vergonhosa exploraqao terrainou felizmcnte 
com a chegada do novo governador. 

Em 1544 foi creada a Relagiio da India; ate ai as 
causas crimes eram julgadas militarmente pelo audi- 
tor, que acompanhava sempre o governador. 


CAPITULO VIT 

D. Joao de Castro; 2.® cerco de Diu 

A India ia apodrecendo na devassidSo; o cinismo 
dos governadores, o peculato dos comandantes, as 
revolta3 e as desergoes dos soldados, os roubos e as 
violencias, que praticavam todos eles, e que os torna- 
▼am urn verdadeiro objecto de horror para os indige- 
nas, haviam posto o imperio em uma situaqSo 
deplordvel. 


monro 70 mil, porqne com este concerto ficamos: FicSo 130 mil; 
destes determinant pagar todas as dividas de El-rei nosso senhor a 
orf&os, e oatros emprestimos a gente tnui pobre e necessitada, que 
os Governadores e Veadores de saa fazenda c4 tomar&o 

Beijo as maos a Vossa Senhoria: de Gda a 23 de Dezembro de 
1544.-111 L. 2.°* (a) 

(a) Annaet de D. Jodo S c : por fr. Luin da Sousa pag. 113. 

0) Lindas vol. 4.® parte 1.® pag. 331 e segainte. 



82 


Para travar esta roda de misArias— £oi_enviado d© 
Portugal D. Jofto de Castro, (1545-48) que mais tarde 
recebeu o titulo de vice-rei da India. 

D. Jofto de Castro significou positivamente a Ibraim 
Adil-Khan que Ihe nfto entregaria Meaie, como 
Martino Afonso de Souza esteve a 
»Pf ponto de o fazer, atraigoando a con- 

Poad“ em fiantja com que Meaie recorrera ft 
protec$fto da bandeira portuguesa. 
Adil-Khan, indignado, declarou guerra ao governador 
e expediu uma grossa fdrga contra as terras de Salse- 
te, a qual, depois de varias saltadas, apresentou-se era 
sons de batalha ao pe da fortaleza de Ponda; mas, aos 
primeiros golpes das arrnas portuguesas, debandou-se 
para os sertoes abandonando a fortaleza. 

Pouco tempo depois, em 1547, emquanto D. Jofto 
de Castro se achava em Diu, Ibraim Adil-Khan, para 
vingar a derrota de Pondu, enviou um exercito de 20 
mil homens, sob o comando de um dos seus aguerri- 
dos generais, por nome Salabat-Khan, que se apode- 
rou de Salsete. 

0 capitfto da cidade D. Diogo de Almeida, queren- 
do marohar contra os mouros, teve de recuar diante 
da oposi$fto do senado, que achava insuticiente a sua 
fdrqa contra o poder dos adversArios e receava que 
uma derrota dos nossos viesse comprometer a segu- 
ranga da cidade. Liraitou-se por isso o capitfto a 
fortificar a pratja de Rachol e aparelhar alguns navios 
e m Aquinas, dando parte de tudo ao governador em 
Diu. D. Jofto de Castro apressou-se a voltar para Goa 
e, sabendo que o inimigo se achava acampado em 
Margfto, foi bused- lo a este sitio, mas nfto encontrou 
senfto os arraiaes desertos com as tendas armadas, ca- 
mas e mesas e os caldeirdes com a ceia ao lume; pois, 
momentos antes, Salabat-Khan, informado da vinda 
do governador, precipitara a fuga para Cuncolim, sitio 



quejulgavade acesao dificil aos portugueses e raais 
vantajoso para o caso da luta. 

Marchou o governador para essa aldeia e, transposto 
o rio, nao sem sofrer na sua passa- 
gem viva resist&ncia, empenhou, no ^**11- 

dia 21 de Dezembro, uma rija bata- Cancel!™ 
lha e derrotou o initnigo. Salabat- 
Khan, com 800 dos seus, morreram no combate e 
mais dois mil durante a fuga. 

D. Joao de Castro foi recebido na cidade entre 
ovagoes e foi ordenada uma solene procissao de 
todas as confrarias das Ilhas, do cabido da Se e de 
todos os Religiosos de Goa, em louvor do apdstolo S. 
Tome, a cuja intercessilo o governador atribuia a 
vitoria alcangada. 

0 governador, nSo satisfeito de expulsar de Salsete 
o rei mugulmano, enviou seu filho, D. Alvaro de 
Castro, correr a costa com seis navios. D. Alvaro 
tornou e arrasou a cidade de Carabre, obrigando assim 
Adil-Khan a pedir a paz, que lhe foi concedida. 

Em 1546 rebentou a guerra em Diu. Khoja-Safar, 
julgando ter chegado ocasiiio oportuna de se vingar 
da derrota que havia sofrido, e, nao 
conseguindo apossar-se da praga Segundo cereo 
por meio duma traigao, nem envene- '* e ®* u 
nar a agua da cistema donde bebiaiu 
os portugueses, p6z cerco a nossa fortaleza, com um 
exercito de 8 mil soldados e 60 pegas de artelharia. 
Entre esses coutavam-se mil turcos.' Recebeu mais 
tarde um reforgo de 2 mil homens comandados por 
dois chefes mogois. Reunirara-se, portanto, a favor 
dos inimigos os povos mais guerreiros do orL.*i.e. E’ 
este o celebre segundo cerco de Diu. 

O capitao da fortaleza, 1). Joao Mascarenhas, tinha 
apenas 250 homens: a maior parte da guarnigao tinha 
desertado, cansada do servir sem soldo, quo o governo 



84 


lhe nao pagava por querer assitn remediar o espantoso 
deficit , que onerava o orgamento. 

D. Jofto de Castro, respondendo ao aviso que rece- 
bera de Mascarenhas antes de come§ar o cerco, havia- 
lhe mandado 200 soldados de reforqo. A situaq&o 
era complicada, porqne, ao mesmo tempo os castelha- 
nos renovavam as suas preten§oes nas MolucaS e D. 
Joao de Castro tinha de raanter ali o nosso predoml- 
nio, como fez. 

Khoja-Safar rorapeu o fogo contra a fortaleza e 
enviou uma nau com 200 turcos para abordar o ba- 
luarte do mar; mas, D. Joao Mascarenhas, que tudo 
providenciava, expediu de noite o capitao Jacome 
Leite com poucos soldados, que, arremessando panelas 
de pdlvora, queimaratn a nau e uma grande parte 
da tripulae&o. 

Khoja-Safar, irritado com cstas perdas, mandou 
construir defronte da fortaleza urn muro com baluar- 
tes e bombardeiras, em que assentou basiliscos, leoes e 
outras peqas grossas, e, jurando arrasar a fortaleza, 
come$ou bate-la com continuas surriadas de balas, 
que produziam enormes estragos. Os portugueses, 
animados pelo seu intrepido capitao, nao cessavam de 
responder com o fogo da artelharia e arcabuzaria, que 
derribava muitos dos inimigos. 

Ja sen tiara os nossos a falta de polvora, quando 
chegou o socorro de Goa, comandado por D. Fernan- 
do de Castro, mo(o de 19 anos e filho mais novo do 
governador. Poucos dias depois o inimigo recebeu, 
tambem, um reforjo importante. 

Recrudesceram, entilo os combates e uma bala dos 
nossos r.*itou Khoja-Safar; mas, nem por isso, o as- 
sedio afrouxou, porque seu lilho Rume-Khan toraou o 
comando do exercito inimigo e repetiu com furia os 
assaltos que, embora repelidos com grande mortan- 
dade do inimigo, causaram aos nossos cooaidemveis 



85 


perdas. 

Nesses confiitos era notavel o auxilio que presta- 
vam as mullieres dc Diu, principalmente I). Isabel 
Fernandes, conhecida pelo cognome de Vclha de Diu , 
acudindo aos nossos combntentes corn mantimentos, 
lanqas e panelas de pdlvora e aearretando pedras para 
reparar os rauros. Urn dia, sobretudo, foi a diligencia 
dessas damas que se deveu, era grande parte, a salva- 
$ao da fortaleza ; pois, emquanto os portugueses 
combatiarn era posto de inaior perigo. alguns turcos, 
escalando unia por<;ilo da cortina desguarnecida, en- 
traram a fortaleza ; as mullieres correram coin gritos 
a avisar D. Joao Mascarenhas, que formando uma 
escolta dos poucos so’ldados que se achavam fora das 
estancias, investiu o inimigo, ja fortificado na igreja 
de S. Tiago, e desalojou-o antes que a inaior parte 
da guarnigilo tivesse a noticia do perigo. 

Vendo Rume-Kban que o sistema dos assaltos nfio 
lhe aproveitava, inandou levantar nmas torres mais 
altas que a fortaleza; mas estas os portugueses eonse- 
guirarn destrui-las era sortidas, embora voltassetn dal 
inuitos feridos. 

Kntretanto recebeu o inimigo um socorro de 13 
mil lioinens, sob o comando de Jezzar-Klian e, de- 
pois de terem experitnentado mais uma derrota ein 
um assalto geral, recorreram ao sistema das rniuas. 

O baluatre de S. Joao foi o primeiro que ininaram 
sera que os nossos o pressentissern. O rebentar da mina 
destruiu o baluarte, morrendo 60 portugueses e entre 
files I). Fernando de Castro, (') que, obedecendo ao 
aviso recebido de L). Joiio Mascarenhas, se teria (*) 


(*) No terreiro uJjticunlu no castclo dc Diu ha, scin ictreiro, 
nma cruz, quo se diz cstsir no login 1 da sepulbura de D. Fernando 
dc Castro — Cunhu Uivsiru, ftiscriftocs de Diu. |>ag. :>7. 



86 


salvado, retirando-se com todos os sous, se urn louco 
temer&rio niio apelidara de covarde quern desampa- 
rasse o pdsto. 

Apos o estrondo da explosfio, entraram 500 turcos 
pelas ruinas do baluarte ; mas, em vez do muro esbo- 
roado, encontraram uraa barreira de 5 valorosos por- 
tugueses, que, opondo-lhes uma resistencia mais que 
humana, apararam o embate da corrente, at6 que acu- 
dindo os soldados, que pelejavara nas outras estancias, 
travaram uma renhida batalha e obrigaram o inimigo 
a desistir da emprCsa. 

Mas, os assaltos coutinuaram reduzindo, cada vez 
mais, a uossa guarnigao. Felizmente, chegou a es- 
qu'adra de D. Alvaro de Oastro com tun poderoso re- 
f6r§o, que, embora, mio elevasse o nuinero dos coraba- 
tentes senile a seiscentos, encheu, contudo, de taraa- 
nha confianga os portugueses, que, ajuntando-se um 
dia mais de 400 armados, quiseram, contra a vontade 
dos seus chefes, ir afrontar o inimigo no campo e 
constraugeram 1). Joao Mascarenhas a comandd-los e 
D. Alvaro a segui-los. Mas, a sortida saiu-lhes infe- 
liz, porque, alem de morrerem 35 dos nossos no com- 
bate, ficaram feridos mais de cem, iucluindo D. Al- 
varo. 

Aproveitando a vitoria ten tar am os inimigos tomar 
uum impeto a fortaleza, rnas forarn repclidos. Con- 
tudo crearam tamanha audacia, que cbegaram a cons- 
♦truir uma nova cidade em frente da fortaleza, como 
o tinham feito os reis catdlicos no cerco de Granada. 

A noticia desta derrota dos nossos foi assustar D. 
Joiio de Castro era Goa ; o qual imediatamente enviou 
a Dili uma armada de '22 caravelas sob o comando de 
Vasco da Cimha e, cm seguida, empregou toda a sua 
actividade e todos os recursos do Kstado em prepa- 
rar o Socorro decisive quo elf pn'tprio devia conian- 
dar. 



87 


Segundo Jacinto Freire, as damns de Olmiil de- 
rail], nesta ocasiao, utn testemunho do seu patriotismo 
enviando ao governador todas as suas joias, para que 
delas dispusesse em proveito da guerra, facto que c? 
contestado e refutado por Cunha Rivara ( l ). 


(*) Numa raemdria, proferida na scssao solenc do « Instituto 
Vasco da Gama*, em 30 de .Janeiro de 1875, demonstrou Cunha 
Rivara, com a sua superior critica, a segninte proposi^fio, pela qual 
comegou : As donas e donzctas de Chaul nao enviaram de pre- 
sente a D. Jodo de Castro as suas joias para o apresto da armada , 
em que detcrmimva passar a Diu . 

Confrontando uns documentos que leu, mostrou o erudito orador 
que, quando D. Jodo de Castro pediu aos cidadaos de Chaul o 
acompanhassem, e ajudassem na empresa de Cambnia, esses cida- 
daos se fizeram prestes em suas pessoas e em toda a sua fazenda e 
haveres; acrcscentando que, se para isso nao snprissem as fazendas, 
suas mulheres lhes ofcreciam a idea as joias, para despenderem 
na guerra: que, chcgada a Goa a nova desta patriotica oferta, uma 
dama de Cliaul, que, acaso, se achava aqui em casa de uma filha 
casada, movida de uma nobre emnlagfio, e, nao tendo, ao que pa- 
rece, marido a que fosse mister valer-se das suas joias, quis avan- 
tajar-se as suas compatriotas, nao se limitando a oferecer, vocal- 
mente, as que possuia, mas enviando-as ao governador por mao de 
ontra sua lilha, de quern fala como donzela. 

As primeiras palavras da carta de 1). Catarina de Soiiza=«Ew 
soube como as mulheres de Chaul tinhdo oferecido a V . S. as suas 
joias para a guerra*— sao, na verdade, eqiuvocas, acresscenta Ri- 
vara. Mas, o cquivoco lien desfeito pelo rcsto da mesma carta, 
que, por si so, era bastante para desenganar a Jacinto Freire do 
seu erro, coe para nos confirmar na opiniiio de que as joias de 
Chaul nao sairam ds*s miios das suas donas. Se D. Catarina 
escrevia ao governador depois de cle ser entregue do presente, c se 
o presente consistia em todas as joias de Chaul, como tndo se an- 
toiliou a Jacintho Freire, seria indesculpavel impertinencia, e gros- 
seuo disparate dizer aquela dama = « Nuo jnlgue, em qudo poucas 
sdo, as que podc haver em Chant , porqttc 1 he certifico que eu sou a 
que menos lenho»~<iE creia F. 8. que so das joias de Chaul pode 
fazer a guerra dez aims sem se acabarem de gas tar* — Se D. 
Catarina assim se expressava, claro esta (pie nao era conhecida do 
governador a quuiitidade das joias de Chaul, ncm as tinha em seu 
pod or. Acresce a carta dos cidadaos, (juc explica nao ser esse 



88 


A 17 de Outubro de 1546, partiu de Goa D. JoSo 
de Castro corn uma poderosa esquadra e, tendo sido 
recebido na fortaleza, em 6 de Novembro, com grande 
a!vor6qo e estrondosas salvas de artelharia, fixou o dia 
11 para fazer uma sortida geral e travar a batalha 
deoisiva. 

0 exdrcito portugufis, que, incluindo a guarnigiio, 
nSo passava de 3 mil e quatrocentos homens, n&o 
duvidou ir pelejar cm carnpo raso 
Derrota de com os 4 mil soldados de Rume- 
Rome-Klian Khan. D. Joao de Castro presidiu 
ent;lo a uma ressurreigdo dos velhos 
brios portugueses; pois, fizeram os nossos tais proezas 
que se nfto podem particularizar, e, a-pesar da inferio* 
ridade numerica, obrigaram o inimigo a levantar o 
cerco, inorrendo na batalha Rume-Khan e sendo pri- 
sioneiro Jezzar-Khan com 600 soldados. 

Todas as riquezas da cidade improvisada foram a- 
preendidas pelos portugueses c, entre elas, quarenta 
pefas de artelharia grossa, uma das quais e a celebre 


oferecimento fcito directamente ao governador, mas a files pr<>- 

E rios; o que se ajusta jterfeitarnente com o pensamento de D. 
atari na. 

Alem disto, Gunha Rivara diz ter descoberto, aqui em Goa, ou- 
tro documento, que corrobora as suas conclusOes. A 22 de Feve- 
reiro de 1642 foi jnrado na cidade de Chaul, por herdeiro da corda 
de Portugal, o principe I). Tcodosio, filho do novo rei D. Jofto 
4.°. Na rela^ao que nos a.’qnivos ficou dessa solenidade, esta en- 
corporada a Jala , que, por essa ocaaiito, fez o conhecido jesuita, 
p.* I) logo de Areda, o qual, referindo-se ao patriotismo e beneme- 
ritos servigoa dos moradores de Chau! ao govfirno portugufis, n£o 
diz uma so palavra da ac?So tso encarecida por Jacinto Freire; o 
one indica nfto haver dela roemdria nessa cidade; pois a havfi-la, 
impossivel seria que escapassc ao cloqiienbe paneginsta da cidade, 
em tHo miiida rela(ao. 

( Imlilulo Vasto da Gama , 8.° vol., pgs. 29 e 55 ). 



pet;a de Diu, que se guarda no edificio do Arsenal do 
exdrcito era Lisboa e ainda conserva a meradria des- 
ses dias herdicos. 

Depois de levantar o assedio, D. Joao de Castro 
escreveu aos vereadores de Goa uina toeante carta 
pedindo-lhes am emprestimo de 20 mil pardans para 
reedificar a fortaleza. e envioa, era penhor, alguns ca- 
belos da sua barba, alein da provisao que raandava 
para que o tesoureiro Ihes fosse pagandoa quantia pe- 
los rendimentos dos cavalos. 

E’ verdade que a garautia duraa provisao escusava 
o penhor da barba ; mas, esta amplificagao, que hoje 
seria ridicula, produziu entile raagnifico el’eito. 0 
Senado, euternecido, devolveu as barbas e a provisao, 
e enviou o dinheiro, que depois llie foi pago integral- 
inente, e as daraas de Goa oferecerara suas joins, que 
D. Joao de Castro nfto aceitou. 

Em Abril de 1.547, regressuu 1). Joao de Castro a 
Goa, onde foi rccebido eomo tun veneedor rotnano 
com as maiores pom pas de Iriunfo. Eis cotuo se fez 
a solenidade da recepgfio. 

() governador, vindo de Pangini, e entrando pela 
ria. coalhada de embarcagoes, ale- 
greraente enramadas. desembarcou 
nura cais tie madeira, que a cidade 
construira e atapetara com custosas 
sodas, para esta oeasiflo, no bazar de S. Catarina ; e 
ordenou-se o cortejo triunfal ao sora das salvas e 
toques de trorabetas, atabales e pandeiros. Caminha- 
va t\ frente o Custodio dos Keligiosos Franciscanos, fr. 
Antonio do Casal, com o crucifixo que levara na bata- 
Iha, com um brago desencravado e pendente. Seguia 
a bandeira das quinas arvorada, e logo os 7 estandar- 
tes e um guiao verde do rei de Cambaia, arrastados 
a vista de Jezzar-Khan, que ia maniatado e de olhos 
baixos, diante dos outros capitaes cativos, c entre o 


Trill life tic 
l>. .f«;io <le 
('astro 



secretdrio .Conroe Anes e o ouvidor geral Antonio 
Martins. Viam-se, depois, dois trabucos e algumas 
pe§as de artelharia, 600 prisioneiros arrastando ca- 
deias e muitas carretas, conduzindo os despojos da 
guerra, ladeadas pelos soldados vitoriosos. 

0 governador trazia uma ronpa francesa, de setim 
carroesiui, toda guarnecida de ouro. A’ porta da ci- 
dade, que, por ser pequena, f6ra rasgaua toda ate 
ao alto muro, e reroatada por uni arco, uin vereador 
recitou um eloqiiente discurso eni latim.. era louvor da 
vitoria alcan<;ada, que foi apoiado pela rausica e pelos 
tiros de alguroas pe<;as, que, apontadas para o ar, es- 
palhaiatn sobre o povo uma por§ao de curiosos doces, 
de que haviaru sido earregadas em logar de balas. 0 
governador, depondo o gorro da cabe«;a, toraou uroa 
coroa triunfal e na raao urn formoso raino de palroeira 
e, caminhando dehaixo de uro rico palio, entrou na ci- 
dade pela Rua do Hospital e dirigiu-se para o terreiro 
do Pa$o, onde estava construida uroa fortaleza de ma- 
deira tigurando a de Diu, a qual disparou a sua artelha- 
ria e borabas de fogo, arremedando a batalha e 
cantando-se no fim louvores ao vencedor. Atra- 
vessando a Rua Direita , que se achava festivamente 
juncada e enramada, foi o triunfador perfumado de 
aguas aromAticas que espalhavara as damas das ja- 
uelas juntamente com varias {lores. Entrou na igreja 
de N. Sra. da Serra e langou a agua benta sobre o 
tdmuio de Afonso de Albuquerque, e dai, pela Rua 
do CrucijixOy foi visitar a igreja de S. Francisco, onde 
encontrou a comunidade entoando na rua o Benedictus 
qui renit, e seguiu para a catedral, sendo aqui rece- 
bido pelo bispo e o clero ao canto do hino Te Deum 
laudamus. 

Concluidas as ceieradnias, recolheu-se o governador 
ao Paqo, e ordenou que, na parte do rauro que se 
roropera, se crigisse uma capela a S. Martiobo, era 



91 


c ujo dia se alcanqara a fanioaa vitdria e ein todos os 
anos se fizesse nesae dia uma festa com solene pro- 
ciss&o ; o que se observou ate ao ano de 1830. (*) 
Contudo, nilo podia 1). Joiio de Castro adormecer 
sobre os louros conquistados. Teve de cotnbater 
com Adil-Khau afim de assegurar a tranqiiilidade de 
Salsete e Bardes ; e partiu de novo para l)iu com 
uma esquadra importante, por llie coDstar que o sul- 
tfio de Cambaia pensava etn reconquistar aquela pra- 
qa ; mas, o sultilo, vendo que os nossos estavam prc- 
venidos, desistiu da emprcsa e D. Joiio de Castro li- 
mitou-se a bombardear a costa. 


Voltando para Goa, teve que repelir nova guerra 

de Adil-Khan e desta vez para castigar a sua cons- 

tante inquietaqao, destruiu-lhe todos 

os portos e empregou os meios ne- Adil-Klian 
K ■ v i . novamente 

cessanos para o reduzir a uma tran- derrotatlo 

qiiilidade definitiva. 

Em 1547 o rajd de Bisnagar por lira tratado solene 
e formal colocou nas maos dos portugueses o mono- 
polio do comercio do seu pais obtendo em compensa- 
<jilo o exclusivo fornecimento dos cavalos. 

« Depois destas vitdrias D. Joiio de Castro voltou 
a sua atenqilo para os negdcios internos, seguindo 
uma politica que lembra a de lord Cornwallis em 
Bengala na histdria posterior da India; fixou os salsi- 
rios dos oficiais civis forccjando por por termo ao 
sistema de corrupqiio e peculato com que defraudavam, 
ao mesmo tempo, o tesouro real e os indigenas. Via 
tarabSm com especial desgosto a vida licenciosa e 
imoral levada pelos portugueses em Goa, e reprimiu 


(») A gloriosa defesa da pra?a de Din foi cclebradn em dois 
poemas epicos, o Primtiro Cerco de Diti por Francisco de Andra- 
de; e o Segundo Ctrco de Diu por Jeronimo Cdrte-Real. 



1)2 


enbrgicamente o Iuxo, que, corao dizia, s6 podia ser 
susteutado pela defrauda§ao dos direitos reais.® ( l ) 
El-rei D. Joilo 3.°, informado dessas vitdrias do 
governador da India, recon. pensou-o dando-lhc o 
titulo de vice-rei, com uma ajuda 
Norte de D. de custo de 10 rail cruzados, e pro- 
Joao de Castro rogando o seu governo por raais tres 

anos. Seu filho D. Alvaro foi agra- 
ciado com o pdsto de capitao-mor do mar das Indias. 
Mas, D. J»ao de Castro nao teve a fortuna de gozar 
destas merces, cujas notfcias recebera ; porque mor- 
reu era 6 de Junho de 1548, nos bragos do Apostolo 
S. Francisco Xavier, eonfessando com orgulho nOo 
ter tido em casa uma </ulinka para comer na sun 
enfermidade. 

De tudo isto se ve que D. JoAo de Castro era urn 
vulto nobre, sirapatico e austero ; e se a sua gran- 
deza moral parece As vezes misturnda coni uma pon- 
tinlia de ostentayao, era talvez porque o grande herdi 
e santo entendia que, nuraa epoca em que o vicio 
reinava desenfreado, tinlia a virtude de ser aparatosa 
e deslumbrante. A feiyiio roraana do seu cardcter 
liavia sido amoldada pelos desenhos de Plutarco, de 
quem se apaixonara. Triunfou como pagao e morreu 
conio cristilo, diz algures um escritor. 

Com a morte de D. Joao de Castro foi reconhecido 
como governador Garcia do Sa, ( 1548-49) na con- 
forraidade da 3.® via de sucessao, per haverem re- 
gressado ao reino 1). Joao Mascarenhas e Jorge 
Tello, designados nas primeiras duas patentee. 

D. Garcia de SA concluiu a paz com Adil-Khan, 
obtendo a confirmaqao da doacuo das terras de Salsete 


(’) Stephens, pag. 185. 



c ltard^s, com a condi$sto de ser 

guardado, para sempre, Meale*Khan Paz com 

era Goa, e zelou muito pela pontua- Ad 11-Khan 

lidade no pagamento dos soldados e 

pelo despacho mais r&pido das pretenqoes. Morreu 

logo depois de urn ano de gov&rno, e jaz sepultado na 

igreja do antigo priorado da N. S. ra do Itosdrio era 

Goa. 

Durante a administrate de JOP^O Cabral, (1549-51) 
(pie se Ihe segiriu pela 4.“ via de sucessao (eram cinco 
as vias que desta vez se acharam em Goa ), recomeqa- 
ram os portugueses os actos de pirataria ; e Francisco 
da Silva, capitflo de Cochim, foi saquear um templo 
Hindu, onde nSo encontrou os tesouros que ia buscar, 
mas lutanto com os Hindus perdeu alguns soldados. 

Pouco tempo depois, o rajs'i de Calicut, o de Tannor 
e mais alguns reis do Malabar coligaram-se contra os 
portugueses, e, em um combate que se deu na ilha de 
Bardela, Francisco da Silva foi tnorto. Mas, Manoel 
de Souza de Septilveda, o herdi do celebrado poeraa 
de C6rte-Real, obrigou o rajd de Tannor a uma paz 
onerosa. Jorge Cabral foi, em pessoa, assolar a costa 
de Calicut e arrasou Torah, Coulete e Panane, e teria 
reduzido o Samorim a ul times apuros, se n5o tivesse 
de entregar o govfirno ao sucessor. 


CAPlTULO VIII 

1381 — 1888. D. Afonso de -Noronha, D. 
Pedro Mascarenhas e Francisco Barreto. 

A ambiq&o dos portugueses, o seu despotismo cada 
dia crescente e a perseguijfio religiosa que raoviain 



nos uiilins, desirin' n<lo os sens lemplos o nfnndenrin 
as suas crengas, segnndo recomendava el-rei 1). Joilo 
3.°, de ac6rdo com as ideias do tempo, haviam gerado 
nos indigenas um ddio figadal contra Cdes, e snblevado 
os espiritos no oriente. Daqiii vieram as multiplicn- 
das guerras, que ocuparam todo o govi'rno de D. Af0I)S0 
de Noron^a, (1551-54) 5.° vice-rei da [udia. 

I). Afonso tinha energia suficiente para afrontar 
esses perigos ; mas, com o exemplo das extorsoes e 
rapinas que deu, mostrou-se improprio para operar ns 
reformas, de que vinha incuinbido. 

Logo nos principios do seu governo (1551) teve a 
felicidade de conquistar e fortificar Aden, que Afonso 
de Albuquerque nsio pudera tomar ; mas apenas con- 
servou esta chave do comorcio do Mar Vernfelho 
durante um ano, depois do que foi retomada pelos 
turcos, 

0 vice-rei niio largou mao das armas ; pois, infor- 
mado de que no Egipto se preparava uma esquadra 
contra a India, mandou o capitilo 

Sucessos no Luis Figueira com cinco fustas ao 
<>olfo l’ersico Mar j{ oxo trazer noticias nmis posi- 
tivas. Encontraram-se as fustas com 
cinco galeotas turcas, de que era comandante Safar, 
valente general do paxA do Egipto, e, depois de um 
asperrimo combate em que os portugueses pelejaram 
com a costumada audacia, Luis Figueira foi tnorto e 
aprisionada a sua fusta. 

Os turcos, a esse tempo muito poderosos, cobigavam 
a ilha de Ormuz, c, avangando cada vcz mais para o 
oriente, haviam chegado i\ embocadura do Euf rates e 
tornado posse das cidades de BassorA, situada na foz 
d&sse rio, e de Katif, nas margens do Gdlfo PArsico. 

0 vice-rei, querendo obstar a estas invasSes, en- 
viou, em Margo de L552, para Ormuz uma esquadra 
tripulada por 1200 homens, sob o cotuando de seu 



sobriuho l). Antuo de Noronha, 411c, auxiliado com 
3 roil soklados pclo rei de Ormuz, e com algumas 
tropas pelo capitao desta fortaleza, partiu para Katif, 
bateu a cidade com a sua artelharia e, a liora em que 
ia dar inn assaito, percebeu quo a guarnigao fngira 
secrctaraeute. Toruou, portanto, posse da fortaleza 
sem ter sofridc quiisi neuliuma perda; quando, porem, 
tratava de demolir 0 castelo para evitar novos eonfli- 
tos com os turcos, uma siibita explosao de minas 
malou-lhe mais de 40 portugueses. 

1). Antao de Noronha teria, tambem, expulsado os 
lurcos de Bassoru, que eram uma constante ameaga 
para Ormuz : mas, por umas suspeitas de que os 
naturaes daquela cidade, nossos aliados. o haviam 
traido, ahsteve-se de ir acometc-los. 

Logo cm Maio de 1552, o paxa do Egipto expediu 
uma esquadrade 25 gales sol> 0 comando de Epir-bey, 
o qual. depois de se apodemr da nossa fortaleza de 
Mascate, enja guarnigao se rendeu faeilmente, veiu 
ufano sitiar Ormuz, l’elizroente, D. A lvaro de Noro- 
nha, comandante desta fortaleza, tinha uma forte tro- 
pa de 900 horoens, gragas a uma nau portuguesa, que 
arribara a Ormuz. Tenclo. portanto, recolhido na for- 
taleza 0 aterrado rei da cidade e sens principals vas- 
salos, D. A lvaro ofcreceu uma resistoncia tao euergi- 
ca, que Epir-bey, veudo que da nossa artelharia 
recebia roaior dano do que 0 causado i\ fortaleza pelo 
seu bombardearoento, resolveu levantar 0 ccrco. 

Antes de partir, propos Epir-bey a 1). A’lvaro o 
resgate dos prisioneiros que fizera em Mascate, mas, 
este respondeu que nao resgatava portugueses covar- 
des, que preferirara entregarsc a sereni espedarados. 
Desapontado com esta resposta, Epir-bey saqueou 
Ormuz e a ilha de Kismis e retirou-se. 

Entretanto o vioe-rei, que partira de Goa com uma 
armada do 30 uavios em Socorro de Ormuz, eucon- 



96 


trando em Diu a noticia de que o cerco jsSi estava le- 
vantado, uiandou, uma csquadra para cruzar no Golfo 
Pdrsico e regressou para se ocupar dos negdcios do 
Malabar. 

0 grande Solitnao, que, nessa epoca, reinava na 
Turquia e que passava por iuvencivol na Euro pa e na 
A’sia, irritado por Epir-bey nao ter tornado Ormuz, 
uiandou decapita-lo. Tal era o castigo com que, 
nesse pais, se punia tanto a infelicidade como a iru- 
pericia dos generais. 

Contudo, em Agosto de 1563, apareceu outro ge- 
neral, Murad-bey, t\ testa de 15 gates nas aguas do 
G61fo Persico. A esquadra portuguesa foi-lhe ao 
enc&ntro e, emquanto os uavios de alto bordo se acha- 
vam inutilizados per uma terrivel calmaria, o galeao 
de Gongalo Pereira Marramaque, casualmente des- 
tacado do resto da esquadra, arrcstou sbsinho os 
ataques da inteira frota inimiga e, .combatendo he- 
r6icamente por um dia iuteiro, obrigou Murad-bey a 
fugir. 

D. Afonso de Noronha, querendo, entao, toruar 
maiores preeaugoes para o lado de Ormuz, mandou 
seu filho D. bernando de Menezes com uma poderosa 
esquadra ao Mar Roxo. 

Em Agosto de 1554, veiu jogar uova partida mais 
um capitao turco, por nome Ali-Xebuly, que pro- 
jectava unir-se a Murad-bey em Bassora ; mas, antes 
disso, perseguido pelas caravelas de 1). Fernando, 
foi desbaratado e teve de ir esconder a ver^onha em 
Cambaia. ° 

Em Malaca o antigo sultao de Bintam, lioje Vian- 
tana, coligado coin o sultao de Java e vdrios outros, 
vieram todos, numa formiddvel es- 
Em Nalaca quadra, sitiar a cidade em J unho de 
1551. A’ reclamagao de D. Pedro 
da Silva, comandante da fortaleza, apareccram, de 



97 


Singapura e outros portos vizinhos, alguns navios 
portugueses em socorro. A fortaleza era sitiada de 
ura lado pelos malaios e doutro pelos jaus e jd se 
achava reduzida a grandes ap^rtos de fome. Em 12 
de Agosto, os inimigos deram um assalto geral. D. 
Pedro da Silva, que felizmente estava prevenido e 
tinha disposto sftbre os muros uns mastros enormes, 
que havia tirado aos navios inserviveis, vendo os 
irtalaios escalarem de madrugada as mnralhas, esma- 
gou-os atirando sobre cles essas pesadas traves e por 
cima sucessivas panelas de polvora. 

Ao mesmo tempo, os jaus assaltaram a fortaleza 
doutro lado ; mas nfto sairam impunes. D. Pedro, 
avisado a tempo por uma mulher como em Diu, con- 
seguiu tambem dcsbaratsi-los com graves perdas. 

Vendo os sultoes o dano que tinham recebido neste 
assalto, assentararu reduzir Malaca pela fome, que 
efectivaraente foi crescendo, a ponto de faltarem ab- 
solutamente os raantirnentos. I). Pedro da Silva, nilo 
tendo outro recurso, langou mao de um estratagema, 
que por uma fortuna salvou a fortaleza. Pois, enviou 
alguns navios com ordem de devastar as terras dos 
reis sitiadores. Os raalaios, em vez de assaltarem 
neste momento a fortaleza, que, qudsi completamente 
desguarnecida por essa diversito, teria caitlo nas suas 
mfios, desistiram do eeroo para acudirem a seus rei- 
nos. Ficaram em tdrno de Malaca s6 os jaus que 
obstinadamenie nfio quiseram afastar-se. Mas Oil 
Fernandes de Carvalho, com permissito do comandan- 
te, fez uma sortida, it testa de 200 homens, e foi tao 
feliz, que dispersou os inimigos obrigando-os a em- 
barcarem. Assim, ficou Malaca livre do assedio mais 
terrivel que atd aqui sofrera. 

Em 1553 com a morte de Mahmud, sultilo de Cam- 
baia, insurgiram-se os mouros de Diu e principiaram 
negar aos portugueses os rendimentos da alfdndega. 



H8 


Mas, a sublevagSo t'oi reprimida, sendo derrotados e 
expulsos os moiros por D. Diogo de Almeida, gover- 
nador da fortaleza, e seu sucessor D. Diogo de No- 
ronlia. Emquanto estas e outras vitorias de um lado 
abrilhantaraiii o vice-reinado de D. Afonso de Noro- 
nha, os outros pontos do nosso dominio eram testemu- 
nhas do despotismo dos portugueses e das mais 
vergonliosas depredates praticadas pelo prdprio 
vice-rei. 

Xas Molucas Bernardim de Sousa, comandante 
da fortaleza, homem violento e obstinado, nfto queria 
que os reis dessas ilhas tivessem for- 

Uuerra lias talezas nos seus reinos, porque isso 
Molucas im porta va, dizia ele, uma prova de 

desconfianqa contra os portugueses. 
Por um pretexto desta ordem declarou guerra ao sul- 
tao de Geilolo e ccrcou-lhe a fortaleza. 0 sultao, 
reconhecendo a sua fraqueza, capitulou com a condi- 
$ao de abdicar o titulo real, pagar um tribute pesado, 
mas conservar o reino. Os portugueses rasgaram a 
capitulate e, alein de saquearem a cidade, mataram 
barbaramente os habitantes. O pobre sultao, n;lo po- 
deudo suportar a dAr, fugiu para os matos, donde 
nunca mais sain, protestando assim contra a perfidia 
e crueldade dos portugueses. 

Depois da morte do sultao, Bernardim de Souza 
restituiu o reino a um dos filhos, que aquele deix&ra, 
mas confirmou-o apenas com o titulo de Sangage (go- 
vernador). 

Na illia de Ceilao, Madune, raja de Ceitavaca, 
estava em guerra aberta com o de Cota, nosso aliado. 

fiste soberano, auxiliado pelos por- 

Exac<*oes em tugueses no govArno de Jorge Ca- 
^dl*® bral, havia alcangado, contra o seu 
adversdrio, uma brilhante vitdria ; 
mas, antes de concluir a guerra, morreu dum desastre. 



Durante a menoridade do seu herdeiro, assumiu a 
regencia seu parente Tribuly-Pandar, que prosseguiu 
a cam panha. Entretanto jti governava a India D. 
Afonso de Noronha, que, informado dos factos, julgou 
ocasiSo oportuna para ccvar a sua cobiga. Partiu 
com uma esquadra a Ceilao e o pritneiro passo que 
deu, foi meter a tormento os crcados da casa do raj A 
falecido para que lhe descobrissem onde era o tesouro 
dos antigos reis. Nao podendo conseguir a declara- 
gao desejada (provavelmente porque esse tesouro nSo 
existia), saqueou o palacio e nao quiz ir auxiliar 
Tribuly-Pandar contra Madune, sem que lhe prome- 
tesse pagar, como para as despesas da jornada, 200 
mil pardaus de ouro em duas prestagoes. Recebidos 
logo 80 mil, que foi o que o regente p6de apurar 
vendendo joias e outros objectos, entrou na guerra 
e toraou Ceitavaca; mas a presa que fez, incluindo a 
riqueza de um templo, guardou-a toda para si, nao 
obstante ter estipulado com o seu aliado dar-lhe me- 
tade; e, a-pesar-de tudo isso, abandonou-o no resto da 
campanha, por este lhe nao poder apresentar os 20 
mil pardaus, que devia a conta da pri|peira presta- 
gao ! ! 

Pouco depois tratou o vice- rei de prender Tribu- 
ly, para o obrigar a pagar a quantia devida; mas, 
sabendo que 6ste fugira, prendeu o camareiro-mdr 
do rei, que so obteve a liberdade mandando a D. 
Afonso uns 5 mil pardaus a bom custo reunidos, obri- 
gando-se por um escrito a pagar-lhe o resto por todo 
aquele ano. 

Nao satisfeito com estas exacgoes, D. Afonso, ao 
sair de Ceilao, recomendou ao capitao de Colombo 
que prendesse Tribuly, logo que o pudesse e o man- 
dasse para Goa. E efectivamente, passado algum 
tempo, Tribuly foi preso, mas fugindo da prisao mo- 
veu uma funosa guerra aos portugueses, que, afinal, 



100 


terminou por umareconciliaqao. ( ! ) 

Este tdrpe exemplo, que o vice-rei deixava, imita- 
rain-no os capit&es de Colombo e, entre cstes, mais 
escandalosamente D. Duarte de Ega e o seu imediato 
sucessor. Pois tratando o rei de Cota de continuer a 
guerra contra Madune, D. Duarte proineteu, e jurou 
sob re um missal, ir auxilia-lo com 50 portugueses e, 
por pagamento, recebeu logo mil cruzados. No mo- 
menta da raarcha exgiu maior paga e sacou mais 500 
cruzados, e, em troca, mandou-lhe apenas 20 solda- 
dos. E, depois de tudo isso, D. Duarte nao teve o es- 
crupulo de cartear intimamente com o inimigo e acei- 
tar-lhe dinheiro; o que tendo sabido o rajYt de Cota, 
e receando alguma traiyao dos 20 portugueses, desis- 
tiu da empresa, mandando k pressa recolher as suas 
tropas ! ! ! 

0 sucessor de D. Duarte procedeu aiuda pior, 
porque recebeu dinheiro e nunca mandou o auxilio 
(jue prometeu. O raja de Cota, entuo, enojado desta 
impudente desraoralisaqfto dos seus aliados, com quern 
nao podia contar para a guerra, preferiu fazer com o 
seu adversdrio a paz menos onerosa possxvel. 

O eco destas vergonhas chegou felizmente ao gover- 
no da metropole, que ordenou ao vice-rei restituir ao 
rajd de Cota tudo quanto Ihe fora roubado. 

Durante o governo de p. Afonso, que findou em 23 
de Setembro de 1554, vein alistar— se no servigo da 
India o iraortal cantor dos LusUdas, Luis de CamSes, 
e faleceu S. Francisco Xavier na ilha de Sanchao 
(1552). Tambdrn foi neste governo que os Jesuitas (*) 

(*) No arquivo da Torre do Tombo conserva-se o inventArio, 
quo D. Afonso de Noronba maudoa fazer do ouro, joias e dinheiro, 

3 ne achoa em casa do rei de Ceilao, no pagode etc. Tem a 
ata de 10 de Novembro de 1558 ; Descripfdo ids moedas por 
Teixcira de Arag&o, vol. 3.° pag. 143. 



101 


introduzirarn a arte tipografica em (Joa. Sao tres 
factos importantes para a histdria indo-portuguesa e 
que entre si se relacionatn, corao varnos a ver. 

Luis de Camoes vein em 1.553 a bordo da nau S. 
Bento, tinica da armada do capitilo-mdr Fermlo Al- 
vares Cabral que chegou a Goa. 

Aqui, a sua vida foi too tcmpestuosa Canutes cm 
coino em Portugal. Combateu na ®o* 

expedigao contra o rei de Chetnbd ; 
em 1554 figurou na tomada de Mascate, no Mar Vcr- 
mellio, sob o cornando de 1). Fernando de Menezes ; 
sofreu as pro v, agues de um longo cruzeiro junto do 
Monte Feliz. Em 1556, por ter escrito mua sutira, 
como adiaute veremos, foi desterrado pelo governador 
Francisco Barreto para as Molucas, donde partiu para 
Macau. Nessa ilha exerceu o cargo judicial de Pro- 
vedor-m6r dos defunctos e ausentes, e escreveu, segun- 
do diz a tradigao, o setimo canto dos Lustadas , numa 
grata, que ainda e conhecida pelo nomc de Cruta de 
Camden. Da ida para Macau naufragou (') na costa 
de Cambodja, salvando a nado o seu poema na foz do 
rio Mecon. Voltando a Goa em 1560, no vice-reina- 
do de D. Constantino de Braganga, passou pouco 
tempo sem torturas, gragas a protecgao do vice-rei. 
Na governagao imediata, porem, foi de novo perse- 
guido pelos inimigos e esteve preso, Quando em 
1562, um Miguel Rodrigues Coutiuho, por alcunba 
Ft os Secos, a quern- o poeta devia dinheiro, o mandou 
erabargar na prisfio, Luis de Camoes deveu a liber- 
dade a um memorial que dirigiu ao vice-rei, conde do 
Redondo, em quadras satiricas visando o Flos Secos. 
Provavelmente para se eximir a novas perseguigoes 
regressou a Lisboa. 


(') Francisco Evariste Lconi, CaniOts c os Lustadas, pug. 136. 

7 



102 


0 padre mestre Francisco Xavier, mTo raaior pelas 
inumeras conversoes dos natnrais que operon com a 
do$ura da sua palavra e a santidade 
Morte dcS. do seu exemplo, do qne -pela refor- 
Francisco Xavier llia ^ 0 dos prdprios portugueses, 
morreb pobre e esquecido, mas 
clieio de celestiais consolagoes, numa ilha do extre- 
me oriente a 2 de Dezembro de 1552. IncansAvcl 
tnissionario portugues, percorreu desde Paris, onde 
corneqou a sua carreira, at6 Sanchilo, onde fechou os 
olhos, 53 mil logo as, cliegando a converter a religislo 
catolica, duni aoutro extremo, 1.200.000 infieis. E’ 
o vulto mais glorioso que ilumina as paginas da histo- 
ria da India coin a luz radiante que emana da sua 
aureola de santo. 


A infatigavel e benemcrita Companhia de Jesus 
introduziu a arte tipogrdfica em Goa. A primeira 


Arte tipografica 
em Goa 


obra que se editou, foram as teses 
ou Conclusoea Publicas , defendidas 
no colAgio de S. Paulo ; depois, foi 
o catecismo do grande Xavier : e os 


primeiros versos de Camoes, que viram a luz pix- 
blica, foram tambem dados a, estampa nessa mesma 
tipografia. (*) 


D, Pedro Mascarenhas ( 1554-55 ), sexto vice-rei da 
India e sucessor de D. Afonso, foi um administrador 
honrado, mas o seu govdrno duro'u apenas nove me* 
ses. No seu tempo Anel-Melek, governador do Con- 


( l ) J. and P. of A. S. B. vol. 9 (1913) pag. 155. e Evolufao 
do jornalismo por A. M. da Canha. Noticiou o Gonimbncense, 
n.° 5288, de 19 de J ulho de 1898, qne no espdlio literario do iinado 
biblidgrafo micaelcnse Jose do Canto, se encontron am exemplar 
da primeira poesia impressa de Camdes, inserta no livro do 
dr. Garcia da Orta, pnblicado em Ooa no ano do 1563. Cf. I. 
Gracias. A Iniprensa cm Goa. 



103 


cfto, e alguns ca pi tiles poderosos, tendo conjurado 
contra o seu soberano Ibraim Adil-Khan, enviaram 
einbaixadores a Goa, pedindo que se lhes entregasse 
Meale para o raetereun na posse do trono, oferecendo 
it coroa de Portugal as terras do Oonciio com as suas 
alfaodegas e tanadarias. D. Pedro, tanto porque 
ganhava as terras sent ter de intervir na revolta que 
ia rebentar contra o soberano, como porque teria em 
Meale, elevado ao trono, um aiiado seguro, aceitou o 
partido e acompanhou o principe, com muitas honras 
e um cortejo de 3 mil soldados, ate it fortaleza de 
Pondd, que tr6s dias antes fora tomada pelos portu- 
gueses. 0 vice-rei fez ali a entrega de Meale a 
Salabat-Khan, que o vinlia receber, e regressando ft 
cidade, jti doente, faleceu a 6 de Junho de 1555. 

Francisco Barreto, ( 1555-5S) que seguiua Mascare- 
nhas pela 1.* via de sucessao, eonfirmou Meale com o 
titulo de rei de Bijapur e, tendo dado 
o governo da fortaleza de Ponda a Meale feito rei 
D. Fernando Monroy, enviou D. de Bijapur 
Antao de Noronha tomar posse das 
terras do Concao. 

Emquanto D. Antao levantava tributes em Kudai, 
uma f6rga de 7 mil homens veio, por or Jem de Ibraim 
Adil Khan, opor-lhe resistencia. Empenhou-se uma 
renhida batalha nas margens do rio de Carl ini, e os 
mouros foram derrotados com sensiveis perdas ; con- 
tudo, a vitdria n3o aproveitou aos portugueses ; por- 
que Adil-Khan, apoiado pelo rei de Vijayanagar, 
desbaratou o partido de Meale e expediu u.n grosso 
er^rcito contra os portugueses, k vista do qua! o go- 
vernador, receando algum desastre, mandou abando- 
nar Concfto e Pondd e recolher as tropas. 

Meale regressou entao k cidade de Goa, onde ele e 
seus filhos foram subsidiados pelo Estado at6 falece- 
rem, ficando por herdeiro dos seus direitos seu neto, 



10-J 

eonvertido ao cristianismo, I). Jotto de Menezes Xd, 
que se casou eni Portugal e por testa uoento legou 
ao soberano portugu.es as provincias de Salsete e 
Bardes. (*) 

Mais tarde, Pero Barreto Rolira destruiu e incen* 
diou a cidade de Dabul, pertencente 
Assalto a Salse- a Adil-Khan. £ste principe, que- 

te e Bardes rendo vingar a afronta, resolveu lan- 
§ar mao das terras de Salsete e Bar- 
dcs e, emquanto o governador fortificava os passos 
da ilha de Goa, Nazir-Melek, entrando era Salsete, 
foi dar vista ii fortaleza de Radiol, onde estava 
por capita o D. Pedro de Menezes o Rnivo, que lhe 
saiu ao encontro e travou aigumas escaratmqjas com 
resultado favonivel ; mas foi afinal obrigado a reco- 
Iher-se n fortaleza deixando as aldeias ii mcrce do 
inimigo. 0 governador, avisado desta ocorrencia, 
marchou com 3 mil soldados e 200 cavaleiros e, tendo 
eocontrado o inimigo era Ponda, atacou-o e po-lo 
em debandada ( 1557 ). 

Ao mesrno tempo as terras de Bardes foram assal- 
tadas repetidas vezes por Mu rad- Klian; Joao Peixoto, 
poreraj protegendo as fronteiras, conseguiu repelir 
essas agressoes. 

ftste Joflo Peixoto e Alvaro da Silveira foram os que 
mais honraram o governo de Francisco Barreto com 
actos de bravura militar. 0 primeiro, partindo de 
Goa em 1556, apenas com duas galeotas, ao Mar 
Roxo, entrou de noute na ilha de Suakim, inimiga 
dos port igueses, matou o soberano e utn grande nii- 
tnero ’de cidadilos, e voltoir para Goa com alguns 
cativos e muitas riquezas. 0 segundo assaltou as 


( l ) Archivo Pori. Oriental, Fasc. 5.° doc. 138. Bosq. Hist, 
das com. 1 * eel., Par. 2.*, prig. 3. 



costas de Calicut, apresou alguns navios e obrigou 
o Sam o rim a pedir a paz, e a rainha de Olala a pagar 
o tributo que recusava. 

A-pesar destas vitdrias, o norae de Francisco Bar- 
reto tornou-se tristementc c<Mebre pela persegniqao 
que moveu a Camoes, a quern man- 
dou prender e desterrou, por lhe ter Perse< , nicilo a 
o poeta estigmatisado os vicios da Caiuoes 
administragfio nuina satira intitulada 
— Os disparates da India. 

Eis como urn dos bibgrafos de Camoes narra o 
facto : “ Para celebrar, pois, a sucessuo do novo go- 
vernador ( Francisco Barreto ) executaram-sc em 
Goa estroiulosos festejos, jogos e outros divertimen- 
tos, em que a devassidao e a cnipula se ostentaram 
piiblicamente ; nao sendo alguns dos principais in- 
aividuos da cidade os que menus so distinguiram em 
tao repugnante espectaculo. Camoes, severo repreen- 
sor dos vicios, indignado de ver tamanho aviltamqpto 
e impuddncia, escreveu imia satira, em que ttagelava 
os que se conspurcaram naquela especie de orgia : 
satira que, promovendo as iras dos tj ue a haviara me- 
recido, desafiou a prepoteneia do famoso governador, 
que, arbitri\riamente, desterrou o poeta para as Mo- 
lucas. — A medida despdtioa estava ua indole do go- 
verno daquele tempo e uilo desdizia do que entao se 
praticava na India : nao e uisso que fazemos reparo ; 
mas em que alguem houve que, para defender Fran- 
cisco Barreto, pretendeu desculpar a imoralidade da 
medida’’. (') 

Francisco Barreto foi o ultimo dos eatorze gover- 


(') F. E. Leoni, Camoes c os Ltisiailas, pag. 131. Ci. Vis- 
condc de Jurotueuha, Obras ile Luis de Canutes , vol. I. pig. 70. 

7 * 



106 


nadores da India nomeados por 1). Jotio 3.“, quo fale- 
ceu eui 1557. (') 


OAPiTULO IX 


D. Constantino de Braganqa e seus trcs 
primeiros sucessores 

D. Constantino de Bragan^a, (1558-61), viee-rei no- 
rneado pela raiuha regente 1). Catarina, era am hornena 
intrcpido, de probidade severe e fidalgo de alta li- 
nliagem. Den proves do seu grande amor As letras 
protegondo eficazmente o desgragado Carndes, que 
ueste governo voltou de Macau para Goa. 

Entrando na India, 1). Constantino julgou indis- 
pensavel tomar Damilo para assegurar a defesa das 
terras de llagaira, constanteinente 

Tomaila dc insultadas pelas depredates dos 
namilo gazerates, e foi em pessoa a essa 
expedigilo com uma esquadra de 50 
uavios. Logo que os portugueses desembarcaram (2 
de Fevereiro de 1559 ), os 4. mil homens que defen- 
diatn a cidade, tendo atirado algumas bombardas, 
fugirain e forain acampar em Parnel, duas leguas 
distante de Daraao. D. Constantino tomou posse da 
cidade e da fortaleza com grande aparato ; tnas, como 


(*) Neste ano faleccu, tambom, Ibraim Ad 'i- Khan, sucedendo- 
lhe seu iilho Ali-Adil-Xa, que cercon Goa m 1570, como vere- 
icos, e era casado com a celebre Chand-Bibi prissaesa de Ahmed* 
nagar c depots rainha regente do mesmo est tdo. 



107 


o initnigo vinha do sen reduto todas as noitea com 
cavalaria inquietar os nossos, mandou Ant6nio Moniz 
Barreto a desaloja-lo. Marchou Moniz Barreto com 
500 homens pelo silencio duma noute escura e achon- 
se em frente do inimigo sbmente corn 120 soldados, 
tendo-se perdido pelo catninho o resto da f6r<ja. 
Contudo, nslo recuou; comegou o ataque e obteve re- 
sultado satisfatdrio at6 que, ao romper do sol, reu- 
nida a parte da fOrga que se havia extraviado, deu 
uma rija batalha e destrogou completamente os nu- 
merosos inimigos, em cujas fortificagoes encontraram 
os nossos 36 pegas de artclharia e uma grande porgiio 
de moedas de cobre. Ainda bojc a camara municipal 
de Damiio celebra todos os anos com pom pa a festa 
da PurificagSo de Nossa Senhora, comemorando a 
vitdria de D. Constantino de Braganga. 

Para a seguranga da nova praga entendeu l). Cons- 
tantino ser necesssirio toraar a illia de Balsa r, situada 
tt pouca distftncia de Damiio, e enviou uma expedigiio 
comandada pelo capitiio de Bagaim, D. Pedro de Al- 
meida, e sen irmiio D. Luis; mas o terror, que tinliam 
espalhado as faganhas praticadas pelos portugueses 
cm Damiio, fez que si guarnigiio de Balsar, sem ousar 
esperar o ataque, se rendesse sem nenhuma resistencia. 

() vice-rei guarneceu a illia com 150 homens, de 
que fez capitiio A’lvaro Gongalves Pinto; deixou em 
Damiio 1200 homens sob o eomando de D. Diogo de 
Noronha e conceded muitas franquias aos naturais da 
terra, para que a viessem povoar e grangear. 

Emquanto, por6m, D. Constantino regressava a 
Goa coberto de gldria, Pedro de Ataide vinha de 
Meliapor trazendo a noticia dum lament&vel aconte- 
cimento que nos cobria de vergonha. Os portugue- 
ses, residentcs em Meliapor, atacados por urn raja 
vizinho, a-pesar-de iucitados por Pedro de Ataide a 
manterem a sua dignidade. preferiram resgatar-se 



com dinlieiro a det'eudcr-se coni armas. 0 que nos 
valia uestes casos era o ca ruder nolire e herdico de 
D. Constantino, que sabia impor-se ao respeito dos 
sens suliordinados e da lidalguia corrupta. 

Km Uananor l). Paio de Noronha, capitao reecnte- 
mente nomeado, provocou, com o seu despotismo e 
orgulho imbecil, as iras do rajd, que 
Vilotia em logo lhe declarou guerra e comt- 
fanaiiar you incomodar scriaiuente os portu- 
gueses. 0 vice-rei niandou-lhes logo 
um relorqo sob o comando de Uni de Melo e A dcpois 
outro cowtuzido por Luis de Melo da Silva. Este ea- 
pitfto, audaz e sofrego cotuo era, em vez de esperar 
em Cananor o inimigo, foi com uma frota correr os 
mares, arrasou Mangalore e destruiu uma esquadrilha 
do rajii. Voltando a Ooa, D. Constantino prendeu-o 
no castelo de Pangim a-pesar-das suas vitdrias, por 
ter abandonado o seu pus to, expondo assim Cananc>r 
a serios embaraqos. Mas, depois de cumprir o que a 
disciplina exigia, o vice-rei foi procur/i-lo pessoalraen- 
te s\ prisslo e felieita-lo pelos sens herdicos feitos e, 
mandando-o soTtar, o enviou outra vcz cm socorro de 
Cananor. Luis de Melo, eaptivo deste procedimento 
verdadeiramente rcgio, partiu com 500 homens e ba- 
teu tao heroicamente os numerosos inimigos que cer- 
cavam a fortaleza, que o raja de Cananor, aterroriza- 
do, pediu a paz. 

Era 1559 os turcos puzerum cerco k fortaleza da 
ilha de Bahrein, pertencente ao rei de Ormuz. Um 
persa por nome Ras-Murad, que a 
e em Bahrein defendia, pediu socorro a D. An tao 
de Noronha, governador da nossa 
cidadela de Ormuz. D. Alvaro da Silveira, que vol- 
tava do Mar lioxo, levou o socorro; mas forgado pelos 
portugueses indisci pi in ad os a dar batalha ao inituigo 
muito superior em niimero. foi derrotado e raorto. 



109 


Pedro Peixoto, cotnandando entiio os restos da tropa, 
bloqueou a ilha e obrigou os turcos, que haviara es- 
capado t\ fome, as doenrjas e ao ferro portugues, a ca- 
pitularera resgatando as vidas com 1:2 mil cruzados 
e entregando .as armas, os cavalos e os 30 prisioneiros 
que tinham em seu poder. 

0. Constantino nilo se limitava a defender os inte- 


rcsses da coroa portuguesa; estendia o seu zelo a reli- 

giilo crista, fazendo uma especie de 

guerra santa no oriente ; e foi a ZOlo rclisr. de 

esse zelo que se deveu uma conquis- Constantino 

ta importante e uma aegiio uot&vel 

que foi a ultima do seu viee-reinado, que terminou a 

7 de Seteinbro de 15H1. 


O rei de Jafnapatam, na ilha de Ceilao, opriinia os 
seus subditos convertidos ao cristiauismo. D. Cons- 


tantino resolveu puni-lo com severidade e partiu para 
ossa expedi^iio com uma esquadra de 100 uavios, tri- 
pulada por 1200 homens. O inimigo, depois de uma 
resistencia inl’rutifera, abandonou a cidade e, perse- 
guido pelos portugueses, foi obrigado a pedir a paz. 
Mas, no moio das treguas os indigenas revoltaram-se 
de subito e saltcando os portugueses, descuidados, 
cortaram as comuniea^oes entre a maioria do exercito 
c o castelo ja ocupado por Feruao de Souza ; I). Cons- 
tantino, porera, avisado da trai^uo, mandou em Socor- 
ro aos destacados I). Antfio de Noronlia : as duas 


for§as reunidas denotaraiu o inimigo e Ceilao foi 
saqueada. Para remate da vitdria I). Constantino 
tomou a ilha de Manar, pertencente ao rei de Jal'na- 
patam e construiu uela uma fortaleza, cujo comando 
entregou a Manoel Uodrigues Coutinho. 

Esta guerra gloriosa para os portugueses ocasionou 
uni facto tooldgicarneute importante. 

Na totnada de Jafnapatam l). Constantino apode- 
rou-so dum dente, quo era venerado como de Iludha 



no 


do respectivo teraplo. 

Segundo a lenda oriental, 6sse dente, conhecido 
pelo norne de delada , foi arrancado ao caddver do 
grande Gautama Budha pelo rei Koima e enviado 
a Ceilao. Depois de muitos sdculos de veneragao, a 
essa reliquia, transportada para Poelalup, comegaram 
a atribuir-se prodtgios: langada no fogo, fulgiu com 
tao brilhantes raios que iluminavatn o universo ; quei- 
mada depois e pisada pelos p£s de elefantes, apareceu, 
dai a pouco, no interior duraa dor de lddao de ouro; 
atirada a um charco imundo, as Aguas cobriram— se de 
formosas flores de lodfio, era uma das quais tornou a 
aparecer a delada intacta. Por fim, corao os incrd- 
dulos rejeitassem a veracidade destas maravilhas, 
puseraxn o dente naraa bigorna, mas, quando se levan- 
tou o martelo para o esmigalhar, o dente sumiu-se 
para dentro da bigorna e, dai a pouco, brilhou com 
extraordinAria claridade dentro duma taga de oiro nas 
maos de SubhadrA. Tais eram as tradigoes lenda- 
rias da celebre delada. 

Quando se espalhou a noticia de que essa miraculosa 
reliquia caira em poder dos portugueses, todos os po- 
vos budistas do oriente disputaram eritre si a posse 
do famoso dente, e o rei de Pegu chegou a oferecer, 
pelo resgate deste, 400 mil cruzados prometendo paz 
perpdtua e a obrigagno de prover de mantimentos a 
fortaleza de Malaca. 

Muitos fidalgos, na esperanga de que do resgate do 
dente algum dinbeiro iria parar nas suas algibeiras, 
aconselhavam I). Constantino a que vendesse o dente; 
mas o vice-rei, temendo, dum lado, concorrer para a 
idolatria e, do outro, desfalcar a Fazenda duma irnpor- 
tante soma de dinbeiro, consultou o arcebispo, os pre- 
lados e teologos das ordens religiosas, os quais todos, 
reunidos em conferdncia e ponderadas todas as circuns- 
taneias, resolveram que se nao podia entregar aquele 



Ill 


dente, porque era dar ocasido a grandes idolatrias , 
o que nilo era Kcito fazer, embora se previsse que os 
budistas fabricariam outra reliquia em substituigao 
da que se llies ia recusar. 

Assentado isso. o dente foi queimado e pisado eta 
um almofariz pelo arcebispo c deitada a cinza ao rio 
em presenga de D. Constantino e da sua cdrte. D. 
Constantino ficou rauito satisfeito com esse acto, que 
considerava de suprema abnegagao e desinteresse. (*) 

Cinco anos depois os budistas fabricaram, de facto, 
outro dente, mas um dente farto, do comprimento de 
duas polcgadas, que e adorado ate hoje no tcmplo de 
Malegawa, em Kandy (CeiJao), e que eles reputam 
por verdadeiro, supondo, provsivelroente. ter escapado 
por milagre ao fogo e ao marteio dos padres catd- 
licos. ( s ) 

Essa acgao de D. Constantino, que os orouistas 
narram com entusiasmo como a maior proeza obrada 
por ele na India, os historiadores modernos censuram 
iicremente come um desacerto ou erro politico, muito 
deploravel, chamando ao vice-rei e seus conselhei- 
ros, homens piedosos na oerdadc , mas destituidos de 
prudi'ncia , porque com isso, dizem eles, a fe nfio 
iucrou nada, a Fazenda perdeu o dinlieiro com que se 
podiam remediar as grandes necessidades do Estado, 
e foratn excitados contra nds os ddios mais acerbos 
dos indigenas. 

0 governo de D. Constantino de Braganga, apezar 
dos defeitos de fanatismo de que e ucusado, foi ener* 


(’) Os Jesaitas fizoram sctbre este facto um emblems : C, 0, 0, 
C, C„ que quere dizer: Constantinus tali cupuline crcinavit 
crumenas. Vid. Bol. do Gov. de 1858, pag. 660. 

(*) Vide Gerson da Oonha, Memoir on the History of the Tooth- 
relic of Ceylon , onde se encontra utna rela<;ao circuustanciada do 
dente de Budha e dos factos correlativos. 



112 


gico, austero e disciplinador, mar- 
cando uma epoca notdvel com o 
estabelecimento do tribunal da In- 
quisigao em Goa e com a elevagao 
da metrdpole eclesiastica da India a arcebispado. 

D. Constantino voltou para Portugal com as maos 
limpas do ouro indiano e confundiu os que o haviam 
intrigado na c6rte, aousando-o de coneussionario. 

Foi seu sucessor no governo D. FranciSCO Coutioho, 
Gonde do Itedondo ( 1561-64), oitavo vice-rei da 
India. A sua administragao, que principiou em Setera- 
bro de 1561, foi apenas iluminada por uma pequena 
vitdria, que Garcia Rodrigues de Tavora aleangou 
contra os guzerates, que tentavam assaltar a praga de 
Damao, e pela paz defiuitiva corn os rajAs de Oananor 
e de Calicut, paz que uada custou aos portugueses, 
porque o inimigo a pediu, apenas viu a poderosa 
armada do vice-rei, e que foi coroada por urn espec- 
t&culo vergonhoso : pois os nossos, que esperavam 
carnificina e saque, desapontados, travaram entre si 
tais desordens, que em duelos e brigas morreram 
mais de cincoenta. 

0 Conde do Redondo foi liomem probo, mas nao 
teve energia suficiente para reprimir os abusos e as 
discdrdias intestinas que lavravam no seu tempo. 
Morreu em Goa a 19 de Fovereiro de 1564, quando a 
regoncia do reino ja passara de D. Catarina para as 
ddbeis maos do Cardeal-lnfante. Foi durante o seu 
vice-reinado que se imprimiu em Goa a primeira 
ediiyfio dos t’araosos Coldquios dos Simples e Drotjas 
Medicinal * , do dr. Garcia da Orta, que entao se aclia- 
va na India carregado de anos e longa experioncia, 
na frase de Camdes. ( l ) 

(') A ultima cdigao dos Golnquios <'; a ijnc fc/,, em 18!)6-96, o 
ilustiu esurilor c houium de scieuciu, Ootide dc Ficallio. Referindo- 


Inqnisigao e 
Arcebispado 
em Goa 



113 


Aberta a l. a via rie suc-essao, encontrou-ae o Dome 
de I). Antfio de Noronha, (jue liavia regressado a 
Portugal ; governou por isso Joao de MendOIlga, ( 1654 ) 
indicado na segunda patente e o qual nao fez nada de 


ae ao raesrao livro, o 9&bio dr. Teofilo Braga, numa carta pnbli- 
cada no Jornal do Comercio , do Rio de Janeiro, n.° de 5 de Maio 
de 1895, escreve «— Importa lerabrar as palavras que no Congresso 
Internacional dos M6dicos das Colonias, celebrado era ArasterdSo 
cm Setcmbro de 1883, proferiu o catedratico liolandes Stokvis : 

“ saiulemos era reconhecimenfco a llespanha e Portugal, como os 
14 coloni //adores mais antigos, e rcndamos sobretudo homenagem a 
44 esse nobre portugu&s Garcia d’Orta, medico do vice-rei da India, 
“ que, era ura livro afamado com razfio, fez conhecer priraeiro que 
44 ninguem, no meado do seculo XVI, era 1503, uni grande numero 
44 de plantas mcdicinais das Indias orientais, desconhecidas ate 
14 ent&o na Europa. Mas convera advertir que Ssse livro, uraa das 
44 grandes glorias da sciencia portugnesa, esse livro, no qual o 
“ antor, primeiro que todos os medicos europeus, nos da uraa des- 
“ cri$to tfto viva como exucta do colera , nao teria, jamais, desper- 
“ tado a admiragfio da Europa iuteira, se n£o fosse traduzido do 
“ portugues cm latim. 

41 Foi a Carolus Clusius, um dos primeiros e mais s&bios pro- 
“ fessores de botiinica, de Leyde, que coube a honra de ter feito 
4 ‘ conhecer este trabalho not&vel ao raundo scientific. Mudou-lhe 
44 a forma, deixando-lhc intacto o iundo ; e ajuntou-lhe as suas 
44 proprias investigagCes, as suas describes de plantas e de raizes 
44 intertropicais, trazidas a Europa por Francisco Drake e outro, e 
“ foi assim que a Europa pode aproveitar as descobertas feitas 

44 pelo celebre portuguGs » Fomos grandes, a-pesar-de ma- 

terialmcnte sermos um pequeno povo ; e grandes na acg&o, no 
sentimento e no pensamento, isto e, nas trds fdrmas por onde se 
revela do modo mais completo a individualidade humana. Gran* 
rles na acgilo e basta lembrar o nome dos nossos navcgadores, a 
cxtensfio das nossas descobertas, e as vastissimas e incomparaveis 
colonizagoes ; grandes no sentimento, e, seuao, o diga a suprema 
ideal izagao artisbica da epopeia da civilizagfco raoderna, que a Euro- 
pa adoptou, vertendo-a em bodas as linguae vivas, os Lusiadas ; 
grandes no pensamento, na sua forma disciplinada ou scientifica, 
de que o titulo mais autdntico, indiscutivel e universal mente con- 
sagrado 6 a obra dos Coloquios dos Simples e Drogas de Garcia 
da Orta». 



114 


not&vel durante os seis ineses que esteve no poder. 
atd que era Seterabro de 156-1 entregou o govcrno a 
D. Antflo, que tornara A India. 

Quando D. AntEO de Noronha, (1564-68) none vice-rei. 
tomou posse do govcrno, a guerra de Cananor estava 
rauito *acesa e a cidade sitiada. As 


Guerra de 
Cananor 


tropas de mar, que o vice-rei man- 
dou em socorro, encontraram-se com 


alguns corsdrios inimigos, que foram 
vencidos, mas a vitdria foi bastante disputada. 

Os indigenas ja nao viarn nos portugueses herois 
invenciveis ; o terror e o prestigio das suas arraas 


ia diminuindo A proporqfio que Portugal cxportava 
para a India especuladores e piratas, avidos de faster 
for tuna, coin vergonha para o pais e descredito pe- 
rante o indigena. 

0 exdrcito da India era a Gste tempo uma mistura 
de soldados valentes e aventureiros covardes, dois 


elementos totalmente antinomicos, que bem salientes 


se tornaram na batalha naval que se deu na baia de 


Batinald era 1565. 


D. Paulo.de Lima Pereira, que ia, com quatro 
gales era socorro de Gananor, encontrou-se com 
um temivel corsdrio, chamado Ivanatale, junto de 
Baticald. Apenas comegado o combate, duas das 
nossas galds fugiram vergonhosameute. As outras 
duas, pordm, resgatarara essa vergonha por um rasgo 
de valentia. A gale comandada por Bento Caldcira 
de Almeida, incendiada pelo inimigo, deixou-se ir a 
pique sem querer render-se ; e a de I). Paulo do Li- 
ma, sosinha era campo, atirou-se com tal auddeia e 
intrepidez ao seio da esquadra inimiga, que a obrigou 
a fugir depois duma encarnigada luta imensauiente 
gloriosa para os portugueses. 

Enlretanto o capitao D. Autdnio de Noronha, que 
f6ra a Cananor com um reforgo de tropas de terra, 



116 


defendia a cidade herbicamente, ate que, chegando ali 
Gongalo Pereira Marramaque e Alvaro Pais Souto- 
Maior, a guerra tornou-se de defensive era ofcnsiva e 
o inimigo foi completaraente derrotado. 

Em Ceilao o roi Madune, provocado pelas prepoten- 
cias dos nossos, enviou todo o seu exercito sob o co- 
raando de sea fillio Raju sitiar a for- 
taleza de Cota. 0 capitao-m6r D. Pe- Ataqnesem 
dro de Ataide comeqou a defesa com Ceil2o 
os 300 homens que ali existiam. 

Oito dias depois Rajii levantou repentinatnente o cer- 
co e foi de noute atacar a fortaleza de Colombo, espe- 
rando encontrA-la desprevenida; mas foi repelido. 
Convencido, corao estava, de que a toraada duraa des- 
sas fortalezas ira porta va a queda da outra, voltou no- 
varaente cercar Cota e resolveu reduzi-la pela fome. 
Efectivaraente os sitiados chegaram a tais apuros, que 
D. Pedro de Ataide raandou salgar cadAveres para o 
sustento da guarniqilo, a-pesar das exortagoes era con- 
trArio de fr. Siraao da Nazare. Felizmente veiu 


socorro de Colombo e o capitao de Manar, Jorge de 
Melo, inandando assolar as terras de Madune, con- 
correu, tarabera, para se levantar o assAdio. Contudo 
Raju, antes de partir, de'u um assalto geral A fortale- 
za na sua mAxima forga, mas foi desbaratado e reti- 
rou-se tendo perdido mais de 2 mil homens. 

Em 1567 o sultao de AquAm sitiou mais uma vez a 
cidade de Malaca, que, defendida valentemente por D. 
Leoniz Pereira, p6de salvar-so. 


Neste cArco apareceram alguns tra- 
des a querer auxiliar os nossos 
pelejando uas muralhas ; D. Leoniz, 


e em Halaca 


por Am, vendo a sua impericia para o exercicio das ar- 


mas, obrigou-os -a ir para o templo auxiliA-lo com 


suas oracSes. 


Em Janeiro de 1568 D. Antiio de Noronha foi em 



116 


pessoa com uma expedigao a Mangalore e, depois de 
ter expulso da cidade os nativos, que a defendiam, 
fundou ali uma fortaleza, como se fossem poucas as 
que Portugal possula na India ; mas nfto teve forga 
nos seus soldados, que assombravam a povoagao com 
as suas licenciosas devassidoes. 

Nas Molucas carapeava deseufreada a imoralidade 
e o despotismo dos portugueses. Em Ternate o ca- 
pitilo Diogo Lopes de Mesquita chamou traigoeira- 
mente h fortaleza o sultilo Aeyro e o mandou matar 
a punhaladas; era Coron os portugueses, depois de se 
aliarem com os uaturais para destruir um exercito 
iuimigo, conciliaram contra si o odio dos aliados pelo 
seu infame procedimento com as mulheres destes. E 
nenhum destes excessos foi punido pelo vice-rei, que 
passava o seu tempo em Goa palestrando com os pa- 
dres da Companhia. 

D. Antao, executaudo as ordens superiores, come- 
gou a construir a muralha na margern oriental da ilha 
de Goa, para a defender de quaisquer agressoes, 
outrora tao freqiientes, do lado do continente. Go- 
vernou atd 10 de Setembro de 1568; e a muralha foi 
continuada pelos sucessores. 


CAPITULO X 

D. Luts de Ataide e seus triunfos. 
Desastres posteriores 


Um dos primeiros actos del-rei D. Sebastiao, de- 
iois de sair da tutela, foi a nomeagSo de D. Lull de 
tafde, para o govdrno da India ( 1568^1571 ) ; e foi 



117 


uma escolha incontestavelmente salutar para o nosso 
imperio indiano, qne, prestes a desmorouar-se, deveu 
a Gste vice-rei a sua consolida^iTo ainda por naais al- 
guns anos. 0 nome de D. Luis de Ataide resplan- 
dece, pois, no ocaso do dominio portuguos, como o de 
Afonso de Albuquerque no sen alvorecer. 

Apenas chegado ao oriente, I). Luis, que em ta- 
lentos militares mlo era inuito inferior ao grande 
Afonso de Albuquerque, tratou de estabelecer uma 
disciplina severa e, organizando com grandes sacrifi- 
cios alguuias esquadras, enviou-as para proteger o 
nosso comercio contra os corsarios e reprimir as fre- 
qiientes sable values dos indigenas, triunfando bri- 
lhantemente de todas as diiiculdades, em que andava 
enredado o dominio portuguos, devido a indolente 
administrate de 1). Antao de Noronha e seus dois 
antecessores. 

Afonso Pereira de Lacerda partiu para o nortc 
com seis navios e uma gald; e bastou a sua a pari to 
para sufocar os projcctos revoltosos que havia em 
Baticald. 

D. .Jorge de Menezes Baroche foi com urn catur c 
duns gales acomcter o temivel corsario Kanatale, que, 
depois de lutar euergicamente, e tendo perdido as 
asperaujas de veneer os portuguesea, nslo quis sobre 
viver a derrota e com uin heroismo selvagem degolou 
um sen Klho e, damlo em si tres pnnbaladas, atirou-se 
ao mar. 

O Saui o rim, (jue nos incomodava com os seus cor- 
stirios, foi atacado violentamente por uma esquadra 
cotrandada por D. Diogo de Menezes, que Hie des- 
truiu a cidade de Mellascharam, onde os corsi'irios sc 
abrigavam. 

Martim Afonso de Miranda foi mandado com 20 
navios vigiar o defender as costas do Malabar ; e 
Aires Teles de Menezes foi cucarrcgado de reprimir 

8 



118 


as deniasias dos tanadares era Bandd, seis 14guas dis- 
taote de Goa. 

Come§am agora os portugueses a repetir as faga- 
nhas herdicas dos seas antepassados, assinalaado 
com uraa sdrie de gloriosfssimas vi- 
Fa can has torias o^ governo de D. Luis de 

lierdicas Ataide, cujas brilliantes qualidades 
militares haviam intiuido poderosa- 
mente nos costumes dos scus capit3.es e soldados. 

Km 1560 Mem Lopes Carrasco, que navegava com 
uina nau nos mares de Malaca, achou-se de repente 
no meio dumn formidavel esquadra do sultao de 
Aquurn, composta de 20 j uncos, 20 gales e 160 lan- 
charas. Sequioso de se vingar da derrota que D. 
Leoniz Pereira llie infligira em Malaca, o sultao cer- 
cou imediatamentc a uau portuguesa com o propdsito 
de nuo poupar nenhum dos tripulantes, se lhe ousas- 
sem resistir. Mem Lopes nao se assustou : pondo 
seu tilho Martim Lopes A, proa da nau, Francisco da 
Costa a popa e seu primo Martira de Ega A, frente da 
artelharia, tomou rapidamente a direcqao dfisse com- 
bate homerico, preparando-se os portugueses nao pa- 
ra veneer o inimigo, mas apenas para vender caras as 
vidas. 

A batalha travou-se renliida e medonha. Ao co- 
me§ar a noute liouve treguas e, postoque a nau portu- 
guesa estivesse desmantelada, e com os mastros que- 
brados, a esquadra inimiga nfio levava a melhor ; pois, 
tinha perdido muitos barcos, afundados pela ac$3o dos 
nossos canhoes. Kecomegada a luta ao romper do dia, 
tres galds, debaixo duma chuva de balas, conseguiram 
abordar a nau. Trataram os portugueses de repelir 
a abordagem concentrando todos os seus esfor$os nes- 
se combate corpo a corpo. Mem Lopes Carrasco, no 
meio do horroroso estrondo da peleja, acudindo a toda 
a parte, cobcrto de sangue e de polvora, e sem se a- 



10 


lialar pels perda do lillio. que caia tnorto por uma 
bombarda inimiga, siistentou o com bate s&bre-huma- 
natnente por trcs dins, ao cabo dos quais o sultfio de 
Aquem, ( Acliiu ) vendo-se com 40 navios perdidos, 
com os outros destrogados e com muita gente morta, 
abamlonou a lnta e retirou-se deixando as honras da 
vitoria aos portugueses, que voltaram triunfantes a 
Malaca com o seu liavio quasi totalmente arrasado. 

Nesse mesmo ano, a cidade de Pa m;lo era inquieta- 
da pelos mogois fortiticados em Parnel. Nuno Vellio 
Pereira, comandante diuna esquadra que cruzava na- 
(juela costa, desembarcou, a pedido do governador da 
cidade com 400 liomeus e investiu o forte de Parnel, 
que, alem de ter os baluartes assentes em rocha viva, 
era naturalmente muito defenssivel : mas foi repelido 
com perda de sete mortos e cincoenta feridos. Nao 
desanitnou contudo ; voltou ao assalto com forgas do- 
bradas e assentou em pontos betn escolhidos pegas de 
artelharia. A’ vista destas disposiqbes, os mogois, 
apossados de tnedo, abandonaram a fortaleza, que 
Nuno Vellio mandou logo demolir por ordem que 
recebeu do governador de Damao. 

A cidade de Onor, recenteinente fortificada pelos 
indigenas a 18 leguas ao sul de Goa, era o ponto para 
onde concorria muito com^rcio que fugia dos nossos 
portos, e os seus liabitantes haviam tratado com 
desdiun o vice-rei D. Ant&o de Noronha. D. Luis de 
Ataide, querendo restabelecer o norae portugues, ul- 
trajado na pessoa do seu antecessor, e suprimir, ao 
mesmo tempo, a concorrencia do com^rcio. apresen- 
tou-se em frente de Onor com utna esquadra de 130 
navios e, mandando k terra D. Francisco Mascarenhas 
com 800 homens, intimou a cidade a render-se. Qui- 
seram os habitantes resistir : D. Luis desembarcou 
entdo com 1400 soldados e investiu a fortaleza pelo 
lado do sul, ao mesmo tempo que I). Francisco Mas- 



cnrenhas a investia pelo norte, e, envolvendo a cidade 
em um circulo, que, de nioinento a momenta, se aper- 
tava i\ medida que se ia aproxiraando da fortaleza, 
obrigou os indigenas a refugiar-se no castelo. Em 
seguida langou fogo A. cidade e, botnbardeando a prat; a, 
meteu terror a tal pouto, que os inimigos, autcs que 
cle desse o assalto que projectava era 24 de Novem- 
bro, capitularam salvando unieamente as vidas e a 
liberdade. 

Conquistada Onor, I). Luts deixou ali uma guarni- 
£ilo comandada por Jorge de Moura e partiu logo a 
investir a cidade de Barcelor, protegida por um forte 
quasi inexpugnavel. Acudiram «\ praia uns 12 mil 
indios em defesa ; mas era uma turba confusa e 
iudisciplinada. 1). Luis desembarcou com um corpo 
unido de tropas e, avangando imediatamente para o 
forte, conseguiu toma-lo. Os defensores desampara- 
ram logo a cidadela, que D. Luis mandou demolir e 
reconstruir no local onde estava o forte, percebendo, 
pelo seu tacto militar, que era esta a melhor posigao 
para a defesa da cidade. Os aconteciraentos nao o 
desmentiram ; pois, dai a tempos, querendo uns rajas 
vizinhos expulsar de Barcelor os portugueses, foram 
violentamente repelidos pelos 200 homens que guar- 
neciatn o forte. 

Estas conquistas honram incontestivelmente o ge- 
neral ; mas, nao abonam muito a inteligcncia politica 
do vice-rei ; porqtie o dominio portugues, que jsi se 
sentia opritnido pelo pr.dprio peso, nilo se devia ara- 
pliar ; foram, contudo, em parte inspiradas por uma 
necessidade ; porque os portos que no Malabar os 
portugueses n;\o ocupassem, eram o ccnstante abrigo 
dos corsiirios, que nos tolhiam o com^rcio. 

Entretanto uma horrivel terapestade veiu pairar 
s6bre a India e tc-la hia subvertido, se nllo estivesse it 
testa do governo um general insigue, como o era D. 



121 


Luis de Ataide. 

Os principes do Malabar, percebendo que uraa das 
causas principals das nossas vitdrias era a desuniuo 
que reinava entre eles, coligaram-se 
todos para expulsar d'e vez os portu- Colijpujao 

gueses da India. I lzeram alianqa iiortuwneses 

para este lira Ali Adil-Khan, Burlian 
Nizam-Xa, (*) rei de Amednagar e o Samorim de Ca- 
licut. Nao entrou na coligaqao o raja de Cambaia 
por estar ein guerra com os mogois ; contudo, as 
constantes hostilidades, que os sens g uzerates moviam 
as nossas prayas de Damito e Diu, nao pcnnitiain a 
D. Luis de Ataide desguarnece-las para acudir as 
outras, onde houvesse maior perigo. 

0 piano dos aliados era que Adil-Khan devia mar- 
char contra Goa, Nizam Xii contra Chaul e o Samo- 
rira contra Chale, que era proximo de Calicut. ( 2 ) 
Contando coni a vitdria, dividiam entre si as posses- 
soes portuguesas, como se ja as tivesseru conquistado. 
D. Luis, logo que teve a noticia desta poderosa alian- 
ya, tomou todas as providcncias necessarias com um 
grande golpe de vista de vigilante governador que era. 
Como o maior peso da guerra devia cair s6l>re Goa e 
Chaul, enviou para esta pray, a um socorro de 4 gales, 
5 fustas e 600 soldados sob o comaudo de 1). Fran- 
cisco Mascarcnhas ; e cm Goa, que era o ponto inais 
importante, licou o vice- rei cm pessoa e, nao obstante 
estar a cidade sendo dizimada pela peste, preparou a 


( 1 ) O rei de Aliened na^ar e conliccido entre os cronistas por- 
tugueses pclo titulo de Nizamulueo , corrup(;ao de Nisam-ui- 
Mulk . 

( 2 ) Km Chale, duas loguas distante de Calicut, Nuno da Ounha 
concedendo a paz ao Samorim, havia levautado cm 1531 itma 
fortalcza, que survia para impedir o uuincrciu claudestiuo com o 
resto da India c Arabia. 

8 * 



122 


det'esa : chamou para a guard a interior 'da cidade 300 
frades e o cabido, guarneceu todos os passos e refor- 
gou as tres fortalezas de Bardes, ua barra de Goa ; a 
de Narod na ilha de Divar e a de Rachol em Salsete, 
repartindc por esses logares 650 soldados boos, de 
que dispuuha, e raais 1500 indigenes que tinha ajun- 
tado ; colocou nos oiteiros 1300 escravos e milicianos 
com langas arvoradas e arcabuzes, divididos em quatro 
bandeiras ; disp6s um corpo de cavalaria de 50 ho- 
mens, capitaneado por Joao de Souza, para acudir 
com rapides a qualquer ponto ameaqado ; raandou 
cruzar no rio uma esquadra de 25 navios sob o co- 
mando de D. Jorge de Menezes Baroche e fixou a sua 
rcsidencia no panso seco em S. Bras, atim de poder 
dali providenciar melhor a tudo o que fosse necessA- 
rio e espiar o campo dos inimigos. 

A 12 de Dezembro de 1570 chegoudiante de Goa, 
comandado por Nori-Khan, o exercito inimigo, que se 
compunha de 75 mil soldados de in- 
Ccrco lie (»oa fantaria, 35 mil de cavalaria, 2 rail 
elefantes e 350 pegas de artelharia. 
Distribuiram-se estas tropas pelas margens do rio de 
Goa c pelos passos de Banastarim, Agagaim e Sapal, 
e a primeira cousa de que trataram, foi iuterceptar a 
corrente do rio, esperando entrar por 61e na ilha. 
Para §sse lira coustriurara grandes aparelhos, que, 
apenas concluidos, D. Luis mandou destruir por suas 
peqas de cam panha. 

Os inimigos concentraram entito a sua actividade e 
todo o fogo da sua artelharia contra a fortaleza de 
Banastarim, que lhes era mais acessivel. D. Luis, 
conhecendo o perigo, passou para Banastarim, man- 
dou levantar um muro de maaeira terra- plenado, que 
amortecia as balas e resguardava a fortaleza e os ae- 
fensores, e comegou a incomodar os sitiantes com re- 
petidas sortidas, que lhes causavam grandes estragos. 



123 


Entretanto chegararo a Goa duas esquadras, a de 
Lius de Melo da Silva, que acabava de destrotjar em 
Malaca a frota do sultilo de Aqudin, e a de D. Diogo 
de Menezes, que desbaratara a frota coligada dos 
principes do Malabar, Com a cliegada destes impor- 
tant es soeorros, iniiltiplicou o vice-rei as sortidas a 
ponto de ordenar cinco por tuna so noute ; as quais 
puseram em complete perturhnyilo o acampamento 
inimigo. Adil Khan resolveu, contudo, tentar um 
assalto decisivo ; mas 1). Liu's de Ataide, que tinha 
por sisteraa nfio csperar pelo ataque, maudou ao en- 
contro dos assaltantes 1). Fernando Monroy, que, 
surprcendendo-os na mareha, os desbaratou comple- 
tamentc, antes que se aproxitnassem das mnralhas. 

Este sucesso por si s<> era bastante para desalentar 
o inimigo ; mas liouve simultaneameute mais. D. 
Paulo de Lima, comandante da fortnleza de liachol, 
fizera sortidas tambem com resultado fa vo ravel aos 
portugueses. I). Jorge de Moura, com o socorro 
enviado pelo vice-rei* desbaratara um raja, que, inci- 
tado por Adil-Khan, havia sitiado a nossa fortaleza 
de Onor, e Nizam-Xa, que era o nervoda alianga dos 
indios, tinha si do obrigado a levantar o cerco de 
Chaiil, eomo diremos. Desanituado, pois, com tantos 
rcvezes, Adil-Khan. vendo que nada conseguia com o 
sen bombardeamento em <»oa, resolveu retirar depois 
de 10 mescs de asscdio, que foratn 10 meses de con- 
tin uas derrotas para ele e dc viidrias gloriosas para 
os portugueses. 

Sigamos agora as peripecias do cerco de Chaul, 
que tinha co nice ado uns 8 dias mais 
tarde que o de Goa. Esta pra$a era Cerco ilc Chau I 
governada por Luis Freire de An- 
drade e tinha uma guarnigslo retativamente forte. 
Farad-Khan, comandante do corpo avangado do 
exercito do Nizam, teuton tomar a pra»;a num rilpido 



124 


assalto ; mas, tendo sido vigorosamente rcpelido de- 
pois dam combate de 3 boras, resignou-se a fazer urn 
cerco regular e assentou o sea cnmpo no dia 21 de 
Dczembro de 1570. 

Nao tardon a chegar um exdrcito poderoso, condu- 
zido pelo pnSprio Nizam, e entilo os assaltantes, de- 
senvolvendo-se em t6rno da cidade, que fica situada 
na foz dam rio e forma uma espGcie de peninsula, 
cercaram-na de mar a mar. Ao mesmo tempo dois 
generais do Nizarn corriam as terras de Baqaim com 
4 mil cavalos, impedindo a guarnujiio desta fortaleza 
de socorrer os sitiados. 

Depois da chegada do Nizam os indios deram um 
assalto em forma, mas foram repel idos com perda de 
300 homens. Logo depois, 5 mil homens assaltaram 
por tres pontos diferentes o presidio de S. Francisco, 
comandado por Nuno Velho Pereira, e perderam mais 
800 soldados ; obstinaram-se contudo em derrubar 
este presidio, concentrando contra Gle a sua artelharia 
de raaior calibre e conseguiram efectivamente arruind- 
lo forgando os portugueses a retirarem. Mas, quando 
os inimigos se juigavam scnbores das ruinas. os por- 
tugueses os surpreenderam e os obrigaram a fuga. 

A gloria, porem, deste sucesso foi compensada por 
uma catastrofe. Os portugueses tinliam resolvido 
abaudonar uraas casas por estarem afastadas e mais 
expostas ; mas quiseram primeiro mind-las. Km- 

3 uanto estavam neste trabalho, os indios vieram 
isputar a posse do edificio. No ardor do combate 
uma panela de pdlvora, arrojada por um assaltante, 
langou fogo a mina principiada e matou nao sd muitos 
inimigos, mas tambem 40 soldados portugueses, perda 
que foi sensivel para a diminuta guarnigao de Chaul. 

Animados com isso, ten tar am os inimigos assaltar o 
baluarte da Cruz, mas foram derro'.dos como sem- 
pre. Entre os bravos que defe-i loram o baluarte 



1J 


distinguiram-se Henrique de Bettencourt, qne pele- 
java com a mito esquerda, porque perdera a direita 
num combate anterior, e Domingos de A’lamo, que, 
por ter os pds queimados ua explosdo da mina, com- 
batia sentado e com uma lan<;a na m:To. 

E’ difxcil citar os nomes gloriosos dcste cerco de 
Chaiil, em que cada soldado portuguds foi um herdi 
cotno em Diu ; pois na defesa dumas casas que per- 
tenciam a Nuno Velho Pereira, prdximas do convento 
de S. Dim's, bateram-se vitoriosamente 40 soldados 
nossos contra 4 mil inirnigos ; isto d, um portugues 
contra cem ! ! 

Exaltados os portugueses com estas sucessivas vi- 
tdrias, esqueceram um dia a disciplina, que era a 
base essencial da energica administrayao militar de D. 
Luis de Atai'de, e foram sem ordein do comandante 
procurar o immigo em campo aberto ; a fortuna, po- 
rdm, favoreceu a audacia ; e voltaram vitoriosos, raa- 
tando-lhe mais de 150 homens. 

0 sultao Nizam, furioso com a m& sorte que o 
perseguia, tentou um novo assalto redobrando a acti- 
vidade do bombardeamento e foi repelido. Convidou 
os rajds vizinhos a ajudarem-no na emprosa e nilo 
conseguiu, devido As antecipadas negociayoes do nosso 
governador de Damiio, A’lvaro Peres de TAvora. 

Emquauto cstes sucessos iara desanimando os ini- 
rnigos, D. Luis de Ataide, a-pesar-de estar eercado 
em Goa, por sua inteligente previddncia enviou em 
socorro de Chaiil duas gales comandadas por Manoel 
de Melo e Rui Gonyalves da Camara, e mais catorze 
pequenas embarcayoes, o que reanimou o csfOryo dos 
portugueses e desalentou compl&tamente o Nizam, 
que, depois de dar um assalto decisivo, em que sofreu 
graves perdas, resignou-se a levantar o cerco. (*) 

0) Antdnio Castilho, ascendente dos Castilhos do Lisboa, guar- 



126 


Tanto o Nizam como o Adil-Khan pediraro pazes ao 
viee-rei, que Ihes foram concedidas, assinando-se os 
respectivos tratados no ano de 1571 e garautindo Ali 
aos Portuguese.? a jiosse de Salsete e Bardes. As 
heroicidades de ('haul e de Goa foram o epilogo das 
gldrias da India. 

0 outro objective da coligaijiio dos reis do Malabar 
era a tomadn de Cliale, que dovia ser sitiada pelo 
Samorim. £ste, por5m, nSo abriu a 
Cerco e peril a campanha senao em Junho de 1571, 

ile Cliale isto e t niuito depois dos seus aliados, 
mas jiistamente ao tempo em que o 
inverno vinha cortar a Cliale todas as probabilidades 
de ser socorrida, por mar, de qualquer possessao por- 
tnguesa. I). Jorge de Castro, que governava esta 
praqa, vendo que o Samorim nao rompera as hosti- 
lidades quando os outros reisja estavam por findal-as, 
imaginou que ele se desligara da coligagdo e nao se 
preveniu contra urn cerco. 

A este tempo D. Luis, concluindo o seu espldndido 
governo, regressou a Lisboa, onde foi recebido por 
el-rei I). Sebastiao com extraordinarias honras, vindo 
substitui-lo na India o vice-rei D. Aqtonio do HOPOnha, 
( 1571-73 ). 

O Samorim comeqou as operagoes belicas com no- 
tAvel habilidade. Quando menos se esperava, inter- 
ceptou a barra de Chale com 20 pegas de artelharia e 
fortificou as pragas. D. Jorge, assustado, pediu logo 
socorro para Cochini, onde estava ja o novo vice-rei, 


da-ni6r da Tdrre do Tombo, escreveu o Comentdrio do cerco de 
Ooa e Ghaul no ano de 1570, que teve a 1.* edifSo em 1573 o a 
2.* em 1736. E’ obra niuito rara e apreci&vel, embora copiosa 
em erroe tipograficos. Vide Julio de Castilho, Memoria sdbre os 
Castilhos no livro CamOes , do V. de Castilho. — e Inocdncio, Dirio- 
nario hihliogrdfico, t. l.° pag. 108. 



127 


quo partiu imediutamente para Cliale, mas parou 
diaute da barra, indeciso em presenga dos obst&culos 
levantados pelo inimigo e estaria ali setn fazer nada, 
se o valente portugues Francisco de Souza Pereira 
Camelo, que o acorn panhava, nilo conseguisse, por 
entre uni chuveiro de irnlas, introduzir-se na praqa com 
quiitro soldados c alguns mantimentos e munigoes. 

Pouco depois, D. Diogo de Menezes, raandado eni 
socorro, meteu provisoes na fortaleza. Entretanto o 
Saruorim, veudo que o inverno se levantava e os so- 
corros comeqavam a cliegar aos poucos, deu urn assalto 
geral, mas foi briosatnente repelido. Animado poi 
oste sucesso, D. Diogo de Menezes, no dia 30 de 
Seteiubro de 1571, no meio de um diluvio de balas, 
forgou a barra e p6de langar tropas na fortaleza, per- 
dendo apenas 40 soldados. Feito isto, regressou a 
Coehim, preparou uma esquadra de 1500 combatentes 
e voltou com esta para Chale, mas encontrou a forta- 
leza rendida ! 

A causa deste lamentavel desfecho foi o espirito fra- 
co duma mulber, que nfio media as conseqiieucias. 

D. Jorge de Castro, governador de Chale, a-pesar- 
da sua avaugada idade de 80 anos, dera bastantes pro- 
vas do seu valor e brios nesta guerra; mas, era casado 
com uma mullier nova e formosa, 1). Filipa, a quern 
consagrava um amor submisso. D. Filipa de Castro, 
que nao nascera para heroina, dava-se mal naquele 
meio perigoso, em que nilo soava seuao a guerra e a 
morte, e, tremula de medo, pintando com sombrias 
cores o quadro do estado a que ficaria reduzida com 
a continuaqao do assedio, pedia todos os dias ao esp6so 
que pusesse termo Aquela situagao tilo ameagadora. D. 
Jorge, com a coragem de militar, soube resistir a voz 
covarde de sua mulher, emquanto estiveram na barra 
primeiro o vicc-rei e depois D. Diogo de Menezes ; 
mas, apenas eslcs se al'astaram, o velho, que nao 



128 


podera ser vencido pelas arm as dos inimigos, deixou- 
se veneer pelas lagrimas da mulher e assinou a 
capitulaq&o entregando Chale £ts maos do Sainoriin. 
Dias depois de consumada esta vergonha nacional, 
chegou D. Diogo de Menezes, que, em vinganga, 
bombardeou muitas fortalezasdo Samorirae queimou- 
lhe todos os navios que encontrou nas costas do Ma- 
labar. 

D. Jorge de Castro, por uma ordera que veio de 
Portugal para ser julgado, foi condenado s\ raorte e 
decapitado na praga de Goa, expiando assim am&rga- 
mente um orro da sua velhice, que alias ja havia res- 
gatado pelas grandes aegoes anteriores. Mas, o eu- 
rioso e que, pouco tempo depois da decapitagfio, 
chegou de Lisboa nova ordem nomeando D. Jorge 
para governador duma praga ! Tal era a anarquia 

3 ue reinava nesta cpoca nas repartiqoes coloniais 
e Portugal e trio pouca atengao se prestava ali aos 
negdeios da India. 

Cherchez la femme... dhem os franceses; e efeeti- 
vamente a mulher entra por vezes como elemento 
deterrainante dos desastres portugueses no Oriente. 
Quarenta anos mais tarde, ambigoes despropositadas 
e desatinos duma outra mulher, a celebre D. Luisa de 
Saldanha, traziam para as armas portuguesas a catds- 
trofc de Ava, de tristissima memoria. 

A administraguo de D. Antdnio de Noronha con- 
tinuou a andar cada dia mais frouxa. Entre os ca- 
pitO.es das naus viera de Portugal, em sompanhia do 
vice-rei, o novo governador de Malaca, Antonio Mo- 
niz Barreto. Tratando cste de partir para o seu 
governo, pediu a D. Antdnio que Ihe desse tropas e 
navios. Como o vice-rei nito lhe satisfizesse as instan- 
cias, porque os cofres da India estavam pobrissimos, 
irritou-se, descomediu-se e niio quis ir para o seu 
destine. D. Antdnio nuo teve onergia suHciente para 



I '29 

o chamar j\ ordem e Moniz Barreto ficou em Goa, 
dando a todos o funesto exemplo de insubordina$So 
e intrigando o vice-rei com os ministros por meio de 
cartas que escrevia para Lisboa. 0 gov&rno central 
praticou entao urn monumental disparate; pois, em 
1573 mamlou uma ordem ao arcebispo para desauto- 
rar o vice-rei e entregar o governo 
da India a Moniz Barreto. E asaim nesautora^slo 
se fez: cate subiu ao poder e aquele 1,0 v ' ce ' rei 
morreu de desgosto. Era matdria 
de disparates u pasmosas contradicqoes abundava o 
leviano governo del-rei 1). Sebastiao; pois, ao passo 
que em I). Jorge de Castro mandava punir uma fra- 
queza do espirito com todo o rigor da disciplina, em 
Moniz Barreto glorificava a insubordinagiio! 

A penas coinegada a administrate de Ant6Dio HoqiZ 
Barreto ( 1573-76 ), repetiu-se a mesma scena que se 
dera ultimamente no governo anterior. D. Leoniz 
Pereira, que devia ir substituir Moniz Barreto no 
governo de Malaca, sabendo por experiencia quara 
exposta estava sempre esta cidade aos at,aques dos 
sultoes vizinhos, pediu-lhe tropas e navios. Antdnio 
Moniz recusou-llt’os cotno a ele os tinha recusado D. 
Ant/mio de Noronha; mas, como era de tempera dife- 
rente da deste vice-rei, nfio consentiu que Leoniz 
Pereira levantasse a voz contra ole na India. D. 
Leoniz foi queixar-se »\ CArte e nada conseguiu, 
porque Autdnio Moniz era protegido dos ministros. 

Entretanto Malaca iicou sem governo definitivo e 
ncste estado foi cercada em 1574 pelo soberano de 
Japara, urn dos reinos da ilha de Java. Tristflo Yds 
da Veiga, que aportara ali por esse tempo, conseguiu 
salva-ia, obrigando os jaus a levantar o cerco no fim 
de tres tneses, com suas felizes sortidas h&bilmente 
dirigidas por Joilo Pereira. 

No Malabar era 1575, D. Joilo da Costa fez uma 



130 


guerra cruel ao Sarooriro vingando brilhantemente 
a perda de Chale. Em compensa- 
l*erda dunia giio, nas Molucas os portugueses, 
das Ulolucas bat'dos pelo sultito de Ternate, 
perderam a fortaleza, e, expulsos da 
ilha, foram refugiar-se na de Tidore, onde fundaram 
uma nova fortaleza. 

A Autdnio Moniz Barreto, que governou despotica- 
mente at6 1576, sucedeu D. Diogo de li[8n8Z6S, (1576- 
78) por ter morrido no caminho, antes de chegar a 
Goa, Rui Lourengo de Tavora, que vinha substituir 
Moniz Barreto coin o titulo de vice-rei da India. 

Neste governo. Rui Peres de Tavora foi fazer 
guerra ao Samorim e queimou Ihe alguns navios, que 
estavam no porto de Chale ; mas, tendo pedido a um 
tanadar a entrega de cinco pantos, que se haviam 
refugiado num porto de Adil-Khan e tendo-lhe sido 
jiistamente negados, arrasou a povoagiio, estando 
Portugal em perfeita paz com Adil-Khan, paz que 
fdra expressamente firraar a Lisboa um plenipoten- 
cidrio. 0 resultado desta imprudencia foi que, pouco 
tempo depois, em Dabul D. Diogo e D. Antonio da 
Silveira foram traigoeiramente atacados e derrotados 
com graves perdas por um general de Adil-Khan* 
acendendo-se novamente a guerra com Gste prfncipe. 

A oste tempo o sultilo de Aquern voltou a amen* 
gar Malaca, mas foi destrogado em uma batalha naval 
por Matias de Albuquerque, que Ihe matou 1.600 
homens e aprisionou trGs gales. Foi isto em 1577. 

Assim a India corria cada vez mais precipitada- 
mente para a sua completa ruina. Os dltimos tres 
governadores, D. Antonio de Noronha afrouxando os 
lagos da disciplina, Antonio Moniz Barreto irritando 
com suas insolencias e despotismos os bons oficiais, 
e D. Diogo de Menezes, que era uma ecmpleta nuli- 
dade, consentindo que a imprudencia diitn sen oficial 



131 


reacendesse a guerra com Adil-Khan, haviarn des- 
truido totalmente a obra reformadora de D. Luis de 
Ataide. Tudo isso, junto com o desejo de afastar de 
Portugal D. Luis de Ataide, por Ihe desaprovar a ex- 
pedicjfio para Africa, incitou D. Sebastifio a notnea-lo 
novamente vice-rci da India. 

D. Luis de Ataide (1578-81) chegoua India em Agos- 
*to de 1578, e bastou o prestigio do seu nomo para se 
restabelecer a paz com Ali Adil-Khan. Como fiel 
servidor del-rei, cmpeuhou-se em Goa pelo bom cxito 
da expedigao da Africa, a que fora ad verso em Portu- 
gal, querendo ver se recrutava alguns fidalgos valen- 
tes para essa cainpanha, sem saber que a esse tempo 
1). Scbastiao ja tinlia sido esmagado pelos corseis 
alricanos na batalha de Alcacer- Kibir. ( f ) A noticia 
da perda dessa batallia, que era a perda da naciona- 
lidade portuguesa, amargurou os dias de I). Luis de 
Ataide, que desde entao se limitou ao expediente e 
faleceu em Goa a 10 de Margo de 1581. 

Com o reinado del-rei D. Sebastifio cerra o ciclo 
das glorias da India portuguesa. 


( 1 ) E’ gcralmentc conhccido o epitatio que exisbe no biimulo 
que, nos Jeronimos de Belem, encerra os psendo-restos morfcais dc 
l>. Sebastiao, epitafio composbo pelo marques de Alegrete. Pois, 
vimos ha pouco que as palavras si vera esl fama y usadas naquelc 
epitafio, foram tradnzidas pelas seguintes : no que ndo haja 
duvida / E para essa foryada versao recorre o argubo intdrprcte 
& frase similar empregada por S. Atanasio, que, falando do qne 
obrou 8. Antao, diz que disso se n&o duvidou, ncm se duvida por 
ser a mesma vtrdade ct si vera sunt ea, quae de ipso fama dispersit 
Vide O Gottimbrieense . n.° 5073, de 9 de Maio de 1896. 



CAPlTULO XI 


O imperio luso-indiano e a cidade de Goa 
no auge do seu florescimento 


Coin a conquista das terras de Goa, Malaca e Or-* 
muz, c com a redugfio dos mais belicosos potentados 
da Africa e da Asia a tributaries do seu rei (') Afon- 
so de Albuquerque deu principio ao sen sonliado im- 
perio portugues no oriente, que, admiuistrado com 
justiga c politica sensata, devia subsistir dos sens 
prdprios recursos, conservando em equilibrio os extcn- 
sos dominios. 

A 

Este imperio cresceu rsipido, e no apogeu da sua 
gloria ( 1550-1600) compreendia, pela maior parte 
ao longo uas costas, e numa extensao 
de mais de 4000 leguas, 30 cidades 

-indiano * fortificadas e cabegas de provincias, 
numerosas povoa^oes, importantes 
portos comerciaes e feitorias desde Sofala ate Ormuz 
e desde Cambaia ate a China. 

Cento e cincoenta priucipes, entre grand es e pe- 

S uenos, da Africa oriental e aa Asia eram feudat&rios 
o rei de Portugal ; e os mares da Ardbia, Persia, 
India, China e Malaca eram seus ; e uinguem os podia 
navegar sem passaporte do governo portugues. (*) 

A cidade de Goa, capital dcste vasto impdrio, ou a 
metropole oriental, era governada pelo vice-rei ou 

(*) Khoja Safar dizia ter Albuquerque feilo na India mais 
reinos tributdrios do que trazia de soldados. Lendas vol. II 
pag. 875 e 876. 

(*) Anais Marti., vol. II, pag. 54 ; Gabinet- Lilt,, vol. I, 
pag. 7. Carla-Prefieio pag. IV. 



governador geral tendo sob a sua superintendents 
cinco governadores : os de Mozambique, Ormuz, Mas- 
cate, Malaea e Ceiltlo, alern dos capitaes das diversas 
fortalezas, que excrciam a autoridade civil e militar 
dentro da respectiva jurisdiquo. As fortalezas prin- 
cipals excedinm o 50, afdra as pranas pequenas forti- 
ficadas. ( l ) 

Em 1571 esta enorme extensfio terrestre e mari- 
tima foi dividida por el-rei D. Sebastiao era tres 
governos gerais e distintos, tend'' por sedes Goa, 
Mozambique e Malaea : mas a divisao durou pouco, 
continuando a cidade de Goa a ser a cabega do itn- 
perio. E’ desta que vamos a tratar. 

Sob o impulse que Albuquerque dera ao desen- 
volvimento da cidade, comezaram, depois da morte 
do herdi, a levantar-se cdificios tan- 
to piiblicos como particulares, os Progresso ma- 
quais se multiplicaram com tamanha terial <la cidade 
rapidez, que, no govern o de Lopo 
Soares, sucessor de Albuquerque, dificilmente e, 
encontrava terrene para novas coustruqoes. Sendos 
pois, a cidade muito pequena para a sua riqueza e 
populate crescente, foi necessArio estender-lhe os 
limites e crear espago entupindo o largo fosso que 
ctfrcava as soas muralhas e destinando-o, contra as 
ordens superiores, k eonstruqao de novos edificios. 

Por esse tempo a populagiio chegara a 2000 liabi- 
tantes e as rendas da cidade, produto do monoprilio 
detodos os artigos de eonsumo, tinharn aumentado 
consideriivelmente. 0 padre mestre Francisco Xavier, 
na sua chegada a Goa etn 1542, iicou tao bem im- 

S ressionado com a beleza da cidade, que nSo deixou 
e a consignar em termos lisongeiros numa carta 


(') Inslrurfit do M. do A/orita parte 3, pag. 60 o til. 
0 



que escreveu para Roma. 

No ano imediato, porem, rebentou a epidemia do 
cdlera com incrivel violcncia matando diAriamente 
um considerdvel mimero de habitan- 

0 colera ua tes, sem poderem eseapar os animais 
dilatle e aV es doinosticas. O terror que 

dominava a cidade, compeliu o go- 
vernador Martini Afonso a proibir o tanger dos sinoL; 
pclos defuntos ; e o bispo D. fr. Joito de Albuquerque, 
ventlo que os cldrigos da catedral, a linica igreja paro- 
quial noste tempo, nfio podiam acudir com os socorros 
espirituais ao grande ni'imero de doentes e moribun- 
. dos. ordenou que as igrejas de N. S." 1 do Rosario e 
da Luz fossem elcvadas a categoria de pardquias. 

Extiuta a epidemia, cuja gduese se into pode hoje 
detcrminar vista a diverge ncia na narraguo dos cro- 
nistas, a cidade foi crescendo. Erigira;n-se por lodes 
os lados novos edificios, que lhe deram um aspecto 
digno da capital do imperio portugues no oriente. 
Em 1548 liavia ua cidade e nos arrabaldes catorze 
templos catolicos ( igrejas e capelas ) e quasi cem 
clcrigos, alem dos que nao tinliam a residencia fixa. 
Em 1557 Goa ja era a sede dum arcebispado. 0 via- 
jante francos Vincent. Le Blanc, que por esse tempo 
visitou Goa, fala com admirajao da magnificencia dos 
edificios, do luxo dos seus habitantes e dos edmodos da 
vida acessfveis a todos nesta cidade, que, diz, era a 
mais opulenta de todas e excedia ainda a propria 
Lisboa. Goa estava ju declarada inalienavel da coroa 
portuguesa e gozava de prerogativas iguais sis que 
liaviam sido conferidas k capital de Portugal, como se 
versi no capitulo seguinte. 

Durante o governo de D. Antao de Noronlia vie- 
ram ordens da metropole mandando fortificar a cidade, 
por isso que as velhas muralhas niio podiam defender 
a populaQiio, que sc estendia para fora dos seu recinto. 



135 


0 vice-rei maudou construir a tnuralha, que, partindo 
do Angulo nordeste da ilha, cobria o lado oriental e, 
voltando para o sul, terrainava no extreme) oeidental 
da cidade. 

Em consequencia do cerco que Adil-Khan pos a 
cidade em 1570, veiu afligf-la uma 
terrivel carestia de provisoes, se- Febre epiddniica 
guindo-se uma febre epiddmica de e suas ca,,sas 
utn carActer virulento, qne pode- 
rosaraente contribuiu para a riuna da cidade. 

Esta calamidade atribui-se, com raziio, nao tanto A 
escasses de mantimentos, quanto A falta da limpeza e 
das condiqoes higienicas essenciais para a conser- 
vayiio da saiide publica, As quais pouca ou nenhuma 
atenyao se prestava. Os pantanos e charcos cstagna- 
dos, que cercavam a cidade e espalhavam exalayoes 
nocivas ; as margens lodosas do rio, que se acha- 
vam sempre cobertas de detritos animais e subs- 
t&neias vegetais, expostas na vasante A acyuo do sol 
tropical; a Agua impura dos pocos de que se servia 
uma grande parte da populayito, por nito poder obter 
a agua pura de Banguinim ; o lixo que se atirava em 
grande quautidade nas principals travessas e que as 
tornava inmnJas ; as materias orgAnicas que apodre- 
ciam dentro dos canos fechados ; iinaltnente a putre- 
i'acy.ao da carcassa de urn elefante numa alagoa perto 
da igreja da S. Trindade, que infeccionava a atmos- 
fera, forara as verdadeiras causas que tornaram a 
cidade insalubre. 

0 primeiro assalto da epidemia i'oi de curta dura- 
yiio. N:lo ha diivida que causou consider A vcl estrago, 
mas nao impediu o progresso da cidade em outrns 
respeitos. Pois Goa por 6ste tempo continuou a flo- 
rescer e atingiu o zdnit da sua prosperidade. Oon- 
templemos urn pouco a sua grandeza. 

Conforme Linschoten e outros viajantes, que entio 



136 


visitaram Goa, a posigfio da cidado tinha ranita seme- 
Iharnja com a de Lisboa. Como 
Lisboa, ou antes, como Roma impe- 
populate rial, era situada era parte sobre 
montes e etn parte sdbre terra plana. 
Tinha de comprimento nma milha e meia de nascente 
a poente e de largura tres quartos de railha de norte 
a sul ; isto e da margem do rio ao oiteiro. Inclnia o 
Monte Sauto a 0., o oiteiro de N. S. ra do Monte a L. 
c estendia pelo sul ate no Monte de Boa-Vista. 


03 oiteiros Gram coroados do elegantes edificios e 
mais abaixo viara-se palacios rnagniticos e predios 
particulares ajardinados, conventos e igrejas, quo era 
nuniero chegavain a raais de 50, sendo alguioas des- 
tas douradas por dentro, oora numerosas ruas calya- 
das de pedra. 


Segundo Barreto dc Resende, o nuraero das easas 
na cidade era de 3500, das quais N00 erain ocupadas 
por portugueses. Neste nuraero nao se incluiarn os 
conventos e outros edificios religiosos (*). Essas, 
construfdas de pedra e cal e cobertas de tijolos com 
lindas janelas e sacadas, erara quasi todas de dois 
andares, com agraddvcl aparencia e bordando as ruas 
na raelhor simetria. A populagiio. no principio do 
seculo 17, calcula-ne que seria de 225.000 habitantes, 
sendo trds quartas ]>artes cristaos, divididos em seis 
pardquias e a restante parte composta de individuos 
de diferentes crenqas. Havia negociantes da Ardbia, 
Armenia, Pdrsia, Cambaia, Bengala, Pegu, Sifio, Ma- 
laca, Java, Molucas, China e varies outros paises 
orientals. Havia, tambdm, italianos, alemues, ingle- 


Q) Dos edificios religiosos e civis, e de virion ostabelecimen- 
fcos pulilicos de Goa havemos dc tratar uo vol. 2.° desta obra. 



137 


ses, e outros europeus. Niio faltavam judcus, quo 
tinharn a sua sinagoga, c nnqpilrnanos, a-pesar-de 
tercm sido banidos nos primeiros anos da dominagao 
portuguesa. Cada classe de mosteirais o mercadores 
habitava separadamente, por forma. quo os individuos 
do mesiuo offcio se encontravatn em um logar. 

Niio liavia hoteis lictn estalagens ; mas umas pou- 
Siidas, qtie cram frequonladas pola geute plebeia, ( as 
casas alugadas lam be in se dava esse nome); liavia, 
pelo contnirio, esplendidas casas de jogo corn saloes 
olegantemciite decorados, onde se jogava a cartas, 
dados, gamao, xadrez e bolas. Os jogadores de pro- 
lissao demoravam ali por alguus dias e cram bem 
servidos de cama e mesa. 

Na estai;ao invernosa algumas das runs tornavam- 
se iu tran si titveis. Nfio cxisliam carros : o transporte 
de pessoas era i'eito cm macliilas acarretadas sobre os 
hombros de hoias. 

A cidade era dcl'endida pela comprida muralha. 
«pie pro regia, priucipalmentc, o lado oriental da i Ilia, 
come estii dito. (') 

Era proibido aos portuguescs passar para a terra 
lirme sem deixar as suns inmilias em Goa, polo receio 
de quo accilassem service de qualquor principe in- 
digeua. 

O aspect*) da cidade, polo quo o ilescrito ]ielos 
viajantes, justilicava o ape lido de uurca (roa, quo se 
lhe dava, e o provcrbio = quern viu Goa escusa de ver 
Lisboa = . 

A mais l'ormosa das ruas, denominada Hint JJirriLt , 
era povoada, de am bos os lados, de grande niimero 
de lapidarios e ourivos, e «los mais ricos e mellmres 
mercadores e artiliees. 


(') uiurulliu vai Uubunla no vol 



138 


Em diversos pontos da cidade liavia feira didria de 
todos os objectos do consumo, e do mercado principal 
eram veudidos era leiliio escravos de ambos os sexos, 
cujo prego, em 1592, andava por 75 xerafins. fistes 
escravos, depois de com prados, iam pela cidade vender 
a dgoa da fonte de Banguinim ou os ddces e outros 
artefactos da sua indiistria, e o que ganhavam, ainda 
por meios ilicitos, constituia uma fonte de receita para 
seus amos. 

Dos habitantes os quc se chamavam fidalgos on 
nobres, nunca se davam a qualqner indiistria ou 
pr.ofissao. Auferiam a maior parte 
*i S °* USSSE das suas rendas do trabalho manual 
portugueses dos seus escravos. Passavam por- 

*" tanto o seu <5cio em exercxcios 

equestres, jogos de canas e laranjas, exoursoes niari- 
timas e outros divertimentos. As mulheres, que nao 
saniui de casa, nein mesmo para se visitarem, senao 
raras vezes, ocupavam-se toao o dia em iludir a vigi- 
lfmcia dos niaridos. A desmoralisayuo reinava franca 
em Goa principalmente no alta camada da sociedade. 

Os fidalgos ricos tinham sempre mesas lautas, a 
que admitiam generosameute seus patricios menos 
favorecidos da fortuna. Nestes banquetes serviam- 
se manjares delicadissimos eru baixelas de luxo e 
bebiam-se vinhos finos em copos de rico cristal ; mas 
o uso do vinho era mui parco ; pois passava por 
grande desonra bebe-lo em excesso. 

Dentro das casas tanto os homens como as mulhe- 
res traziam vestuario simples e leve. 

Os ricos nunca andavam a pc, mas em palanquins 
ou a cavalo, rodeados de um grande nutnero de es- 
cravos bem vestidos, dos quais uns seguravam gran- 
des sombreiros e outros levavam armas. Alem deste 
acompanhamento, alguns escravos segukm, transpor- 
tando cadeiras douradas e almofadas, os amos quando 



fossera & igreja. 0 quo mais atraia nestes grupos, 
cram os arreios dos cavalos cm que os fidalgos iam 
montados : o selira era coberto de urn pano ricaraente 
bordado e adornado de ouro e prata; as redeas crave- 
jadas de pedras preciosas e com pequenas campai- 
nhas de prata e o estribo era tainlx'iin prateado. 

0 exeraplo dos ricos niio tardou a ser imitado pela 
gente raediana, que usava de todos os meios possiveis 
para se emparelhar com Cdes. 

As mulheres ricas e nobrcs niio iam igreja seniio 
nos dias das fcstas principals; mas quando fossem, a- 
pareciam soberbamente vestidas e ornadas de perolas, 
pedras preciosas e joias na cabeqa, bravos, maos e 
cintura, aconipanhadns de 15 on 20 cscravas bem 
trajadas. 

A As to tempo o coinercio asiatico portugnes liavia 
cbegado ao sou apogee, sondo a cidade de Goa o en- 
treposto das mercadorias, que daqui iam directamen- 
te para Lisboa. Mais de mil navios comerciantes 
aflmam durante o ano ao Mandovi, que entiio era 
mais largo, trazendo as especiarias e o ouro, a 
prata, os diamantes e rubis, perolas e aljofares e 
outros produtos dos paises do orieute, de que temos 
falado atras, ( pag. 32 ). 

Um dos comercios mais lucrativos era o de cavalos 
da Arabia e da Persia, que cram inuito procurados 
prineipalmcnte pelos rajas de Bijapur e de Bisnagar 
para as suas lutas, e niio podiam ser com prados seniio 
aos portugueses por causa do monopdlio, sendo vigia- 
do o contrabando por uma armada permanente no 
Mar Vermelho. 



140 


CAPlTULO XII 

1581— 1600.— Decadencia ao poderio portu- 
gucs no oriente 

(Iomega agora o longo periodo da clouiinagfio dos 
Filipes, quo se assenhorearam da coroa de Portugal c 
trouxeram por sesscnta anos opritnido e subjtigado o 
rcino lusitano. Mais tarde avaliaremos a influencia, 
que essa dominagiio exerccu ua supremacia portugue- 
sa no oriente. 

Run Goa 0. Filipe 2.° de Castela i'oi aclamado a 3 
de Setemliro do 1581 oomo rei de Portugal pelo go- 
vernador, FerniiO TelCS de Menezes, ( 1 "»S 1 ) quo suecdeu 
a 1). Liu's de Ataide, e que nilo iinprimiu nenlmiu 
si Dal de energia na administragiio piiblica, entregaudo 
quince dias depois o governo ao sou sucessor D. Frafl- 
CiSCO fl(ascarenhas, ( 1581-84) primeiro viee-rei no- 
meado por D. Filipe l.°, com o titulo de Conde da 
llorta. 

Durante o governo dOste as annas portuguesas 
continuaram a ser vitoriosas na luta que coustante- 
mente fervia na India. Francisco Fernandes incen- 
diou Ooulete, ahrigo dos piralas que assolavam o 
Malabar. Os mogois que vieram saltear Daman 
foram repelidos com perda. O Xeique de Lara, que 
teuton incotnodar os portngueses em Ormuz, I'oi der- 
rotado em Xante), e o sultao de Aquem, voltando a 
sitiar Malaca, i'oi lambent repelido. 

Mas esto estailo tie guerra perinanente, absorvendo 
a atengao dos portngueses, irnpediu-os de malograrem, 
logo m> prim ipio, as tcntativas que o% liolandeses e 
os mg loses iaui em breve eomegar. 

Neste gov-rno deu-se cm Goa <ina sublevagao, 



141 


provocada pela intolerancia religiosa da epoca. 

Em ’ Salsete, onde o cristianismo fazia grandes 
progressos, os habitantes de Cuncolim, Assolnd e 
outras aldeias circunvizinhas. ainda 
pag:los, desgostosos com os portu- lnsurreigio 
gueses, que lhes destruiam os tem- em Sa Jsete 
plos e os idolos para os obrigar a 
entrar na religifto do Cruoificado, insurgiram-se contra 
o governo constituido e recusarara pagar-lhe as con- 
tributes; chegaram ate a maltratar urn correio que 
de Cochim passava por Cuncolim trazendo cartas ao 
vice-rei. 


D. Franciseo Mascarenhas mandou tropa e arrasou 
Cuncolim e Assolna. A populagao, que desapafecera, 
voltou a reconstruir as suas casas e teroplos e insistiu 
no sen propdsito de negar submissao ao governo. 

Marchou novamente a tropa, acompanhada de jesui- 
tas e, depois de destruir e arrasar tudo, borrifou com 
sangue o? logares sagrados do paganismo. Os insur- 
gentes, desesperados, hurailliaram-se e pedirara perdao 
ao vice-rei, que lho concedeu generosaraente. 

Rfiiando a tranqiiilidade, o ardente missiondrio pe. 
Rodolfo A^uaviva foi com alguns corapanheiros a 
Cuncolim fundar uraa igreja e pro- 
pagar a fe, esperando cordeal recep- MArtires de 
qSo, como os habitantes da localida- Cuncolim 
de lhe haviam proraetido. Mas 
foram vitim as de vinganga ; os infieis cairam-lhes por 
cima e os mataram, sujeitando-os a horriveis martirios, 
em 15 de Julho de 1583. 


Os autores deste atentado foram punidos severa- 
mente e confiscadas as aldeias de Cuncolim, Verodd, 
Assolnd, Velim e Ambelim ; sendo feita a merce das 
primeiras duas, a titulo de aforamento, a JoSoda 
Silva, sendo os actuais proprietdrios os marqneses da 
Fronteira e Alorna ; e das illtimas trcs a D. Pedro de 



142 


Castro, que as trespassou nos padres da Companhia, 
com a extingao da qual passaram para o Estado. 

0 pe. Rodolfo Aquaviva e seus companheiros, 
mdrtires de Cuncolim, foram beatificados em 1 893. ( l ) 
De 1584 a 1588 governou como vice-rei D. Duarte 
de tyenezes, Conde de Tarouca. No sen tempo o capitao 
D. Paulo de Lima foi quern mais se distinguiu pelos 
seus brilhantes feitos no extreme oriente. Malaca 
sofrera algumas fomes ; aproveitaram-se disso os reis 
vizinhos para atacar a cidade, mas foram destrogados 

? or Diogo de Azambuja. Veiu entao o sultSo de 
Jjantana bloquear Malaca. Joao da Silva, capitao 
da fortaleza, depois de ter repelido um assalto, pediu 
socorro para Goa. 0 vice-rei enviou D. Paulo de 
Lima, que libertou Malaca do sitio c, tomando a ofen- 
siva, conquistou a cidade de Johor, onde se recolhera 
o inimigo, e que era defendida por uma numerosissi- 
ma guarnigao. 

Entretando em Ceilfio o r6gulo Raju havia p6sto 
cerco h fortaleza de Colombo. Joao Correia de Brito 
defendia briosamente a fortaleza repelindo por vezes 
os assaltantes ate que Raju avisado da prbxima che- 
gada de D. Paulo de Lima, que ia em socorro dos 
sitiados, lcvantou apressadamente o cerco. 

Em 1585 foram juradas as, pazes, anteriormente 
firmadas, na presenga do Samorim pelo capitao-mdr 


(') A missao e o raartirio do p.° Aquaviva e seus companheiros 
sSo descritos no Oricntc Gonquhlndo do padre Francisco dc Souza, 
Conq. l. a , div. 2. a , § § 75 a 80. Na capela-m6r da igreja de 
Rachol ainda se conserve a lapida com epit&fio que a principio 
cobrin os restos mortals dos martires de Onncolim. Vide Ismael 
Gracias, Relator ia da Biblioteca Publica 1892-93 pag. 42. 0 
Breve da beatificag&o e de 2 de abril de 1893, c A sua versSfo por- 
tngnesa encontra-se no folheto Os santos marh/rcs de Cuncolim 
por Philothcio Pereira de Andrade. 



143 


do Malabar, D. Jer6nimo Mascare- 

nhas, sendo perinitido aos portugue- Fortaleza em 

sea edificar uma fortaleza era Pana- Panane 

ne, e aos stibditos do Samoriiti co- 

merciar com Guzerate e em dois navios com a costa da 

Ardbia. A fortaleza i'oi levantada no lira do ano 1585. 

A D. Duarte sucedeu em via D. Mauoel de SODSft 
Continho, ( 1588-91 ) que, a nao ser a couraga do forte 
dos Reis Magos, nao fez cousa uotavel quo lhe con- 
servasse a memdria da administragao. Sucedeu-lhe 
Hatias de Albuquerque, ( 1591-97 ) ho;nom energico e 
de alto merecimeuto, que teve tambern a boa fortuna 
de ser secundado nas suas empresas militares pelo 
capitao Andre Furtado de Mendonga, uma das ultimas 
glorias portuguesas na India e cuja fagauha notavel 
neste governo foi a derrota do rei de Jafnapatara. 

Flste rei mostrava-se adversario decidido dos por- 
'tugueses : Andre Furtado, enviado contra ole, destro- 
<jou no caminho o pirata Coti Muga, e, a|>ortando a 
Manar, capital do inimigo, tomou numa batallia a es- 
quadra quo guarnecia o porto. derrotou o exdreito que 
defendia as fortificagoes da ilha e, teudo morto no 
co in bate o regulo indiano, obrigou o herdeiro a ; pedir 
liunxildeiuente a paz. Ao mesmo tempo D. Alvaro 
Abrantes assentava pazes com o raja, de Calicut. 

Km 1594 foi tornado pelos portugueses o chamado 
Morro da Chaiil , fortificagiio mourisca de sete baluar- 
tes, fronteiras a, cidade do mesmo nome, que muito 
incomodava a nossa fortaleza. 

Jsi por este tempo cotnegavam os navios holandeses 
a iufestar o mar da India. Dos quatro navios que 
pela primeira vez apareceram sob o 
comando de Cornelius Autmann, Extincao do 

voltarain so dois a patria ; dos ou- StiTportnJS* 
tros dois um perdeu-se nos baixos, 
e o outro destruiram-jio os portugueses ; mas na ime- 



144 


diata viagem lograram os holaurleses escapar as pes- 
quizas destes c, tendo percorrido as ilhas de Cirne on 
Mauricia^ Uantann e Molucas, regressaram a Ilolanda 
com opulentissima carrega$ao. 

Desta inaneira se extinguiu. cm 1595, depois do 
quasi um scculo. o monopolio mercantil portugucs. 
Devia nccessariamente assim sueeder, porque os 
indigenas opritnidos, principahncntn os das Molucas. 
acolhiam os holandesos coino liliortadoros ; c os por- 
tugueses, andando empenliados orn gucrras, into cho- 
gavam a repelir ostes novos rivais. 

Durante o govcrno do D. FrandSCO da Gama, Conde 
da Vidigueira, ( 1597-1600) realizou-sc uma anoxa- 
§ao importantissiina. O ultimo rei 
Anexatjao tla legitimo do Ceilfio. dostronado por 

ilha lie Ceilan seu parento l«aju e protogido polos 

nossos no govcrno de I). Duarte de 
Menezes, reconliecido aos portugueses, legoii-llies a 
ilha; o usurpador falcccu tamhcm. I), dordnimo de 
Azevedo, capitao de Colombo, toinou porlanto posse 
de todo aquele riquissimo dorninio. 

Em Dezembro de 1597 coloearam os vo read ores da 
Camara de Goa na sala das suas sessoes o retrato 
de Vasco da Gama, hi. save desto 
Retrato e esta- vicc-rei, e pouco depois, se inaugurou 
U rfa Gama* 50 a cst&tua do imortal deseobridor da 
I’ndia sobre o arco da porta do rio 
da cidade, ad hoc construido. No vol. 2. u nos refe- 


riremos por menor a este assunto. 

Em 1598 construfu-se o forte de Caspar Dias ao 
longo do palmar do propriefeirio deste nome. 

Neste tempo foi instituida em Goa uraa repartijao 
dos arquivos oficiais eom o pomposo nome de Torre 
do Tombo, sendo nomeado o seu primeiro guarda-mbr 
o cronista Diogo do Couto, que faleceu em Goa, no 
ano de 1616; e foi creada a alfandega na cidade e pra- 



145 


ga <le Darailo. 

0 govcrno do conde da Vidigueira fecbou-se em 
1600 cum a famosa vitdria que Andr£ Fitrtado de 
Mendouga alcangou contra o pirata Cunhale, vassalo 
rebelde do Samorim, que foi aprisionado no combate ’ 
e mais tarde supliciado em Goa. 

Kinquanto o dominio portugucs se mantinha ex- 
teriormente forte, lavrava-lhe no intirno a oorrupgjlo 
mais profunda. Os desmandos dos portugueses, a 
venalidade dos empregos, os excessos da inquisigao 
e o cruel tratamento dos indios, preparavam a pro- 
xima dissolugao dcste vasto imperio. 

Matins de Albuquerque e, principalmente, o conde 
da Vidigueira tentaram reformar estes espantosos 
abusos e nfio o conseguiram, porque os vicios esta- 
vam jsi prol'undaruente radicados, de maneira que o 
conde regressou ao reino, amargurado nos ultimos 
dias do sen govcrno pelos graves insultos com que os 
indisciplinados se vingaram das reformas que co- 
rnegara a introduzir nos costumes dos portugueses do 
oriente. $le foi enforcado em urn boneco de papel, 
e a estatua do bisavo, o inclito V r asco da Gama, foi 
derrubada e mutilada. 0 retrato deste, colocado nos 
pagos da cidade, tambcni foi objecto de escandalosa 
coutenda entre os parentes do coude da Vidigueira e 
os de Afonso de Albuquerque, cujo retrato tambem 
tinha sido posto pela Camara na inesma sala, anterior- 
mente ao daquele e eertamente em logar conspicuo, 
donde depois foi lundado. Esta contenda prometia ser 
mais rija do que as batalhas orientais, se o vice-rei 
Aires de Saldanha com rara prudencia nilo acabasse 
com ela invocando ordens de Sua Magestade. (*) E’ 
que todos os gcnios torn fatulmente o seu calv&rio I 


( ! ) Cuaha Rivara, Fragmentos hisloricos na Imprensa u. m 2, 4 



146 


Ao conde da Vidigueira sucedeu AiPflS do Saldana, 
(1600-60§) que deveu o importante cargo de vice-rei 
n3o aos aeus merecimentos, mas a araisade do mar- 
ques do Castelo Rodrigo ; contudo foi feliz, porque 
teve herdis que lhe ilustrassem a administragilo. 
Andrd Furtado de Mendonga expulsou os holandeses 
de Amboino, onde procuravam estabelecer-se. 0 pa- 
dre Gdis empreendeu a celebre viagem atraves da 
Asia central, visitou e explorou a Tartaria chinesa, 
pais ingrato, que afugentava os viajantes. 

Em 1603 os holandeses bloquearam Goa pela 
primeira vez, mas, nm rnesdepois. viram-se obrigados 
a levantar o bloqueio. 


capItulo xrri 


1608 — 1646. — Decadeneia em progresso. 

Em 30 de Abril de 1606, governando a India Martini 
Afonso do Castro, (1605—7) sucessor de Aires de Salda- 
nha, apareceu diante de Malaca uma 
Holandeses cm esquadra holandesa de onze navios 
Malaca eomandada pelo almirante (Jornelio 

Metalief que, tendo desembarcado 
1500 homens, atacou subitnmente a nossa fortaleza. 
Andre Furtado de Mendonga, que leliziuente esteve it 
testa da nossa pequena guarnigao de 145 portugueses 
e que jA vencera os holandeses em Amboino, animou 


c 5 fcranscritos no Bolelim Oficial, n.°' 96, 97 e 98 de 1897 e 
oit. memorii Telas e escultu ras , 



147 


os seus soldados e ousou i'azer sortidas tao felizes, 
que Metalief preferiu aos assaltos o bloqueio rigoroso; 
pois esperava doste modo apossar-se da cidade, con- 
fiado nas tropas dos rcgulos de Johor e Singapura, 
que o tinham vindo auxiliar. Mas, Andre Furtado 
iuspirou grande intropides nos portugueses, que opu* 
seratn uma resistencia herdica ; e Metalief, depois de 
tres rneses de bloqueio, nilo tendo conseguido resul- 
tado favonivel e, sabendo que vinlia o vive-rei em 
auxilio da fortaleza, desistiu do empreendimento e 
retirou-se. 

Nas Molucas ii f&lta dcste valente capitSo, que era 
1603 as defendera, J'omos, dois anos depois, inenos 
felizes. Caspar de Melo, governa- 
dor do Atuboino, temlo de lular com Perda das 
os liola mioses e ao mesino tempo Molucas 

com o ddio dos indigenas, perdeu a 
ilha. Era seguida caiu tudo. Era Ternate a defesa 
tornon-so irnpossivel pela explosao de uni paiol de 
pdlvora, <]iie destruiu as muraHias e fez voar pelos 
arcs os defensores. Nestas circunstuncias os portu- 
gueses pediram socorro ao govemador castelhano das 
illias Filipinas, L). Pedro da Cunha, que logo accedeu 
ao pedido e expulsou os holandeses ; mas, invocando 
razoes antigas, que ja nao subsistiarn, anexou as Mo- 
lucas coroa castelhana. 

Nao puderam contudo os castelhanos das Filipinas 
defender elicazmente a possessiio de que se tinham 
assenhoreado; pois, poucos anos depois passou ela 
para o dominio desses republicanos do norte. 

Por mortc do vice-rei Castro assumiu o governo 
iuterinamente o arcebispo de Goa, D. fr. AleilO de Meil0- 
zes. ( 1607-9 ) Vinha jti provido no cargo de vice- 
rei o conde da Feira, que morreu no caminho. 

Em 1607, perdemos o reino do Pegu. Historie- 
mos. A Indo-Cliiua estava •dividida em muitos esta- 



dos entre os quais avultava o . de 
Conquista « Arakan. Filipe de Brito Nicote, 

*** de Pee* 61110 P a ' s f r ?n c eses, mas nascido 

em Lisboa, e Salvador Ribeiro de 
Souza, natural do Minho, aventureiros t-stabelecidos 
no Pegii, nos principios do seculo X V7T, ajudarara 
com seus homens o rei de Arakan, Salim X& para 
derrotar o rei de Tangii, que se apossara do tesouro 
do antigo rei do Pegii, cunhado de Salim. 

Em reconhecimento destes serviqos, Salim Xa, 
concedeu a Brito Nicote o titulo de- Chanya , i. d. 
homera de been, e aos portuguoses u porto de Siriam 
no Pegu ( 1600 ). 

Filipe de Brito, que era tao ambioiuso, como 
desinteressado era o seu eompanheiro, animado com 
o sucesso, veiu para Goa assoalhar servi^.os e con- 
sultar o vice-rei, Aires de Saldanha s6bre o seu 
piano de conquistar to !o o Pegu. 0 vice-rei rece- 
beu-o com entusiasino e, depois de o ter feito cava- 
leiro da ordem de Cristo e Fidalgo da Casa Real, 
deu-lhe era casaraento sua sobrinha. 

Entretanto o rei de Arakan, vendo os portugueses 
fortificarem-se era Siriam com toda a celeridade, man- 
dou uma poderosa armada com 6 mil homens sob o 
comaudo do seu capitito Banadcla para os expulsar ; 
mas o bravo Salvador Ribeiro, que estava no coman - 
do da fortaleza, repeliu com um punhado de soldados 
bravos como die todos os assaltos durante os oito 
meses de cerco, e, tendo finalrnento recebido socorro 
de Goa, fez uma sortida nocturna e destrogou os si- 
tiadores obrigando-os a retirar. Os peguanos, movi- 
dos pela espantosa coragem e bravura de Salvador 
Ribeiro, proclamarara-no rei do Pegu. 

Logo depois Banadola, que pretendia o trono do 
Pegu, volton auxiliado pelo rei de Massinga, e as 
tropas aliadas atacaram o forte portugues ; mas no 



com bate o rei do Massiuga loi morto, e as tropas se 
dehandaram. Banadola refugiou-se para Prom oil 
Parao. 0 povo, admirando cada vez mais as herdicas 
proezasde Salvador Uibeiro, proclamou-o, com o maior 
entusiasmo, tarn beta rei de Massinya, celebrando a 
coroaqfio com grande solenidade. Passado algum 
tempo, Filipe Nicote voltou de Goa nomeado capitao 
general das conquistas do Pegu. Salvador Uibeiro, 
coin Icaldade exemplar, ofereceu-llie logo a coroa de 
Massinga c a Fortaleza de Siriam, e, erntjuanto Nicote 
se levantava sobre o sacriiicio ea fortuna do sen com- 
panlieiro, o verdadeiro lierdi, querido dos povos e dos 
monarcas sous aliados. regressava a Portugal para 
morrer cm OuimaiTies. unde nasccra, pobre e olvidado 
por lodos. (') Mas u rcinado de Nicote nao durou 
muito tempi* ; faltou-llie a prudcncia de Salvador Ui- 
beiro e mais o seu desintercsse ; poisern L<>07, quandu 
cresccra muito a sua inHuOncia sobre o rei de Arakan. 
Filipe do lirito expediu uma frota para tomar posse 
do porto de Diauga, cuja concessao pedira au rei ; e 
este, suspeitando quo lirito tivesse formado o piano de 
o expulsar do scu reino, convidou os expedicionarios 
para a sua corte e os mandou passar a espada. e em 
seguida ordenou o massacre gerai dos portugueses, 
sendo mortos (iOO a sangue Frio, escapando somente 
dez com sens navios. Filipe de lirito ainda ganhou 
duas vitorias sobre o rei de Arakan, e, aliado com os 
dominantes viziuhos, loi, por sua desmedida ambigfio 
de riquezas, atacar o rei de Tangu, e o levou prisio- 
neiro para Siriam junto com o tesouro de quo falamos, 
( mais de mu milhao em uiro ); mas o rei de Ava, 


(’) Murais Sanueuto, autor do Romanciro Por tuques, publi- 
cou em verso urn iiiidu roiiiaiieiiiho sobre a volta de Uibeiro a 
Portugal, ini i* uladu O Masxniga. 


10 



150 


para vingar a afronta feita ao seu vassalo, o rei de 
Tangu, cercou Siriam, aprisionou Filipe e o rnatou 
no meio de crueis tormeutos em Ava. 

Portugal perdeu esta nova conquista qu&si tao 
depressa como a adquirira, devido politica dos nos- 
sos governantes e iY ambi§ao de Filipe de Brito. 

0 soberano de Portugal por sua carta de 12 de 
Setembro de 1608, dirigida ao vice-rei da India, acei- 
tava a cor6a dos reioos de Pegii a pedido de Filipe 
de Brito Nicote. 

Etn Siriam existem ainda lioje ruiuas duma igreja 
construida pelos portugueses em 1603, conservadas 
pelo governo ingles como monumento arqueoldgico. 
Esta igreja contava como fregueses, logo no prin- 
cipio, 3 mil convertidos (*). 

Aberta a sucessao pelo referido falecimento do 
vice-rei conde da Feira, achou-se o nome de Andrt FttPta- 
do de ll(ei)doi|(a, ( 1609 ). lilste intrepido guerreiro, 
querido dos soldados, antes de ser governador retem- 
perou a gloria da bandeira portuguesa no oriente 
com os seus brilhantes feitos; pois, conquistqu em 1597 
o reino de Jafnapatao, arrazou a fortaleza do pirata 
mouro Cunhale ( Cunje AliMercar?), que matava 
barbaramente os portugueses quando os aprisionasse, 
e o trouxe preso para Goa,— onde foi executado em 
1600 — , e, finalruente, defendeu herbicamente em 
1606 a fortaleza de Malaca do rigoroso bloqueio dos 
holandeses. Come^ando a governar, cuidou de acti- 
var os preparativos para combater os inimigos do 
Estado ; mas, antes de os concluir, e apos tres meses 
e oito dias de administraqilo, teve de entregar o go- 


to A. Bocarro Dec. 1 3. J. A. Campos, History of the Port, 
in Bengal pag. 78-80. Oriente Port. vol. 5, pag. 205, Art. dc 
Sr. Cdnego F. X. Vas; e vol. 6 pag. 97, Art. do Sr. J. Ferreira 
Martins. Hist, de Portugal de P. Chagas, vol. a pag. 204. 



151 


v6rno ao vice-rei seu sucessor, que acabava de chegar. 

Pirard, referindo-se a Andr4 Furtado, escreve : 
« todos os reis da India folgaram muito de que &le 
fosse governador e Ihe enviaram embaixadores e pre- 
sentes. Aprestou muitas armadas e fortificou muitas 
fortalezas ; em soma &ste fidalgo era amado de Deus, 
dos reis e do povo e semelhantemente dos capitSes e 
soldados, mas nfio da nobreza, porque uSo era ladrfto 
nem ambicioso, e nao era afeigoado a quem roubava a 

el-rei Em menos de tr6s meses fez 

mais do que outros em muitos anos. » 

Uni Lourengo de TAvora, ( 1609-12 ). No seu gover- 
no os ingieses, que ja tinham comegado a comerciar 
no oriente, vieram encetar luta conosco. Nuno da 
Cunha em Surrate pelejou desvantajiwamente com 
quatro naus inglesas ; foi mais feliz contra os indios 
D. Francisco Rolim, capitao de Chad), que derrotou 
Abdul Kariman, que lhe inquietava a fortaleza. 

A-pesar-das repetidas vitdrias que os nossos arran- 
cavam aos indigenes, o prestigio do nome porltigues 
ia-se apagando de todo. Desde que apareceram as 
naus de Inglaterra e Holanda, e os seus marinheiros 
mediam forgas conosco ils vezes com prdspera fortuna, 
os reis do oriente pediam contra nds o auxilio desses 
novos aliados e procuravam abater o nosso irapdrio, 
e, se o nao conseguiram desde logo, cavaram-lhe ao 
menos a ruina, tomando-a inevitdvel e pr6xima. 

0 vice-rei D. Jerdnimo de Az&yedo, que sucedeu a 
ltui Lourengo de TAvora ( 1612-17 ) prevendo o re- 
sultado dessas aliangas com os uossos implacAveis ad- 
versdrios, e da contianga que os naturais depositavam 
neles, resolveu desassombrar os mares de tao perigo- 
808 rivais e com uma poderosa armada foi acometer 
quatro naus inglesas junto a Surrate ; mas sofreu tao 
briosa resistencia, que teve de retroceder e abandonar 
a erapresa. 



Ao mesnio tempo Diogo de Mendonja Furtado, 
depois de dispersar no Aqndm uma frota de 500 va- 
sos roalaios, era, por sen turno. Imtido por 8 nans ho- 
landesas. 

ftstes desastres foram-nos funestos mais pelo sen 
efeito moral, do qoe pelos prejuizos materials quo 
nos causaram. Contudo a cidade de Cogo, no reino 
de Cambaia, foi tomada e destruida pelos nossos era 
1614, e igual sorte teve, tamhdm, a cidade de Por, 4ft 
lcguas distante de Pin. cxpugnada por Gaspar de 
Melo e Sampaio. 

Filipe II. porem, logo que soube dos desastres. no- 
meou o conde do Redondo para suceder a 1). Jeroni- 
mo com a ordem de o mandar preso 
ItuytUta. para Lisboa e assiin se cumprin; e o 

' altnoeda governo de Madrid, que. para acudir 
as suas linan^as, ordenara, por alvar:* 
de 2 de Maio de 1614, se pusessem em almoeda no 
oriente as capitanias das fortalezas o os cargos pii- 
blicos, seqijestrou os bens ao vice-rei. preso no Cas- 
telo de vS. Jorge. 

Convera registar muito a propdsito que a venda dos 
cargos que teve logar durante esta governagilo aid 
18 de Noveinbro de 1617, somou em xerafins' 643, 
091! (') 

O conde do Redondo, D. JoEO Coutioho, que governou 
de 1617 a 1619, foi mais j>rudente do que o sen ante- 
cessor: em vez de empreender guerras, procurou al- 
can<;ar vantagens por meios pacilicos e, enviando ran 
embaixador ao mogol, imperador de Delhi, pediu-lhe 
que fechasse os portos do seu dormnio as embarca- 
cjoes holandesas. Nao foi atendido o pedido, mas 
conseguin-se ao menos que o mogol desistisse do 


(*) Vid. Tmlru(iio do M. dc .1 Ionia part. 2. il pa". 53., notn. 



153 


inteuto, em qtie estava, de assaltar Diu e Da mao, e 
que desse liberdade aos barcos mercantes portu- 
gueses retidos nos portos do seu dominio. 

Por falecimento do condo do Redondo sucedeu em 
via Fernlo de Albuquerque, ( 1619-22) homem inteli- 
gente e honesto, etnbora bastante velho e, por isso, 
tnais inclinado aos dcios da pa/. 

*0 facto mais uotnvel e tristemente import, ante, 
que se deu a cste tempo, foi a per- l»erda de 
da de Ormu/. em 1622, mas nao por Orinn/ 

culpa do governador. 

0 governo da metropole, avisado de qtie os ingleses 
envidavam todos os esforyos para nos desapossar de 
Ormuz, mandou (pie Rui Freire de Andrade fosse 
ctMistruir uma fortaleza para a defesa dessa cidade, 
na ilha de Queixome, territorio pertencente ao Xu 
da Persia, e vigiasse o estreito para vedar aos iugle- 
ses o coraercio da soda. O governador desaprovou o 
piano, prevendo que os sens resultados nos seriam 
desastrosos ; todavia, para cumprir as determiuaqoes 
superiores, Rui Freire levantou a fortaleza e comayou 
a perseguir os gaieties britanicos que iam aos portos 
do Xu carregar as sodas. K-ste principe, veudo-se 
com razao lesado nos seas interesses, e injuriado no 
seu poder, tratou de se desafrontar ; ligou-se com os 
Arabes e os iugleses e reuniu utn i’ormidavel exercito 
para arrasar a fortaleza de Queixome e couquistar 
Ormuz. Rui Freire, em defesa, reuovou as proezas 
dos antigos kerdis, mas foi debalde ; depois de al- 
gumas vitorias, teve de sucumbir, assoberbado pela 
superioridade uumerica das lory, as inirnigas. c Ormuz 
caiu em poder dos ingleses. (') A perda desta cida- 


( l ) Vide Luciano Cordeiro, Contone periled Ormuz — i n teres - 
santc inonografia publicudu cm 18'.M> — c um artigo critico sobre a 

10 * 



154 


de influiu poderosamente no desraoronaraento do 
nosso irap£rio oriental e arrastou consigo tambem a 
de Mascate, com a qual se foram todos os estabeleci- 
mentos na costa da Ar&bia ate ao Mar Vermelho. 


Durante as administrates de D. FranciSCO da Gama, 
vice-rei pela segunda vez ( 1622-27 ) e seu sucessor 
fr. LOIS de Brito, bispo de Meliapor e eleito de Co- 
chin), isto 6, desde o Janeiro de 1622 atd o Julho- de 
1628, a nao ser a cnnstrugao da fortaleza de Mormiti 
gSo, n:Io liouve uenhum facto digno de memdria. Por 
falecimento ddsse bispo, aberta a via de sucessito, 
apareceram nomeados Nlll|0 AlvareS Botelho, D. LonrengO 
da Caai(a e Gongalo Pinto da Fonseca, <^uc govemarain 
juntos poucos meses e tarobern hada fizeram. 


Em 1629 chegou a India D. Miguel de Noropa, 
( 1629-65 ) conde de Linhares, com o titulo de vice- 
-rei e aplicou os seus cuidados a le- 

tos^e'cmi^stru 11 " var, t ar coustrugoes e fundnr estabe- 

goes lecimentos correspondentes as neces- 

' sidades da epoca.. Erigiu ti sua 

custa o hospital da Piedade na cidade de Goa, dei- 


xou na melhor perfeigao a casa da pdlvora, levantou 
a igreja de S. Lourengo na fortaleza da Aguada, for- 
tilicou Bardes e a ilha de Goa e langou a grande 
ponte que pde era comunicagao Pangira com Ri- 
bandar. (*) 


No primeiro ano do seu governo, uma imponente 
armada do rei de Aquem, com 19 mil homens, veio 
cercar Malaca, que era governada por Gaspar de Melo 
e Sampaio. Os portugueses receberam auxilios do 
rei de Johor, nosso aliado, e, depois de terem defen- 


mesma. de Ismael Gracias no Universal, de 1 sboa, n.° 1807, de 6 
de Maio de 1897. 

(*) Esta ponte conta 44 arcos para a passageni das aguas, 
sendo 3s do lado dc Pangirn, 3 no meio c ;) etn Ribandnr. 



155 


dido tenazmente o convento da Madro do Done, que 
fftra atacado, abandonaram-no deitando-lhe logo. 
Fizeram depois algumas sortidas vantajosas, em que 
tomaram muitas armas ao inimigo. Na continuaguo 
da resistencia, chegou Nuno Alvares Botelho, envia- 
do pelo vice-rei corn socorro A cidade. Inverteram- 
se entao os papeis, passando os sitiados a sitiadores : 
os navios portugueses, dan’do bateria ao inimigo de 
dia e de noite, auiquilaram lotalmente a armada in- 
vasora e obrigaram o seu general a entregar-se. 

Em 1.631 apareceu ern (Joulao uina nau com ban- 
deira ate entao desconliecida nestes mares : era o 
balsfio farpado de Dinamarca. Atacada de improviso 
pelos nossos, essa ernbarcagao op6s longa e vigorosa 
resistencia ; mas teve de ceder ao numero e ao valor 
dos portugueses e foi aprisionada. 

0 conde de Linhares governou com bastante seve- 
ridade, creando porisso alguns initnigos poderosos. 
Na mauha de 12 de Outubro desse ano apareceu na 
praga do Mandovi urn bnneco enforcado, representan- 
do o vice-rei com uma roca na einta, e trazendo pre- 
gado um pasquim injurioso em forma de processo 
condenatorio, acusando-o de injusto, corrupto e co- 
barde. 

Das sindicstncias nao se apurou um so culpado ; 
mas a indigna<;ao foi geral, e o povo de Goa, asso- 
ciando-se As autoridades, reprovou a vilania e propos 
que se levantasse uma estdtua ao vice-rei em reco- 
nheciraento dos seus relevantes servigos, lionra que 
ele prdprio recusou ('). 

Ao conde de Linhares, que deixou o govcrno em 8 


( x ) Vid. a Descricdo tjcral das moedas por Toxeira de Aragio, 
pag. 216, ondc se encontra tamltdm transcribo o pasipiim ; e 
Tnstr. do M. dc Alorna , nota a pag, 58. 



de Dezcmbro, sucedeu PedPO da Silva, (1635-39) ea 
este, Aqtdnio Teles de Menezes '( 1639-40); aquele foi 
vitima da epidemia qiie assolou a cidade de Goa, e 
£ste vin o Estado muito perseguido pelos holandeses. 

Em 1640 veiu governar a India JoSO d& Silvft Telo 
de Menezes (1640-46), conde de Aveiras, com o titulo 
de vice-rei. Em agoato desse ano 

Perda de os holandeses sitiaram Malaca com 
Malaca 1.200 homens da sua na<;fio e grande 
m'unero de indigenaa ; foi este o 
ultimo cerco daquela nossa importante possessfio. 
O vice-rei, porque tinha que acudir a muitas partes, 
mandou em socorro apenas uma galeofca com alguns 
soldados sob o comando do capitao Luis da Costa. 
Os portugueses, encerrados dentro dos muros, resisti- 
ram, por cinco meses e meio, aos ataques mais violen- 
tos dos inimigos, (pie eram muitos, ferozes e a cada 
passo revezados ; e, quando de todo Ihes faltaram as 
muniqoes. os alimentos e a esperanga de serem so- 
corridos, entregaram Malaca aos sitiautes em 1641. 

Em 1640, pouco depois da chegada do Conde de 
Aveiras, os holandeses animados pela falta de guar- 
necimento das fortalezas portuguesas 
bloqneio do oriente e ligados com os estados 

holJStees 08 immigos, vieram pela segunda vez, 
coin uma frota de 12 navios, bloquear 
a barra de Goa, apoiados do lado da terra pelas in- 
vestidas do exdrcito de Adil-Khan ; e os portugueses 
apeDas puderam sustentar-se na defensiva. 

Em 1643, aetivando os seus esforgos de conquista, 
os holandeses coraegaram a bombardear a fortaleza 
de Mormugao. O vice-rei, nslo confiando nos poucos 
recursos que tinha para bater o inimigo, invocou o 
auxilio divino, fizeram-se preces em todas as igrejas 
de Goa e foi hasteado na pra$a um estandarte, borda- 
do em damasco encarnado, pelas freiras de Santa Md- 



157 


nica, tendo de um lado a imagem de Nossa Senhora 
da Conceiqfto e do outro a do Cristo crucificado. A 
insignia alentou o espirito abatido da nossa tropa, 
que combateu com ardor repelindo o inimigo. (*) 

Em Ceildo tentaram os portugueses expulsar os 
holandeses que ocupavam a fortaleza de Gale ; e num 
combate, a que se arriscaram com f6rqas muito infe- 
riores As do inimigo, sofreram terrivel derrota, per- 
dendo mais de 300 homens ; e teriam nesta ocasiSo 
perdido tambem a ilha, se o governador D. Filipo 
Mascarenhas nao tivesse rapidamente fortificado a 
cidade de Colombo e nao tivesse pedido socorro ao 
vice-rei, que lll’o mandou com grossas quantias de 
dinheiro. 

Ndste tempo a patridtica revoluqdo do l.° de De- 
zembro sacudiu de Portugal o jugo dos Filipes, ele- 
vando ao trono o herdico duque de Braganqa, D. 
Joao 4.°. 

0 governo dos Filipes, como acabdmos de ver, foi 
bastante nocivo ao dominio portugues no oriente. 
Verdade sejn que, depoisde o rei D. Filipe II de Cas- 
tela assumir a regencia de Portugal, os dois governos 
se conservaram separados e privativos nas respectivas 
possessdes, provendo-se tao sbraente em portugueses 
os cargos piiblicos das provincias portuguesas, con- 
forme as promessas feitas por aquele soberano is 
cortee de Tomar. Mas os Filipes nSo mandaram 
para a India sendo homens que Ihes fossem afeiqoa- 
dos e ddsses nao eram muitos os que possuissem a 
antiga alma portuguesa, o valor, esforqo, lealdade e 
cardcter lusitano. Por aqui pode avaliar-se, com a 
simples noqio dos factos, qudo obnoxios foram para o 


(*) O estandarto conserva-se ainda em grande acatamento no 
extinto oonvento de Sla. Monica, 



158 


impdrio portuguSs oriental os longos sessenta anos 
do regime castclhano. 


CAPtTTJLO XIV 

1040-1606— Continuaqao da deeadeneia 
do imperio portugues 


Antes de referir os sucessos deste periodo, irnporta 
lembrar como os ecos da herdica restauragiio de 1640 
chegaram k India. 

Logo que D. Joao 4.° se empossou do trono de 
Portugal, escreveu ao vice-rei da India, que era entilo 
o conde de Aveiras, e ao tribunal da llelagiio duas 
cartas, anunciando este facto e ordenando que o fizes- 
sem nclamar, jurar e obedecer como Rei natural e 
verdadeiro que era. Em margo de 1641 sairam de 
Lisboa as primeiras uaus da India, comandadas por 
Manoel de Liz e Bartolomeu Gonqalves trazendo 
essas ordens. Nas alturas do Cabo Verde, Manoel 
de Liz pdde adiantar-se e fazendo a aclamagito de D. 
JoSo 4.° em Mogambique, seguiu logo para a India ; 
mas, receando encontrar esquadras holandesas, que, 
por 6ste tempo, infestavam os mares, aproou a Onor, 
donde enviou para Goa num pequeno barco seu filho 
Andrd de Liz, creanga de 9 anos, inteligente e simpa- 
tica, com as cartas del-rei, em companhia de Francisco 
da Silva Souto-Maior. Desembarcaram os dois emis- 
sdrios em Pangim e, emquanto o menino, animado 
pelo entusiasmo prdprio da sua idade, levantava 
clamorosos vivas a D. Joiio 4.°, que o povo escutava 
com espanto e jtibilo. Francisco da Silva apressou-se 



159 


a ir por terra com unicar a noticia ao conde de Avei- 
ras etn Goa. 0 iutrepido menino foi rio acitna ter 
com o vice-rei, a quern entregou as cartas que trazia, 
instando-o a recoDhecer logo a independeneia de Por- 
tugal e a legitimidade do duque de Braganga. Sorriu- 
se o vice-rei da gentileza do infantil embaixador, cuja 
sedntora eloqiifencia o uaoveu a convocar sem perda 
do tempo as autoridades e principals pessoas da cidade 
e prop6r-lhqs era substanciosa e pa- 
tridtica fala o reconhecimento de D. AclamagSo de 

JoSo 4.°, e, efeotivamente, a 11 de cinCoa ‘ 
Setembro de 1611, realizou-se era 
Goa a aclamacpo do uovo soherano com grandes de- 
monstragoes ole rigosijo publico. A 20 de Outubro 
ja f6ra D. Joao 4.° reconhecido em todas as pragas 
do oriente portugucs. 

Em 1642 regressou Manoel de Liz a Lisboa, onde 
foi muito recompensado, sendo o eulevo de todos na 
corte seu tillio Andre, que andava todo satisfeito e 
ufano com o liabito de Cristo. que o conde de Aveiras 
lhe conferira e que el-rei lhe confirmou. 

O conde de Aveiras entregou o governo a 30 de 
Dezembro de 1645 a D. Flilpe tyaSC&renhas, noraeado 
por D. Joilo 4.°, com o titulo de vice-rei (1646-51). 
D. Filipe f6ra governador de Ceiko e prestara im- 
portantes servigos a administragao desta ilha. A sua 
indole disciplinadora, porem, nuo agradou aos fidal- 
gos de Goa, cujos costumes iam cada vez relaxando- 
se mais. 

Numa manha apareceu enforcado em urn poste- 
proximo do palacio vice- real um boneco com as in- 
signias de vice-rei ; e, depois de rigorosa sindic&ncia, 
foram remetidos presos para Lisboa alguns nobres, 
como suspeitos de serem os autores do ultraje. D. 
Bras de Castro, capitao de Daugim, dotado de um 
caractur iuquieto e ambicioso, que se acliou compro-. 



160 


nietido no case, conseguiu escapar-se refugiando-se 
para o territdrio vizinho, donde voltou tnais tarde. 

0 naufr&gio da armada da India em 1646 e algu- 
mas lutas insignificantes com soberanos do Malabar 
encheram o resto do seu governo. 

D. Filipe tendo noticia de quo falecera na viagem 
o vice-rei que o vinha render, conde de Aveiras (se- 
gunda vez despachado para a India), entregou o go- 
verno As pessoas designadas na primeira via de suces- 
sfto, que mandou abrir. 

( 1651-52 ) Os noraeados foram D. Fraqcisco dOS 
MArtires. Francisco de Helo de Castro e Antonio de Souza 
Continho, que governaram ate 6 de Setembro de 1652. 

Nesse aia tomou posse do governo da India o vice- 
rei D. Vasco Mascareqlias, conde de O’bidos ( 1652-53 ) 
Na sua administrate honve aconte- 
Acontecimentos cimentos deplordveis em Ceilao. Os 

** Cenlo em holandeses arabicionavara ardente- 
mente a ilha ; Manoel Mascarenhas 
Homem, que a governava, ou por descuido ou por 
indisciplina dos subordinados, nilo tomou devidas 
precaugoes contra esses inimigos e eles conseguiram 
apoderar-se das terras e p6rto de Calitur ou Kalture, 
proximo de Colombo, e ao mesmo tempo o rei de 
Kandi, aliado dos holandeses, comeqou mover-nos 
hostilidades. Neste estado de cousas, em 5 de No- 
vembro de 1652, uma divisao portuguesa insubordi- 
nou-se, depos Manoel Mascarenhas Homem do cargo 
de capit&o geral, acusando-o de estar vendido aos ho- 
landeses e elegeu uma junta para governar proviso- 
riamente a ilha. 

Durante a revolts os inimigos fizeram progressos 
na ocupaqao da ilha ; mas, logo que ela se serenou, o 
capitao-mdr do catnpo, Graspar Figueira da Serpa, com 
400 homens cercou e bateu vitoriosameute os holan- 
deses, tomando-lhes o cntrincheiramento, quo tinham 



161 


construido entre Calitur e Colombo, euja guarnk;;lo 
foi obrigada a capitular, entregaudo-se prisioneiros 
cento e dez holandeses, quarenta jaus e trezeutos 
singaleses : e JoHo Botado de Seixas, acometendo 
com bravura a gente do rei de Kandi, que se ia 
apoderando das nossas terras, conseguin p6-la em 
debandada. Contudo Calitur ficou nas rnilos dos 
holandeses. 

A Sate tempo a indisciplina, que reinava entre os 
militares de Goa, havia transformado esta cidade num 
verdadeiro ninho de piratas. 0 conde de O’bidos, 
levado de espirito jnsticeiro, encetou a mais en^rgica 
reforma ; isto foi bastante para os insubordinados 
(idalgos da cidade se revoltarem contra Ole e moverem 
uma sedifftn, cujo principal caudilho foi o referido 
D. Brils de Castro. 

No dia 22 de Outubro de 1653, as 6 boras da rua- 
nhii, na ausencia do conde de O’bidos, que se achava 
nos Reis-Magos reuni u-se no terrei- 
ro da 86 uma turba de faceiosos e ^Jje^os^&o do* 
descontentes, dos quais uns, subindo Conde de Obidos 
a torre da catedral, picaram o sino 
grande, e outros, invadindo as casas do cabido, arrasta- 
ram para fora os membros desta corporagdo. Em 
seguida, com grande aparato marcial entraram nas 
casas do senado e da relagiio e levaram a forga os ve- 
readores e os desembargadores, juntamente com o 
cabido, i\ sala do paldcio dos vice-reis, onde entre en- 
tusiasticos vivas a el-rei e t\ nagao pediram a depo- 
siqao do conde de O’bidos e a abertura das vias de 
sucessdo. 

0 secretArio Jose das Chaves Souto-Maior, que, 
para escapar it furia dos amotinados, estava recolhido 
em sua casa, foi violbntamente conduzido ao convento 
de S. Francisco, afim de abrir o cofre das vias de 
sucessuo ; e, quebrado o cofre de pau para se tirar o 



162 


de ferro, que ficava dentro, dirigiram-se com efcte ao 
pago do vice-rei, onde deviam ser Udas as provisSes. 
Arrombado o cofre, as cartas que encontraram, foram 
as que touxera o conde de Aveiras, que o govSrno 
mandava inutilizar, substituindo-as por outras que o 
conde de O’bidos trazia consigo. 

Infelizmente ainda estas nao podiam ter excecuq&o 
por haverem falecido todos os que nelas eram indica- 
aos, excepto Manoel Hascarennas Homem, que vi- 
nha desapossado do seu cargo de capitSo de CeilSo 
e se achava em Cochim. Os sediciosos, entao, exigi- 
ram, que na conformidade duma clausula, que se lia 
em todas as patentes, fosse chamado, para provisdria- 
riameute assumir o governo, o conselheiro mais antigo. 
ilste cargo era ocupado por D. Bras de Castro, que 
ent£o de propdsito ficara na sua resideucia em Dau* 
gim, donde foi conduzido pela turba para ser investido 
na posse do governo. 

0 conde de O’bidos foi preso no forte do Cabo e 
dali enviado para o reino. 

D. Manoel Mascarenhas, parente do vice-rei e ca- 
pitao general da armada do Norte, oferecia-se para 
o restabelecer no poder; mas o conde de O’bidos, por 
sua filantrdpica timidez, nao querendo ser causa de 
revolu^ao e do derramamento do sangue, nao o acei- 
tou; e assim ficou governador sem contestaqao D. Brds 
de Castro, urn 9oldado indisciplinado, da mais com- 
pleta incapacidade administrativa e sent prestigio, 
senao o que Ihe dava a falsa popularidade, que 
sd podia conservar transigindo com a cobi(ja dos des- 
ordeiros. 

D. Brds de Castro, dando conta ao govSrno da me- 
trdpole da deposi^ao do conde de O’bidos e da sua 
exalta$§o ao poder, em 2 de Janeiro de 1654, tentou 
justificar-se, alegando que f6ra inteiramente extra- 
nho a esta comoqao e constrangido a aceitar o go- 



163 


verno sob o risco de ser iraediktamente vitima do fu- 
ror do povo ( l ). 

No governo de D. Bras, que durou quasi dois aoos, 
o facto mais notkvel que houve foi que cinco galeo- 
tas portuguesas, que tiuham ido eiu socorro de 
Ceilfto, derrotaram tres grandes uaus holandesas, que 
as vieram atacar. 

Em Agosto de 1655 chegou D. Rodrigo Lobo da SilTflin, 
conde de Sarzedas, ( 1655-56 ) nomeado vice-rei e 
tendo tornado por si a posse do go- 
verno, como se este estivera vago, Prisko de 
prendeu imediktamente na fortaleza D- Brks eoutros 
aa Aguada, em execugko das ordeus 
que trazia da cdrte, D. Brds de Castro e mais seis 
fidalgos, seus cdmplices na deposi$ko do conde de 
O’bidos; os quais todos, depois de sequestrados os 
seus bens, foratn remetidos para Lisboa; mas, estan- 
do na continua^So de dar providencias para extinguir 
os resultados da sedi§ao, faleceu em Goa a 3 de Ja- 
neiro de 1656, nao sem suspeilas de haver sido 
envenenado pelos facciosos. 

Por sua morte, nao aparecendo vias de sucessao, 
juntaram-se os tr§8 estados (clero, nobreza e povo) 
e elegeram para governador Ifanoei llfascareilhas qODIttD, 
que, tomando posse a 14 de Janeiro de 1656, passou 
a capturar os numerosos partiddrios de D. Brds de 
Castro, que se achavam espaihados em vdrios pontos 
da India desempenhando altos cargos, e os mandou 
para o reino, onde nao acharam o mais leve castigo, 
como era jd tradigilo do governo portugues. 

No governo de Manoei Mascarenhas perdemos a 


(}) E’ ioteressante esta carta que se tern publicado em varies 
escritos. Vide 0 Pregoeiro da Liberdade, de Bombaim, n.° 8, 
vol. l.°, Goa sob a DominafOo Portuguese, por Brato da Oos- 
ta, pag. 56 e seg., e T. de AragSo, vol. 8.°, pag. 186. 



164 


illia de Oeilao. Os holandeses, n:lo desistindo do seu 
propdsito de se apossarem dessa 

Perda de riquissima ilha. p use ram um cerco 

CeilSo apertado a cidade de Colombo. An- 

tonio de Sousa Continho, comandan- 
te da fortaleza, pcdin socorro para Goa o. a-pesar de 
ter poucos recursos e setenta anos de idade, opds uma 
resistencia herdica. Em 12 de Noverabro de 1655 
deu-se o primeiro e terribilissimo assalto geral, etn 
que o inimigo foi repelido corn consideraveis perdas. 
Em desforra, os sitiadores redobraram o bombardea- 
mento da cidade, causando-lhc enonnes t sncessivos 
prejuizos, que os sitiados mal podia m reparar. Ul- 
timamente resolveram entiar na cidade pda cava, 
acometendo-a repetidas vexes. Os portuguezes obra- 
ram, entao, prodigies de valor, batemlo-se debaixo 
do chiio com inexcedivel bravura contra o inimigo 
poderoso e valente. 

Entretanto a sorte dos sitiados tornou-se tristissi- 
ma. A fome cresceu horrorosamonte, a ponto de os 
obrigar a comer came Humana, a peste veio dizi- 
mar a guarniqfio, restando apenas noventa homens 
estropeados, que pareciam esqueletos ambulantes, e 
o socorro ufio chegava; porque a armada que saira de 
Goa com destino para Colombo, liavia retrocedido, 
visto haver sido batida pelo inimigo e aprisionado o 
seu comandante Siniiio de Sousa. Nestas desespe- 
radas circunstancias Antonio de Sousa Ooutinlio 
aeeitou a capitula^ao e o inimigo i'ez sua entrada na 
cidade em 12 de Maio de 1656. Tinhamos perdido 
Colombo e com cle a ilha de Ceiliio para a nfio 
tornarmos a haver. 

Depois de 22 de Maio de 1657. conjuntamente 
com Manoel Mascarenhas Ifotnem (‘), governaram, (*) 

(*) Manoel Mascarenhas Homem tern jazigo na capela-mor da 



165 


voltando de Ceilao, Francisco de Melo e Castro e AntCqlo 
do Sonsa Coatinho ; aos quais seguiu, em Junho de 1661, 
urn novo governo provisdrio, corapoato de Luis dt Mon- 
donga Furtado e D. Pedro de Lencastro, que terminou em 14 
de Dezembro de 1662. 

0 governo de Lisboa, absorto nos cnidados da me* 
tropole, j& nao pensava na India; o que f6z que aqui 
Oste sistema fatal das juntas, mais das vezes compostas 
de homens senis e sem grande prestigio, se prolon- 
gasse infelizmente o tempo bastante para se perder 
quasi tudo o que nos restava no oriente. 

Em 1661 os holandeses tomarain-nos Coulslo, de- 
fendida com certo valor por um oficial cbamado Fer- 
nando dos Santos. Em 1662 blo- 
quearam e tomarans-nos por assalto Perda deCran- 

Cranganor, depois duma briosa re- s 0llt JL nracas 
sistencia que lhes opos Urbano Fia- 
Iho Ferreira. 

Nesse mesmo ano puseram um rigoroso cerco a 
cidade de Cochim, que, havia quatro anos, Ixostili- 
zavam. Inacio Sarmento de Carvalho, que defendia 
esta cidade com bravura, expos para Goa repetidas 
vezes o mau e 3 tado em que se achava a fortaleza e o 
risco que cotria de ser tumada, nao se ihe acudindo 
a tempo. Os nossos dois governadores, que eram in- 
capazes de servir bem o Estado, e que passavam o 
tempo em continuas disputas, nao o atenderam. 
Alem disto, Luis de Mendonga Furtado, inimigo pes- 
soal de In&cio Sarmento, aproveitou-se da sua estada 
no poder para contrariar posslvelmente todos os seus 


igreja do convento do Pilar em 6oa-Velha, ua parede do lado da 
epistola, fioando vis-a-vis, do lado do evangelho, o jazigo do capi- 
tao Lopo Barriga, seu genre. Vide Ismael Gracias, InscripfOet t 
epitaphios, pag. 10. 

II 



166 


pedidos e requisites ; e nao teve p6jo de sacrificar os 
interOsses da pdtria a mesquinhas paixoes pessoais. 

Neste tempo chegava a Bombaim o governador, 
depois vice-rei, Aljtonio de.H[elO 6 Castro (1662-66). Es- 
te, nao podendo vir imedidtamente a Goa, ordeaou 
aos governadores provisdrios que raandassem para 
Cochim todo o socorro que podessem, deixando o que 
se lhes pedira de Mombasa, qua o governador geral 
tomava 4 sua conta. Mas Luis de Mendonqa, contra 
as ordens superiores, teitnou era mandar para Mom- 
basa 5 navios com socorro, enviando para Cochim 
apenas duas al madias com 500 balas e poucos barris 
de pdlvora ; o que era suficiente para se consumir em 
duas horas ! Luis de Mendontja, que nunca dera na 
India senSo provas de insubordina$ao, nao era capaz 
de proceder melhor nesta crise. Nao Ihe confiassera 
o govOrno da coldnia, se nao queriara essa pouca 
vergonha. 

Antonio de Melo e Castro, pouco depois de chegar 
a Goa e toraar posse do govSrno (16 de Dezembro 
de 1662), a-pes&r-de encontrar os cofres pi'iblicos jd 
completaraente esvasiados pelos governadores seus 
antecessores, arranjou e mandou nos fins do raesmo 
racs 8 navios com provimentos para Cochim ; antes 
que estes la chegassem, os holandeses deram um as- 
salto decisivo & fortaleza e, nao obstante a vivissima 
resistencia, conseguirara entrar na cidade. Ainda 
assim, Inacio Sarraento postou-se com alguma gente 
& boca duma rua e combateu vitoriosamente com o 
inimigo ; mas, vendo que era impossivel prolongar 
por muito tempo uma luta tao desigual, capitulou 
com a* condiqao de ser transportado a Goa com a 
guarni$&o e os inoradores que o quisessem seguir. 
Foi isto em 6 de Janeiro de 1663. 

Assim terrainou o nosso dominio em Cochim, cujos 
soberanos, desde o comedo da descoberta, sempre se 



167 


distiogniram pela sua nunca interrompida amisade e 
lealdade para com o governo port agues, a despeito da 
qudsi permanente guerra, que por esse motivo Ihes 
fez n seu vizinho e nosso initnigo figadal, o rajti de 
Calicut. Duram aioda hoje em Cochim memdrias d9 
portugueses ilustres ( 1 ). 

Ap<5s a queda de Cochim cafu a praqa de Cananor 
governada por Antdnio Cardoso, que, apenas recebeu 
intiinagao do almirante holandfis para se render, en- 
tregou-se cobardemente. Em seguida os holandeses 
foram-se apoderando, a uma e uma, das -pragas que 
ainda possuiamos na costa do Malabar e que se ren- 
deram quasi sem resistfincia. 

Outro facto notavel que se deu nesta epoca foi a 
entrega da ilha de Bom bairn aos ingleses. Como se 
nao bastasse a guerra para nos pri- 
var das eoldnias, o governo de Por- 
tugal, firmando, em 23 de Junho de 
1661, o tratado de paz e casamento 
da infanta l). Catarina com Carlos 2.' 
tanha, deu como dote ao soberano ingles, alem da 
cidade e fortaleza de Tanger na Africa, o p6rto e a 
ilha de Bombaim na India ; e isto, segundo resa o 
art. 11.° do tratado, “ para que El-rei de Grfl-Breta- 
nha estivesse mellior aparelhado para assistir, defender 
e ainparar os vassalos do rei de Portugal naquelns 
partes, da ffirga e invasao dos holandeses.” Por este 
tratado cedia Portugal aos ingleses todos os territo- 
ries portugueses, entfio om poder dos holandeses, que 
files Ilies pudessem conquistar, e concedia-lhes tam- 


Cessao da ilha 
de Bombaim 
aos ingleses 

, de Gra-Bre- 


(') Vide Cunha Hi vara, Inscripffies portuguezas em DamSo, no 
Chronista dc Tissuary, 2." vol., pag. 76, 9(5 c 112, — e o folheto 
InscripfSes portuguezas que se encontram na igreja de S. Fran- 
cisco ae Cochim, trasladadas pelo bispo D. Joilo Gomes Ferreira, 
e pnblicadas em Tjisboa no ano de 1892. 



168 


bdm o direito de estabelecer feitorias do meio das 
nossas coldnias da A'sia e America. A lnglaterra 
prometia defender Portugal e seus dominios como a 
si prdpria e restituir-nos todos os territorios que os 
bolandeses nos tomassem depois de assinado o trata- 
do. Para a execugSo deste tratado, Antdnio de Melo 
e Castro, vindo de Portugal em 1662 a bordo de uma 
nau inglesa, trazia a ordem de dar posse de Bombaim 
ao procurador do rei da lnglaterra. 

Chegando, pordm, o governador a ilha de Anjoane 
e, tendo noticia de que os holandeses haviam sitiado 
Cochim, pediu ao general ingles (Lord Mai borough), 
que Ihe fdsse em socorro com as naus do seu coman- 
do, como parecia que devia fazer, uma vez que se 
acabava de negociar uma boa e srilida amisade entre 
a coroa de Portugal e a de lnglaterra ; o ingles, 
pordm, recuson-se. Chegados a Bagaim, repetiu o 

§ overnador as suas inst&ncias ao general Abraham 
hipman, que vinha de Surrate para toraar posse 
e ficar governando Bombaim, mas nada conseguiu. 
Protestando, entao, contra a recusa dos ingleses, 
que vinha a ser uma previa infracgao do tratado, An- 
tdnio de Melo e Castro nao quis entregar Bombaim 
e, dando conta do seu procedimento ao govdrno supe- 
rior, acrescentou os inconvenientes que traria ao 
Kstado a entrega daquela praga, lembrando-lhe, ao 
mesmo tempo, a troca dcsta em dinheiro, que a Fa- 
zenda da India e os habitantes se ofereciam a pagar 
em quantia que se convencionasse. 

Perdida assim a esperanga de tomar a almejada 
posse por bem, determinaram os ingleses tomd-la com 
m&o armada e expediram alguns navios de guerra ao 
p6rto de Bombaim ; mas, vendo que os nossos fortes 
se achavam bem apercebidos com a artelharia, que 
Antdnio de Melo, prevendo o perigo, fizera enviar de 
Bagaim, recuaram. As naus malogradas foram des- 



169 


cansar. em Angediva h espera de melhor ensejo, e ali 
morreu o general Abraham Shipman, substabelecendo 
a procuragSo dir" rei de Inglaterra em Humphrey 
Cook, a quern os documentos portugueses chamam 
Inofre Coque. 

De Angediva despachou o ingles uma das naus a 
queixar-se a Portugal ; a corte, sem esperar pela jus- 
tificaQilo do governador, mandou precipitddamente 
ordens terminantes para a entrega, de Bombaim e, re- 
ceando que Ant6nio de Melo opusesse novas duvidas 
h execugao delas, enviou poderes sulicientes ao Vedor 
da Fazenda da India, Luis Mendes de Vasconcelos, e 
ao Chanceler da Belacjiio de Goa, Sebastiao Alvares 
Migos, para dar posse da ilha, avisando o governador, 
na carta de 16 de Agosto de 1663, de que mandaria 
proceder contra quern impedisse o cumprimento das 
suas ordens com a demonstragSo que o caso pedisse. 

Ainda assitn, Antdnio de Melo houve meio de de- 
morar a entrega por mais urn ano ; porque esperava 
que o governo de Portugal acordasse 
A sua voz e atendesse ao que ele e o Entrega de 
conselho do Estado em Goa lhe ha- Bombaim 
viam representado ; mas finalmente, 
esgotados todos os pretextos, assinou a ordem fatal 
em 14 de Janeiro de 1665 e a 18 de Fevereiro efec- 
tuou-se a entrega. Dois meses depois chegava a 
resposta de el*rei raandando suspender a entrega de 
Bombaim e aceitando o alvitre de a comprar, segnndo 
a indicatjao do governador. Era jd tarde ( 1 ). 

Tomada a posse contra a expressa e raanifesta 
vontade dos habitantes de Bombaim, que mais de uma 
vez quiseram revoltar-se, seguiram-se as conseqiiSn- 
cias que Antonio de Melo receava ; pois, os primeiros 


( r ) Vide a noba final A. 

11 * 



170 


passos dos ingleses foram a invasao dos nossos direi- 
tos, dos de sous novos subditos e do nosso territdrio. 
“ A ilha de Mahim foi-nos tomada sob o pretexto de 
que na vasante se passava para ela por ama restinga 
a p4 enxuto ; os nossos cat61icos foram ameagados 
na soa fe e principalmente na sua Egreja ; os foreiros 
e o Estado obrigados a pagar, nSo os foros estipula- 
dos, mas rendas ad libitum ; os aforamentos firmados 
com a assinatura do vice-rei uao reconhecidos.” ( To- 
«naz Ribeiro ). 'Contra todas estas infracgoes protes- 
tou em 26 de Maio de 1665 o capitao da fortaleza do 
Norte Indcio Sarmento de Carvalho. 0 protesto nada 
infliuu no animo de Inofre Coque ; mas ia produ- 
zindo ama sublevagao dos norteiros contra os novos 
dominantes, a que Antdnio de Melo obstou, prome- 
tendo-lhes o resgate da sua cidade a dinheiro, como 
se estava contrabando. 

Em seguida, os ingleses erapregaram todos os meios 
para ampliar o seu comercio e aniquilar a iraportancia 
polltica de Portugal no oriente ; e, tendo por certo 
que a araisade com os hindus lhes franquearia o co- 
mdrcio, forneceram aos maratas em 1739 arm as e 
munigoes de guerra, com que estes nos expugnaram 
as importantes pragas de Salsete, Bagaim e Chaul, 
reduzindo a perda delas d extrema pobreza as princi- 
pals casas de Goa ( 1 ). 

Em Outubro de 1666 tomou posse do governo o 
vice-rei JolO Nuoes da Cai)ha, conde de S. Vicente, co- 
nhecido pelas famosas cartas que escreveu a el-rei ( 3 ). 


(*) J. Gerson da Cuuha, Nolen on the History and Antiquities 
of Ckanl and Bassein, 1876. 

(*) Para amostra damos a seguinte carta, por vezes citada 
quando se trata das consas da India. 

“ Senhor. — A India se vv de rauito longe, e se onve mnito tar- 
de, c assiui nada me espanta da forma, com qne mnitas ordens se 



171 


0 conde de S. Vicente era instrirido (*) bravo e 
energico. Foi com uma famosa armada ao estreito 
de Ormuz bater os arabes e tomar Mascate, mas os 
grandes temporais malograram-lhe a emprSsa. Con* 
tudo, trabalhou serapre para restaurar possivelmente 
a import&ncia de Portugal no oriente. 

Em 1668 Sivagi, na continua$fio de constituir o 
seu imperio marata ( 2 ), tentou conquistara cidade de 


expedem, e do mal quc muitas ordens se guardam ; ja nm grande 
ministro disse que a jurisdig&o dos reis de Poitugal Be nS,o exten- 
dia raais que ate Santarom, qne deste termo para diante tudo era 
dos corregedores das comarcas ; na India se extende, o qne o vice- 
rei pode, ate Bardez e Salsete, daqui por diante tudo 6 jurisdi$ao 
dos capitaes das fortalezits, e nos rios ainda ninguem teve jurisdi- 
$lo, e assim tomara saber quern havia de lan 5 ar esta oitava parte, 
se quatro raaticaes de foros se nilo cobra in, e que hade iraportar 
esta contribuiplo em terras incut tas, nem a oitava parte e nada, 
nem a India esta cotno se pinla , e com dizer a v. magestade que 
todo este estado tern menos portugucses que Alhos Vedros, tenho 
encarecido as suas miserias bastanteraente ; os gentios nao tem 
fazendas e os canarins apenas cuUioam o que comem ; das pedras 
nao se tira mel, nem do seixo durissirao o azeite, estes milagres 
s5o paia Deus, v. magestade deve umndar a India quern lhe faci- 
lite impossiveis ; que eu niio sei mais que chorar as miserias, que 
vejo, e conhecer dificuldades, em tudo o que ohro ; se isto nasce 
de mini, venha outro, se isto nascc dos pooos , tenha v. magestade 
piedade deles, porem esta tal a India que se hade ter compaixao 
das pedras, porque nao ha homens de quc ter lastima, e d&ste de- 
serto ha agricultores, que esperam tirar fruto. A Beal Pessoa de 
v. magestade Dens gourde. — Goa, 20 de Junho de 1609. — Conde 
de 8 . Vicente . ” 

(*) Deixou varios manuscritos sobre matematicas e genealo- 
gias, e algnmas poesias ; iraprimiram-se em 1C66 o Panegirico 
ao serem'ssimo rei D. Jo&o 4.°, e o Epitome da inda e aefoes de 
D. Pedro , etc. 

( 2 ) Nos meados do seculo XVI Sivaji, levantando o estandarte 
de revolta contra a domimu/ao maometana, Jarrancou ao Grao- 
mogol e a Bijapur algumas provincias c fortakizas, com que cons- 
tituiu o reino marata com a capital em Raigad, donde foi mais 
tarde tansferirla para Satara. Tendo sido morto por Aurangzeb o 



172 


Goa por estratagema. Introduziu disfargadamente 
nos arrabaldes da cidade, em ocasioes diferentes e sob 
vdrios pretextos, 400 a 500 soldados em peqneoos 
trogos com o projecto de, depois de duplicado o nti- 
mero, tomarem de surpresa, alta noite, um dos passos 
e o receberem dentro da fortaleza antes que o ex£r- 
cito portugues acudisse em defesa. Mas, em Oatubro 
d&sse ano o vice-rei, tendo conhecimento ou suspeita 
do piano, mandou proceder h uma rigorosa busca nos 
arredores, prenaeu todos os 400 ou 500 maratas 
e provavelmente lhes extorquiu a verdade. Em 
seguida, chamou o embaixador de Si vagi e, dando nele, 
com a sua prdpria mao, duas ou tres bofetadas, or- 
denou p6-lo nas fronteiras junto com todos os pri- 
sioneiros. 

Sivagi, para vingar o malogro da tentativa e a ver- 
gonha do castigo, reuniu um exdrcito de 10 mil ho- 
mens de infantaria e mil de cavalaria, e, ameagando 
marchar sobre Goa, avangou at6 Vingurld ; mas, 
tendo achado os portugueses bem preparados para a 
resistencia, regressou em Dezembro para Kajgad. 

Este facto, que nao encontramos nas crdnicas por- 
tuguesas, vem relatado em uma carta de Mr. Gyfford 
existente entre os documentos recolhidos da feitoria de 
Surrate, e donde se infere que o imp6rio marata, que 
mais tarde nos havia de arrancar o Bagaim, logo ao 


sen filho e snceasor Sambaji, subia ao brono Xaii, filho dSste, o 
qual, fraco e dissoluto como era, relegou todos os cuidados da ad- 
ministragao no seu habil miniatro ( Pexva ) o brAhmaae Balaji 
Vixvanath, que f6z o cargo de ministro heredib&rio na sua fa- 
milia. Os Pexvas posteriores tornaram-se tao poderosos, que 
eolipsaram completamente o poder real, e chegaram a esteuder o 
domfnio marata a qu4si toda India. Tinham a sua odrte em Pu- 
nem. Os reis maratas usavam o titulo de C latrapati, i. 6., 
“ senhor do sombreiro ”, e estavam habilibadof a pdr em oampo 
150 a 200 mil homens montados. 



173 


nascer movia hostilidades ao govern o portugu&s (*). 

No meio dos trabalhos em proveito da India, o con- 
de de S. Vicente adoeceu gri'tvemente e, contando 
apenas 39 anos de idade faleceu em Goa a 6 de No- 
vembro de 1668, sendo considerada a sua morte uma 
perda nacional. Foi sepultado na igreja de Bom 
Jesus, junto ao altar de S. Francisco Xavier. 

Pelo seu faleciraenio, aberta a via de sucessao, a- 
charam-se designados para o substituir Aqt6qio de Helo 6 
Castro (parente do peniiltimo vice-rei), LttlS de Hiraqda 
Henriques, capitao de Diu e Hanoel Corte-Real de Sampaio, 
consellieiro do Estado. Na administrag&o destes, nao 
houve nada de not&vel, a nao ser a derrota, que uma 
esquadra portuguesa infligiu a uma armada Arabe no 
estreito de Ormuz em Agosto de 1669. 

No governo do vice-rei Lois de Mendonfa Fortado de 
Albnqnerque, conde de Lavradio, (1671-1677) que 
principiou em 20 de Maio de 1671, permitiu o rei de 
Oanara aos portugueses que levantassem feitorias mu- 
radas em On6r, Barcelor e Mangalore e ainda em 
1678, no governo do vice-rei D. Pedro de Almeida, conde 
de Assumar, itnediato sucessor de Luis de Mendon$a, 
consentiu a constru<;ao nao sd de feitorias, mas tambdm 
de igrejas catdlicas em Baticald, Caliampur e outras 
partes do seu dominio. Contudo nada disto obstou 
d torrente da decaduncia que seguia o seu curso. 

Tendo D. Pedro de Almeida embarcado para Mo- 
zambique, por ordem da c6rte, em 27 de Janeiro de 
1678, ticaram governando a India D. fr. Antdoio BraqdlO, 
Arcebispo Primaz, e Antoqi.0 Pais de Sande ; mas, ten- 
do o arcebispo falecido em 6 de Julho desse ano, 
continuou o outro a governar sdsinho, em conBeqiien- 
cia de urn assento da junta dos tr$s estados at4 


0 Vid. J. Sarkar, Skivagi and his times , pag. 280-281. 



174 


12 de Setembro de 1681. Nesse dia tomon conta 
do governo Fr&l|CiSC0 de Tdvora, ( 1681-86 ) conde de 
Alvor, que niio foi muito feliz. 

Em 24 de Novembro de 1683 o marata Sambaji, 
filho e sucessor de Sivaji, acometeu a ilha de S. EstS- 
vao com uina f6rga de 20 mil homens 
Invasao do ma- e, aproveitando a incuria das sentine- 
rata Sambaji )as, tomou de surpresa o forte pas- 
sando a espada a guarnigiio. A no- 
tlcia da invasfto levou terror para a cidade e o conde 
de Alvor, reunindo a toda a pressa 400 soldados, 
apresentou-se no dia imediato ao inimigo. Comegado 
o conflito, cairam, ao primeiro fogo do marata, qudsi 40 
soldados nossos, uns mortos, outros feridos ; e rauitos 
dos restantes, querendo fugir da cavalaria inimiga, 
que lhes vinha ao encontro, abandonaram o carnpo 
para se acoutarem dentro da cidade, mas era tal confu- 
sao, que alguns, ao atravessar o rio, foram arrastados 
pela corrente. O vice-rei ousou, contudo, com alguns 
soldados opor viva resistencia, mas vendo que o ini- 
migo ia ganhando as posigoes, recolheu-se A cidade. 
Ea noite expediu uraa dotilha em defesa ; Sambaji 
porem, havia jii abandonado a ilha e, com ela, todas 
as provisoes de guerra, para ir acudir as fronteiras 
dos seus estados, que haviarn sido invadidos por urn 
numeroso exercito dos mogois. Se niio fora esta 
coincidencia, Goa talvez caisse em poder dos maratas, 
que j& haviarn cercado as prarjas de Radiol, Tivitu e 
Chapora e assaltado Margao. Incontestiivelmente o 
poder portugues na J ndia havia chegado a maxima 
declinagdo (‘j. 

Nesta ocorrencia e digno de raengao especial o 


(') Vid. A Invasao de Goa pclo Marata cut 1083, por 1. 
Gracias. Or. Port. vol. 8.° pag. 60 e seguintes. 



175 


devoto procedimento do vice-rei, que, reconhecendo a 
insuficiencia dos seus meios de resistencia, antes .de 
marchar ao encontro do inimigo recorreu ao auxilio 
de S. Francisco Xavier, e, abrindo-lhe o tumulo, lhe 
entregou nas maos o seu bastao, a sua patente e um 
papel escrito por seu proprio punho, ein qne, ein no- 
me de el-rei de Portugal, lhe pedia que salvasse o 
Estado e o tomasse sob a sua salvaguarda, como pa- 
trono e defensor dos portuguescs no oriente. 0 ines- 
perado aparecimento do mogol nestas criticas circuns- 
tancias e a retirada de Sambaji foram geralmente 
atribuidos ft miraculosa intervengao dfe S. Francisco 
Xavier. Era o A’tila parando iis portas de lloma, 
na conceituosa frase dum ilustre prelado. 


O conde de Alvor, receando que.o Sambaji se apo- 
derasse da illia de Angediva, para servir de ponto de 
reuniao iis suas embarcagoes, com 
que assolasse a nossa costa, fortificou Fortiticagoes 
a illia e fez ai muitas obras de utili- * M pontos 8 °* 
dade publica ; reformou a fortaleza 
de Radiol, depois de se defender do cerco posto pelos 
maratas, e rnaudou levantar como barreiras contra as 


incursoes desses inimigos um forte era Oolvale e dois 
era Tivim respectivamente chamados Forte de Asmm- 
pao e Forte do meio como auxiliares ao Forte riovo de 
Tivim, construido em 1(3*>5 pelo conde de Linhares, 
e ligou estes entre si e com o de Colvale por meio de 
uma rija muralha protegida por um prof unde fdsso 
primitivamente cavado para unir o rio Mandovi com 
o de Chapora. 

0 conde de Alvor, por causa da insalubridade da 
cidade de Goa e sobretudo para evitar nova invas&o 
dos maratas, ouvida a J unta dos tres estados, resol* 
veu transferir a capital para Mormugao ('); o que 


C 1 ) Ouuha Kivara, Tcntativa da Mudan$a da Cidade de Goa 



176 


concorreu para apresaar a queda da cidade, como 
atraz est& dito. 

0 seu sucessor D. Rodrigo da Costa, ( 1686-90 ) go- 
vernou at6 1690 passando depois o govorno a D. Mi- 
ffael do Almeida. Por seu falecimento a 9 de Janeiro 
ae 1691 entraram na governanga, por via de sucessilo, 
( 1691-93 ) D. Fernando Martiqs tyasc&renlias de Leqcastre 
0 Lnis Goqgalves Cota ; o segundo, porera, morreu logo 
era Junho do mesreo ano e foi substituido pelo arcc- 
bispo D. fr. Agostinho da Aqanciagao em virtude de nma 
carta declaratdria do govorno da inetrdpole. 

Em 28 de Maio de 1693 tomou posse do govfirno 
da India o vice-rei D, Pedro Antoqio de Noronha, ( 1693- 
98) conde Vila Verde, e restabeleceu no ano imediato 
o prestigio das armas portuguesas ( que haviam sido 
qu&si sempre infelizes nas lutas coin osmaratas), 
derrotando em Rajapur a esquadra de Satnbaji e trou- 
xe para Goa como trofeus 32 canhoes inimigos, que 
pode aproveitar (*). 

Nao foi menos feliz diplomiiticamente. Pelo tra- 
tado que fez com o XA de Persia conseguiu nao so a 
construgao duma nova feitoria e o pagamento da tne- 
tade dos direitos da alfandega, mas tambem a pro- 
messa de nos auxiliar o Xa na reconquista de Mas- 
cate. 

Durante oste governo os portugueses exerceram 
tamb6m influencia cm Bassora ; pois nao so tiveram 
ali feitoria com cs empregados pagos pelos habitantes, 
mas tambem a cidade pagava por ano um tributo de 
5 mil e 500 patacas. 

Ao conde de Vila Verde sucedeu Aqtonio Lnis CODti- 
qhO, ( 1698-1701 ), que governou tros anos, e com 


para Alorinugdo, no Cronista de Tissuari /, l.° c 2.° vols. 
(>) Bombay Oasolcer, Savantvady, pag. 195 nota 7. 



177 


autorisagSo superior abrindo as vias de sucessito en- 
tregou o governo ao arcebispo D. fP. ig0Stinl|0 da Anilfl- 

ciagio, e D. Yasco Lois Continljo. 


CAPlTULO XV 


Sinopse do desmoronamento do imperio 
luso-indiano, e a deeadeneia da cidade 
de Goa. 

0 soberbo imperio luso-indiano, fundado e engran- 
decido pelos herois, que assombraram o raundo com 
os seus feitos epicos, ap<5s uni seculo apenas de dura- 
giio desmoronoa-se tao rfcpidamente como fora con- 
quistado. E’ verdade que os germens da ruina j& se 
inanifestavam cada dia mais visiveis ainda no pefiodo 
da sua maior grandeza, mas a politica da Espanha 
contribuiu poderosamente para lhe abreviar a deca- 
dencia, precipitando os acontecimentos. 

Filipe 2 ° da Espanha e 1 .° de Portugal mandou 
fechar em 1594 o porto de Lisboa aos comercian- 
tes dos Estados europeus inimigos da Espanha, que 
vinham buscar os generos oriehtais ; e os principais 
inimigos do Leilo Castelhano, que, abusando da sua 
f6rqa, zombava das naqoes visinhas, eram a Inglaterra 
e a Holanda. 

A disforra, que estas tiraram, foi a nossa completa 
ruina ; pois, fundaram duas companhias poderosas 
para comerciar no mar das Indias 
orientals : a Companhia Inglesa ins- h!f. S 

tituida em 1600 pela c^lebre rainha landesa 
Isabel, e a Companhia Holandesa, 



178 


que se organison em 1602; cada uma com of undo 
de muitos milhoes de cruzados, e ambas armadas de 
grande poder militar e politico. 

Mas, em quanto a companhia inglesa tratavade se 
organizar e obter uns privilAgios, a>‘holandesa adian- 
tou-se e veio arrancar-nos o comArcio e tambAm os 
nossos territdrios, que considerava, pal® todos os efei- 
tos^como espanhois, principiando logo, desde 1595, 
a invasAo dos mercadores holandeses a arruinar o 
monopAlio mercantil portugues. No decurso desta 
guerra luso-holandesa ainda alguns reis indianos, 
discontentes ou resentidos, apoderaram-se de algu- 
mas das nossas feitorias e fortalezas. 

A f6r<ja portuguesa, embora fizesse prodigios de 
val6r, nao podia lutar com esses principes formidAveis 
em poder e opulencia, menos ainda resistir em diver- 
sos pontos aos ataques, cada dia rnais frequontes, das 
poderosas armadas holandesas, que encontravara mui- 
tas vezes o terreno jA preparado, infelizmente, pelos 
Arros e desacertos de alguns governantes portugueses 
obcecados pela sordida cubiga, e sobretudo pelas injus- 
tice, violencias e barbaridades praticadas por alguns 
capit&es das fortalezas, que haviam atraido profunda 
avers&o dos asiaticos ao dominio portugues ('). 

Dai uma sArie de desastres, a-pesar de lutas e de- 
fesas homericas, sendo acolliidos pelos indigenas 
com braqos abertos os novos chegados, fossem o que 
fossem. 

Em 1607 os holandeses conquistaram os nossos 
estabelecimentos das Molucas e de Sumatra, e em 
1618 fundaram a cidade de BatAvia em Java, que se 
tornou o centro do comArcio das 77 has das especia - 
rias, rivalizando em pouco tempo com Malaca. (*) 


(*) InstrtKfSo do M. de Alonta, part. 8.» pag. 53. 



179 


No mesrno ano de 1607 perdemos no Pegu a forta- 
leza de Siriam e o reino de Massinga. Em 1622 o 
Xa da Persia, ajudado pelos ingleses, tomou-nos a 
opulenta cidade de Ormuz, da qual se dizia=Se o 
mundo fora um anel, Ormuz seria a sua pedra pre- 
ciosa = ; e a esta perda se seguiram as outras como a 
de Mascate e de todos os estabelecimentos da costa 
da Arabia ate ao Mar Vermelho. Em 1632 o Grtlo 
Mogol XA-Jahan, resentido por os portugueses Ike 
terem recusado o socorro pedido ao tempo era que, 
como principe rebelde, andava fugitivo na provincia 
de Bengala, e indignado com as piratarias cometidas 
por alguns deles no p6rto de Chitagong ou Catigao. 
destruiu-nos a feitoria de liugli. no porto de Bandel, 
que Nuno da Cunha havia f undado, entabolando rela- 
tes comerciais com essa riquiasima provincia, cha- 
inada entao o par also da India ; e rnatou mil portu- 
gueses, levando prisioneiros para Agra quatro mil, 
incluindo mulheres e criangas, que, so depois de um 
ano, conseguiram regressar, ficando, porera, o coraer- 
cio quasi aniquilado (’). 

Em 1635 os kolandeses, atacando o tnifico da Chi- 
na, ocuparam a ilka Formosa e destruiram os nossos 
estabelecimentos ; em i 639 conquistaram-nos Bati- 
calsi, e depois Trincomale e dale ; em 1640 tomarara- 
nos Malaca depois de vinte e cinco meses de cerco ; 
em 1656-58 arrancaram-nos Manaar, Jafna e toda 
ilka de Ceilao, quando jii nao restavam dentro das 
rotas muralkas de Colombo se ufio noventa e quatro 
soldados estropiados e famintos ; c no meio desta 
tempestade que nos ia varrendo de tantos portos e 
fortalezas, hloquearam-nos duas vezes a cidade de 


(’) M. Stephens, Hist, dc Port. pag. 264 ; e History oj the 
Portuguese in Bengal by J. Campos 44. 



180 


Goa. cm 1603 e 1640, bombardeandq pela segunda 
vez a fortaleza de MormugHo, donde foram felizmente 
repelidos. 

Em 1661 a i]ha de Bombaim foi cedida h coroa in- 
glesa. Entre os anos de 1661-63 cairam sucessiva- 
mente em poder dos holandeses as nossas fortalezas 
de Barcelor, Mangalore, Onor, Couldo, Cranganor, 
Oananore, Cochim e outras da costa do Malabar ; e 
os estabelecimeutos de Negapatfto e S. Tome de Me- 
liapor na costa do Coromandel. Em 1690 os mouros 
tomaram-nos Mombassa depois de tr6s anos de cerco 
e morte do capitao. 

Assim dilacerado e repartido o nosso impdrio, os 
restos que nos ficaram no oriente, ao principiar do 
s£culo XVIII, foram a provincia de 
Territdrio res- Goa, compreendendo o arquipdlago 
das Ilhas, as peninsulas de Salcete e 
1 XVIII Bardes e a ilha de Angediva ; a 

provincia do Norte, a provincia de 
Mogambique, a feitoria de Surrate, a cidade de Macau 
(*) e o arquipelago de Timor e Soldr. Olhemos agora 
para o estado a que se reduziu a capital do impdrio. 

A luta dos holandeses conosco, que durou quasi 70 
anos e nos tirou a maior parte das possessoes, influiu 
poderosamente nos destinos da cidade de Goa ; pois 
os holandeses absorveram todo o nosso comercio do 
cxtremo oriente, e os ingleses, desde 1615, o da Per- 
sia e da India do noroeste, sendo repetidas vezes apre- 
zados no mar, pelos corsdrios holandeses, os navios 
portugueses que se encontrassem carregados. Estas 


( l ) A cidade de Macau foi fundada em 1557 no temtorio cedi- 
do aos portugueses pclo imperador Kia-Tsing, scndo-lhcs perme- 
tido comerciar com China e Japiio ; mas como 6sse comercio ao 
tempo n&o tinha atingido propor^Oes rauito importantes, os ho- 
landeses deixaram os portugueses trunquilos cm Macau. 



181 


calamidades eontribuiram, mais que tudo, para a de- 
cadencia e pobresa da duren Goa, onde a corrupgao 
dos costumes, que reinava desenfreada, ja era de si 
bastante para minar a sua prosperidade. 

Ao mesmo tempo a febre epidemica, que afligira a 
cidade 50anos atras, tornou a desenvoiver-se em 1635 
com incrivel violSncia, espalhando terror e desolagao 
por toda a parte. 0 governo uilo^podia, em vista do 
tesouro esgotado pelas despesas da gnerra, tomar me- 
didas para atalhar os progressos da molestia, que foi, 
portanto, reduzindo e empobrecendo a populagtlo. 

No meio disto, os holaudcses, que haviam bloquea- 
do a barra de Goa em 1603, toruaram a aparccer em 
1640 e bloquearara a cidade, retirando-se, contudo, 
em 1643 sem causar grave dano. 

Mas nem a epidemia, nern a dccadencia do dominio 
portugues poderam abater de vez a graudeza e raagni- 
ficCncia externa da cidade. Pois, a despeito da misd- 
ria por que passou a capital da India portuguesa 
no lira do piimeiro quartel do seeulo XVT1, esplen- 
didos cdiftcios, na cidade e nos suburbios, atraiam a 
atengao dos estrangeiros, assirn eomo se admirava a 
ostentaqilo e o luxo dos sens hahitautcs, alias ja re- 
duzidos d pobreza e indigencia. Tavernier, que 
esteve em Goa etn 1648, admira o esplendor da cida- 
de, mas diz que muito3 dos habitantes europeus que 
na ocasiiio da sua priineira visita em 1642 eram 
ricos e tinham de renda anual 2.000 coroas ( 500 
libras), haviam cliegado agora ao estado de raen- 
digarem secretamente ; e, contudo, niio deixavam 
a sua vaidade, que era notdvel principalmente nas 
mulheres, as quais iam de palanquins para solicitar o 
auxilio da caridade, acompanhadas de escravos para 
transmitir suas mensagens ds pessoas cujo socorro 
imploravam. 

No tercciro quartel do mesmo suculo linvia ainda 

13 



182 


na cidade, segundo os viajantes Filipe Baldeus, Dellon 
e dr. John Fryer, que a visitaram, um grande numero 
de europeus, mugulmanos e pagaos de diferentes pai- 
ses ; alguraas lojas, ao longo da rua principal, cheias 
de sSdas, porcelana e outrosartigos; os escravoseram 
vendidos, como dantes, em leilao ; a cidade apresen- 
tava uma apar6ncia nobre, mas ja tinha muitos edifi- 
cios em estado ruinoso, e os habitantes • ten ta vara os- 
tentar-se a despeito da sua creseento misAria. 

Depois' de 1675, Goa decaiu rapidam elite e em 
1683 escapou de cair em poder do marata Sambaji, 
que a investira com uraa forga enorme, eomegando a 
obra de saque e pilliagem, e que fora ubrigado a reti- 
rar-se para acuilir aos seus estados repentinamente 
atacados pelos mogois, como dissemos. Pouco tempo 
depois a cidade solreu a escasses de provisoes, que, 
conjugada com a epidemia e a decaduncia do comer- 
cio, a reduziu a miseria e ruina. As familias mais 
opulentas retiraram-se para os suburbios e aldeias 
visinlias de Guadalupe (Batira), S. Lourengo, Na- 
roA, Chorfto e outras ; e muitos dos edificios parti- 
culares, que adornavam a cidade, arruinaram-se por 
falta de necessArios reparos. 

Nestas circunstancias, tanto por causa da insalu- 
bridade, como pelo receio de nova invasao dos mara- 
„ . tas, o vice-rei conde de Alvor, con- 

formando-se com o parecer da maio- 
flornuigL ri& da Junta dos tres estadcs, con- 
gregados, em 12 de Janeiro de 1684, 
na fortaleza de S. Tiago de Banastarim, resolveu 
abandonar a cidade e transferir a sede do governo 
para a peninsula de Mortnugfio. Aprovada esta reso- 
lui'ilo pelo governo da metropole, comegaram em 1685 
as obras da nova cidade sob a direcgilo do jesuita pa- 
dre Teotdnio Rebelo, a quem sucedeu a padre Ma- 
nocl de Carvalho, tainbcm da Compauhia de Jesus. 



183 


Entretanto, o conde de Alvor, concluido o periodo 
do seu governo, regressou a Portugal, e o sen suees- 
sor D. Rodrigo da Costa, seguindo o voto undnime de 
todos os seus conselheiros, tnandou suspender a cons- 
trucjao da nova cidade. Mas esta suspensSo nSo foi 
aprovada pelo governo da metrdpole, que estava per- 
suadido, segundo lhe informara o conde de Alvor, de 
que, se nfio se transferisse a capital da India para 
Hormugao, Goa cairia era poder dos maratas; porque 
a cidade nilo estava suiicientemente fortificada e as 
fortificagOes da ilha eram tiio extensas, que requeriam 
uumerosa forga para as defender no caso do ataque 
inimigo. 1). Rodrigo recebeu portanto ordens terrai- 
nantes para recomegar e prosseguir a obra, aplican- 
do-lhe as rendas provenientes do iraposto do tabaco. 
Estas ordens foram executadas pelo governador, era- 
bora com grande repugnancia, e foram sucessivamente 
levantando-se alguns edificios. Em 1693 chegou o 
vice-rei conde da Vila Verde com instrugbes nao 
so para apressar os trabalhos da cidade, mas para se 
raudar, com todas as autoridades eclesi&sticas e civis, 
para a nova capital. 0 vice-rei, porem, achando difi- 
ceis de executar essas ordens, fixou a sua residencia 
em Paneliro, arrabalde da cidade. Seguiu-lhe o execn- 
plo o arcebispo e a maior parte da nobreza. 

Durante 15 anos subseqiientes, vieram ordens de 
Portugal, repetidas vezes, para demolir os edificios 
pi'iblicos da cidade e aplicar os seus raateriais k cons- 
trugilo dos novos era Mormugilo, assim como para os 
vice-reis transferirem a sua residencia para esse logar. 
Estas ordens, geralmente, nSo foram executadas sob 
diversos pretextos. As insistSncias da c6rte partiam 
principalmente do conde de Alvor, nomeado era 1692 
presidente do conselho ultramarino, posig&o que mui- 
to jhe facilitava levar avante a construgao da nova 
cidade comegada sob os seus auspicios. 



184 


Durante o vice-reinado de Caetano de Melo e 
Castro deu-se impulso h obra, e, por alvard de 17 
de Dezembro de 1703, construiram-se v&rios edi- 
ficios, entre os quais podem ser mencionados o pa- 
lacio, o hospital, o convento de freiras, a alfande- 
ga, a casa de pdlvora e a de moeda e ura edificio 
para a RelagSo. Caetano de Melo transferiu para 
essa peninsula a sua resid^ncia era 1703; mas pouco 
tempo ali permaneceu. Passados alguns anos, quan- 
do o conde de Alvor deixou de ser o presidente do 
conselho ultramarino e conseguintemente cessou de 
influir no governo da metrdpole, as obras da cidade 
de Mormugao ficaram suspensas era 1712 por deter- 
minagao regia. Assim acabou essa frenetica tentativa 
de erigir uma nova capital, que custou ao Estado nada 
menos de 160.000 xeraHns e que serviu simplesmente 
para apressar a queda da cidade de Goa. 

Os habitantes da cidade concorreram, tarobdm da 
sua parte, para a ruina dela ; pois, logo que ouviram 
que o conde de Alvor propusera a mudanga da capi- 
tal, deixaram arruinar as suas casas, uns porque difi- 
cilmente podiam acudir &s despesas de reparagao, 
outros de propdsito para venderem os materiais e ob- 
terem os raeios de subsistence. Era sua conseqiidn- 
cia, a maior parte dos edificios da cidade comegaram a 
cair. O senado no intuito de conserva-los nomeou um 
oficial para os inspecionar duas vezes ao mSs e obrigar 
os proprietarios a cuidar deles, nao se permitindo a 
ningu4m destruir seu predio, inteiro ou em parte, sem 
motivo plausivel. Estas medidas salutares foram 
aprovadas pelo vice-rei D. Rodrigo da Costa, mas nao 
s6 nao foram confirmadas pelo gov&rno de Lisboa, 
pelo contrdrio, vieram ordens para demolir os edifici- 
os da cidade e com os seus materiais construir novos 
em Mormugao. O povo tirou vantageas destas or- 
dens; pois, segundo informava para Portugal o vice* 



185 


rei Antdnio Luis da Cdmara Coutinho, era 20 de 
Dezembro de 1699, os habitantes alegando que iam 
coustruir casas era Momiugao, obtinham licenga para 
demolir as da cidade; mas destruidas estas, nSo fazi- 
am mais que vender os materials em seu proveito. 
Em conclusilo, o vice-rei observava que, emquanio 
a cidade estava j& arrninada, Mormugao perraanecia 
no mesmo estado como dantes. Km resposta el-rei 
ordenava que nao perraitisse a uingudm demolir seu 
pi6dio na cidade, setu que fosse obrigado a construir 
novo em Momiugao. Entfio os proprietaries recorre- 
ram ao estratagema de deixar as casas em parte des- 
telhadas durante o inverno, para que o tempo e o 
clima consumassem a destruigfio independentemente 
da licenga ou despesas. 

Segundo escrsve Qemelli Oarreri, que visitou Goa 
em 1695, a capital da India estava reduzida a um 
estado raiseravel. Nao liavia na cidade mais que 20 
rail habitantes. Os portugueses europeus eram pou- 
cos, mas os seus descendeutes nurnerosos ; e os mu- 
latos constituiara um quarto da populagiio. Muitos 
dos naturais eram sacerdotes, advogados e solicitado- 
res. A maior parte dos mercadores eram Hindus e 
tnugulmanos que viviara apartados dos cristaos. Os 
euiopeus, embora decaidos da sua primitiva grandeza, 
tinliam ainda a vaidade de andar de palanquins com 
escravos atrns pegando sombreiros por cima deles. 
Tastes escravos compravam-se na cidade por 15 ou 20 
coroas por cabega. 

Poucos anos depois, nao se via na cidade semlo 
desol agfio e ruina em todos os pontos, estradas deser- 
tas, edificios desmoronados e tres quartos da popula- 
gao geraendo sob o peso da indigencia. Somente os 
conventos e igrejas com poucos edificios pdblicos es- 
tavarn em p6 para atestar a passada grandesa. 0 
vice-rei conde da Ericcira, por seu alvani de 22 de 
1 ** 



186 


Agosto de 1719, intentou conservar as poucas casas 
cjue ainda existiam na proximidade dos edificios re- 
ligiosos e desobstruir as ruas cobertas de ruinas ; mas 
foi inutil. A destruigao da cidade completou-se. 
Foram construidos, porem, magnifieos predios nos 
arredures e principalmente na tnargem do rio. 

Em 1739 o territorio de Goa foi de novo atacado 
pelos maratas e a cidade esteve no risco de cair nas 
suas maos. Os frades, as freiras e a parte desvalida 
da populagao refugiaram-se em Mormugao. Nesta 
conjuntura chegou o novo vice-rei e couseguiu repe- 
lir os invasores. Mas estes continuaram a mover-nos 
hostilidades, atd que se concluiu a pass em 1759 e se 
cantou urn Te Deurn solene na catedral. Durante o 
periodo das perturbagoes e desastres, o vice-rei Oonde 
de Sandotnil pretendeu transferir a capital para Mor- 
mugao, mas, reconhecendo os embaragos e os incon- 
venientes, escreveu a el-rei que o melhor meio de 
providenciar contra as invasoes dos maratas era cons- 
truir uma nova cidade entre Pangim e Gabo. 

No tiltimo quartel do seculo 18.° segundo referem 
os viajantes Anquetil du Perron, Edward Ives e o 
bolandes Jacob Canter Visscher, a cidade era um 
montilo de ruinas e qu&si abandonada, ao passo que 
nos arrabaldes e na margem do rio havia belas casas 
construidas com os materiais das que outrota adorna- 
ram a capital, com os respectivos pomares e jardins, 
que davam subsistencia aos proprietaries. Os euro- 
peus nao tinham actividade para o comercio, mas 
eram muito amigos de titulos pomposos. Goa era 
ja um fardo pesado para o governo, custando nada 
menos de 300,000 piastras cada ano e exigindo a 
f6rga de 2 rail soldados europeus para a defesa. Estes 
soldados eram miserkvelmente pagos, e os capitaes 
recebiam o s61do de doze xerafins por m6s e viviam 
souiente de arroz e peixe. A frota que se achava 



187 


fandeada no mar da India, estava reduzida a poucos 
navios de guerra. Mas cada navio tinha uni capit&o 
de mar e guerra, um grande niimero de capitaes, 
tenentes e porta-bandeiras, todos com soldo insigni- 
ficante. Contudo, a ostenta^ao reinava corao no estado 
fiorescente. Os fidalgos, alem dum sequito de negros, 
armados de compridas espaias, levavara ao lado dos 
seus palanquins, em vez de um, dois ou tr6s sombrei- 
ros, ornados de franjas pendentes e botoes de prata, 
cujos portadores eram tambdm negros, vestidos de 
fato vermelho. 

Em 1 de Dezembro de 1759, o governador mudou 
a sua residencia de Panelim para Pangim, acom- 
panhando-o v&rias pessoas importantes. Desde este 
momento os subiirbios foram gradualmente abando- 
nados. Neste mesrao ano os jesuitas foram expulsos 
de Ooa. Os seus magnificos edil’icios foram declara- 
dos propriedade do Estado, que os votou ao desprdso 
e aliandono. 0 comercio, que era limitadissimo, 
ficou aniqnilado e a pophlagiio, em poucos anos, se 
reduziu a nns 1 <>00 liabitantes. 

Eoi ncste estado da cidade que o marques de Pom- 

bal concebeu o projecto de a reedificar, como se ve 

das famosas Jnstruroes que deu ao 

governador D. Jose Pedro da Ca- 
b r, , , reeu incacao da 

mara. (Jomejou a obra da recons- cidade 

tru<;fio cm 1777, e empregou-se todo 

o esfOrqo parti levar avante a tentativa. Na escasses 

de meios o governo lan$ou mao de impostos, e as 

comunidades agricolas foram obrigadas a contribuir 

com determinada quantia de dinheiro e com certo 

mimero de operarios para a erecgao de casas na 

cidade. Assim as comunidades das llhas pagaram 

100 mil xerafins, as de Bard^s 140 mil e as de Salsete 

156 mil. Cliegaram a restaurar-se as ruas que iica- 

vam na margem do rio. Cotno os openirios recusas- 



188 


sem ir k cidade por medo da epidemia, que continuava 
a grassar com violencia, eram arrastados pelos solda- 
dos e obrigados a traballiar sob a inspecgko da for$a 
armada, comandada pelo brigadeiro Henrique Carlos 
Henriques. Dos 1625 operilrios importados de Sal- 
sete 665 adoeceram e 58 morreratn ern menos de 5 
rneses. Contudo o governo da metrdpole, surdo ks 
reclamagoes do povo, Dfio so insistia no prossegui- 
mento da obra, mas tratava de fazer povoar a cidade. 
Todos os fidalgos e funcion&rios piiblicos tiveram 
ordens para fixar a sua residoncia na capital sob 
pena de perderem as suas regalias e vencimentos. 
Poucos, porem, as executaram e ehegararn a reparar 
as suas casas. 

Finalmente o governo, convenoido da impossibili- 
dade de reedilicar a cidade, abandonou a empresa, 
depois de ter despendido iniitilinente 396 mil xerafins, 
que tirou ao povo, alern do dinbeiro que saiu do 
tesouro pi'iblico ! 

Mais tarde o vice-rei D. Frederico Guilherme de 
Sousa encontrou a cidade cm estado completamente 
ruinoso, como so le nuin ofxcio por Ole dirigido ao 
ministro em 4 de Fevereiro de 1780. 

“ Achei a cidade de Goa, diz o vice-rei, em deplo- 
rdvel estado ; ruas inteiras sem casas, e os seus ter- 
renos reduzidos a palmares ; outras em que se niio 
ve mais que ruinas. As casas antigas, que existem, 
estko ameagando a maior ruina, e com dificuldade se 
repararko pela pohreza e misdria dos senhorios delas, 
nko existindo na sua magnificencia mais que a S6, 
os conventos das religioes, e as novas moradas de 
casas, ainda que incompletas, de que em outra carta 
redro a V. Ex. a , demonstrando-se pelos seus ves- 
tigios a grandeza da mesma cidade ios antigos tem- 
pos, e a suma decadencia dela no te-apo presente. 

“ Goa tem oiteuta e sete casas velhas e pequenas, 



1811 


algamas de sobrado, e outras terreas, «il6m das uovaa 
moradas de casa incompletas. 0 mais distrito e de 
palmares; aonde se acliam espalliadas sem ordem tre- 
zentas e cincoenta casinhas ou choupanas terreas, 
cobertas de folhas de palmeiras, eui que moram os 
rendeiros dos palmares, taverneiros, cafres, mulatos, 
e out-ra gente pobre” (*). Hoje encontrain-se em p6 
na velha cidade dez edificios religiosos, um palAcio 
patriarcal e umas 4 ou 5 casinhas particulars. 


CAPLTULO XVI 


Vitorias e Calamidades 


Gaetano de l(eIo e Castro, ( 1702-1707 ) vice-rei, nao 
obstante a sua prolongada enferinidade, teuton erguei 
a India do sen progressive abatimento, sendo solicito 
em castigar a audacia do Bounsuld, inimigo perma- 
nente e insidioso do Estado. 

A fortaleza de Amontl, fronteira f\ ilha de S. Este- 
vao, ocupada pelas tropas de Kemsi Saunto Bounsuld 
2.°, impedia a navega^ao do rio visinho, pelo qual 
se transportavam certas provisoes para a nossa ribeira 
das naus ( 2 ). Gaetano de Melo resolveu-se a ir em 

( 1 ) T. de AragA. 0 — Descripio gcral das moedas, vol. S.°, pag. 
333. 

( 2 ) Kema Saunto Bounsulo, l.° chefe do distrito de Vari, de- 
pois Saunto-Vari, e feudatario de Bijapur, lan<?ou mao de algumas 
terras e proclamon-se independent em 1027, clevando o seu ter- 
ritorio a Dessaiado. Quando cresceu o poder de Sivagi, fuuda- 
dor do iroperio marata, Lakam Saunto fez, em 1658, alian<?a com 
§ste e foi confirmado corao Sar-Dessai da Pragana de Kudul, 



190 


pessoa sobre essa fortaleza e, em 4 de Jullio de 1705, 
investiu-a tllo valoroaamente, que a levou A escala 
sem morte de nenlinm dos sens e acabou todas as 
defensoes dentro da uiesma fortificaeiio, a qua), depois 
de ganhada, raandou demolir e arrasar para nao dei- 
xar em pc urn receptaculo em que o Saunto pudesse 
outra vez introduzir sua gente. Poucos meses de- 
pois, Caetano de Melo marchou para Bicholim, sitiou 
duas fortalezas dominadas pelo Kemd e, com a per- 
sistence da artelharia, obrigou o inimigo a fugir, 
mandando em seguida demolir as fortalezas tomadas. 

Em ambas essas aegoes distinguiu-se uma mulher- 
-soldado. Era D. Maria Ursula de Abreu de Alen- 
castre, natural do Rio de Janeiro, fillia de Jo&o de 
Abreu de Oliveira; a qual veio do reino na mongiio de 
1700, tendo de idade 18 anos, corn o nome suposto 
de Baltazar do Couto Cardoso, com o qual se roatri- 
culou na Casa da India. Esta heroina casou em Goa 
com Afonso Teixeira Arrais de Melo, natural de Vila 
Real, que tambem veio na referida mongiio com a 
patente de capitao do forte de S. Joiio Batista, nas 
Lilias do Goa,'e em euja companliia ela tinlia roilitado 
corao pra<;a de soldado na fortaleza de Chatil. 0 
govorno portngues, em reoonhecimento dos servioos 
que essa daiiia prestou em Amomi, Bicholim, Tivitu 
e Cliaul, concedeu-llie em aforamento durante a sua 
vida dois pedacos de palmares, sitos na cidade de 
Chai'il. (*) 


(•) Cunha Rivara, Heroina brazileira no Bolelim do Oovlrno, 
n.° 59 do 18WI, — e Ismael Gracias no Boletim H/icial n.° 99 de 
1890 e no artigo Braztlciros notaveis cm Goa no Almanac Popu- 
lar brazih'iro para 1 898, pag. 1 39. 



191 


Em Maio de 1706 Caetano de 
Melo tomou as ilhas de Oorjuera e Coniuiisla de 

Poneldm ao mesmo Kema S a unto e ° nel?in 
fortificou-as. 

Aldm destes factos o governo de Caetano de Melo 
i'oi tambera ilustrado por uma vitdria naval. O gene- 
ral Francisco Pereira da Silva tinha-se recolhido a 
( Joa da expedit;;lo ao estreito da Persia coni algumas 
perdas. Os arabes, aniuiados com isto, vinliam hos- 
lizar-nos a costa da India em lortja de nove fragatas 
com 6 mil homens de dcscmbarque. Caetano de 
Melo expediu uma armada tie sete fragatas sob o eo- 
mando de Jorge de Sousa e Meneses. 0 inimigo foi 
atacado nas aguas de Surrate e, a-pesar-da resistencia 
que apresentou, i’oi obrigado a I'ugir vergouhosainente 
deixando duas das suas embarcatj'ies em poder dos 
nossos e perdeu neste contiito mais de seteeentos 
homens, entrando neste mimero o prdprio general. 

No governo de ( ,’aetano de Melo construiram-se 
em Mormugao varios edificios, nos tenuos do alvara 
de 17 de Pezembro de I7(),‘5, cotuo atras esta dito, 
e no mesmo ano o vice-rei transform para esse logai 
a sua residcncia, mas pouco tempo ali permaneceu, 
licando as o bras da nova cidade suspensas em 17.12 
por determinayslo regia. 

Durante o viee-reinado de D. Rodrigo da Costa, (1707- 
1712) tiveram os portugieses lutas insignilicantes 
com piratas e com alguns regulos da costa indiana, 
q tie despresavam cada vez mais o nosso poder, desde 
que as outras liagnes europeias inHuiam na India mais 
do que nos e, principalmente, desde que os prdprios 
maratas haviarn afrontado com sucesso as nossas ar- 
mas. 

A I). Rodrigo sucedeu Yasco Fernandes Cesar de Mene- 
ses, ( 1712-17 ) l.° oonde de Sabugosa, que, decidido 
a manter a nossa inlludncia e o respeito das nossas 



IDS 


armas, deu ao raja do Canard, em 1713, uma ligao se- 
vera. Efectivamente o raj A do Canard, que pel os 
tratados era obrigado a dar-nos arroz para Goa por 
am certo prego, Intentoa libertar-se dessa obrigagao 
e, pretextando que os navios portugueses lhe haviam 
feito umas ofensas, decidiu-se a fazer-nos guerra. 
Vasco Fernandes Cesar, sem se assn star com as pou- 
cas forgas de que dispunha e com o poder que lhe 
diziam ter o soberano inimigo, expediu uma esquadra 
de onze navios com 350 homens sob o comando de 
urn bora oficial prdtico, Jose Pereira de Brito, da ilus- 
tre casa de Govinha ( Paredes de Coura ). Esta es- 
quadrilha, chegando a Cumptd, queimou onze navios 
do inimigo e na altura de Onor tomou tres navios, 
que vinham da Persia carregados de cavalos. Em 
seguida as tropas portuguesas desembarcaram em 
Barcelor, queimaram algumas aldeias e tomaram & es- 
cala viva a propria cidade. Dai passou Pereira de 
Brito a Caliampur, cidade defendida por sete baluar- 
tes bem artelhados, tomou de assalto a fortaleza e 
apoderou-se de toda a artelbaria. De Caliampur pas- 
sou para uma outra cidade chamada Molequim, onde, 
nSo conseguindo toraar o forte, langou fogo a povoa- 
gao. Finalmente bombardeou Mangalore e tendo 
arrasado pagodes e muitas povoagoes na costa do Ca- 
nard regressou a Goa. 

Este energico procedimento de Vasco Fernandes 
obrigou o soberano do Canard a pedir a paz, que lhe 
foi ditada com onerosas conduces. 0 terror, que 
espalharam essas vitdrias, fez tambdm entrar na obe- 
diencia os outros rajas vizinhos de Goa, pagando o 
tributo que nos deviam. 

Vasco Fernandes teve tambem de lutar com os pi- 
ratas, que nos inquietavam desde 1707, acometendo 

Pirata Amrria as embarcagoes e causando graves 
prejuisos ao comercio. Ddstes pira- 



193 


tas o mais temfvel era Kaooji AngriA Serquel , que 
de pequeno cabo do marata se fizera, por meio de 
corso e saques, uni grande poder independente no 
ConcSo, tendo por capital Vijayadrug ou Guiriem, 
com o acampamento principal, bem fortificado, em 
Alibag no Kolabo, prdximo da nossa iortaleza de 
Chatil. 0 vice-rei mandou, para reforgar a guarni- 
gslo desta fortaleza, alguma tropa sob o comando de 
Antdnio Cardim Froes, que sustentou am combate 
naval com os poucos navios da armada do pirata 
metendo um deles a pique. 

Em 1713 Kanoji aliou-se com o rajd marata, inirai- 
go dos portugueses, e tornou-se mais insolente. 0 
vice-rei enviou uma esquadrilha, que, nao conseguindo 
desaloja-lo do Kolabo lhe bloqueou a barra causando- 
lhe grande dano e abatendo um tanto a sua impor- 
t&ncia maritima. 

Vasco Fernandes mandou construir um forte em 
Quitula, bairro de Aldona, fronteiras de Bardes e re- 
gressou ao reino entregando o governo ao arcebispo 
primaz D. Sebasti&o de Andrade Pessanlia, ( 1717 ) indi- 
cado na via de sucess&o. 

Em 16 de Outubro de 1717 comegou o auspicioso 
governo do valoroso e justiceiro conde da Ericeira, D. 
Luis de Mieses, ( 1717-20 ). 

No seu vice-reinado, 0. Lopo Jos6 de Almeida ga- 
nhou uma vitdria notdvel, reduzindo a ciuzas a cidade 
de Porpatane, que se recusava, havia 19 anos, a 
pagar tributo ao governo portuguSs. Em 1718 so- 
correram as nossas armas com £xito um sultio malaio, 
que implorara o nosso auxilio ; e finalmente em 1719 
o almirante Antdnio de Figueiredo Utra destrogou 
uns poucos de navios Arabes A vista de Bandar- 
Congo. 

0 conde da Ericeira recebeu embaixadas da Persia 



194 


e do Grfto-Mogol (') ; comeqou a construgSo da for- 
taleza superior de OhaporA, animou a agricultura e a 
industria e administrou pronta justiga. — Depois da 
sna retirada para Portugal foi queimado o bambual, 
que tinha mandado plantar para servir de barreira h 
provxncia de Salsete, h custa das aldeias, tintadas para 
esse fim em 20 mil xerafins. 

Ao conde da Ericeira sucedeu o vice-rei FrftqciSCO 
JosiS de Sampaio e Castro, ( 1720-23 ). 

0 corsario Kanoji Angrid inostrava-se novamente 
arrogante e insolente acometendo embarcagoes por- 
tuguesas e britdnicas, ate que um dia apresou urn na- 
vio ingles, que vinha de Madrasta trazendo utn milhao 
de rupias. 

Para vingar este insulto o governador de Bombaim, 
John Child, confederou-se com o vice-rei Sampaio 
em Novembro de 1720, para, de mao comum, des- 
truirem o corsdrio ; o que deu logar a um grande 
recrutamento em Goa (*) e a derrama de uma finta 
sobre as aldeias. 

As tropas combinadas atacaram a fortaleza de Yi- 


P) GrSo-Mogo 1 e o titulo porque e cpnhecido entre os portu- 
guesea o imperador inogol de Demi. Este iiupcrio foi fundado 
pelo t&rtaro Babar, descendente de Taimur- Lang ( Tamerliio ) e 
chegou ao seu maior apogee no tempo de Akbar o grande, abran- 
gendo quasi toda a India e estendendo-se pelo noroeste ate Afga- 
uist&o. Akbar manteve rela;oes amistosas com o nosso governo c 
recebea na corte nma missilo religiosa que, a sea pedido, llie foi 
mandada de Goa sob a direccao do padre Rodolfo Aquaviva. Este 
imperador era casado com uma daraa portuguesa de nome Juliana. 

(*) A proposito deste recrutamento, refere F. N. Xavier que, 
tendo nma vinva, residente no palmar Jambo de Panelim, re- 
querido ao vice-rei qne dispensasse de ir para o Kolabo sen iitko, 
por ser unico, tivera o seguinte jocoso despachos Francisco Jose 
ae Sampaio, ilnico tilho de sen pai, tambem para Kolabo vai= 
Jnstr. do M. de Alarm, png. 24 nota 42. 



195 


jayadrug, e, nao conseguindo toma-la, queimaram 15 
navios do pirata, que estavam no pdrto. Dois anos 
depois foram aitiar a fortaleza de Alibag e, logo ao 
primeiro assalto, o vice-rei recebeu embaixadores do 
P3xv& Bagi Rau propondo a psz, ou que 61e so- 
correria o AngriA. Como a forga coligada era muito 
menor que a do iuimigo, e a proposta da capitulag£o 
era para nos vantajosa, o vice-rei assinou o tratado 
de paz no dia 9 de Janeiro de 1722 ; o qual, porera, 
nao foi ratificado pelos ingleses por uao conseguirem 
as suas pretengoes. ( ! ) 

O vice-rei faleceu era Goa a 13 de Julho de 
1723 ; e poucus anos depois, faleceu tarabern Kanoji; 
mas os sens filhos, Sambaji, Tulaji, Ma'naji e outros, 
estabelecidos uns em Guiriem, e outros no Kolabo, 
continuaram as piratarias, como veremos. 

De 1723 a 1725 nao houve nada de importante. 
Governou poucos dias D. CristdviO de Ifelo s6, e, depois, 
juntamente com ».» arcebispo D. Inacio de S&qta Tereia e 
o Chanceler Crlstovao Lnfs de Aqdrade. 

Mo de fyldaqlia da Gama ( 1725-32 ),' que princi- 
piou a governar em Outubro de 1725, viu o seu vice- 
-reinado ilustrado por rnais de uma vitoria. 

Fondu Saunto Bounsuld, cujos estados ficavam 
prdximos de Goa, confiado na protecgao dos maratas, 
comegou a mover-nos hostilidades ; mas o vice-rei 
escarmentou-o ; pois a fragata portuguesa Palma 
e outros navios pequenos queimaram-lhe algumas 
embarcagoes, e as tropas em terra incendiaram-lhe 
umas aldeias. No meio desta guerra, um filho do 
Bounsuld, por nome NagobA, rebelou-se contra o pai, 


(') Dieionirio Hisl., anexo a Viagem de duas mil Leguas ; e 
Rev. Nairne, Hisl. of the Konkan pag. 81-96. 



196 


e o vice-rei, auxiliando a rebeliao, tomou a fortaleza de 
Bicholim, que entregou a Nagoba, dando-lhe por au- 
xiliares alguns artelkeiros portugueses, a-pesar da ati- 
tude ameagadora dos maratas. 

Outro facto que ilumiuou o governo de Jo&o de 
Saldauha da Gama foi a restauraguo de Mombassa. 

Em Dezembro de 1727 saiu de Goa uma expedig&o 
comandada por Luis de Melo de Sampaio, que, depois 
de receber a vassalagem do sultfio de Pate, desembar- 
cou perto de Mombassa e comegou a bombardear a 
cidade com tal exito, que o goveruador da fortaleza 
capitulou com a guarniguo drabe entregando tudo, 
armas e riquesa, fortaleza e cidadc ao comaudaute 
portugucs ('). Estas pragas, porem, logo no ano de 
1730 cairam de novo nas macs dos arabes, tentando 
socorr6-las de novo o mesmo Luis de Melo de Sam- 
paio por ordeni do vice-rei. 

Joiio de Saldanba retirou para Portugal cm Janeiro 
de 1732, entregando o governo a junta composta do 
arcebispo primaz, o. Inacio de Santa Tereza, D. Oristovao de 
Melo 6 Tome Gomes Moreira, ( 1732), que governaratn 
alguns ineses c tizeram pazes com os maratas, que in- 
vadiam as provincias do norte de Goa ; mas essa paz 
durou pouco. 

Em 7 de Outubro de 1732 principiou o calamitoso 
governo do conde de Saudomil, D. Pedro Hascareobas, 
1732, que durou qu&si nove anos. 

Neste infeliz governo os maratas, provavelmente 
instigados pelos ingleses, atacaram de novo nossas 
possessoes e nos tomaram a provincia do Norte. 

Esta provincia compreendia, no principio do seculo 
XVII, a grande ilha de Salsete. com algumas pragas (*) 


(*) Vide Cnnha Rivara, Restauraqao de Mombaga, no Cronis- 
la de Twsuary, 3.° vol., pag. 11, 32, 57, e 31. 



197 


e povoaqoes fortificadas, seudo mais 

not&veis a de Bandora, a oeste, onde Proyincia do 

se erguia a casa-forte dos jesuxtas ; Sortc 

e na costa oriental, a de Tlianti, 

capital da ilha e p6rto nun to irnportante pelo seu 

com£rcio; compreendia tambera as ilhas de Bombaim, 

Caranja, Elefanta e outras, formadas pelo rio de Tha- 

nd; e na terra firrae Chaixl, Bassaini, Surrate, Damuo, 

Din e munerosas aldeias, fortifica§oes e serras ao 

norte da India. 

A formosa cidade de Bassaini, que era a capi- 
tal da provxncia, fundada pelo governador Nuno da 
Cunha na nxargeux de um rio e cercada de forte rau- 
ralha com onze lialuartes, possuia igrejas, raosteiros, 
hospitals, Misericdrdia, ruas direitas e praqas grandes 
com grosso comorcio e numerosos solares de raui pros- 
perados fidalgos, alguns dos quais, senhores de mui- 
tas aldeias, recebiam avultadas rendas em ouro (*). 
Pela sua importancia politica e comercial era esta 
cidade denominada a Cdrte do Norte. 

Desde 1531 a provxncia foi governada por uma 
autoridade intitulada o General do Norte , que tinha um 
palticio magestoso em Bassaim e dilatada jurisdigao 
administrativa, fiscal e militar, mas dependente do 
vice-rei ou governador geral da India. Embora a 
cessao da ilba de Bombaira ao soberatio ingles Car- 
los 2.°, em 1661, tivesse tirado a provxncia uma parte 
da sua extensiio, nfio l he liavia diminuido absoluta- 
mente a sua importnncia ; pois, Bombaim era ao tem- 
po um porto t&o insignificante, que Carlos 2.° o 
arrendou k Companhia Inglesa das Indias Orientals 
por 10 libras ao ano. 


(') Diz a tradi$ao que huvia fidalgos que recebiam de rendas 
um arratcl de ouro por dia. 

13 



198 


No maior auge, pois, da prosperidade da provincia 
do Norte o poderoso Bajirau, Pexvd ou ministro sobe- 
rano do marata, alegando o pretexto 

sadra* da nro" de tereDQ sido recebidos com pala- 
vincia do Norte vras injuriosas os seus embaixadores 
pelo general do Norte D. Lais Bo- 
telho, mandou ern Fevereiro de 1739, urn exdrcito 
formidavel, comandado pelo seu irmdo Chimnaji Apd, 
o qual tendo-se apossado, por surpresa, da fortaleza 
de Thand, ainda incompleta, sitiou Bassaim com o 
mais apertado cerco. Os sitiados opuseram, por trSs 
meses, urna resistencia verdadeiramente herdica ; 
mas, quando viram o seu ndroero reduzldo a penas a 
sessenta, e seui nenhum genero de nmniqoes, capitu- 
laram, saindo da cidade com todas as honras de guerra. 

0 ultimo general da provincia foi Gaetano de Souza 
Pereira, haveudo sido mortos, durante esta guerra, 
os seus dois predecessores. 

Bassaim caiu era poder do marata em 16 de Maio 
de 1739 e, com a queda da capital, perderaos todas 
as nossas possessoes do norte, menos DamSo, Diu e a 
feitoria do Surrate, ( capitulagdo de 17 de Maio de 
1739 ). Bassaim foi encorporadb afinal nos dominios 
da Gra-Bretanha, e conserva ainda varies edificios e 
monumentos da sua antiga grandeza. 

No mesrno ano de 1739 e, quasi ao mesmo tempo 
era que foi invadido o norte, um outre general ma- 
rata, Venkata Rau, cunhado do refe- 

rata S «m Salsete rido PexvA Bagirau, vindo por San- 
e Bardcs guera k testa de um exdrcito name- 
roso, entrou, a 23 de Janeiro, na 
provincia de Salsete, e, tornado o forte do monte de 
Marg&o (*) e o de Cuncolim, foi destruindo e saque- 


(*) O forte de Marg&o, conatruido para a deWsa da aldeia k 



199 


ando aldeias e povoagdes, e finalraente sitioa a forta- 
leza de Kachol. E logo, em 5 de Margo, os Sardes- 
sais de Kndal, aliados do marata, Ramcnandra Saunto 
Bounsuld e seu tio Jayrama Saunto Bounsuld, (regen- 
te na menoridade do sobrinho ), invadiram a provin- 
cia de BardSs, passando a fio de espada em Aldond, 
4 companhias de graDadeiros, inclusive o seu coraan- 
dante, Jo5o Malhtlo de Brito, e, tendo-se retirado, 
depois de um ano, em virtude do. ajuste de paz 
feito pelo Estado em Margo de 1740, voltaram em 21 
de Fevereiro de 1741 com tropas mais numerosas. 
Desta vez os Uaues de Satari, que tinham a obri- 
gagao de defender as fronteiras, facilitaram-lhes (') 
a passagem pelas aldeias extra micros , (*) e nao por 
Aldonsl, que, a este tempo, jd tinha o seu cais pro- 
tegido por uma guarnigSo com a respectiva tercena 
fortificada. Os Bounsulds ocuparam todas as forta- 
lezas de Bard6s, menos a de Aguada e dos Reis-Ma- 
gos ; saquearam as igrejas, e queiraaram as casas 
roubando e assolando tudo o que queriam. 

Como o conde de Sandomil nfto tivesse forga sufi- 
ciente para expulsar o inimigo, as duas provincias 
sofrerara e gemeram, por espago de qudsi dois anos, 
sob o doimnio viofento e brutalmente opressivo dos 
invasores, denominados em Goa Pundas ( bandidos), 
nilo obstante os sacrificios que as Cdtnaras gerais fa- 
ziam, de lhes pagar valiosas sornas em dinheiro para 
obterem a pacificagilo ; pois Venkata Rau, depois de 
ter recebido, como pagameuto da primeira prestagao 
do ajuste pdblico de paz feito em 27 de Abril de 1739, 


onsta da cdmara geral em 1788, foi destruido pelo marata em 
1739. Bosq. Hist, das Com. P. 2.*, pag. 84. 

( l ) Bol. do Governo de 1862, pag. 100. 

(*) Aa aldeias extra muros eram Nadorii, Revord, Pima, Sir- 
5 aim e Assonord. 



200 


a importancia de dois laqucs de rupias e mais urn 
laque por ajuste particular era utilidade dos cabos, 
nSo evacuou Salsetc, cocao devia nos termos da capi- 
tuiaf&o, mas levantou apenas o cerco de Rachol, cou- 
servando em seu poder as fortalezas de Margao e 
Cuncolim e a aldeia de Assolna, nem obrigou o Boun- 
sul6 a deixar Bardes, conforme se ajustara na mes- 
ma capitula<j(io ; porque exigia imperiosamente o 
pagamento das restantes duas presta^oes, 5 mil ru- 
pias. (') 

Nesta situagfio humilhante e aHitiva estava o povo 
de Salsete e Bardes, quando lhe sorriu a fortune com 
a cbegada do novo governador. 

Entretanto, em 1739, uin sucesso brilhante iluminou 
por moraentos o quadro sombrio desta tristissirua ad- 
rainistraqifo. A nau Vitdria, que fora raandada, sob o 
comando de Antdnio de Brito Freire, aos portos do 
sul para trazer mantimenios para o abastecimento de 
Goa, foi atacada por uma armada do pirata Angria 
composta de 7 palas e 10 galvetas. 0 combate dnrou 
dia e meio ; mas Antdnio de Brito portou-se com tal 
firmeza e valor, que o inimigo foi repelido com gran- 
des perdas e o navio voltou triunfante para Goa ( 3 ). 
Pouco tempo, porem, durou a gloria deste sucesso ; 
pois em 1740 o pirata Sambaji Angria pos fccho a 
esta desgra$ada epoca destruindo a frota portuguesa 
e apoderando-se do seu material. 

Bo govorno do conde de Sandomil ficou na admi- 
nistrate piiblica um documento memonivel : o regi- 


(*) Oriente Port., vol. 4. # , pag. 124. 

(*) 0 vice-rei den conta desta aci;&o a cdrte em carta de 8 de 
Fevereiro de 1740, que 6 interessantc e so acha pubiicada a 
pag. 2 do CatHogo dos Livros do Assenlamento da Genie de Guer- 
ra, por Ismael Gracias. 



201 


mento das cotnunidades, de 15 de Junho de 1735, 
o segundo diploma fundamental e org&nico daquelas 
antigas e utilissimas associates, . sendo o primeiro o 
Foral de 1526, dado pelo vedor Afonso Mexia, e cujo 
original foi, ha pouco, descoberto pelo sr. Danvers na 
T6rre do Tombo, de Lisboa, (*) 


CAPlTULO XVII' 

1741-1730 — Campanha contra o marata e 
sucessos felizes 

-Os negdcios da I ndia andavam mal. Os maratas 
iam invadindo as nossas provincias e apoderando-se 
dos nossos territdrios. Prdxima se antolhava a nossa 
total ruina. Nest. as circunslilncias el-rei D. Joiio 5.°, 
para ver se restabeleeia na India o prestigio do nome 
portuguus, noincou de novo para vice-rei o Coi)d6 da 
Ericeira, ( 1741-42) que grangeara no oriente mere- 
cida reputacjfio, e que recebcu com a noraeagao de 
vice-rei o titulo do marques de Lourigal. 

Kfectivamente o marques veiu t\ India com 6 naus 
de guerra, trazendo 4 batalhoes e 16 pe<;as de arte- 
lharia, daudo cada uma 20 tiros por rainuto, da inven- 
gao do olicial dinauiarquos Frederico Weinholtz (*), 


( l ) Oit. ol>ra Report on the Portw/ucse Records. 

(-) Sobre estas pegas leiain-se os artigos de Gatiha Rivara na 
imprensa, de Ribundar, n. 0R 29 a S3, 34 e 37 a 40, sendo bambem 
intercssantc a nota de Texeira de Aragfio a pa". 297 do sen livro 
atras citado. 

18 * 



202 


e tomon posse do governo etn 18 de Maio dc 1741 ; 
mas n&o pode encetar logo, conio desejava, a campa- 
nha contra os iniraigos,. que se tinham apoderado das 
provincias de Salsete e Bardes, tauto pela vizinhanqa 
do inverno, como por causa dos doentes e convales- 
centes da guarniquo das naus. 

No dia 12 de Junho, eui que cessou de chover, 6 
que se p6s era movimento o nosso ex£*rcito. J unta- 
ram-se era ChorSo, no cais de Carepa, 1 batalhoes de 
infantaria, coraandada pelo general de Bardes Manoel 
Soares Velho e uma corapanhia de granadeiros com 
um corpo de sipais e, antes de araanhecer o dia 18, 
passaram s\ ilh.a de Corjuera seni oposigao. Nesta 
estreita passagera de Carepa a Corjuera viraram-se 
infelixmente duas embareagoes e afogarara-se 56 gra- 
nadeiros, nao s6 por inercia sua, in as tarn bora pela 
confusSo com que as outras erabarcagoes os procura- 
vam socorrer. 

Desembarcando o general, tomou de assalto a for- 
taleza de Corjuera e, deixando-llie uma guarniqao, 
marchou imediatamente ao forte de 
ttestauragao de Colvale, que achou circunvalado de 
Bardcs e Salsete UQja trincheira com muita artelha- 
ria ; acotneteu-o seni hesitagao e, 
depois de sofrer uma vigorosa resistencia, eonseguiu 
assalta-lo e rende-lo. Em um e outro forte haviarn os 
inimigos aberto uma porta falsa s6bre o rio, pela qual 
se salvaram alguns em grande desordem, perecendo 
outros, afogados no rio. Marchou logo o tenente-co- 
ronel D. Lius de Pierrepont, que viera de Lisboa com 
o vice-rei, a atacar o forte de Chapora, que achou 
abandonado ; pois, apds a derrota de Colvale, o ini- 
raigo havia evacuado nao so este, mas todos os restan- 
tes fortes de Bardes. Em seguida o vice-rei assinou 
paxes honrosas com o Bounsuld, propostas por este, 
obrigando-o a todas as despesas da guerra e faxendo-o 



203 


tribuldrio do Estado, ( 11 de Outubro de 1741 ). 

Restaurada a provincia de Bard§s, o viee-rei p6s 
cerco & fortaleza de Pondd, perteocente ao marata, e 
que era constante ameaga ks nossas terras, e conse- 
guiu tomd-la, Logo depois tomoii-lhe tarabem as 
rortalezas de Sanguem e 8up6ra, obrigando-o com es- 
tas derrotas a evacuar Salsete, e tudo isto no curto 
espajo de ura ano, que tanto durou o seu governo, ter- 
minado pela sua prematura morte (1742). 0 marata, 

a-pesar-de derrotado e expulso de Salsete, nao cessou 
de nos hostilizar, senao depois de ter sido concluida 
com ele a paz definitiva, que foi em 1759, sendo 
cantado na Catedral um solene Te Deum. O Boun- 
suld, pordro, infiel ao tratado que tinha assinado, in- 
quietou-nos sempre ate 1819, em que o seu territdrio 
foi encorporado nas possessoes inglesas. No governo 
do marques de Lourigal forara adjudicadasa Salsete as 
aldeias de Mulem, Parodde Talavordd, cedidas ao Es- 
tado pelo rei de Sunda em 1742, com a clausula de 
Hies serem conservados os seus antigos usos e privi- 
Idgios. 

Seguiu-se-lhe o govSrno provisorio composto de 
D. Francisco de Yasconcelos, bispo de Cochim, D. Lonren§o 
de Noronlia e D. Luis Caetano de Almeida, que nada ti- 
zeram. 

So no principio de 1748 providenciou el-rei JX 
Joilo 5.” ao govC'rno do Estado da India, nomeando 
vice-rei D. Pedro Bjgael de Almeida e Portugal ( 1744- 
1750), que se distinguira nas batalhas de Saragoqa e 
de Vila Vijosa e trouxera a salvamento a Portugal 
atraves da Espanha, o corpo do exercito que operara, 
na Catalunha. 

D. Pedro de Almeida recebeu sucessivamente os 
titulos de conde de Assumar e de marques de Castelo 
Novo, e vindo A India logrou restabelecer a gldria 
das nossas arrnas. 



204 


0 Bounsuld, pela facilidade com que tinha podido 
apossar-se da provincia de Bardes em 1739, passaodo 
a fio de espada em Aldoni 4 corapanhias nossas de 
granadeiros, pela errada disposqjao do respectivo co- 
mandante, tinha-se ensoberbecido de tal modo, que, 
esquecendo-se tao depressa do castigo infligido pelo 
marques de Lourigal em Oolvale, nao cuidou senao 
em quebrantar a paz, infestando as nossas costas com 
as suas costumadas piratarias, represando as nossas 
erabarcagoes que saissem do porto, e saqueando por 
duas vezes a provincia de Fonda, que, segundo 
o tratado, eramos obrigados a defender ao rei de 
Sunda. 


0 marques de Castelo Novo, que, ao chegar & In- 
dia, encontrara perdida a fortaleza de Pond A, resolveu 
toraar uma outra pra<;a que garantisse a terra firrae 
de Goa contra as repetidas invasoes do Bounsuld ou 


de outros rdgulos aliados dos maratas. 

Dirigiu-se, portanto, contra Alorna, uma das pragas 
mais fortes que tinha o inimigo, e investiu-a na ma- 
drugada de 5 de Maio de 1746. 0 

Tomada de Alor- a t a que foi violento e ensanguentado, 
na p ra ^ g raS tendo por lira conseguido os nossos 
entrar impetuosamentc atraves do 
constante fogo dos adversaries que foratn obrigados a 
desamparar este recinto e recolher-se ao castelo que 
ficava dominante. Nessa entrada cairam mortos mui- 


tos dos nossos, ficando grdveraente ferido, o intrepido 
coronet Pierrepont, encarregado de dirigir a campa- 
nha, a quern uma bala de pedreiro levou a barriga da 
perna e que transportando-se contudo em um palan- 
quim, continuou a dar dnimo & ac§ao. O marques de 
Castelo Novo mandou escrever ao governador da praga, 
Gomd Saunto, prirao do Bounsuld, que se rendesse, 
se queria salvar a vida sua e de toda a <juarni§&o. 0 
governador, pordm, respondeu com arrog&ncia que 



205 


esperava pelos portugueses para os tratar da mestna 
sorte como em Aldona. 0 vice-rei ordenou ent&o 
dar assalto ao castelo. Na escalada houve larga e 
perigosa disputa. Qu&si todos os oficiais das quatro 
companhias dos granadeiros, que tentaram subir, fo- 
ram mortos, uns pelo fogo que os inimigos faziam 
intenso a seu salvo das seteiras, outros precipitados 
das escadas, que derribavam por meio de compridos 
paus. Coutudo os nossos bravos soldados, n<lo re- 
cuaudo diante do tnAxirno perigo, conseguiram com 
grande arrojo entrar no castelo e passarain h espada 
toda a guarnigao incluindo o Gorna Saunto. 

Esta emprosa foi altamente favoravel ao prestigio 
das nossas annas e o marques aproveitou o efeito 
produzido para tomar, quasi sem resistencia, mais 
algumas pragas. Pois, totuou a de Bicholim, que o 
inimigo abandonou percebendo que o vice-rei ia ata- 
csi-la ; a de Avard, no Dessaiado de Manerim, a do 
Tiracol e finalmente a de Rarim ou Reddi. 

A noticia destas vitorias produziu em Portugal um 
verdadeiro entusiasmo, como era de esperar ; pois se 
niio fossetn essas conquistas nilo tardaria muito que 
os portugueses bloqueado : em Goa pelos maratas, 
som comunicagdes com a terra firme, sera esquadras 
poderosas que a sustentassera, tivessem que abando- 
nar para sempre o oriente. D. Joa,o 5.°, querendo, 
portanto, reconhecer os importantissimos serviqos do 
general vitorioso, concedeu-lhe, por um decreto ex- 
tremamente honroso, o titulo de marques de Aiorna 
para ule e seus descendentes. 

Pouco depois, em 3 de Dezembro de 1748, o mar- 
qufis de Aiorna foi, com uma armada, atacar a forta- 
leza de Neutim, situada em um monte altissimo na 
borda do mar e que era a ultima que o Bounsuld pos- 
suia na costa de Saunt-Vari. 

Aproximando-se as nossas embarca^oes da terra e, 



206 


disparados alguns tiros de artelharia en: iroca dos que 
o inimigo nos enviava, a bucba duraa das nossas pegas 
ateou fogo na palha do moDte de tal sorte, que ura 
cabo, de oome Ismal Khan, sera esperar por ordem, 
saltou com alguraa gente em terra e investiu a praqa. 
0 inimigo, atdnito, sedi poder ver com o furao o que 
Ihe sucedia, sup6s ter desembarcado toda a gente da 
armada e, receando o mesmo estrago que em Alorna, 
cego de medo, abriu as portas e se pus era precipitada 
fuga. Arvorou-se era um instante a baudeira portu- 
guesa na praqa e Ismal Khan foi deseulpado do eas- 
tigo, que o sen irregular procediraento raerecia, era 
atenqao ao bora resultado que deu. 

Em seguida, o marques de Alorna raandou ainda 
atacar a trincheira que tinha o Bouusulb era Carlim e 
conseguiu torad-la. 

0 Bounsuld, vendo que ja niio tinha logar na costa 
onde recolher as suas etnbarcaqoes, e receando que os 
portugueses passassera, o que era facil, de Oarlim a 
Vaddi onde costuraava residir, entrou nurna espe- 
cie de desesperaqfio. Mandou publicar por todas as 
aldeias que toda a gente se retirasse para os Oates e. 
logo que esta comeqou a abalar, barbaramente a rou- 
bou, dizendo que, se os portugueses o haviam de iazer, 
melhor era que ele se aproveitasse. Uesta desespe- 
raqfto passou a fazer o -ultimo esforqo e veio uraa 
noute com uma forqa de 1500 homens surpreender 
as duas praqas de Alorna e Rarim ; mas foi re- 
pelido. 

Ao marques de Alorna, portanto, se deve verdadei- 
ramente a conservaqao dos restos do nosso poder na 
India, que teriaraos de abandonar por niio podermos 
viver apertados entre os maratas e holandeses, se nfto 
fossera conquistadas essas praqas, que nos permitirara 
respirar com raais desafogo. 0 raarques de Alorna 
desejava ainda restabelecer o nosso antigo dominio 



em Meliapor qudsi extinto ; mas a falta do recursos e 
outras circunst&ncias lho nao permitiram. (') 


( ] ) G’ interessante a histdria da cidade dc Meliapor, que foi 
tr$s vezes portnguesa. 

Km 1522 dcpois do tercra sido descobertas na povoayiio de Me- 
liapor as rcliquias do Apostolo S. Tome, os portugueses, que ja 
eram seuhores do logar, fnndaram all e fortificaram uma cidade 
com a denominayao de «£ Tome , sendo cunhadas era corncmoraciio 
desse descobrimento, raoedas de ouro com a eflgie do mesmo a- 
postolc, vulgarmente conhecidas pelo nome de pantomes, velhos e 
novos. 

Ksba cidade, quo tinha um porto muibo vanbajoso para o co/niir- 
cio da India, foi tomada pelos holandcses em 1GG2, ao tempo em 
que era capitao da praya Laurenyo Ferreira de Brito. Mas, nos 
prineipios do soculo XVI 1 1, volbou a posse do Gsbado, e havendo 
sido extinto o logar de capiLIo da Fortaleza em 170G, a provisao 
de 8 de Maio de 1708 incumbiu do governo o sen ado da mesma 
cidade. 

Depois de 1742 o Grfio-Mogol assenhoreou-so dela provavcl- 
iiicnfce sem oncontrar oposiyao ; pois a estc tempo o dominio por- 
tugues era all quasi nominal ; mas, deeorridos poucos anos, Melia- 
por tor non a hastear a baudeira portuguesa pela terceira v6s c 
eontudo e lioje po-sessfio inglcsu. Vejamus como. 

I). Antonio Jose de Noronha on fr. Antonio da Piiriticayao, na- 
tural de Ooa-Velha e descendente, por bastardia, do Oonde dos 
Aims, franciscano observante e vigario <le N. Scnhora da Luz, em 
Meliapor, teudo bravado relayed* dc amisado com Dupleix, gover- 
nauor gcrnl de Pondieberi, de quern se dizia parente proximo por 
alinidade, cor.scgniu, pela poderosa influenem deste govern ado r, 
sei nomeado ('oriiissario Visitador das in issues do distrito de S. 
Tome e pralicon nesba situayao os maiores abusos e ate violencias. 

Suspense de visitador e, segundo se diz, ex [m Iso da Ordcm, D. 
Antonio deixou a vida clerical e foi auxiliar o governudor francos 
nas suas un«pivsas militaros contra os ingleses, prestando-lbe bons 
services pdo sou valor e indole belieosa. 

Nestas alturas o nababo de Arcot. reconliecido a Duplcix pelo 
important uuxilio, que oste llie dera para derrobar um seu inimi- 
go, (loon, ua qiialidade de vicc-rei do Grao-Mogol, a cidade de S. 
Toiue e suas :50 aldcias e jnnyoes a coinpanhia fraucesa, sendo 
dado o governo desse territdrio e suas alfandegas a D. Anttiuio, 
quo tornon |H)Sse do hi gar e arvorou no balnarte de Meliapor a 
baudeira portuguesa, participaudo imediabamente o facto ao vice* 



208 


Conuluido o seu brilhante governo em 27 de Se- 
tembro de 1750, o marques de Alorna regressou ao 
reino. Sao famosas as instru§oes que sobre o gover- 
□o politico, social e economico da India deixou ao seu 
sucessor, e ate a implantaqao do regime republicano 
se observava no acto da posse dos governadores o ce- 
rimonial ou programa, que para esse fim promul- 

gou. C) 


•rei por carta de 18 de Agosto de|1719. 0 vicc-rci, congratulan- 
do-se com D. Antonio pela aoticia recebida, e no intuito do le van- 
tar S. Tome do abatimento cm que se achava, dea por assentado 
que o govcrno dessa cidade pertencia ao rei de Portugal ; c nao 
podenrh por varias diticuklades mandar do Goa para ali um go- 
vernador, e achando inconveniente conatituir como governador D. 
Antonio, que nao passava de um simples religioso franciscano, 
nomeou-o Procurator da nagdo portugaesa na cosla do Coroman- 
del para cuidar dos rcais interesses. 

Mas, antes que a patente chegasse as maos do nomoado, os in- 
gleses, na noite de 14 do Outubro de 1749, utacarum com numc- 
rosa tropa a cidade de Meliapor. 

D. Antonio defendcu-a vigorosamente com 20 hoinens e *1 peya* 
de artelharia por espayo de 8 horas, causando algumas pevdas aos 
assaltantes, que iinahuente se apodcraram da cidade e conduziram 
1). Antonio prisionciro para Londrcs. 

0 vice-rei protestou coatra a invasfio c dou parte ao govcrno 
superior, que nunca resoivcu a questao de 8. Tome. 

Nao serao inoportunas aqui mais duas palavras sobre o aventu- 
Veiro. I). Antonio, conscguida a libcrdade passou a Paris, onde 
foi reccbido com mnita considcray&o por Luis XV, que o nomeou 
bispo de Ilalicarnasso. Voltando de Paris com osto titulo para 
Pondicheri, prestou ainda importantes serviyos militares aos fran- 
cos, maratas c mouros, sendo condecorado pelo Grfio-Mogol com 
o titulo de nababo Xamadur Bahadur Dilavarjcnga. (a) 

Em 1762 regressou a Goa e tomou parte na conquista de Pond&, 
como veremos. 

(a) Quor dizer, expada i/tvenrivel d§ eora$<to tjuerreiro. Vid. Ismael 
Gracias, O Bispo de Halirarnaxso. 

( x ) As instruyoes foram publicadas em Goa no ano de 1836 
por Frederico Lefio Cabreira ( ediyao rara ) e reimpressas com 
interessantes uotas e o cerimonial a quo nos referimos, por P. N. 
Xavier em 1856. 



209 


CAPtTULO XVIII 

1780-1772 — Conquistas e desastres ; vdrias 
providencias e reformas 

Era Setembro de 1750 veiu governar a India 
Francisco de Assis de TAyora ( 1750-54), 3.° marques 
de TAvora, com o titulo de vice-rei. Continuando a 
gloriosa Apoca do seu antecessor, o marques de TAvo- 
ra combateu o BounsulA e os raaratas, obrigando-os a 
levantar o sitio que aquele por terra e estes por mar 
haviam pflsto a fortalesa de Neutira. Mandou uma 
expedi(jiio contra o pirata Manaji estabeiecido no Co- 
labo, que infestava os mares da vizinhanga de Diu ; 
arrazou-lhe a fortaleza de Neubadel e queimou as em- 
barcaqoes que se achavam no porto. 

Pouco tempo depois, teve de guerrear tambem com 
o rei de SundAm ou Suuda, nosso antigo aliado. (') 
Pois Aste rei, contravindo ao que estava disposto no 
tratado de paz ajustada conosco era 1742, concedeu 
licenga aos ingleses para estabelecerem uma feitoria 
em Karvar. 0 marques de TAvora, reclamando con- 
tra a infracgao do tratado, representou ao Sunda, por 
intermedio do pe. Diogo do Amaral, da Companhia 
de Jesus, mission Ario em Sivansar, que o estabeleci- 
mento dos ingleses na nossa vizinhanqa havia de pre- 
judicar os interesses do Estado, constituindo-se cha- 
mariz e valhacouto dos nossos desertores, como era 
nesse tempo a ilha de Bombaim, alAm de aniquilar o 
nosso pequeno comArcio de cdco e sal que se exporta- 


Q) 7ide a note final B. 



210 


yam pelas boiadas para os Gates. 0 rei de Sunddm 
prometeu formalmente nao admitir os inglcses no 
seu territdrio ; mas mlo cumpriu a promessa, e, 
continuando esta negociagao por tempo de qu&si 
dois anos, foi cometendo novos insultos, que parecia 
indecoroso sofrer. 

Desejando pois reprimir o orgulho desse rei e de 
sens ministros, o marques de Tdvora declarou-lhe 
guerra era 17 de Maio de 1752 e, 
Guerra ao rei nao podendo durante o inverno, que 
de Sunddm j& principiara, ir atacar a fortaleza 
de Karvar, como projectava, juntou 
as tropas em Radiol e roandou invadir-lhe as provin- 
cias de Pondd e Zambaulitn. Nao tardou a aparecer 
urn embaixador do Sunda, que, entrando em confer6n- 
cias, prolongou-as de propdsito por tempo de vinte 
dias, no fim dos quais constou ao marquess que algu- 
mas erabarcagoes inglesas tinham vindo de Bombaim 
& enseada das gales com socorro de gente, armas e 
munigoes para as fortalezas de Piro e Ximpera 
( Karvar ). 

0 marques mandou entao retirar da cidade o embai- 
xador em 24 horas, guarneceu as fronteiras da pro- 
vincia do Salsete, que era mais exposta, e no dia 30 
de Outubro com uma armada tripulada por S80 por- 
tugueses partiu para a enseada das gales. 

Gm 3 de Noverobro atacou a praga de Piro, que era 
bem fortificada e que, se julgava, seria uma conquista 
iroportante como anteparo aos ingle- 
^ a . s ses. A defesa nao foi fraca, porque, 

° Sunda ° a ^ m f°g° vivissimo que a praga 

fazia, vinham de revds constantes 
tiros dum patacho e duas manchuas, que estavam no 
rio de Karvar, causando grande estrago j\s nossas 
companhias de granadeiros. Contudo conseguiram 
as nossas tropas esealar ns murallias, passando a Ho 



211 


de espada alguns dos defensores, que nao tinharn 
podido fugir. 

Guarnecida a pra§a de Piro, foi o marques de T&- 
vora acometer a de Ximpdm. Esta respondeu ao 
nosso fogo com poucos tiros e levantou logo a ban- 
deira brauca. 0 marques aceitou a capitulacdo, per- 
mitindo que a guarni§ao se retirasse desarmada. 

No dia imediato atacou e tomou o forte de Conem, 
que, por ser inutil, mandou demolir, depois de lhe 
tirar a artelharia com que estava guarnecido ; e apo- 
derou-se dos navios perteocentes ao rei de Sunda, 
que encontrou fundeaaos no rio de Karvar. 

Voltaudo a Goa, o marques de 'lVivora fez invadir 
de novo as provincias de Pondil e Zambaulira ate 
1754, era que lhe foi pedida a paz, que aceitou im- 
pondo onerosas condigoes. 

Concluido o sen brilhante governo, o marques de 
Tavora regressou ao reino, onde, poucos anos depois, 
ole com sua esposa e filhos, acusados do crime de lesa- 
-magestade, foram martirizados e executados na praqa 
de Bel4m a 13 de Janeiro de 1759. Por este motivo 
nao existe o retrato do vice-rei Francisco de Assis de 
Tavora nas salas do palAcio do governo em Pangim, 
pois foi arrancado por uma ordem r<5gia ! 

No governo do marques de T&vora foi desmem- 
brada do Estado da India a 
viucia de Mozambique, por 
regia de 9 de Maio de 1752. 

Ao marques de Tavora sucedeu o coude de Alva, 
D. Lois tyascareatias ( 1754-56 ), vice-rei, cujo governo 

E riucipiou em 20 de Setembro de 1754. D. Luis era 
omem ilustrado, mas tao dcscontiado, que se tornava 
indeciso e vingativo. 

O seu primeiro cuidado foi restabelccer rela- 
Soes amigaveis com os dominantes viziuhos do Es- 


pro- 

carta Beparwlo de 
Horainbiiiue do 
Estado da India 



212 


tado. Em Outubro fez panes com o Bounsulb ceden- 
do-lhe, na conformidade das ordens superiores, as 
praqas de Rarim e Neutim, e em Novembro renovou 
por seis meses o armisticio que jd havia com o rei de 
Sunda e que era mal respeitado de parte a parte. 

Feita a paz com o Bounsuld, foi o vice-rei tomar 
posse de Tiracol, que tinha sido couquistado pelo 
marquSs de Alorna, e mandou proceder ao balizamen- 
to das nossas fronteiras do uorte. 

lufelizmeute, pordm, durarara pouco estas alianqas. 
0 Bounsuld, pondo-se atrds dos piratas, comegou in- 
vestir os nossos navios mercantes. e o Sunda, a quetn 
pelo tratado de paz haviamos entregue as terras de 
Pondd, Sanguem e Zambaulim, recusou entregar-nos 
em compensaq&o, como devia, o Chandarnate e as tres 
aldeias contiguas : MulSm, Talavardd e Parodd. 

0 conde de Alva intentava marchar contra o Sunda 
e tomar & for$a essas aldeias. Nestas circunstancias 
o pirata Tulaji Angrid, atacado a um tempo pelos 
ingleses e pelo marata, pediu- lhe auxilio contra Sics. 

Ora os ingleses, poucos meses antes, nos haviatn 
tornado a cidade de S. Tome de Meliapor e todos os 
dias se divertiam em mandar ao vice-rei o rol duma 
divida problemdtica, afecta d consideragao das respec- 
tivas cdrtes, alentando entretanto a auddcia dos ma- 
ratas na nossa fronteira e retendo em Bombaira, por 
frivolos pretextos, os nossop oficiais da marinh^i, alem 
de protegerem os nossos desertores que se acoutavam 
nessa cidade. Jd Sates motivos impeliam o vice-rei 
para tomar a desforra da arrog&ncia inglesa. 

Nisto chegaram a Goa dois enviados plenipoten- 
cidrios de alguns principes coligados contra Nand 
Farnavis, poderoso ministro do pexvd Balagi Baji 
Rau, chefe dos maratas, solicitando o vice-rei a que 
entrasse na coliga$do em que estavam comprometiaos 
o rei Mogol, a princesa marata Tard Bai Rani, o na- 



213 


babo de Savanur, Saiubaji Raja, Tulaji Angrid e ou- 
tros. Exigia-se ao vice-rei por ora vender armas e 
proviracntos e depois, acesa a guerra, enviar socorro 
aos coligados. 

Segundo o tratado de pass de P uric to, celebrado ern 
1740, nao so nao podiamos socorrer o Angrid, pelo 
contrdrio tinhamos expressa obrigagao de auxiliar o 
rnarata com a nossa armada, quando ole contendesse 
com esse pirata. Todavia, como o Nana se portara 
conosco audacioso e fementido, entendeu o vi<«-rei 
dever castigd-lo, dando ao mesrno tempo utna ligao 
aos inglescs, sem romper ostensivameute a aliaoga 
nem com ostes nem com aquele ; entrou, portanto, a 
seu modo secretaraente, na coligagao e, coutra a opi- 
ui&o do arcebispo Neiva lirum e oixtros conselbeiros, 
enviou ao Angrid o auxilio pedido. Em seguida es- 
creveu ao Nand, contra quern expedira aquele socorro, 
oferecendo-lhe um presente de duas pegas de damasco 
amarelo, quatro arrdteis de tabaco amostrinha e duas 
caixas de prata, e noticiou-lhe que andava trataudo 
das pazes com o Angrid. 

Esperava o vice-rei que os coligados viessem ajudd- 
lo e generalizando a guerra, podesse ole um dia rea- 
ver para a coroa portuguesa as presas, que os ingleses 
nos tinham feito. Mas errou no cdlculo ; os coliga- 
dos desapareceram e, principiada a guerra nos campos 
de Carapetan, os ingleses e os maratas virara com 
assombro os nossos esquadroes, os linic :s que se con- 
servaram firmes diante dos aguerridos generais do 
Nand, passando-nos por desleais. 

Apareceram logo reclamagoes inglesas e o vice-rei, 
incapaz de sustentar briosamente a sua posigito, reti- 
ro u imediatamente o socorro ao Angrid ( socorro que 
lhe custara 240,000 rupias ) sob o pretexto de que 
este abusara das nossas tropas, levando-as a batalba 
de Carapetan, quando haviam sido mandadas somente 
14 



214 


para a defesa da praga de Guiridm ou Vigiadrug e 
deu ao ingles e ao Nana as mais reverentes desculpas 
e as mais inaceitaveis explicates. Mas, nem os 
ingleses, nem os maratas se iludiram; 
Tnste resultailo p e j 0 con trdrio o vice-rei perdeu o 

do vice-rei ^ prestigio da sua palavra e se colocou 
no despr&o dcs advers&rios e na 
desconfianga dos amigos. 

Nestas condigoes a substituigno repentina do em- 
baixador do Sunda. que estava ultimando as pazes e 
com quern o vice-rei se entendia, azedou a questao e 
excitou os aminos dos dois governos. Os nossos na- 
vios inercantes i'oram desfeiteados pelas autoridades 
do Sunda era Cabo de Rama e nos mais portos do 
sul. Em Pondd b subedar ( governadur do Sunda ) 
extorquiu os rendimentos da nossa aliundega e come- 
teu outros insultos. 

Entretanto o Nand tomou a praga de Guiriem, apri- 
sionou Tulagi Angrid e vencendo os nababos, com 
quern o vice-rei mantinha, porventura, relagoes secre- 
tas, enviou um exercito de 15 mil homens cercar Sun- 
dem. 

Ao coude de Alva pareceu que a sua fortuna Ihc 
oferecia um ensejo favordvel para se resgatar com 
urna acgilo de crddito, vingando-se do Sunda e, ao 
raesmo tempo, congragando-se com o Nana ; e, setu 
mais declarators, quebrando o tratado de paz, em 
virtude do qual, ( ernbora mal cumprido ), iamos 
recebendo algum diuheiro em prestagoes, marclxou 
com a maior parte das tropas contra Pondd, fortaleza 
e terras do rei de Sunda. Mas, precipitou-se no abis- 
mo. Poucos dias antes, o rei de Sunda, atacado pe- 
los maratas, tinha capitulado, entregando-lhes a praga 
de Ponda, que as tropas de Nana guarneciain justa- 
mente na ocasiiio da marclia do conde de Alva. Lo- 
go que os nossos se aproximaram da praga e viram 



215 


com surprSsa, em vez de poucos soldados timidos do 
Sunda, temiveis exSrcitos maratas, retrocederam e se 
puseram era debandada, mas com tal ra&lo e era tal 
desordem, que, julgando-se perseguidos de perto pelas 
langas inimigas, rauitos se precipitarara ao rio e raor- 
rerara afogados. Foi Sate desastre em 1 de Junho 
de 1756. 

J& o conde de Alva, contra o seu desejo e por nraa 
fatalidade, se tinba constituido inimigo declarado dos 
maratas, provocando-os com a sua presen$a em Pon- 
dd ; decidiu-se, portanto, a continuar a guerra e mar- 
chon de novo com urn nutneroso exereito para Pondd 
e no dia 28 de Junho, &s 11 boras da manha, estacio- 
nado nnm oiteiro abriu fogo sobre a pra<;a de Mor- 
dongdro, situada no alto duma montanha. O projecto 
do vice-rei era tomar a praga, batendo-a em brecha. 

Pela meia tarde houve incondio na fortaleza e viu- 


se a muralha desguarnecida ; uma parte das nossas 
tropas, que se tinham instalado no 
bazar, precedentemente tornado, ao Itenstre, de 
pd do monte sob o comando do te- 
nente-coronel Antonio Mourfio de 


Miranda, julgaram ocasiao oportuna para tomar de 
assalto a fortaleza e por sua audaciosa imprudencia 
comegaram a escalada. No motnento do ataque uma 
chuva torrencial apagou o incondio, reapareceram os 
maratas e esmigalharam gs assaltantes. 0 vice-rei 


correu com suas tropas em auxilio e ainda estas foram 
esmagadas. 0 tenente-coronel Mourilo de Miranda e 


outros poucos que escaparam a esta catastrofe puse- 
ram -se em desordenada fuga. 

Para complemento da desventura, o conde de Alva, 
que descia o monte abaixo, sosinho e vagaroso, rece- 
beu pelas costas dois tiros e caiu raorto, sendo o seu 
caddver transportado no dia seguinte a cidadc, onde 
foi sepultado. Aberta a sindicancia, nao se descoliri- 



216 


ram os autores deste covarde assassinato ; mas 6 pro- 
vdvel que tenkam sido os prdprios soldados portugue- 
ses, que, tendo tentado assaltar a fortaleza sem or deni 
do vice-rei, receavam castigo severo coruo responsd- 
veis pelo mau sucesso da emprfoa. 

Durante este governo os aessais de Satari, que se 
haviam revoltado, foram perdoados ( 1755 ), e ratifi- 
caram o juramento de fidelidade. 0 vice-rei cpnce- 
deu aos habitantes das Novas Conquistas, que jd se 
regiam por leis especiais, a liberdade de constrnirem 
pagodes e viverera na sua religiilo. Esta medida, de 
grande alcance politico e tilo titil para o aumento da 
populagito e desenvolvimento da agricuitura, foi-lhe 
reprovada pelo governo da inetropole, que mandou 
destruir os pagodes e perseguir a gentilidade. 

Depois da desastrosa morte do conde de Alva, go- 
vernaram, por vias de sucessao, o arcebispo de Goa D. 

Antonio da Neiva Brum da Sibrelra, Joao de Bfesqnita Matos 
Teiielra e Filipe de Yaladares Souto-Maior ( 1756-1758 ). 

No seu tempo o Bouusuld, quebrando mais uma 
vez as pazes, invadiu as provincias de Pernera, San- 
quelim e Manerim ; o povo de Goa lutou com a fome; 
os roubos eram freqiientes e a tropa estava em cora- 
pleta insubordinate. Os governadores Jo3o de 
Mesquita e Filipe de Valadares andavam sempre em 
desinteligencia por causa dos interesses prdprios, em 
que sd cuidavam, e o arcebispo, fazendo o papel de 
conciliador, apenas conseguia que os seus dois com- 
panheiros nSo chegassem a vias de 
Abnsos de au- facto. Deram-se ueste periodo tan- 
toridade tos abusos de autoridade e prevari- 
cates, que a administrate pdblica 
chegou a um estado lamentdvel. Em presenga d§stes 
factos, Mesquita e Valadares, no gov&rno do seu su- 
cessor, o conde da Ega, foram chamados a Lisboa por 
ordens terminantes do ministro, o marquSs de Pom- 



217 


bal ; mas, niio so nao foram castigados, pelo contr&rio 
Filipe de Valadarcs, em quern recala a principal res- 
ponsabilidade e que, por isso, f6ra conduzido preso, 
soube excitar a benignidade real por tal forma, que, 
passados poucos anos ( 1764 ), voltou a Goa, resti- 
tuindo-se-lke as honras tiradas com os bens que ha- 
viam sido sequestrados e tornou a governar a India 
por via da sucessao em 1774. Filipe de Valadares 
era muito rico e o ouro que levara da India tiio fortes 
rasoes alegou em favor da sua causa, que o justificou 
plenamente ainda aos olhos do marques de Pombal ! 

Em 23 de Setembro de 1758 tomou posse do go- 
vemo da India llfaiioel de Saldaijha de Albuquerque, conde 
da Ega, vice-rei ( 1758-65 ). 

Em obediencia it carta regia de 29 de Margo de 
1758 o conde da Ega proibiu a entrada dos jesuitas 
no pahicio dos vicc-reisda India e excluiu-os de todas 
as incuinbeucias seculares que portencessem ao real 
servicjo. Cumpriudo ainda as ordens recebidas da 
inetrdpole pds em estado de sitio a cidade de Goa, 
eercando de tropa e juizes, na ma- 
drugada de 26 de Setembro de 1759, I*ris;Io dos 
a casa professa do Rom Jesus, S. Jesuitas 
Paulo novo e S. Paulo velho, S. 

Rosalia, hospital real e outras easas pertencentes aos 
jesuitas, sendo si mesma bora todos presos e encarce- 
rados incomunicsiveis em S. Paulo novo e cm Ra- 
chol. Os jesuitas presos cram 127, e, sempre 
vigiados, mudaram por vezes do c;'uv> re ate 19 de 
Dczembro do 1760, em que eml-arc” n para o reino. 
Os seus bens foram contiscados i :- •: da Fazen- 

da. (•) 


( ! ) Dos L27 precis, ;»;> oimiu piol\ o-« ■ > ; 1. ri ■ vofco, *?'.* .iiu- 
du niio professes, 30 e u; id ju lures espiril-i • t i-i ■ ' •' uloivs Lorn- 

14 * 



218 


Em 31 de Dezembro de 1759 o vice-rei rnudou a 
sua residencia do paldcio de Panelira para o de Pan- 
gim, que a Cdraara de Goa Ihe man- 
MKian^sda^sede dara restaurar com grande dispendio 

nara’Pamrini dos cofres do municipio ; e transfo- 
rm para o paldcio de Panelim o hos- 
pital real, demolindo o antigo ediffcio, que ficava ao 
pe do arsenal. A durea Goa, que se tornara insalu- 
bre e caira em ruinas, foi abandonada aos padres e 
monges. 0 conde da Ega construiu o forte de Man- 
dur. 


N6ste tempo o marata, despresando o tratado de 
paz, que poucos dias antes tizera conosco, entrou a 
infestar as costas de Goa com as suas armadas e apre- 
zar as nossas embarcagoes. 0 conde da Ega nao 
tendo obtido a satisfagfio que pedira, enviou uma 
grossa forga a Pondd sob o comando do coronel ( de- 
pois brigadeiro ) Henrique Carlos Ilenriques e man- 
dou bloquear a memordvel praga de Mordongoro 
(Mardan Goddo). 

Teve parte notuvel uesta carapanha o celebre fr. 
Antdnio da Purificaguo ou D. Antdnio Jose de 
Noronha, natural de Goa, frade franciscano, bispo 
eleito de Ilalicarnasso, que, tendo seguido a vida 
militar, como esta. dito na pag. 207, fora nomeado 
pelo conde da Ega comandante do corpo de sipais 
de Ponda. 


Durante o bloqueio de Mordongoro o conde da Ega 
liavia transferido a sua residcncia para as casas de 
carnpo do velho fidalgo D. J oiio Jose de Melo, vedor 


porais. Foram cnviados para Lisboa a bordo da nau N. S. ra da 
Concci\-<'to c S. Vicente Ferreira. Vide a <;it. Inwrensa em Goa, 
pags. 80-88. No liolclim do Govcrno n.°* Sail do 1802 foi 
publicada por Cunlia llivara u rolayiio das luzou.as couliscadas aos 
jesuitas, sous reudimoutos « pousoos. 



219 


da Fazenda e conselheiro do Eatado, situadas era 
Dandim, extremo sul da ilha de Tisauari, afim de 
maia perto dirigir e vigiar aa operates. 

Oa defenaorea do Mordongoro mostraram a princi- 
pio certa constancia, mas, depois de catorze dias de 
sitio, levantaram a bandeira branca 
e entregaram a praga por capitulac&o Conqoista de 
em 31 de Maio de 1763, aceitando, PondA 
entre outras, a conditio de sairem 
de Fonda: Concluida a capitulaqao, o vice-rei man- 
dou arrasar a fortaleza para evitar as inuteis e consi- 
ders, veis despezas, que seriam precisas para a sua 
conserva§ao ; assenhoreou-se de toda a provincia, 
cujas cAmaras lhe vieraru render vassalagetn ofere- 
cendo-lhe frutas do pais, e norneou D. Antdnio Jose 
*de Noronha general da provincia de PotulA. ( l ) 

Em seguida apoderou-se tambern de Zatnbaulira e 
CanAcona, incluindo a fortaleza do Cabo de Rama. 
Mas o governo de Portugal, ntlo podendo s«3tentar 
tantas conquistas novas, que demandavam remessa? 
de dinheiro da metropole para as defender, ordenou 
ao conde da Ega que entregasse algumas das pragas 
aos seua antigos possuidores : e assirn o conde da Ega 
foi obrigado a entregar ao rei de Sunda as fortalezas 
de Piro e XimpAm e ao Bounsulo as de Bicholim e 
Alorna. 

Foram cates os serviqos militares que o conde da 
Ega prestou na India e que eram assAa dignos de 
consideragAo ; contudo, por afastar-se por vezes das 


(*) Vid. I. Gracias 0 Bispo de Halicarnasso pag. 62. 0 fr* 
Ant6nio oa D. Antonio, quando general da provincia de Ponda- 
assnmia nos sens baudos o titnlo de=Nababo Dilavargenga Xa- 
madnr Babadnr=, titnlo, corn qne fora agraciado pelo Grao Mo- 
gol. 



220 


i:istru$6es do governo da metropole e mostrar-se auto- 
ritdrio, azedou os aniraos por tal forma, que, descren- 
; ; i pelo desgosto, foi obrigado a pedir para a metropole 
que o substituissem no governo da India. Sabendo 
que o vinha render o conde da Louz&, antes de ter a 
uoticia do seu falecimento em Mozambique, mandou 
abrir, sem a devida autorisagfio, as vias de sucessao e, 
entregando o governo ( em 19 de Outubro de 1765) 
aos que nelas eram indicados, regressou ao reino em 
companhia do secret&rio do Estado Belohior Josd 
VYis de Carvalho. Chegados a Lisboa, to ram logo 
ambos presos e conduzidos ii torre do Outfio, onde o 
secretario ficou detido por tempo de urn ano e o conde 
pouco mais de dous anos. 

No libelo formado pelo procurador rogio em 138 
artigos de acusaqao, baseados na queixas dos gover- 
nadores que sucederara ao conde da Ega, era Oste 
increpado de abusos de autoridade, com transgressao 
de leis e ordens regias, dilapidagao dos dinheiros pii- 
blicos, extravios nos bens sequestrados t\ Companhia 
de Jesus, etc. 0 secretario, considerado conivente, 
foi absolvido pela Kelazilo de Lisboa. Manoel de 
Saldanha prometia provar a sua inocencia e a maldade 
dos caluniadores, mas nao chegou a consegui-lo em 
vida, obtendo em 1779, oito anos depois do seu fale- 
cimento, a condessa, sua viuva, a decisao favordvel 
do processo e a reabilitaqao da memdria do nobre 
fidalgo. 

Em 19 de Outubro de 1765 comezaram a governar 
( 1765-68 ) provisoriamente D. Aotdqio Taveira da Nfli- 
ya Brum da Silveira, arcebispo de Goa, Joao Batista Yas 
Pereira, Chanceler do Estado (‘) e D. Joao Jose de (*) 


(*) Foi Sate deserabargador que mais queixas dirigiu a S. M. 
contra o vice-rei conde da Ega e seu secretario. 



221 


lelo, vedor geral da Fazenda. lilste gov^rno pro- 
p6s vdrias reformas diminuindo a despesa publica, 
(1765-68). 

D. Mo Jos6 do Iffllo, que fazia parte desse gov^rno, 
foi nomeado governaaor da India por uma carta rdgia 
e tomou posse em 12 de Marqo de 1768. 

Em 1771 o gov&rno da metrdpole, convencido de 
nSo poder restaurar na India o nosso antigo impdrio, 
substituiu, como demasiddamente 
pomposo, o titulo de vice-rei pelo de ^J^e^vice-reT'e 
governador e capitfto general dos Es- Jj e T -arios outros 
tados da India. 86bre este ponto e 
principalmente sobre a antiga ostenta§ao, que ainda 
cercava a primeira autoridade portuguesa no oriente, 
D. JoSo de Melo, quando vedor da Fazenda, bavin 
enviado para a metrdpole vdrias propostas judiciosas 
e econdmicas ; e parece que foi esta uma das causas 
que mais influiram para a sua nomeaqao. 

Conforme as ordens vindas do ministerio, forara 
neste governo extintas as recebedorias de Salsete e 
Bardcs, a Casa dos Contos de Goa e a companhia de 
cavalos da guarda do vice-rei. Foram suprimidos 
vdrios cargos do paldcio e reduzido o antigo ordenado 
dos vice-reis, que era de 24,466 xerafins, a 20 mil xe- 
ratins. Em logar do tribunal dos Contos foi creada a 
Junta da real fazenda, dando-se-lhe urn novo raetodo 
de escrituraguo. Foi suprimido, tambtim, o lugar de 
capituo da cidade e foram adoptadas rnuitas medidas 
tendentes a mclhorar o estado financeiro do pais sem 
desorganizar os services. 

Em 1772 uma esquadrilha portuguesa, composta 
de uma nau, denominada Sant' Ana, e outras embar- 
ca$oes, que fdra para o porto de Mangalor, afim de 
transportar o tributo do arros das p&reas, foi batida e 
aprisionada pela armada marata na proximidadc de 
Caliampur. D. Joao Jose de Melo expediu em so- 



222 


corro uma fragata, que, tendo encontrado a armada 
inimiga nas alturas de Assolnd (Salsete), conseguiu 
libertar as embarcagoes presas menos a nau Sant 
Ana , cnjo cornandante, Francisco da Costa Ataide, e 
a restante guarnigao, ficaram prisioneiros por alguns 
meses no p6rto de Guiridm. 

Pelo falecimento de D. JoiLo de Melo tomou conta 
do govorno, por via de sucessfto, Filipfl de Y&M&reS 
Sonto-Maior ( 1774), que governou poucos meses. 
Neste tempo foi expedido eui Lisboa o alvard de 15 
de Janeiro de 1774, dando nova organizaqfio A ad- 
ministrate civil, politiea e ecdnoinica da India por- 
tugtiesa. 

Em Setembro de 1774 cliegou ii India D. Jose 
Pedro da Camara, o ultimo dos governadores nomeados 
por el-rei I). Jose, (1774-79). 

Em execuqilo das instruqoes que trazia, foram 
neste tempo extintos os tribunais da lielagtlo e da 

Inquisigao ern Goa. Comegou a 

t.xtingno ilos tribn- reedificaeao da cidade de Goa e 
uais da Itelagao e da , v c , , , , 

liiquisirao em Cioa torain de facto restauradas algu- 
mas ruas que ficavam ua mar- 
gem do rio, sob a direc§;Io do brigadeiro I lenrique Car- 
los Ilenriques e il custa de £ po#> cento que se langou 
do contrilmiqilo para esta despesa sobre o rendimento 
liquido dos al'azendados das llluis, Salsete e BardOs, 
imposto que foi estabelecido somente por tempo de 
dez anos e. que ainda boje subsiste, percebeudo-o as 
respectivas ciimaras nmnicipais. Em 28 de Setem- 
bro de 177(> foi decretada a creagfto dos celeiros pii- 
blicos para abastecer de cereais os cultivadores nos 
anos de escasses. 0 governador regressou fl metro- 
pole em Maio de 1779. Em 24 de Fevereiro de 1777 
faleceu el-rei D. Jpse subindo ao trono sua filha pri- 
mogduita 1). Maria l.“. 

Antes do cerraroste capitulo cumpre fazer luengiio 



223 


do grande ministro de el-rei D. Jose 1, que, durante o 
seu longo consulado, atendeu com urna direc<jfio ver- 
dadeiramentc paternal aos negdcios da India. Sao 
muitas, complexas, importantes e radicals as reformas 
promulgadas pelo marques de Pombal para a restau- 
raqao do poder portugucs no oriente, alein do cuidado 
e escrupulo que pos sempre na escolha dos altos fun- 
ciondrios do Estado. Seria longo enumerar essas 
reformas, das quais as mais notiiveis foram : r- lei de 
2 de Abril de'1761, pela qual so 
declararam os indigenas da Asia Influencia da ailmi- 

portuguesa perfeitamente iguais, ,, U es dc Poiubal 

pcrante a lei, aos portugueses 
nascidos no reino, e se estabeleeeram penas contra os 
que conservsissem e fomeutassem as distingiies de 
castas e outras, — antecedcndo assim per mais do meio 
seculo o preceito contido na Carta Constitucional 
portuguesa ; e as fainosas Instruroes , dadas em L 7 7 ! 
ao governador I). J use Pedro da Curuara e ao arcebispo 
prirnas D. Francisco de Assungiio e llrito, quo vieram 
do reino na mesma inongilo, — instruques que abraugem 
a admiuistragao civil, politica, militar, financeira, judi- 
cial e eclesisistica, eoustituindo, a bem dizer, uni 
cddigo indiano, docurneuto da graudeza de vistas e do 
saber encidopddico do marques de Pombal. “ Dirieis 
ao lor as instruqoes — escreve o erudito Lagrange, 
que em 1341 as publicou, acoinpanbando-as de eluci- 
dativas notas, — que o marques tinlia visitado a India 
c que niio so alcanyara exacto conhecimento da topo- 
gralia do pais, senao de muitas das necessidades 
particulares de cada aldcia e dos seus remedios a,pli- 
caveis.” 

A energia e actividade da admin istra^ao pombalina 
teve um goncroso rellexo na India, e baslani, para a 
glorilicar, aquelas instriqjOes, com as leis paralclas, 
que profuudamente niudiliiaram o regime da gover- 



224 


na$fio p'dblica, e aiuda hoje sao citadas com res 
peito. (‘) 


CAPITULO XIX 


1779-1807 — Reeonquista dos territdrios do 
marata ; uma tentativa de conjuragao; 
entrada dos ingleses em Goa. 

D. Frederico Gailherme de Souza, (1779-86) nomeado 
govcrnador c capitiio general cla India, tomou posse 
em 26 de Maio de 1779. 

Desceudente duma casa nobilissima, I). Frederico 
era o tipo de vcrdadeiro lidalgo; vivia em Goa na 
maior grandeza, e as provisoes que sua mile lhe en- 
viava todos os anos erarn para uma vida principesca. 
No fausto e liberalidades consmniu avultadas quan- 
tias, a pouto de lhe nao chegarein os sens ordenados e 
os remlimentos de sua casa, empenhaudo-se por tal 
mode, que, por urn alvani, Hie loi concedida licenqa 
para levantar do eofrc dos rirfuos dinbeiro para pagar 
as suas dividas, liipotecando Yarns j>ropriedades. 

Em 8 de Dezembro de 1782 com uma lor$a do mais 
de dois mil Itomeus reconquistou a provincia de San- (*) 


(*) Viilc Imlrucfdcs de El-rci D. Jose l.° etc. anotudas polo 
secretiirio ilo goveruo Claudio Lagrange Montciro Barbuda c pn- 
Mieudus na liuprciisu National ein 1811. Sua Altcza o senhor in- 
Jantc l>. Afonso lleiuiques, o ultimo vice-rci da India portugnesa, 
mandou, por sua poituria de 20 de Maio dc 189G, fa/.or na inesma 
iinpiensa uma uova cdi«;ao i lease l'amoao livro, eouiuiuorutiva do 
ceutwuario do Uerdico feito do Vasco da Itama. 



225 


auelim, e a 25 de Maio de 1783 foi retomada a pra$a 
de Alorna por uma divistlo de 5712 combatentes de 
diversas armas. 

A D. Frederico Gruilherme de Souza sucedeu 
Francisco da Cnnha e 8[enezes, cujo govGrno principiou 
em 3 de Novembro de 1786. 

Francisco da Cunha ( 1786-94) empregou os 
seus esfor$os para melhorar a administrate pi'ibbca, 
preparando-se, ao mesrno tempo, para bater o 
Bounsuld, que havia entilo suspendido as armas com 
o projecto de se levantar em breve com novas liosti- 
lidades. 

Por outro lado, o nababo Tipii, Sultfio de Maissur 
crescendo cada dia em poder e soberba, depois do ro- 
conquistar as terras do Canard e de Sunda, ameagava 
senhorear-se das nossas possessoes, para onde se lia- 
via refugiado o rei de Sunda, que, tambom de sua 


parte, se preparava para recuperar o seu reino, em 
que entravam as provincias que, depois de entregnes 
por ele ao raarata, haviam sido por nos conquistadas. 
ISestas crlticas circunstuncias, no dia 5 de \gosto 


de 1787, Antdnio Eugdnio Toscano, 
munidade de Aldond, veiu denun- 
ciar ao governador que Tins cldrigos 
intentavam sublevar os naturais da 
terra para expulsarem dela os eu- 


escrivSc 

Tenta 

conjni 

i»... 


la co- 
da 
ilos 


ropeus e constituirem-se em govo no independente. 
Segando resam os documentos ofici is, o piano fora 
urdide pelos padres Caetano Francisco Cou* •, natu- 


ral de Pangim, e Jose Antonio Gonsalves, natural da 
Piedade, ( l ) que, descontentes por o arcebispo Santa 


(*) O pe. Gaetano Francisco Cooto fora governador do bispado 
de Cochini, cargo de que havia sido destituido pclo arcebispo 
Santa Catarina; o o pe. Jose Antonio Gongalves fora paroco da 



226 


Catarina Ibes nilo dar os cargos a quo aspiravaro, 
tinham ido a Lisboa, no intuito de obterem algum dos 
bispados shfragfmeos, que se achavara vagos, e haviam 
regressado a Goa sem os terem conseguido. A in- 
fiucncia clerical, as promessas e o espinto do patriotis- 
mo atrairam am grande ntimero de prosAlitos. Esta 
denuncia, a que o governador ndo ligara a principio 
irnportdncia nenhuma, foi confirmada no niesmo dia 
pelo coraandante da legido de BardtJs e por am sumA- 
rio, que em seguida enviou o arcebispo Santa Cata- 
rina, ccntendo as declarafdes e depoimentos perante 
ele dados, no dia 31 de Julho, pelo padre Pedro Gae- 
tano JosA Lobo, de BastorA, vigArio de Tivim, e, tres 
dias depois, por mais dois clArigos. 

Presume-se que os meios de levar a efeito a cons- 
piraqdo consistiarn em corromper as legioes de PondA 
e Bardes e a companhia dos auxiliares por interroA- 
dio de alguns oficiais, que ja haviam abragado o par- 
tido da rebeli&o. E o fim da conjuraQdo, conforrae a 
sentenga, era formar uma nova reptiblica em que os 
chamados naturais , por urn eonselho da Camara 
geral , lovernassem e usassem da Soberania. 

0 vernador tinha As suas ofdens em Goa nesse 
tern) forga de 7140 homens, incluindo 2540 euro- 
peu; idida em seis corpos, de maneira que cada 
uma das referidas legioes era composta de 1120 pra- 
nas sendo muitas delas europeias. ■ 

Em conseqiier sia destas dendncias, que davam a 
conspira^ao por muito adiantada, a ponto de set o dia 
10 de Agosto o aprasado para o rom pimento, o gover- 
nador expediu imediAtamente ordens para diversos 
pontos com devido segredo, a dm de serem presos os 


igreja de 5. Bartolomeu e depois professor de filosofia no aeminA- 
rio de Chorao. 



227 


individuoa indigitados como os principals eonspiradores. 
Foram efectivamente presos quarenta e sete, entraa- 
do neste numero 17 padres e 7 oficiais; (*) mas nao 
se encontrou nas buscas nenhum papel compromcte- 
dor, nem dinheiro, nem armas. 0 padre Jos6 Ant6- 
nio Grongalves e mais oito dos conjurados poderam 
escapar. 

Instaurou-se logo o processo e, pela sentenga de 9 
de Dezembro de 1788, baseada principiUmente nas 
confissoes dos reus, foram condenados k pena ultima 
15 reus seculares, 5 a degredo, 5 & pena de agoutes, 
sendo absolvido apenas urn : Jofiode Sousa, deOnor. 

Dos clerigos capturados foram havidos por inoceu- 
tes e mandados soltar tres, Antdnio Filipe VAs, vigario 
de Moir& ; e os dois padres congregados, Sebastian 
Batista e Pedro Delgado ; e os restantes catorze re- 


(*) Os padres presos foram : Manoel da Expeciagao, vigsirio 
de Pondd ; JoOo Alvares de Sousa, vig. de Pomburpa ; Miguel 
Alvares de Souza, vig. de Pilcrne ; Vicente Alvares, ( estcs tres 
irm&os); Gaetano Francisco da Silva, vig. de S. Lourenyo dc Li- 
uhares ; Jose Manoel de Menezes, da Piedade, vig. de Guirirn ; 
Antonio Filipe Vas, vig. de Moira ; Sebastiao Batista e Pedro 
Dalgado (ambos da congrega^ao do Oratorio); Gaetano Francisco 
Gouto, de Pangim ; Matias Bernardo Fonseca, tie Chorao ; Luis 
Antonio Gon 9 alves, menorista, da Piedade, irmao do pe. Jose An- 
tonio Gon 9 alves, que tendo noticia da prisao dos seus confederados 
fugin para alem das raias do Estado ; Luis Gaetano de Souza, de 
Moira ; Jose Antdnio Vas, de Anjuna ; Joao Batista Pinto e Jorge 
Dias, de Candolim, e Diogo Benedito Lobo, de Sernla. Os oficiais 
foram Pedro Luis Gonzaga, de Nerul, e Manoel Gaetano Pinto, de 
Candolim, tenentes da legiao de Ponda ; Inacio Cactano Tosca..o, 
de Aldona e Nicolan Luts da Costa, tenentes da legiao de Bardes ; 
David Francisco Viegas, cirurgiao-mor da legiao de Ponda ; 
Francisco Pereira, cirurgiao ajudantc da mesma legiao, e lancio 
Caetano Lopes, de Mandnr, capitfto de auxiliarcs. Estes oliciais 
e mais urn sargento, 2 cabos e 1 soldado, pertcncentes a legiao de 
Ponda, c 4 paisanos foram snpliciados na pr& 9 a do Mandovi cm 
Goa, atr&s do convento de S. Gaetano. • 



228 


metidos para Lisboa onde uns faleceram, outros foram 
perdoados do qualquer pena em quo podessem estar 
iucursos ; e apenas ura, o padre Manoel da Expec- 
taqao, vig&rio de Pondd, foi jalgado inocente em vista 
das informaqdes do arcebispo. (*) 

Cumpre notar que no piano desta conjuragio entra- 
vam, tambdm, alguns filhos da India, nesse tempo 
residentes em Lisboa, sendo os mais proeminentes os 
padres Caetano Vitorino de Faria e Jose Custddio de 
Faria natnrais este de Candolim e aquele de Colvaie, 
tendo ambos levado uraa vida singularmente aventu- 
rosa. 

Caetano Vitorino de Faria, depois de ter cursado 
cstudos eclesidsticos e recebido ordens menores, casara 
com Rosa Maria de Souza, filha unica de Alexandre 
de Sousa, por alcunha Concrd, de Candolim, e vivia 
em casa do sogro, que era abastado. Sete anos de- 
pois do casamento, passados em coustantes disseusoes 
domesticas, separaram-se os dois cdnjuges e, obtidas 
as neeessdrias licengas, Caetano Victorino ordenou-se 
de presbitero e Rosa de Sousa professou no raosteiro 
do Santa Mdnica, de Goa. ( 2 ) Dcste matrimdnio nas- 
cera-lhes, a 31 de Maio de 1736, ura filho, que foi Jose 
Custddio de Faria. 0 pe. Caetano foi com o filho, jd 
de 15 anos de idade, para Roma, onde o rapaz fez o 
sou ourso eclesidstico uo colegio da Propaganda e se 
doutorou em Teologia. 


(') Os clerigoa perdoados, que regressaram a Goa na monj&o 
do 1807, foram .Jorge Dias, Oaetano Francisco da Silva, Miguel 
Alvares, Vicente Alvares, Matias lb da Fonseca, Diogo Benedito 
l.obo, Joilo Batista Pinto c buis Antonio (1009 a Ives. 

(•) Oadbano Victorino foi ordcnailo pelo arcebispo Nciva 
Brum cm 1707; c Rosa de Sousa entron no mostciro ein 3 de 
Janeiro de 1704, toniaudo o uornc monastic# de Rosa tie Sta. Ma- 
ria; e falcccu em 11 de Novembro de 1705. 



229 


Saindo de Roma, pai e filho vieram para Lisboa, 
oude o pe. Gaetano gosou de grande consideraq&o, 
chegando a ter entrada no pago real e a ser favoreci- 
do de el-rei D. Josd e da rainba D. Maria 1.® sendo 


ate consultado nas cousas da India, mdrmente nas 
eclesi.'sticas. Foi a final preso, por ocasiao da cons- 
pirae'io de Goa, no convento dos Paulis tas, onde as- 
sistia, e ignora-se por quanto tempo teria estado 
preso. O certo e qne n'io ehegou a voltar A. India. 

Quando em 1 788 ehegou s\ Lisboa a noticia da 
conjuragilo o pe. Jose Oiistudio eraigrou para Franga, 
onde foi conhecido peio tftulo de 


/Abbe farm. Anm tornou parte _ , , „ . 

autiva na revolueao de 1789, mar- 

c*!:>mu1o contra a Conveneao em 10 

vmdimaire, , a frente duin trogo de amotinados. Pro- 

fessou a files dia nos lieeus de Marselha e outras ci- 


dades. Fra Paris adquirhi certa reputagao de mag- 
netizailor c iluminador. Morreu de apoplexia fulmi- 
nante (‘). Dus to extraardinario tipo de padre, tnag- 
netisador, l.'sico, professor e revolucionario. qucalcan- 
eou cm Franga uinn verdadeira celebridade, aprovei- 
tou Alexandre Dumas, fazcndo-o representar um pa- 
pel iinportaute no sen faraoso romance, O Gonde de 
Mon/e- CrtHlo, dando-l!ie :nais antes uma l’eigao ima- 
ginativa que histdrietf. 

Ha ua India urna cor re rite do opiniao que nega a 


p) Dipois lo soil Fulerri njato pnblicon-so tuna obra sna, qne 
te:n nor 1 :ulo IK- It cans-.- da soimneil lucitlc, oh E'lwle tic nature 
ilr. riiDiiune vitr I'abbj i-aria, brahimitic, doclcuv cn Ihcologic. 
Paris. IHll), 8.°. Mn o l)r. Grlasio Dalgado, nosso pa- 
tricin, publicon cm Pari? u sen precioso livro iutitulado Mcmoirc 
sur In vie dc l’ub hr dc Faria unde, a pag. 56 e seguintea, cunfron- 
ta os i.qii -•;< uli - »s •!.. vidn do a ..:'le Kikrin real coin os do abade Faria 
roinuntico, uxplicaudo a lendu. 

15 



230 


existcncia desta revolta, dando por caluniosa a acusa- 
c3o, por tirania os castigos e por inocenjes e mdrtires 
do despotismo os condenados e encarcerados. 0 sea 
principal fundamento 6 que as confiss5es dos rdus, 
em que se baseou a sentenga condenatdria, foram 
efeito dos tormentos, a que todos eles haviam sido 
submetidos e conseguinteuiente nao podem fazer prova 
em favor da cxistoncia da conspiragao. Haveria, 
conforme esta opiniao, quando muito uma combinagao 
politica eutre os influentes para propugnarem pela 
execugtio das ordens vindas do soberano para 
igualar os (ilhos da India aos da metropole ( 1 ). 

No iiltimo quartel do sdculo XVIII esteve em Goa 
o poeta Bocage, inimitdvel engenho 


O poeta Bocage 
em ta 


que, depois do grande Camoes, hon- 
rou a Musa portuguesa na India. 


Manoel Maria Barbosa Hedois du Bocage, natural 
de Setubal, da idade de 21 anos, veio k India na mon- 
gSo de 1786 junto com o governador Francisco da 
Cunha e Menezes, despachado no p6sto de guarda- 
-marinha. No ano de 1787 matriculou-se na antiga 
aula real da marinha de Goa, mas nao fez exame por 
causa legitima ; repetiu a matricula no ano imediato 
e nao freqiientou as ligoes. Em 25 de Fevereiro de 
1789 foi nomead o pelo dito governador tenente de 
infantaria do regimento de Damao, para onde foi em 
8 de Margo subsequente. Dois dias depois de chegar 
dquela praqa, ausentou-se sem motivo, nem partici- 
paqao ao comandanto, sabendo-se muito depois que 
se dirigira para Macau, donde regressou a Lisboa (*) 


(*) Cunha Rivara. A Gonjnratfio dc 1787 em Goa ,- —a Bruto 
da Costa, Goa sob a Domimcdo porluj/ue a, pags. 77 a 85. 

( s ) F. N. Xavier, artigos uo Archivo Universal , u.° 20 de 



231 


Na India deu iargas & sua veia humoristica c silo co- 
nhecidas as suas produces poeticas, algumas de irn- 
proviso, feitas k sombra das palnieiras de Goa, enal- 
tecendo as belezas do oriente ou satirizando os costu- 
mes da sociedado em que viveu. (*) A’ conjuragao 
de 1787 referiu-se o poeta nuraa epistola ao sen 
amigo Josino. 

No mesmo ano de 1788, o Bounsuld, atacado pelo 
rei de Colapur, viu-se na necessidade de pedir mais 
uma vez a alianga dos portlwueses e, pelo tratado de 
29 dq Janeiro de 1788, cedeu-nos a piovincia de Per- 
n4m, enviando-se-lhe da nossa parte um auxilio de 
1200 homens sob o comando do marechal do campo 
Francisco Antdnio da Veiga Cabral. Em 1771 
Pondd passou de facto para o dorainio portugues em 
virtude do tratado de 17 de Janeiro, feito com o rei 
de Sunda. 

Francisco da Cunha, recebida a cxoneragito, que 
havia solicitado, entregou o governo ao seu suces- 
sor. Francisco Ant6nio da Yeiga Cabral, que jd era te- 
nente general, nomeado governador, toraou posse a 
22 de Maio de 1794. A sua governagao (1794-1807) 
foi assinalada pela entrada dos ingleses em Goa 

0 govSrno ingles da India, a fr'tulo de defenuer as 
nossas possessoes contra os franceses, queria ; a mais 
tempo, introduzir suas tropas em 
Goa e nao tinha conseguido. Em Tropas inglesas 
1798 aparcceu em Goa o almirante emGoa 
ingles Rainier com uma esquadra, 


1861, e na Illustrafdo Goana , l.° vt 
go dos livroa do ossentamento da g'.nl 
Teofilo Braga no Occidents, n.* 602 
bro de 1805. 

0) F. N. Xavier, A Manteijui, n 
vol. 


«t. 47-49,— cit.. Oatalo- 
1 rra , pag. 88-34,— e 
• 25 de Setera- 

llustrando Goana, 1 .® 



232 


declarando ao governador que file tinha a ordem de 
coadjuvar a defesa de Goa no caso de necessidade. 
Veiga Cabral rejeitou o socorro coiu agradociinenlo e 
o almirante salu do porto ; mas, pouco depois, urn 
comissdrio do governo ingles, veiu, corno enviado ple- 
nipotenciario, residir na capital da India portu- 
gueaa, a pretexto de querer tratar de alguns negdeios 
com o governador. Finalroente no dia 6 de Setembro 
de 1799, pretextando ter chegado noticia de (pie saira 
de Brest uma poderosa esquadra francesa, vierani de 
Bombaim, sem requisiqao nem pedido do governo 
portugufis, e entraram em Goa trfis batalhoes e dois 
destacamentos incluindo a artellmria, sob o.comaudo 
do coronet William Clarke. 

Veiga Cabral, que era lio'nem de acanliada inte- 
ligfincia e desmedido orgulho. assustou-se a principle 
com ainvasfio; mas, quando William Clarke comcyou a 
afagar-lhea vaidade, pedindo-lhc todos osdias o vanto 
e a senha como seu subordinado e mandando as suas 
tropas fazerem-lhe continenc-ia, o nosso governador, 
satisfeito com estas honras, nflo escrevia para Lisboa 
senSo elogiando os regimentos ingleses. 

O ^firno de Portugal, porem, (Jesgostoso com o 
facto. lenou a Veiga Cabral que erapregasse todo o 
esforjo para fazer sair quanto antes as tropas ingle- 
sas sem quebra da nossa amisade com a Inglaterra. 
0 marques de Wellesley, que era entiio goveruador 
da India britunica, instado por Veiga Cabral, icandou 
retirar de Goa algumas ifir§as. mas, pouco depois, vol- 
taram estas ainda aumentadas. Ao mesmo tempo as 
praqas de Dam&o e D'” eram ocupadas jior soldados 
ingleses. Veiga Ca’ ' oficiou raais de uma vez ao 
marques de Wciie izendo-lhe que, por noticias 
recebidas da *' bia que a India portuguesa 

nilo corria o mim. . o e que. portanto, lizes.se re- 

tirar as tropas ingleses; . is, o marques lire respondia 



233 


que a India, pelo contrario, estava agora em maior 
perigo e que por isso tinha maior necessidade do auxi- 
lio dessas tropas. Veiga Cabral resignou-se emfira 
a ser socorrido contra vontade, colocando-se servil- 
mente em posiqao seen nd Aria por tal forma que, para 
satisfazer as exigencias de William Clarke, niio teve 
duvida de mandar encorporar as tropas portuguesas 
com as inglesas e nomear o proprio William major- 
-general do exercito portuguGs; o que, alAmde ser 
uma inconvenicncia, excedia a esfera das suas atribui- 
goes. 

Preparado assim o terreno, William propos abbrta- 
mente a Veiga Cabral abdicar o poder e retirar-se 
a vida particular, mediante 70 mil rupias anuais. 
£ste, acordando entfio do seu sonlio vaidoso, percebeu 
o la<;o em que ia cair e repelia a proposta com ener- 
gia. Kntretanto cliegou a noticia de ter sido assi- 
n«ada a paz de Amiens, que restituiu A Europa a 
tranqiiilidade completa e so entfio o marques de Welles- 
ley, cedendo aos instautes oficios de Veiga Cabral, 
mandou enfim retirar as suas tropas. 

Etn Dezembro de 1802 com os mesmos pretextos 
tornaram a entrar era Goa os regimentos iugleses e 
acamparam no Cabo, onde ate construiram um cemi- 
terio qne ainda hoje existe; em Novembro de 1804 
nao obtendc pela astucia o que desejavam, emprega- 
ram baionctas e apossaram-se da praya da Aguada, 
ficaudo inteiramente senliores do porto. Veiga Cabral, 
pelo seu caracter irresoluto aceitou impassivelmente 
todos os factos com manifesta quebra da dignidade 
nacional e a-pesar-de ter dado exuberantes provas da 
sua incapacidade para o governo da India, foi recon* 
duzido por mais tres anos no mesmo logar e agraciado 
com a gran-cruzda ordem militar de S. Bento de Aviz! 

Em 30 de Maio de 1807 6 que entregou o poder 
ao seu sucessor. 

15 * 



234 


CAPiTULO XX 


1807-1837— Implantagao do regime eonsti- 
tucional em Goa, revolugSes e eontra- 
revolu?oes 


Bernardo Jose Maria de Lorooa, conde de Sarzedas, 
( 1807-16 ) sobrinlio do infeliz marques de Ttlvora, 
Francisco de Assis, veio governar a 
India com o duplicado titulo de vice- 
-rei e capitao-general. A sua posse, 
que se realizou na igreja do Bom 
Jesus em 30 de Maio de 1807, foi muito festejada 
pelos habitantes da cidade, por verem restabelecido o 
titulo de vice-rei, suprimido em 1774 com geral des- 
contentamento da nobreza de Goa. 


Restabeleci- 
men to do titulo 
de Vice-rei 


Os ingleses ainda ocupavam com mais de tres mil 
bomens o Cabo e a praga da Aguada, mas o cotide de 
Sarzedas procedeu com dies sempre 
ltetirada dos com dignidade transigindo apeuas 
ingleses no q Ue as circunstancias o obrigas- 
sem. Em Novembro de 1810, em 
virtude das reclamagoes que o governo de Portugal 
dirigira ao gabinete de Londres, comegaram os nossos 
aliados a evacuar o territorio poftugues, mas s6 a 2 
de Abril de 1813 saiu o ultimo regimeuto ingles da 
praga da Aguada. (*) 

Em 1811 o dessai do territdrio de Us pa, Ilarya 
A pa Gauugo, coraegou a facilitar pelo seu dessaiado a 


(') Vide u nota final 0. 



235 


passagem aos salteadores bounsulds 
on punthlaa, que por ali se interna- 
vani nas provincias de Pernem e 
Pardos c praticavain inuitos ronbos 


InquictaqFio 
dos Ilounsulos 
e dos raiics 


c assassinios, arrebatando As vezes algoma pessoa da 
familia dos roubados e exigindo grossas somas para 
o sen resgate. 0 conde de Sarzedas dirigiu logo an 


dessai uma advertoncia, que ntto surtiu efeito ; pois, n 


dessai era vez de coibir a passagem aos ladrdes, im ■ 


pediu a ida das nossas rondas ao sen terrltdrio para 
os prcnder, e, pouco depois, L'ornentando a rebeliao 
dos ranes e dessais de Satari e Ervalora, deu-lhes 


favor e abrigo no sen territArio e tinulinente ole pro- 
prio oapitaneou o roubo dmna porgiio de gado perton- 
conte a cotneroiantes portugneses, que vinha desceiulo 
dos dates por aquele dessaiado. 

() conde de Sarzedas nao podendo suportar tantas 
afronias, inandou fazer reprcsiilias contra o dessai, etu- 
barayar a estrada de Llamagat e Betxi, onde o dessai 
pereclua cevta contribui<;fio era dinheire e eorton af 
relates amigAveis e comerciais entre Goa e o des- 
saiado de UspA. A sar-dessaina DurgA Bai Bonnsulo, 
viuva e administradora da PraganA de Cudale, do 
Bonnsulo, ligurando-se protectora do dessai de UspA, 
queixou-se das represulias portuguesas ao conde de 
Sarzedas, quo Hie den era resposta a resenha das inal- 
feitorias do sen protegido, declarando que no futuro 
proeederia com inaior rigor, se a sar-dessaina llio nao 
regulassc a conduta coin prudoncia. O dessai de 
UspA, alerrado com a atitude do vice rei, pediu-llie 
pordao dos agravos feitos e o restabeleciraento da 
araisade, que o conde de Sarzedas Ihe concedeu com 
a conditio de nao tornar a dar passagem pelas suas 
terras aos bounsuIAs. 


Nao passara, poreni, uin ano que o dessai assinara 
o acordo ; era Novembro de 1815 alguns ranes das 



236 


aldeias extra-muros de Bardcs ( Nadord, Revord e 
Pima) rebelaram-se contra o Estado e nilo s6 tive- 
ram bom acolhimento no dessaiado de Uspd, mas com 
alguma gente dcste dessaiado entraram em Bardcs, 
roubaram numa nonte a igreja de Revord,, feriram e 
mataram rauitos e levaram comsigo entre os prisio- 
neiros o proprio pdroco da igreja, o padre Aleixo 
Lobo, natural de Seruld, que foi deixaao em Avard, 
terra da jurisdifilo da sar-dessaina Durgii Bai, donde 
nito voltou seniio comprando o sen resgate por 5 rail 
xerafins, pagos ao dessai de Uspd. (') Sabido isto, 
o conde de Sarzedas cortou novamente todas as rela- 
tes com o dessai, raandou mar char tropas contra elc 
e queimar-llie algumas aldeias, e autorizou os coman- 
dantes de Perncin e Bardcs a moverem-llie toda a 
sorte de hostilidades. 

Neste estado de cousas, o conde de Sarzedas teve 
de entregar o govcrno da India ao seu sucessor o 
conde do Rio Pardo. 

No govcrnp do conde dc Sarzedas foram creadas 
cinco cadeiras de latim, sendo mna nas Tlhas e duas 
era cada um dos concelhos de Sal- 
Extin^ao do tribu- sete e Jiardcs ( 2 ) ; foi transferida a 

pela tUtinia vcz alhindega da cidade velha para 
Pangira ( 1811 ); o tribunal da 
Inquisigfto, que havia sido restabelecido era 1771), foi 
pela seguuda e ultima vez extinto era 1812 ( 3 ); e fa- 


(*) 0 padre Lobo foi mais feliz do que os sens companheiros 
na desgraga; porque fez valer a sentenga obtida em 1819 contra 
os sens agressores no govcrno de I). Manuel de Portugal e Castro 
e por 6ste mcio recupcrar tudo o que bavia perdido. Bpl. 1852. 
pag. 76. 

(*) Vid. cit. Noticia hist orica e Legislated d a Instrucfdo 
publica. 

(*) Dellon, Narraplo da Liqnisifdo de C .ia, trad, de M. V. 
de Abreu. 



237 


leceu o arcebispo Santa Catarina, assumindo o go- 
verno da diocese o lispo de Macau. D. fr. Manoel de 
S. Galdino. que era seu coadjutor. 

Comega agora a lenetica e justa governaguo dp 
vice-rei D. DiOg’O de Sonsa. conde do Rio Pardo, que 
tomou posse em 2i> de Novembro de 1816. 

0 conde do rio Pardo aliava a prudOncia e bora 
senso zelo e energia. Adoptando uma politica conci- 
liadora com os visinhos, nunca transigiu em assuntos 
que ofendessem a dignidade nacional. 

Intormado da serie.de roubos, assassinates o outras 
malfeitorias praticadas pelo dessai de Uspti, e, deter- 
minadamente. do arrebataraento do padre Jofio Mateus 
de Ataide, de Sirula, de Usnea Porobo, de Poralmrpd, 
e de muitos outros, o conde do Rio Pardo intimou ao 
dessai que sob pena de severe eastigo, restituissc em 
24 boras e sera tnais rdpliea os vassalos prisioneiros e, 
no praso de 30 dias, toda a fazenda roubada a Gles e 
ao vigdrio de Revora. 0 dessai nao obedeceu, raas 
deu uma resposta recheada de evasivas e de protestos 
de amisade, que lhe foi devolvida corao indigna de 
ser aceita pelo governo portuguCs ; e, era seguida, o 
vice-rei expediu uma forqa de 2.000 homeus as ordens 
do bravo coronel Joiio Caetano Galego da Fonseca, 
conhecido em Goa pelo nome concanitn de Itat-kalro, 
maneta, por ter perdido uma mao. Em Janeiro de 
1817, a nossa tropa atacou e tomou a casa-forte de 
Uspd, cuja guarnigao, vendo frustra- 
da a sua resistencia, fugiu para os Toniaila da casa- 
matos. 0 vice-rei mandou arrasar a * orte ** e 
praqa por n3o poder ser conservada 
com guarnigao suficiente e levantar uma fortificagao 
prdxima ao rio de Alorna. 0 dessai, depois de andar 
alguns meses embrenhado nos matos, solicitou o per- 
dao, que o vice-rei lhe concedeu, itnpondo condigoes 
onerosas e bem garantidas. 



238 


Pouco tempo depois desta brilhante cam pan ha, 
ievantou-se o dessai de Zambotim e procedendo do 
mcsmo modo como o de TTspA, pratreou nra roubo 
atroz era Yerom (Bardes), nas casas do negociante 
Dandd e vedou a passagem, pelo seu distrito, aos 
portiigueses que comerciavara com os Gates. Mas 
nfio foi preciso que as nossas tropas o fossem bater. 
Algumas medidas, que o conde do Rio Pardo adoptou, 
cortando todas as comunicajoes com ole, e o castigo 
exemplar que foi infligido a uns cinco salteadores 
presos, foram bastantes para que o dessai, aterrado, 
pedisse perdiio, restituindo prontamente urn prisio- 
neiro que levara da casa roubada era Ver6m. 

No fim do mesmo ano a sar-dessaina Durgii Bai, 
ofendida por quererem os portugueses levantar uraa 
Fortaleza ein Manenin no dessaiado de UspA, de que 
ela se julgava soberana, mandou, pelo seu dessai Sara- 
baji Saunto, praticar roubos e atrozes hostilidades ua 
aldcia portuguesa de Tiracol. 0 conde enviou 
contra a praqa de Karim uma expedi$Sio sob o 
comando do marecluil Manoel Godinho de Mira. 
0 nosso exercito sitiou a pra§a ’causando-lhe com 
a artelharia notAveis estragos; mas por falta de 
gente prdpria para os ataques e por causa da 
molcstia que acometeu aiguns oficiais, foi obrigado a 
levantar o asscdio. 

Kin 1818 foram transferidos para Pangira o tribu- 
nal da Relagao, a junta da Fazenda, a Contadoria 
geral c outras repartiqoes publicas; 
e em 1820 foram demolidos por es- 
tarem muito arruinados o palacio da 
Inquisiqao e o antigo palAcio dos 
vice-reis na velha cidade. 0 condo do Rio Pardo 
reorganizou e disciplinou o exdrcito, cortando vA- 
rios abusos que o desvirtuavam, e para Ihe faci- 
litar a instrujSo fundou a Academia militar do 



239 


Goa •('); organizou a seguran<;a piildica acabando com 
a pesada ditadura que a nobreza exercia sobre os povos 
de Goa, e introduziu reformas utcis era todos osramos 
da administrate, do que resultaram avnltadas econo- 
mias para a Fazenda. Por estas e outras iniitneras 
medidas, que decretou era beneficio do pais, principal- 
men te pelos actos da sua severa justi^a, e pela protec- 
gao que dispensou i\s classes desvalidas, foi conside- 
rado corao as deli etas da India Portiu/uesa (*). 

Contudo, era Setembro de 1821 revoltou-se a tropa 
e depos o vice-rei. Foi o caso: 

Chegaram a Goa alguns periddicos ingle; es e car- 
tas particulares vindas de Hengala e Pombaim, trazen- 
do a noticia de que el-rei D. Joao 6.", que se acliava 
no Rio de Janeiro, sancionara uiua nova constitui- 
£ao politica, proclaraada pela revolmjao patridtica do 
Porto, e quo nas edrtes de Jjisboa se prqjectava decla- 
rar benemeritos da patria os (pie nas provincias ultra- 
marinas a proclamassem. Alguns espiritos exaltados, 
descontentes com a governable do conde do Rio Par- 
do, que Ihes havia repritnido os abuses e as prepo- 
tencias, apoiados por outros, que polo sou sincere 
patriotisnio alraejavam uma nova era da regenerate 
e a liberdade politica do puis, fonnarani o projecto do 
proclamar a tnesnia constitui<;fio era Goa. 

O vice-rei, porem, intlexivel na observnncia da lei, 
nfio se resolvia a adoptar a nova forma de governo 
sem quo recebesse de Jjisboa ordens olioiais que es- 
perava ; e, entretanto, jsi havia tornado provideneias 
paraabafar qualqiter raovimento (pie porventura viesse 
perturbar o sossego do pais ; mas loratn baldados os 


p) Vide cit, SolicLi hisloriea c Legist anlo da Instruct do publica. 
( 4 ) M. V. de Abrcn, 0 Governo ilo Vicc-rci Conde do Kio 
Pardo. 



240 


sens esforqos. 0 tencnte-coronel de artelharia, Joa- 
quitu Pereira Marinho, o fisico-mdr Antonio Jos6 de 
Lima Leitiio, o medico indiano, Bernardo Peres da 
Silva, e inais alguns individuos, combinados com os 
desembargadorcs da Relagiio c com os dois marecbais 
do exercito, Joaquim Manocl Correia da Silva e (lama 
e Manoel Godinho de Mira, protnoveram uma insur- 
reiqilo militar. 

No dia 1 6 de Setembro, s\s duas horas e meia de tna- 
drugada, quatulo o vice-roi ainda estava a donnir, al- 
guns regimcutos cercaram o pald- 
Iteposto o vice- 0 j 0 t [ 0 <r t , V erno, levantando vivas a 

ila a coiistitui- consutmyao, o os dois rnarecnnis, os 
^sio dois desembargadorcs prosentes, e 

o Itsico-mdr, acompanliados de uru 
trdgo de soldados, cutraram no palacio arrotnbando 
as portas c intimaram ao vice-rei, quo eneontraram 
ja vestido do seu uniforme de eapitfio-general, que 
o povo e a tropa queriam a constituiyao e (pic o seu 
governo estava assim Undo. 0 vice-rei limitou-sc 
a responder-lhes quo nestas circunstancias Cde nada 
tinlia que disscr. 

Sendo preso, foi mandado escoltado, mas com o 
inaior respeito, para o palacio do Cabo, tomando con- 
tas do governo uma paite dos principals chefes da 
rcvolta. O conde do Rio Pardo licou recluso no Cabo 


ate 2 de Outubro, em que embarcou para Bombaim. 

Se a ambiyao e os despeitos nuo andassem adiante 
do patriotistno, os nossos liberals teriam esperado 
poucos dias e conseguido o regimen constitucional 
independentemente da revolu^iio militar c da deposi- 
qfio do vice-rei, que o pais unuca pediu e que o deixou 
engolfado numa completa anarquia. 

Km Kcverciro do 1S22 o conde do Rio Pardo, quo 
coutinuava a estar em Boinbaim, voltou a Goa sendo 
recebido com as lionras devidas a suu alta diguidade, 



241 


e jurou a eonstitniqao ; o em Margo partiu para a Rio 
de Janeiro na oliarrua Laconia , cm quo vicra o sou 
sucessor. 


1.‘ Junta Provisional 


Do 17 de Setembro o 3 de Dczcmbro do 1821 


Deposto o bcnemerito vioe-roi comle do Ivio Pardo 
e proclamada a constituignn, instalou-se a Junta Proni- 
sionnl do (fornrno. eomposta do oinoo mcinbros: o 
consollioiro Manocl Jose (ionics Lourciro, os mare- 
eliais Manocl Godinho do Mira c Joaquim Manocl 
Correia da Silva o (lama c os desombargadorcs Gon- 
galo do Magalhucs Tcixeira Pinto e Manocl Duarte 
Lcitiio; (icando cxcluidos da lista o arccbispo de Oran- 
oanor 1). fr. Paulo do Aquino, quo cntfio residia em 
Goa ('), c o fisico-tnor Lima Lcitfio, os quais deviam, 
tambcm, fa /.or parte do govdrno, constituindo-se a 
junta do sole membros, na forma do quo sc achava 
acordado entro os conjurados. 

Kata oxclusilo crcou dcscontcntcs, que desde loi^o 
comcqaram a conspirar. 

Km 1 do Outubro a junta provisional convocou mnn 
assoinbica compost. a das o/i maras municipais de Sa 1- 
sotc, liardes c lllias, cbclcs dos corpus milt tares, 
cclesiasticos e magistrados, a qual resolveu que, se 
viessc nomeado o sucessor do conde do Rio Pardo (*) 


(*) Foi depois sagrudo cm 4 de Margo de 1825 pelo Arcebispo 
S. (Jaldino na igreja do Uold^io do S. Tomsie de Aquino. 



242 


com o simples titulo de capitao -general ou de 
vice-rei, on outra qualquer patente passada na forma 
do costume, nSo f6sse reconhecido como govemador, 
mas que Ihe fosse oferecida apenas a presidoncia da 
junta provisional; e que fdssem eleitos deputados t\s 
cortes, sendo exclufdos do voto “ os gentios 

Em 18 de Outubro a junta publicou uma promoQfto 
concedendo postos de acesso a alguns oficiais milita- 
res, preterindo os outros que se julgavam com igual 
direito, e no dia imediato declarou benemeritos da 
pdtria nao s<5 os que tiuham concorrido para se procla- 
mar a constitnigao, mas todos os railitares, pelo fun- 
damento de terera mostrado adesao e fidelidade Jv 
causa da regeneraqao ; e dissolveu a guarda natio- 
nal, que tinha creado logo depois da revoluqao, con- 
servando os vencimentos era reis fortes sdraente &s 
pragas europeias. Todas estas raedidas aumentaram 
o numero dos descontentes e compremeteram a esta- 
bilidade da junta. 

Neste estado de cousas, a legiao de Bard^s, tendo 
sabido que a junta projectava dar uma nova orga- 
nizagao & tropa, dissolvendo alguns regimentos, re- 
voltou-se e saindo dos seus quarteis de Colvale, na 
noite de 23 de Outubro, sob o comando do tenente- 
-coronel Joaquim Jose Pinto de Gouveia, dirigiu-se a 
Verem, outra banda de Pangim, apoderou-se da praga 
da Aguada e do forte dos Reis-Magos e ameaqou vir 
atacar a capital. 

A junta provisional, depois de fazer alguns prepa- 
rativos para a defesa da cidade, tratou de indagar po- 
sitivamente o motive da revolta e, sabendo que era o 
receio da dissolugfio que impelira a legi&o de BardSs 
a fazer aquele movimento precipitado, mandou um 
emissdrio a Verdm, o brigadeiro Antdnio de Melo 
Souto-Maior Teles com a portaria de perd&o aos 
revoltosos e para Ihes assegurar da parte do gov&rno 



243 


que os boatos da reorganizagfto nao tinham fundamen- 
to ; com o que todos se recolheram aos seus quart6is. 

No dia 25 de Outubro, foram presos, por ordem da 
junta, o fisico-mor Lima Leitilo, o tenente-coronel 
Marinho e alguns oficiais do exercito, e foi nomeado 
o desembargador Antdnio Monteiro da Rocha para 
proceder a uma devassa em Bardes sobre os motins 
ocorridos em algumas das tropas. 

Nos fins de Outubro, a junta reorganizou o ex6rcito 
dissolvendo as duas legioes de Ponda e Bardes for- 
roando de toda a for<;a 7 batalhoes de infantaria e um 
regimento de artelharia; com o que ficaram diminui- 
dos 1318 combatentes. 

Entretanto a devassa de inconfidencia fazia name- 
rosas prisoes e crescia o descontentamento em todas 
as classes, raesmo entre os que haviam concorrido 
para a exalta^ao da junta. 

Nestas circunstancias chegou a 25 de Novembro 
D. Ufanoel da C&mara, nomeado, antes de ser proclamada 
a constitui§aoi no reino, governador e capitao-general 
da India. Os influentes do partido descontente foram 
logo persuadi-lo a nao fazer parte da junta provisio- 
nal, pretextando incomodos de saiide, at6 que, por 
meio duma nova revolu^ao, substituissem essa junta 
por outra ; o que realmente conseguiram em poucos 
dias. 


Segunda Junta Provisional 

De 3 de Dezembro de 1821 a 18 de 
Outubro de 1822 

Oito dias depois da chegada do novo governador 
efectuou-se a deposig&o da junta provisional, cuja vida 
os despeitados minavam ha muito tempo. 



244 


0 tenente-coronel Mariniio o o fisico-nior Lima 
Leitao, a-pesar de estaroin proses, esto na Aguada c 
aquele no forte de Naroa, pudcram entrar em com- 
binayoes secretas entrc .si e, ajudados do vsirios indi- 
viduos roiiitares e paisanos, iixeratn rebcntar tuna 
nova revolugilo, concorrondo para isso aiuda o olc- 
inento popular. 

Na noite de 2 dc Dezcinbro, algunseorpoa mili tiros 
marcharam so I ire a capital soli <> oomando do briga- 
deiro Antonio do Molo, pondo-sc a testa do regimen to 
da artelharia, de fine era cmnandanlo, o toneute- 
-coronel Mariniio. quo na niesma noite so evadira da 
prisiio, e, cercadas as casas dos Ires principals membros 
aa junta governativa, esporarain aid quo aiuanlieoosso 
o dia 3, em quo unia depulatjao juntamonte com a c.t- 
inajra municipal de Salseto, quo tra/.ia tuna roprcs.m- 
tayao assinada por urn grande nt micro tic pessoas 
principals dcsse coucelho, I’orain pcdir a I). Mauool da 
Camara que tomasse a dirocyao para so instalar tuna 
nova junta provisional, segundo o uspirito da consti- 
tuipfio Portuguese, quo todos liaviatn j tirade. 

L). Manuel aparowou no palaeio, acoinpanliodo de 
nutnerosos oliciais militares e tie quasi lodas as nol-a- 
bilidades do pais e, rounidosem assetnldea o areo'dspo 
primaz e outros altos funciouarios o as camaras mu- 
uicipais das lllias, Salsete e Bardos, convidados para 
a iustalayllo do novo governo. dcclararani exlinta a 
junta elcita em 1(5 do Setemliro e elegeram outra. 
composta de l). Manocl coino presidente, e dos vogais 
1). fr. I’aulo de Aquino, arceliispo do t'rangauor; 
Antonio de Melo, brigadciro ; .lone Carlos Leal, dos- 
ciubargador ; Lima Leitao, I'isico-mdr, quo, em couso- 
qiicncia da ordeiu de soltura, voltou da Aguada e 
assinou a acta da elciyao. 

A nova junta, logo depois da sun instalaeao, niandou 
retirar as escoltas que cercavam as casas dos uicuibros 



da junta transacta e den por terminada a devassa 
aberta pelo dcsembargador Rocha, pondo era liberda- 
de todos os iudividuos que se achavam presos era 
resultado dela. 

Em 8 de Dezerabro I’oi convocada uma gssemblea 
raais ampla, que contirruou a eleigfio da junta, feita era 
3 de Dezerabro, combatendo assirn a opiniilo que ata- 
cava a sua legitim idade ; e deliberou que fosse abolida 
corno anticonstitucional a diferenqa do soldo entre as 
pranas europeias e indigenas e que fossem creadas 
corapanhias de grariadeiros. uma era cada batalhao e 
a de bombeiros na artelharia (*). 

A 22 de Dezerabro coraegou a imprirair-se, nuraa 
tipografia trazida do Bora bairn e inontada no andar 
inferior do pal.icio do govOrno, uma t'olha oficial com 
o titulo de “ Gazeta de Goa, ” cuja redacgao foi in- 
cumbida ao dr. fisico-radr Lima Leitiio (*’). 

Era 14 de Janeiro de 1822 reuniu-se uma assem- 
bler dos eleitores sob a presidencia do padre Paulo 
Antonio Dias da Couceigiio nos pagos 
do senado da Camara de Goa e ele- Priiueiros ilepu- 
geu deputados ;\s cbrtes Bernardo tados 
Peres da Silva, Constancio Roque da 
Costa e o dr. Autdnio Jose de Lima Leitiio ; os quais 
chegaratn a Lisboa era 1823 justameute quando el-rei 
D. Jofio 6.’, restaurando o governo absoluto, dissolvia 


(*) M. V. de Abreu, Relafiio das A! /dracoes politieas de Goa, 
desdc J6 de Setembro de 182 1 ate 18 de Outubro de 1822. 

(*) Francisco Joan Xavier, Breve Nolicia da Imprcnsa Na- 
tional. A Gazeta de Goa foi o primeiro periodico neste Estado. 
Desde entao o jornalismo tem side uma arvore frondosa, havendo 
curios as publicat;dcs para a sua histbria, de Ounba Rivara, Ismael 
Gracias e Antonio Maria da C'unlm. Em Maio de 1898 Silva 
Leal publicou em Lisboa, comemorando o centeuario da India, 
urn opiisculo iutitulado Jornaes mlo-portuguczes, onde nao silo 
infelizmcnbe poucas as inexactidOes. 

16 



246 


as cortes. Bernardo Peres protestou contra essa 
dissolug3o e Constancio Roque da Costa dirigiu a el- 
-rei algumas representagoes era beneficio do pais (*). 

Para substituir o dr. Lima Leitiio na junta provi- 
sional foi eleito o capitao de mar e guerra Joaquim 
Mourao Garces Palha. Esta eleito, feita por uma 
assembleia composta de elemento oficial, sufocando os 
votos do povo e desatendendo as representagdes da 
cdmara de Bardes e de vdrios proprietdrios, — bera 
assim alguns outros actos da junta contrdrios 3 consti- 
tuigao jurada e que redundavam particuldrmente era 
prejuizo dos interesses desse concelho, exacerbaram o 
espfrito publico por tal forma, que os influentes de 
Bardes, incitados pelos membros e partidarios da 
junta deposta, comegaram a convocar reunions era 
diversas alddias para se tracar do assunto. 

0 govSrno, receoso de qualquer movimento, maudou 
ao desembargador Joao Maria de Abreu Castelo 
Branco abrir devassa de incoufidencia em Bardes ; em 
resultado da qual foram pronunciados o tenente-co- 
ronel Josd de Assa, comandante das milicias de Bar- 
des (europeu e cunhado do marechal Godinho), o padre 
Pedro Antdnio Ribeiro (natural de Pilerne e profes- 
sor de filosofia no coldgio por ele estabelecido nessa 
freguezia), o padre JoSo Mariano Cardoso, natural de 
Oandolim e vigdrio encoraendado de Pangim, o advo- 
gado Eusebio Mariano Goes, de Caiangute, e varias 
outras pessoas. Aldm disto o governo desarmou o 


<*) A relag&o de todoa os deputados as cortes, elcitos pelos cir- 
coloa da India ate 1873, eacontra-se em M. V. de Abreu, Nolicia 
de alguns filhos distinctos da India Portugueza. Vide am artigo 
pnblicado a pag. 200 do Almanaque Annuario recreative para 
I 898 , sob a epigrafe: Os nossos deputados as cortes desile I 877 . 
No cit. livro Goa sob a Dominat-ao portugueza vein a lista com- 
pleta atdT 1897. 



247 


regimento das milicias de Bardes compoato de oficiais 
e soldados naturais deste concelho, colocando em 
Guirim (ponto central) um forte destacamemto. 

A pronuncia e as escoltas para a captnra dos pro- 
nunciados agravaram extreraamente o desgosto dos 
bardesanos, levando os indiciados qudsi ao desespero. 

Pois, na noite de 9 de Maio de 1822 una 500 ho- 
mens mal armados e divididos em dois grupos, capi- 
taneados um pelo tenente-coronel Jos4 de Assa e o 
outro pelo padre Pedro Ribeiro, marcharam s6bre o 
quartel de Colvale, esperando toraar de surprSsa, ou 
talvez, em virtude de alguma eombinagao precedente, 
o batalhao ali estacionado e com o seu auxilio derru- 
bar a junta governativa e constituir uma outra. Mas 
n&o sd n5o conseguiram o fira, pelo contrdrio, o tenen- 
te-coronel Assa com 112 hornens, entrando neste 
mimero alguns eclesidsticos, foram ali presos, tendo 
escapado os outros com o padre Pedro Ribeiro, que se 
refugiou em Malvane. Os presos foram postos k 
disposij&o do juiz da devassa, que terminou pronun- 
ciando 40 deles, qudsi todos da classe ilustrada de Bar- 
des inclusive 8 padres ( l ). 

0 facto de se encontrarem entre os amotinados o 
cunbado do marechal Godinho, membro da junta an- 
terior, e alguns cldrigos, fez persuadir a tropa de que 
o movimento era inspirado pelo marechal e pelo arce- 
bispo S. Galdino. 

Em sua conseqiiencia, no dia 16 de Maio apresen- 


Q) Ficaram eetes politicos presos por am- ano e 8 meses tendo 
paasado ultimamente das diferentes prisfies para a praja da Agna- 
aa, enoontrando-se entre 61es os mais fogosos entnsiastas Ens6bio 
Uariano Goes, Joed Paulo Lobo, Anutaio Filipe Rodrigues e Gae- 
tano Xavier Fnrtado. 

0 p&rooo de 8. Marias, Antdoio Jose de 3&, que bambdtn fdra 
prononeiado, homirion-ee. 



248 


tou-se diante do palacio do governo toda a t’orqa ixiili- 
tar da capital com 6 pe$as carregadas i\ raetrallta, 
exigindo que a junta expulsasse de Goa em 24 lioras 
os principals motores da insurreirfio de llardes, ale- 
gando que estas e outras perturbagnes, desde 3 de 
Dezembro, canqavam a tropa com marchas e contra- 
marchas e deixavam em grande susto as faunlias prin- 
cipais do pais. 

0 governo, cedendo a esta exigcneia, mandou sair 
do territdrio portugucs os individuos indicados pela 
tropa e que foraiu o mareclial Correia, o tenente- 
-coronel Luis Manoel Correia de Melo, o consellieiro 
Loureiro e os desembargadores Magalhdes, Rocha e 
Abreu, ticando salvos, pur empeuho do arcebispo de 
Cranganor, o mareclial Godinlio e o arcebispo S. Gal- 
dino, que, a-pesar disto, teve deir, pouco depois, fixar 
a sua residencia em Sunquerim ('}. 

Depois ilesta violenta medida, contra a qual pro- 
testarara os expulsos, os quatro membros da junta, 
queixaudo-se de coaegao, ot'ereeeram a sua demissao 
iuais duma vez ; mas a tropa nao a aeeitou. Era ja 
I'rancamentc a vontade da tropa (pie ruandava. 

A expulsdo dos desembargadores e doutros funcio- 
narios do pais, longe de por termo as desordens, veio 
a ser uma renliida questao entre o 
Assassinato de excrcito e os partidarios dos depor- 

liuis Prates tados, a qual, principiando por ma- 
nifestos e protestos, produziu uma 
grande exalta<;;1o dos espiritos, que deu em resultado 
novas deportayues e finalraeute a raorte do capit-Io 
Luis Prates de Almeida e Albuquerque, oficial-maior (*) 

(*) Pela desasbrosa expulsao de quasi todos os magistrados a 
junta provisional nomeou os advogados Cipriano Silverio Rodri- 
gues Nunes, Joaquim Mariano Alvaros, e Andre Francisco de 
Bragan$a, ouvidores das 11 lias, Salsete e Jlardus respectivamente. 



249 


da Secretaria Geral e redactor da Gazeta de Goa; 
o qua], por sustentar doutrinas liberais e ter redi- 
gido urn protesto condenando o tuovimento de 16 
de Maio, caiu do desagrado do exdrcito e foi assassi- 
nado barbaratnente pela coinpanhia dos granadeiros a 
15 de Julho, era pleno meio dia, quando aquele bravo 
oficial se recolhia de PaDgim para a sua residencia 
era Ribandar, passando pela frente do quartel dessa 
corfipanhia a poucos passos do paldcio. Do processo 
instaurado por 6ste facto nslo resultou culpa a nin- 
guem ! C) 

Fiualmente, em conseqiiencia dura decreto das c6r- 
tes e de provisao regia, dissolveu-se a segunda junta 
provisional a 18 de Outubro de 1822 e principiou a 
govemar sosinho D, Manoel da Camara ( 1822-25), 
que, em Noverabro de 1823, tendo recebido a noticia 
do restabelecimento do regimen absoluto era Portugal, 
assumiu o governo sob a antiga 'forma, que exerceu 
tranqiiilaraente, com o titulo de vice-rei, ate a sua 
raorte, ocorridai no Cabo no dia 16 de Novembro 
de 1825. 

Durante a gerencia deste governo, os deserabarga- 
dores expulsos que residiam em Malvane partiram 
para Lisboa, e voltaram os oficiais 
deportados e o arcebispo S. Galdino; m-esos e^pro- 
forara tambem postos em liberdade * nuuciados 
todos os presos politicos, sendo 
aplicada aos pronunciados a amnistia concedida por 
decreto de 5 de Junho de 1824. 

D. Manoel prendeu os ranes e os sar-dessais de 
Querim e Gululem na praga da Aguada, por causa 


(') Cit. Relafda das Alterafdes polilicas, — J. 0. Barreto Mi- 
randa, Quadros hisloricos de Goa, cadcrneta 3.*— e varias outras 

• 


!•* 



250 


ilas desordeus que praticaram, e destruiu-lhes as 
casas-t'ortes na provincia cle Satari ; iftstituiu as lota- 
rias da Misericordia e o raonte-pio railitar- eomo esta- 
beleciraento particular ( l ). 

( 1825-27 ) — Depois da morte de D. Manoel da 
Camara go verna ram por via da sucessao o arcebispo 
D. Fr. fifanoel de S. GaldiljO, o chefe de esquadra Caijdido 
Jose Mourao Garces Palha e o deserabargador Ouvidor 
Ceral Autdnio Hibeiro de Carvalho, ate ao dial) de Outu- 
l.ro de 1S27. 


CAPiTULO XXI 


1827-1851— Transformacjao de Pangim 
em uma vila ; regime de prefeitura, re- 
voltas, desordens e dois governos 

D. Sfanoel de Portugal e Castro, ( 1827-35), que, dois 
aims depois da sua posse, teve o titulo de vice-rei, 
principiou a governar a India em 9 de Outubro 
de 1827. 

Empregou todos os seus esforgos em raelhorar as 

( oiistriicoes e condii;6es higienicas e materiais da 
melliorniiieutos cidade de Pangim, nivelando o ter- 
materiais em reno e aterrando os esteiros e as 

Pangim varzeas de arroz, que conservavam 

aguas estagnadas no centro da povoagao. 

Forara no seu tempo construidas algumas pontes, 


(’) Vide adiante o govvrno do vice-rei D. 'xaaoel de Portugal 
c Castro. 



251 


duas das qaais^edbre o brago do rio na extremidade 
ocidental da capital, conduzera ao amplo passeio ar- 
borizado, chamado o campo de D. Manoel e vulgar- 
mente conhecido pelo norne de Campal , que foi o 
tiltirno pftntano que o vice-rei mandou entulhar e afor- 
mosear. 

Abriram-se, tamb^m, largas pranas e ruas margi- 
nadas com alguus ediffcios particulares e ptiblicos, 
entre os quais se podem mencionar o vasto quartel 
militar, a casa da alfandega com o seu cais, a fonte 
denominada Cabega de vaca e a antiga cadeia publi- 
cs, de dois andares, s6bre o quartel dos granadeiros, 
edificio que foi demolido em 1891, levautando-se em 
seu logar as casas, onde, presentemente funciona o 
tribunal da 1." instancia. 

D. Manoel creou cinco escolas de instru§flo prirad- 
ria (*), reorganizou o exdrcito e, melhoraudo o soldo 
dos oficiais, obrigou-os a terem o curso de matemd- 
tica da Academia militar, para serem promovidos a 
1.* patente. Fundou a biblioteca pu- 
blica de Nova Goa, seudo o seu fun- Farias pro- 
do constituido com os livros dos ex- videncias 
tintos conventos (*). Organizou um 
corpo volante de seis companhias de sipais incluindo 
a dos mouros, que guarnecia a sala do paldcio em 
ocasides de cortejos ; e agregou k Fazenda publica o 
monte-pio militar ( s ). 

0) Git. Noticia e LegislafSo da Inslrucfdo publica. 

(*) 0 Relatorio da Bibliotheca Publica de Nova- Goa, dado 
pelo bibliotec&rio Ismael Gfracias em 15 de Setembro de 1892 
(suplemento ao Boletim Oficial, no. 0 123 do mesmo ano), da 
desenrolvida noticia da fundafio e progresso dfisse ntilissimo ins- 
titnto, unico no sen gdnero em todo o Ultramar portuguds. 

(*) Extinto o monte-pio militar da India por decretode 80 de 
Abril de 1874. Em Goa t6m-ae fandado mnitos estabelecimentos 
de beneficdnoia e indtuo auxilio, sendo o mais antigo o monte-pio 



252 

ftste vice-rei, embora tivesse empregado na execu- 
(fio das obras de Pangim a mellior boa vontade e tal- 
vez as rnais activas diligencias, duo ficou isento de 
graves acusagoes, e utna censura oficial o increpou 
de haver despeudido os dinheiros publicos sem a de- 
vida econornia e fiscalizagao, pedindo-lhe restritas con- 
tas do sen procediraento. Pode-se dizer, porem, quo 
foi D. Manoel quern creou a antiga vilade Pangira ( 1 ). 

A 18 de Outubro de 1827 foi jurada na cidade de 
Goa a carta constitucional de 1826 e aclamado D. Pe- 
dro 4.° rei de Portugal. Pouco 
^ta^nnstit^ depois D. Manoel, aceitando, sera 
clonal 'em Goa nenhuma preocupa$ilo politica, o re- 
gimen que se estabelecera no reino, 


geral fie Goa, fundado cm 18»>1 pelo nosso eminent* 1 compatriots, 
Bernardo Francisco da Costa. 

(*) I). Manoel de Portugal e Castro, logo no comedo do sen 

governo receon quo no fitturo ficassn totalmcntc abandonada 
e dcstruida a cidade dc Goa , sem haver outra que a subs- 
titute. Para prevenir tfto grande mal escollieu como centro 
das novas edifica^oes Pangim, pobre logarejo da aldeia de Taleigao, 
onde ocultava na beira do rio a fortaleza do Idal-Khan, que servia 
de residencia aos governadores. [<co imports va a mudanga da 
cidade, e escassos cram os meios de quo dispunha D. Manoel para 
empresa tao gigantcsca. Em vez de -‘smorecer redobroude energia, 
e dapois de nivelar os outoiros, os esteiros, as varzeas; entulliar 
os charcos donde emanavam gases mefiticos, principiou a 
constru^ao de faraosos edificios para as reparti yoes piiblicas, 
quarteis, escolas, formaudo ruas espa«;osas, pragas, cais, etc., para 
o que recorreu ao cofre do senado da camara das Ilhus, ao das 
comunidades agricolas e ao da fazenda publica. despendeudo nas 
obras o total de 878.574 xeratins freis 140:5718840). 

0 proprio senado da Camara, 

na conta que deu para a corte era 1830, diz que tais obras erarn 
inuteis, caprichosus e ate superfluas, teitas com pouca econornia e 
sem fiscalizagao. A censura oficial, tarabem, nao se fez esperar, 
increpando-o de haver exorbitado e pedindo-lhe restritas contas 
do seu^procediroento. Cit. T. de Ar.tgfio da* moedas — 

Vol. 3.°, pag. Ct e 65. 



263 


aclamnu I). Miguel, mas apenas teve conhecimento 
do ter euirado oin Lisboa o cxdrcito libertador, fez a 
aelamayao da rainlia constitucional I). Maria 2.“, a 10 
de Janeiro de 1834. P. Manoel reconhecia como 
soberano legitimo todo o prineipe que aubia ao 
l.rono. 

Etn Janeiro de 1835 veio governar a India B6F- 
qardo Peres da Silva, natural de Neurd, das lllias de 
Goa, boineni inteligentc, honesto e apreciado pelos 
sous services ao pais como medico e como deputado t\s 
cortes ('). A ana nomeaquo foi devida ao seguinte 
facto : 

Bernardo Peres, tendo sidojeleito, pelu segunda vez, 
deputado as cortes pela India em Pezembro de 18:17, 
chegou a Lisboa ao tempo cm que D. Miguel, procla- 
mando-sc rei absoluto, dissolvia as cortes. 

U deputado protestou, como da primeira vez, contra 
essa dissolugilo e, perseguido pelo governo, emigrou 
para Plymouth na Inglaterra. Uma vez ali, sabcudo 
que na reunido dos tres Estados, convocada pelo usur- 
pador, urn frade irrequieto se apresentara com itnpu- 
dencia como procurador dos povos de Goa, publicou 
um endrgico e substancioso protesto, que, ecoando 
por todas as c6rtes europeias, lbe valeu um renome 
distinto (*). De Plymouth seguiu para o Rio de Ja- 
neiro, Onde passou a vida dando li<;ues do ensino pri- 
mdrio. 


P) De Bernardo Peres da Silva existem biografias escritas 
por Julio Gongalves na llustrafilo Goana, — Barreto Miranda no 
Arcluvo Pittoresco, — M. V. de Abren na oit. Xofuo de atguus fi- 
Ihos distindos da India Portuyueza, — e por Ismael Gracias uo 
Direclorio Gdano de 1896. 

(*) Este protesto estit intercalado pelo antor no seu folheto 
publicado no Rio de Janeiro em 1832 sob o titulo Dialogo entre 
um doutor em philosophiac um portuguez da India aobre a 
conslituifdo polilica de Portugal. 



254 


Firmado o govern o de D. Maria 2.*, o duqne de 
Bragan$a D. Pedro 4.°, na qualidade de regente, que- 
rendo recompensar a inabaldvel fidelidade e ades&o de 
Bernardo Peres k causa da rainha e da carta, nomeou- 
•o Prefeito do Estado da India (*), segnndo a lei das 
prefeituras protnulgada pela Reg&ncia da Terceira, 
com o ordenado de 20,000 xeranns e com a auto- 
rizag&o para nomear ou demitir empregados de 
nomeag&o rdgia e fazer todas as reformas qne enten- 
desse. 

Mas foi am passo errado : porque a India, dividida 
em castas e fracqoes inconcilidveis, debatendo-se ao 
tempo entre liberais e miguelistas, nSo podia eficien- 
temente ser governada por am indigena, embora 
muito competente, e menos ainda aceitar as reformas 
radicals do governo da restaurajao, que Bernardo 
Peres vinha incnmbido de executar. Era, pois, a 
administragao erigada de sdrias dificuldades (*). 

0 prefeito trouxera em sua companhia para a 
India, como pessoa de sua contianga, o coronel Fortu- 
nate de Melo (europeu ), nomeado governador militar 
por sua proposta; e, logo que tomou posse do governo, 
a 14 de Janeiro de 1835, nomeou para secretdrio da 
prefeitura o seu ex-colega na deputa^So, Constancio 
Roque da Costa, e para conselheiros, o marechal 
Joaquim Manoel Correia da Silva e Gama, o briga- 
deiro Antdnio de Melo e o comendador D. Jose Maria 
de Castro e Almeida, todos tres representantes da 
primeira nobreza do pais. 


(*) Correspond ia ao qne se chama governador civil. 

(*) 0 regime das profeifcnras den-se mal em todas as colonias, 
havendo revoltas e desorJens em Cabo Verde, Angola, Mozam- 
bique e S. Totnd e Principe; mas em parte algnma f 6z correr tan- 
to sangne como na India. 

Yid. j Colonias portugueeas por P. Chagas, pag. 68. 



255 


Em seguida comegou a fazer rasgadas reformas em 
todos os ramos da administra$&o ptiblica e, executan- 
do os decretos que trazia, mandou 
reverter os funcion&rios providos em Keiormas 
nome de D. Miguel, f6z efectiva a extin$ao das ordens 
religiosas e do tribunal da RelagSo, nomeando para 
comp6r o novo tribunal de segunda instancia, denomi- 
nado Junta da justiga, Manoel Maria Souto e Silva, 
ex-desembargador da RelagUo, e os advogados indige- 
nas Oasimiro Antdnio de Menezes e Antdnio Caetano 
Pacheco e os desembargadores da Relagfto eclesi- 
dstica, padres Antdnio Jose de Sd e Berardo Pe- 
reira (*). 

Rebentaram logo os despeitos; e os lesados, unidos 
aos facciosos, secrdtamente auxiliados pelo governa- 
dor militar Fortunato de Melo, cercaram com tropa 
a residencia do prefeito em Panelim 
em a noite de 1 de Fevereiro, e, DeposigUo do 
conduzindo-o sob custddia para a prefeito 
corveta Infanta Regente , proclama- 
ram governador a D. Manoel de Portugal, que ainda se 
conservava em Goa, quern sabe se k espera deste 
sucesso. Para a rdpida explosSo dos ddios concorreu 
muito a noticia da morte de D. Pedro 4.°, que um dos 
motores da revolta soube por jornais iugleses de 
Bombaim que recebia, noticia totalmente ignorada do 
prefeito. 

D. Manoel assumiu efectivameute as rddeas do go- 
vdrno, mas, dois dias depois, convocando uma assem- 
ble^, fez eleger em seu logar o marechal do campo. 
Joaquim Haqoel Correia da Silva e Gama, a quem, na quali- 


PJ P*. Antdnio de Si era piroco da egreja de Parri, chefe do 
partido popular de BardOs e jurisperito. 



2f>6 


dade de primeiro consellieiro da prefeitnra, perten- 
cia, segundo a lei, o govern o do Estado na falta do 
prefeito. 1). Manoel, embora conivente com os sedi- 
ciosos segundo todas as probabilidades, mas dotado 
de boas qualidades de espirito e de corafAo. nflo quis 
infringir a lei e ao mesino tempo livruu o prefeito de 
maior desacato. fazendo-o jiartir. dias depois da depo- 
si<;ao, para Bombaim. 

Nile t’oi mais t’eliz a administrate do marecbal 
Correia. Em 10 de Fevereiro o l.°regimento de in- 
fantaria e o batalhfio de artelharia. estacionados na 
capital e coiuandados respectivamente pelos majores 
Francisco Antonio da Silva Pimeuta ( europeu ) e 
Luis da Costa Campos, descendente duma principal 
familia, fizerain uni inovimento contra-revolucion.irio, 
pedindo a reintegrate de Bernardo Peres, que ja se 
acliava na cidade visinha. 

0 marecbal Correia reuniu logo as trC-s camaras 
uinnicipais e todos os funciomirios, e conformaudo-se 
com a deliberarao tomada cm assrableia, enviou mna 
deputa^fio a Bombaim para convidar o prefeito a 
reassumir o governo. 

Mas a maioria da tropa, que nilo queria o prefeito. 
revoltou-se cm 3 de Maio e apoiada por Fortuuato de 
Melo. ja t'raucamente adverse a Bernardo Peres, sur- 
preendeu o arsenal em Co a, roubou os petrechos e 
tendo marebado no Jia imediato sobre a fortaleza do 
Caspar Dias, atacou o l.° regiinento 
Cam i tic ilia ile ali aquartelado composto de pranas 

Caspar l>ia> nn timior parte europeias e descen- 

dentes de europeus e o destruiu 
todo, depois de cometer as maiores atrocidades, 
sendo nessa ocasiao incendiada a pra$a e deportados 
os comaudantes para os pontos muito afastados 
da capital. O bn ta Ilian do artelharia aquartelado no 
Cabo escapou a carniticina, vindo apresentar-se de- 



257 


sartnado ao govemador militar, conforme Gate lhe 
havia ordenado (*). 


Governo Provisional 

De 3 de Manjo de 1833 a 23 de Novembro 
de 1837 


Logo depois do massacre de Gaspar Dias, os prin- 
cipal insurgentes reunirara-se no pal&cio de Pangim, 
depuseram o govemador Correia e elegerain um 
govGrno provisional, coinposto do coronel gradnado 
JoSo Casimiro Pereira da llocha de Yasconcelos, do 
fisico-mor Manoel Jos6 Ribeiro e do frade capucho 
fr. Constantino de Santa Rita, pai dos cristilos. 

Passados alguns tneses, o falecimento deste tiltimo 
deu logar a compor-se o governo de cinco membros 
sendo agregados aos dois existentes o coronel JoSo 
Cabral de Estifique, o tenente-coronel Antdnio Maria 
de Melo e o desembargador Joaquim Antdnio de 
Morais Carneiro. Pouco tempo depois, deixando de 
fazer parte do governo o desembargador Carneiro e 
tendo falecido o fisico-radr Ribeiro, foram eleitos, para 
o preenchimento das duas vagas, o secretdrio do go- 
verno Antdnio Mariano de Azevedo, de origem brazi- 
leira, recentemente chegado de Lisboa e Jos6 Antonio 
de Lemos, major engenheiro de Goa, e am bos Gates 
nSo se conformando com as deliberates tomadas pelos 


C) 0 marechal Correia governou de 3 de Fevereiro a 3 de Mar$o 
de 1835. 



258 


seas colegas, abandonaram o poder, ficando a gerGncia 
dos negdcios a cargo dos tros restantes. 

Durante esta calamitosa e despdtica governanja por 
espaqo de qudsi tros anos, o povo de Goa, como adeso 
& causa do prefeito, foi vitima da mais vergonhosa 
persegui^flo. A tropa cercava e invadia as casas par- 
ticulares a pretexto de estar oculto nelas algura sedi- 
cioso ou algum armamento, roubava as joias e raal- 
tratava os habitantes. 0 terror espalhado e a falta de 
seguranfa pessoal obrigavam os principais cidadfios 
a emigrarem para o estrangeiro ou a viverem escon- 
didos era sitios ermos. Era suraa, o pais qudsi todo 
gemia sob a opressao e violoncia. 

Nesta situaqao, o prefeito que contava com o apoio 
do pais e da guarnigao da fortaleza de Tiracol, no 
intiiito de vir reassumir a sua autoridade em Goa, 
saiu de Bombaim A testa de uma expedi§5o preparada 
nesta cidade e comandada pelo alrairaute americano 
Holborn ; mas, colhido no trajecto por ura ciclone, 
que lhe dispersou as embarcagoes, foi outra vez arri- 
bar a Borabaim. 

Entretanto, poucos dias antes do malogro da expe- 
dijilo, a fortaleza de Tiracol havia sido sitiada pela 
tropa revoluciondria. A guarniqilo, 

Tiracofc^OuIu- na ° P 0( ^ en ^° lutar com a ^ a ^. a 

lem * niantimentos, decidiu-se a abrir as 

portas aos sitiantes, depois que um 
dos comandantes dos revoluciondrios, Francisco Vi- 
cente da Cunha, por alcunlia o Mata-tigres , se com- 
prometeu a salvar as vidas. Mas os revoluciondrios, 
aesleais ao corapromisso, apenas entrada a fortaleza, 
mataram todos os que nela encontraram, espetando 
em seguida as cabeqas dos degolados defronte das 
respectivas casas. Mariano da Rocha, de Aldond, e 
alguns paisanos notdveis de Bardos, que se tinham 
acolhido nessa fortaleza para defenderetn a causa da 



259 


legitimidade, foram, tatnlx'm, ali deeapitados. 

Nessa ocasi&o, a tropa praticou igual carnificina 
ern Gululem do Satari, uuma fon;a que ali existia 
fiel ao prefeito. Era uraa vesania herodiaca. 

Malograda, portanto, a tentativa de voltar para Goa, 
•Bernardo Peres, acompanhado do scu secrefcirio, pas- 
sou de Bombaim para llauiao, toraou posse do gover- 
no desta praqa e da pra§a de Diu, que se ltaviam 
conservado fieis, licaudo assitn a India portugucsa 
dividida em dois govornos entre si independentes, 
coin o escandalo dos visinlios e grande regosijo dos 
ingleses, ate* a chegada do governador geral, o barao 
de Sabroso. 


0 inais notdvel 6 que, tendo havido iiltimamente 
desmteligoncias entre o governo provisional e o gover- 


nador militar, que, segundo dizetn, 
procurava avocar para si ainda as 
atribuigoes do poder civil, foi Fortu- 
nato de Melo, preso por ordem do 


Prisao do go- 
vernador mi- 
litar 


governo provisional, colhido numa cilada em casa de 


um seu amigo em Bicholim e remetido para Lisboa. 


Veio-lhe o castigo daqueles mestnos de quern se ser- 
vira para depor Bernardo Peres, recebendo assim a 
inexoravel pena de taliao ( l ). 


(*) Vide cit. Quadros historicos de Goa caderncta 3.* e Goa sob 
a Dominaf&o portugueza. Durante essa calamitosa epoca de 1835 
a 1837, publicarara-s<3 rnuitos folhebos e impressos do parte a parte, 
que serA necessario cousultar, quando se queira escrever a Uistoria 
completa e imparcial do tao tormentoso pc-riodo. E’ um impor- 
tante e valioso subsidio a seguinte relagfio bibliografica que Isma- 
el Gracias publicou, sob a cplgrafc Ludas caseiras no Almanaque 
Valmiki de 1887, e que foi transcrita no Ultramar , n.° 1529 de 21 
de Julbo de 1888: — 

«I. Proclama$Jto do prefeito Bernardo Peres da Silva, dirigida 
aos habitantes da India, seus concidadaos, na data de 10 de Janeiro 
de 1835, em que cliegou a Goa a bordo da ckarrua Princcza Real. 



260 


Era Novembro de 1832, chegou & India o gover- 
nador geral SimSo Infante de Lacerda, .( 1837-38 ) barSo 


Manuscribo. Comega pelo seguing tcxbo do psalroista : Lapidem 
quern reprobavcrunt cedificantes , hie faclus est in caput angulu A 
Domino factum, est istvd. Et est mirabile in oculis nostris . 

II. Oubra proclamagOo do mesmo prefeito, dirigida a scus com- 
pabriotas em 14 de Janeiro de 1835, dia da posse que bomou nos 
pagos do senado de Goa. Manuscribo. 

III. Proclamag&o de D. Manoel de Portugal e Castro (ex-vice- 
rei) aos habifcantes do Esbado da India, feitaas 11^ lioras da noi- 
te de l. # de Fevereiro de 1835, em que o prefeito foi deposbo e 

S rfcao a bordo da corveta S&lamandra por uraa facg3.o railitar. 
lanuBcrito. 

IV. Proclamag&o de Joaquim Manoel Correa da Silva e Gama, 
marechal de campo, l.° conselheiro da prefeitura, chamando os po- 
vos a ordem e ao reconhecimenbo da legitima autoridade . 11 de 

Fevereiro de 1835. Manuscrito. 

Em vista desta proclamag&o, congregou-se no palacio do go- 
verno em Pangim em 13 de Fevereiro, uma numerosa assemblea, 
na qual se deliberou e foi nomeada uma deputagao que parbiu logo 
a bordo da dita corveta para convidar o prefeito, que j& enbao sc 
achava em Bombaim, para reassumir as redeas do governo. 

V. Carta de am habitanbe de Goa a uns seus amigos e compa- 
triobas, residenbes em pais estrangeiro, dabada dc 15 de Fevereiro 
de 1835 c assinada pelas iniciais F. R. T. G., referindo os sucessos 
havidos anteriormenbe. Comega pelo seguinbe verso de Virgilio 
na Eneida XI : 

Maxima res ejecta viri : limor omnis abesto . 

E conclue com algumas frascs do Gontrato Social de Rousseau. 
Folh£to pequeno de 12 pags. impresso sem declaragao de tipo- 
grafia. 

VI. Circular! de Bernardo Peres da Silva, dirigida de Bombaim 
a 28 de Margo de 1835, condenando o procedimento do governa- 
dor milibar Forbunato de Melo, e dos mais que concorreram para 
a sua deposigao. In folio, impresso sem designagao da bipograiia. 

VII. Carta de urn habitanbe de Goa a uns seus amigos e com- 
patriotas residentes em paises eatrangeiros, dabada de Goa, 25 dc 
Abril As 1835, e assinada pelas iniciaes F. R. T. G. Cotnega pelos 
segninbes versos da Eneida II: 

Festinate viri, namquce tam sera moratur segniiics? 

O' socti, qua prima- for tuna saluUs. 



261 


de Sabroso, ( 1837-38 ) brioso * oficial do cavalaria, 
qae se distinguira uas campanhas da liberdade. 

0 sea governo, ecabora carlo e atribulado, porque 


Monsirat iter , quaque ostendii se dextra sequamur . 

Defendc a causa do prefcibo. Parece-mc que foi impresso; tenho 
apenas visto uma copia a mao. 

VIII. Proclama 9 ao de Bernardo Peres da Silva aos mil i tares, 
datada de Bombaim a G de Main de 1835. In folio impresso. K-. 
xemplares desta proclaraac/fto foram circulados eui Goa corn muito 
segredo, e na vila de Margao apareceu afixado uin a porta da egre- 
ja em 14 do dito mes e ano, e tendo recaido fundadas suspeitas 
dSste facto no padre Antonio Lourencu de Miranda, da raesma 
vila, foi ele preso e autuado por ordem do juiz de Salsete, Salvador 
Pilipe Alvares, em vista da portaria do governo provisional de 27 
de Abril de 1835. Nao sei os nltcriores do processo quo se iustau- 
rou; possuo apenas urn documcnto por copia. 

IX. Carta de um portugues estabelecido ein Goa a um seu eor- 
respondente. Goa em Pond a, 20 de Junho de 1835. Assiuada 
por L. V. F. Cornc$a pelos versos 3G8 e 3G0 da Eueida II: 

Griulelis ubujiie 

Luctus 9 ubique pat or , ct plurima mortis imago. 

Advoga a causa do prefer* to. Impresso de 14 pgs., nfio se de- 
clarando a tipografia. 

X. Carta de um portuguOs estabelecido ein Goa ao redactor da 
Chronica denorm nada Conslitucional da rnesma cidade, Jose \ui- 
ceto da Silva. Contem alguns doemuentos c defendc, a causa do 
prefeito. 

E* assinada por Agostinko Pires Travassos, pseudonimo, se- 
gundo se diz, de D. «Jose Maria de Castro e Almeida, e datada de 
llibandar a 25 deJulkode 1835. Folheto impresso de 40 pgs. 
sem declara$&o da tipografia. 

XI. Resumo historico da rebeliao que arrebentou cm Goa no 
dia l.° de Fevereiro de 1835, contendo uma sucinta e del exposi- 
$ 9.0 da sua causa c origern, dos sucessos que a preccderam, dos 
crimes mais borrendos que no seu deseuvolvimento, execu$ao e 
progresso se perpetraram, e fielmente uma abreviada mcn$ao das 
pessoas, que nela mais figurararn. 

Com 10 documcntos, Bombaim, Impresso por Jose Francisco de 
Aguiar. Come$a pelos seguintes versos do autor do Triunfo de 
Natureza : 

Da verdade o fcrovao quc o crime assusta. 

17 



262 


o barao teve conflitos desagracldveis com o coinan- 
dante da fragata D. Pedro , Joaquim Pedro Celestino 


Lanca ror terra a ro&acara do engano. 

Tern* 48 — VII pgs. alem da folha do rosto. 

XII, Manifesto do govSrno provisional dos estados da India 
Portuguesa, era no me de sua magestade lidelissima, a rainha se- 
nhora D. Maria 2. ; \ cm XLIII capitulos, assinado em Pangim 
aos 21 de Julho de 1835 por Joao Casirairo Pereira da Rocha de 
Vnsconcelos, presidente, Manuel Jose Ribeiro e Fr. Constantino 
de Santa Rita, com 52 documentor, impresso na tipografia do 
governo. 0 manifesto content 7 paginas e os doenmentos 32. 
Eutre estes documentos e neon tram -se as proclaraacoes atraz men- 
cionadas sob os n. ls II e III. 

XIII, Ref utagilo anal itiea do manifesto do governo intruso de 
Goa, intitulado Governo Provisional dos Estados da India Portu- 
guesa era nomc de sna magestade fidelissiraa a rainha senhora I). 
Maria 2. a , de 21 de Julho de 1835 ; conteudo um exame circuns- 
tanciado e esmiuyada confutagao de todos os fundamentos e ra- 
zoes era que os manifestantes pretendem apoiar a criminosa rebe- 
liao, e os snbsequentes horrivcis atentados por eles perpetrados em 
Goa ; seguida de documentor justilicativos e*pegas oficiais, extra! - 
dos da secretaria da prefeitura e dc outras reparfcigoes piiblicas. 
Por ura emigrado de Goa. Bombaiin. Na oficina tipografica 
de D. Gonsalves, por Jose Francisco de Aguiar. Consta de 156 
paginas, alem das do rosto e 3 de erratas e de 165 documentos em 
CLIX pgs. Entre os documentos encontram-se as citadas pro- 
clamagoes do prefeito Peres, de 10 e 14 de Janeiro de 1885 (n.°* 
XL e XXVIII ). 

Esta obra que saiu sem nome do autor, foi escrita sob a inspi- 
ragfio do prefeito c de sous partidarios mais ilustrados emigrados a 
Bombaiin, por Antonio Siineilo Pereira, natural de S. Pedro de 
Pamjim ( Ilhas de Goa ), redactor do “Pregoeiro da Libcrdade”, 
coadjuvado por Luis Caefcano do Menezes, natural de Pirna, que 
ao depois redigiu a Abelha de Bombaim Numa correspon- 
dence que publicou no “ Boletim do GovGrno ” deste estado, n.° 
21 de 12 de Abril de 1839, o juiz de direito das Ilhas Jose Joa- 
quim Duraes, pretendeu este embalde tirar a Autdnio Simeao toda 
a paternidadc da “ Rcfutagao ”, para a dar a Luiz Caetano do 
Menezes. 

XIV, ^Atalaia” contra os aristocratas de Goa, por um por- 
tuguta na India, datadu de Pangim a 16 de Novembro de 1835. 



263 


Soares, e com o jniz, servindo do president*; da Uela- 
gao, Castro Neto, ( os quais arubos se retirarain final - 
raente de Goa, abandonando os seus logares ), ainda 


Manuscrito. Come^a pelos seguintes versos da “ Ilenriada ” de 
Voltaire : 

Descends dn baut des cieux, auguste vcrite ; 

Repands sur mes ccrits la force et la chu te. 

0 sr. Diogo Filipe de Andrade, honrado oficial-maior quo foi 
da scerefcaria do governo geral deste estado, testemunha presencial 
de v^rios sucessos de 1835, disse-me cine se atribnua era tempo 
Oste veemcnte escrito a -I osiS Balbino de Lcmos e S;i, quo viera 
deportado para a India por motives politicos, c cm 1838 serviu o 
lugar de director da Impronsa Nacional ; mas afirma o sr. J, B. 
Chit do da Costa, fillio do secreturio da prel'citura, quo Jose Balbino 
era muito estimado da uristocracia (jue o manuscrito pretende 
verberar, e, porisso, e duvidosa ossa paternidadc. Possuo nma 
cbpin (la “ Atalaia 

XV. “<) Censor e o Jnvestigador Portugues” cm Bombaim, ar- 
tigodatado de 26 de Maio de 1836, respondeudo ao “ Investiga- 
dor ” : fol. de 16 paginas, contendo nin post- scrip turn com data 
de 4 de Maio do mesrao ano. Traz o seguinte texto de sir E 
Brydges : 

“ The business of just criticism is to expose charlatanism — not 
to degrade an iucury or a rival 

XVI. Memorial do Bernardo Peres da Silva, deputado as edr- 
tes, aos representantes da np$iio portuguesa, assinado cm Lisboa a 
3 de Janeiro do 1889, relatando as ocorreneias politicas de Goa, 
como em aditamento a Refutacao Analitica (XIII) com 14 do- 
cumentos. Impresso em 184 ) na tipogralia de Joao Antonio da 
Silva Rodrigues, rua da Condessa n." 19—22 pgs. 

XVII. Correspondence do deseinbargador Manuel Feiicissimo 
Lousada de Araujo c Azcvcdo no « Paquete do nltramar», n.° 73 
de 28 dc Setembro de 1839, defedendo-se das ueusayoes quo lhe 
fez o <Investig:idor portuguez® do Bombaim. 

XVI II. Resposta de B, 1\ da Silva a correspondence supra; 
folhSto de 10 pgs., Lisboa 7 dc Outubro de 1839, na tipogralia de 
Vieira & Torres, calyada de Santa Ana, n.° 74. 

XIX. Memorial de Fortunate de Melo, coronel dos estados da 
India, aos senhores representantes da nayao portuguesa, defenden- 
do-Be das acusa(;oes que lhe forum feitas, o pedindo o julgamento 
de sun couduta. Com 14 doemnentos. Lisboa 1 de Feverciro 



264 


assitn acahou com a anarquia que reinava em Goa e 
com o esdindalo da separaqao de Damiio e Diu. Pu- 
blicou a amnistia r<5gia aos implicados nas alteragoes 
politicas ocorridas em Goa desde o Janeiro de 1835. 
Os emigrados e homiziados regressaram aos seus la- 
res (*). Reorganizou administrativa e judicial mente 


de 1840; folheto de 40 pgs., impresso na tipografia da Academia 
das Belas-Artes, rua de S. Jose, n.° 8: 

XX. Jornaes; 

“Chronica Gonstitucional de Goa” — oficial — redigido por Jose 
Aniceto da Silva, 13 de Jnnho de 18:50 a 3 de Novembro de 1873. 

44 O Inrcsfcigador Portuguez cm Horn baim ”, redigido por Jose 
Valerio Capela — 6 de Agosto de. 1836 a 28 de Dozembro de 1837. 
A respeito de J. V. Capela, cncontram-sc infccressantes noticias no 
“ Conimbricense ” n.° 3052, artigo do sou erudito redactor e men 
presado amigo osr. Joaquim Martins de Carvalho, sobre o qnal 
escrevi uma correspondence rjue saiu no “Conimbricense” n. 6 3978. 

“ 0:Echo da Lusitania”, redactor o desembargador Mauoel Feli- 
cissimo Lousada de Araujo, que fora demetido pelo prefeito Peres. 
7 de Janeiro de 1846 a 5 de Mar$o de 1837. 

O primeiro e o ultimo eram orgftos do gov^rno provisional e dos 
sediciosos; o segnndo defend iu a causa do prefeito.” 

O Eis a relayao nominal dos oficiaes militares, empregados e 
cidaditos dc diferentes hierarquias c classes sociaes de Goa, que se 
achavaui fora em varios pontos, nns deportados, outros emigrados 
e outros retirados em rasao das alteragOes politicas de 1835, e que 
regressaram no govdrno do Barao de Sabroso: — 

Em Vingurld: Joaquim Manoel Correia da Silva e Gama, mare- 
chal do carapo;— Caetano de Souza e Vasconcelos, coronel de mi- 
licias de Mo 9 ambique, com sua mulher e 3 filhos;— Antonio Lobo 
da Garna, capitflo-tenenfce e governador quo foi de Dam2o; — Josd 
da Costa Campos, capitao f3o corpo de engenheiros e lente da Aca- 
demia Militar, coin sna mulher, cunhada e 5 filhos; — Jose Joaquim 
Soares de Veiga, capitao de artelh iria e lente da dita Academia; — 
Francisco da Costa Campos, capitao de artelharia e lente da Aca- 
demia Militar, com sua mulher, cuahada e 5 filhos; — Jose Joa- 
quim Soares de Veiga, capitao de artelharia e lente da dita Acade- 
mia, com sua mulher, sogra e 7 tilhos; — Francisco Xavier Soa- 
res da Veiga, I tenente dc artelharia, com sua mulher c 4 fi- 



265 


a India e restabeleceu a Relagao de 
Goa na conformidade dos decretos 
do govcrno da Revoiugao de Se- 
tembro. No seii tempo comegou a 
publicagao de um jornal oficial deno- 
minado — Boletim do Governo do Es - 
tado da India — , cujo l.° ndmero saiu em 7 de De 


Restabeleci- 
mento da Rela- 
<jao e publica- 
gSi 0 do Boletim 
do Governo 


lhos; — Vitorino Antonio Pereira Oarcez e Victor Anastasio 
Mourao Careen Palha l.° e 2.° tenentes do artelharia;— Alberto Pe- 
reira Garcez. tenente do l.° regimento da infantaria; — Ricardo de 
Melo Sarapaio, Joaquim Pereira Garcez, Diogo Francisco Mourao 
Garcez Palha, todos tres alferes do dito regimento ;--Jos6 Maria 
da Rocha, alferes secrotario do batalhao de cayadojes n.° 3.°;— 
Custodio da Rocha, alferes do forte de Arabo; — Francisco Pereira 
Garcez, aspirante a oficial de artelliaria; — Bernardo Heitor da Sil- 
veira Lorena, penultimo conde de Sarzedas e tesoureiro gcral do 
Esfcado, com sua mulher, uma prima e 3 iilhos; — Jose Maria dos 
Remedios, natural de Murda, ex-jniz de direito das Ilhas de Goa; 
— Camilo de Sa, de Betalbatim, ex-escriviio do dito juiz; — Caeta- 
no Francisco Pereira Garcez, escritunirio da Oontadoria geral e 
que em Damao serviu de secretario da Prefeitura, com sua mulher 
e um iilhoj — Josd Balbino de Lemos e Sa, europeu; — Vicente Fe- 
lisberto da Cunha, de Ucassaim, cscrivilo da Gamara agraria dc 
Bardfo; — Forto, um dos mcrcadorcs da aldeia Tiracol, com sua 
mulher c familia, 

Em Rarim: Gaetano Vicente Lousaclo, tabeliao. 

Em Bombaim: Antonio Jose de Melo Souto-Maior Teles, briga- 
dciro dos reais excrcitos, com sua fauniia; — I). Jose Maria de Cas- 
tro e Almeida, coronel que foi do I.° regimento da infantaria, coni 
sua mulher e familia; — Francisco Pereira daSilva, tenente* coronel 
do extinto regiinento de milicias/ com sua mulher; — Joaquim 
Manocl da Costa Campos, tenente do l.° regimento da infantaria; 
— Cristovfio de Melo de Sampaio, alferes do dito regimento; — 
Jose Antonio da Costa, 2.° sargento da artelharia. 

Em Piro: Camilo Dionisio Alvaros, de Marg'io, medico. 

Em Ervalcm : Zalba Runes, sar-dessai de Gululem, corn scus 4 
filhos, mulheres e mais comitiva em miincro de 60. 

Em Soroddo\ Zalba Ranes, sar-dcssai de Sanquelim, com seus 
bramanes e sipais em numero de .">(), 

17 * 



266 


zeinbro cle 1837 sob a <Jireec;ao do secretdrio do go- 
vertio Antonio Mariano -de Azevedo. 


Disperses cm difer cities pantos do Estado : Jose Antonio Paulo 
Gomes, de Aldona, capitao do extinto regimento dc milicias de 
Bardes e lentc da Academia Militar ; — Antonio Manoel Pereira, 
de Benanlim, ex-procurador regio ; — Cnstbdio Mariano Pinto, ex- 
joiz pedaneode Revord, Joaquim Salvador de Carvalho, de Camor- 
lim, ajudontc do professor do ensino primario de Colvale ; — Pas- 
coal J oao Gomes, da Piedade, advogado ; — Vicente Si mao de 
Souza, paisano ; — Pedro Marti nho Alva res, de Aldona, medico. 

Em Damdo : Bernardo Peres da Silva, Prcl'cito, com sna mn- 
lher c G filhos (a) ; Manoel Maria Sou to e Silva, desembargudor 
presidente do tribunal de 2. a instancia ; — Francisco Antonio da 
Silva Pimenta, major do l.° regimento da infanteria, com uma 
tilha ; — Joao Jose Pereira Garcez, l.° tenentc da artelharia; — Jo- 
se Jaqucs Salinas de Benevides, 2.° tenentc da marinha dc Portu- 
gal, deportado pclo usurpador para a Intlia dosde 1830;-*-Cactano 
da Cunha, de Arpora, tenente-quartel-mestre do batalliao de caya- 
dores n.° 2;— Joaquim Gabriel da Cunha, do Arpora, tenentc do 
dito batallnlo; — Antonio Joaquim da Piedade Pereira, de Bcnau- 
lim, aferes do batalliao de cay ado res n.° l, -—Pedro Paulo Pinto, 
de Candolim, alferes do 2.° regimento da intantaria; — Jose d’ Al- 
meida Salcma, aspirante a oficiul, com sua mullier, — Bento Go- 
mes da Silva, idem com sua mulher e sogra; — Manoel Antonio 
da Costa, l.° sargento, Salvador Antonio Leal e Joaquim Salvador 
Pereira, todos tres l.®» sargentos do l.° regimento da infanteria; 
— Joaquim Jo.se da Trindade, L’ilipc Teixeira e Manoel Maria 
Cores, 2. 0M sargentos do dito regimento;— Francisco de S. Auna, 
Caspar dos Remedios e Tomaz d’Altncida Carvalho, furricis do 
dito regimento; — Mariano Jose da Cruz, 2.° sargento do 2.° regi- 
mento da infanteria; — Manoel Constuncio de Souza, l.° sargento 
do batalliao de cayadores u.° 3; — Joaquim Pascoal de Souza e 
Jose Nicolau de Souza, 2.° sargentos do dito batalhilo;— Filipe 
Caetano dc Almeida e Luis Hcnrique de Souza, furricis do dito 
batalliao;— Agosti nho Xavier da Gama, 2.® sargento do batalliao 
de cayadores u.° 2,° Alguns destes faleceram no exilio. 

(Do Bolelim do Governo n.° (> de 1 de Fcvereiro de 1838). 

(a) Peres regressaudo a Goatixou a sua resi lun-jiu «»i Margao e cm 1838 
t°i pela 3/ vez u lei to deputado o parti u para Lisboa, coiitiuuaudo a ser 
reeleito at<La sua morte, ooorrida cm 1811. 



267 


Em 13 de Junho o barilo de Sabroso caiu desastra- 
damente do carro, fracturando um brago, e, tomando 
a doenga o cardcter de perigosa, entregou o poder ao 
conselho do gov^rno em 28 de Setembro de 1838, e 
faleceu a 14 de Outubro do mesino ano. 0 caddver, 
depositado na easa das confrarias da igreja de Pan- 
gim, foi transportado com grande solenidade para o 
Oarneiro do Convento de 8. Gaetano e depois para 
Lisboa. 

0 conselho do govcirno, que assumiu a direcguo dos 
negdcios do Estado no irnpedimento e depois da rnorte 
do barao tie Sabroso ( 1838 ), era composto do arce- 
bisbo eleito D. Antonio Feliciano de Santa Rita Carvalho, do 
coronel Josd Ai|tonio Vieira da Fonseca, do juisa servindo 
de presidente da Relarao Jose Cancio Freire de Lima e 
do escrivao deputado da junta da fazenda, Domingos 
Jose Mariano Luis, indigeua, natural de Curca. Tendo 
falecido o arcebispo em 1 de Fevereiro de 1839, os 
outros tros continnaram a governar ate que cliegou o 
decreto nomeaudogovernador geral interino urn deles, 
o coronel Vieira da Fonseca ( 1839 ), que ficou uo po- 
der ate 14 de Novembro do mesino ano. 

Durante a gerencia do conselho foi assassinado em 
Pangim o secretario geral do governo Antdnio Maria- 
no de Azevedo, com dois tiros dados 
i\ traiguo. estando A utna janela das Assassinato ilo 
casas do ohcial da armada Gorte- ve ,j 0 

Real em a uoite de 21 de Novembro 
de 1838. Ficaram impunes os autores deste crime, 
a-pesar do processo que se instaurou ; era fdcil alids 
apurii-los. O infeliz Azevedo era um homem ener- 
gico e funciondrio honestissirao, que, nao se confor- 
mando com as deliberagoes tomaaas pelos seu cole- 
gas do governo provisional, havia abandonado o poder, 
como atraz estd dito, e poucos dias antes tinha obtido 
licenga para regressar ao reino, e a oligarquia domi- 



268 


nante, que o odiava profundamente, chegou a temer 
que o secretario pusesse a mi as cousas de Goa ( 1 ). 

Ao coronel Vieira da Fonseca sucedea no governo 
da India o barilo do Candal, KanOfil Jos6 MeijdflS, 
(1839-40) qne, auxiliado pelo erudito secretdrio 
Claudio Lagrange de Barbuda, planeou notdveis re- 
formas administrativas, mas faleceu logo em 18 de 
Abril de 1840. 


Pelo prematuro falecimemo do barilo do Candal 
tornou a assumir a direcgfio do Estado o conselho do 
governo, presidido pelo coronel Yielra da Fonseca, sendo 
vogais, aldm dos retro-mencionados Lima e LnfS, o vi- 
gdrio capitular Afitoqio Mo de Ataide, e os consellteiros 
Jose da Costa Campos, e Gaetano de Sonza Yasconcelos ( 2 ) 

A esse tempo, renovaram-se as cubigosas tentativas 
do govfirno britdnico, sempre ilvido de possuir Goa. 

0 gabiuete portugues em 1839 era 
dos presiuido pelo visconde, depoismar- 
possuir Goa ques, de Sti da Bandeira, que era o 
ministro dos negocios extrangeiros. 
“A 12 de marge deste ano lord Howard, representante 
da c6rte de St. James em Lisboa, apresentou ao vis- 
conde de Sii uma nota era que dizia, por ordem do seu 
governo, que as autoridades britdnicas de Bombaim 


(') Custodio Manoel Gomes, Dima Palavraa sobre a India 
Portugucsa , pags. 12 a 13;— cit. Goa sob a Dominafilo portti- 
guesa, pag. 102 — e cit. Drasileiros notavcia em Goa. A casa, on- 
de caiu assassinado o secretario Azcvcdo, era terrea e sitnada 
quasi a beira do rio; foi propriedade do geueral Assa Castel- Bran- 
co e agora, sobradada, passou a ser do Bunco National Ultra- 
marino. 

( 2 ) Estes dois cidadaos foram os primeiros que representaram 
o elemento popular no antigo conselho do governo depots de orga- 
nizada a junta geral do distrito na confortnidad'i do Codigo Ad- 
ministrative de 31 de Dczembro de 1836 e Lei tie 29 de Outubro 
dc 1810. 



269 


acusavam os funciondrios portagueses de Goa, de ha- 
verem favorecido certos rebeldes quo, fugiodo do 
territdrio ingles, se haviam retirado para o territdrio 
indo-portugues. Acrescentava o embaixador ingles 
que, tendo o seu govArno motivos para reclamar do de 
Portugal importantes sornas, estava autorizado a pro- 
por como base desta negocia§ao a cedencia d Compa- 
nhia das Indias Orientais, de Goa, Damfto e Diu e de 
todos os njais territdrios que a corAa portuguesa pos- 
suia na India. Logo no dia 30 respondeu o visconde 
de Sdque, era vista da correspondence oficial chegada 
de Goa, podia afiangar a lord Howard, que as autorida- 
des de Borabaim estavara raal inforraadas, porque os 
funcioniirios portugueses, na suas relates com os 
indigenas fugidos, n5o tinhara de modo algum int'rin- 
gido os tratados eutre Portugal e a Gra-Bretanha, e 
que, quanto ii proposta da cedencia do territdrio, 
tiuha sido apresentada k Rainha, e S. M. ficara viva- 
raente magoada, porque nunoa podia esperar que nraa 
tal idAa partisse do governo britanico, que era o rnais 
antigo aliado do reino lusitano. Dizia mais que S. 
M. havia ordenado o rninistro para declarar era seu 
noine que o governo nunca poderia admittir como 
base de qualquer negocia§ao, fdsse esta qual fAsse, a 
cedencia de lerritdrios, que sao monumentos de gldria 
para a uaq&o portuguesa e de perseveranga de vdrios 
principes predecessores da Rainha, assim como das 
fagauhaa e coragera dos antigos navegadores e guer- 
reiros portugueses. 

“ O barfio da Ribeira de Sabrosa, sucessor do vis- 
conde de SA na presidencia do conselho e na pasta 
dos extrangeiros, recebeu igualmente de lord Howard 
uma nota, dizendo que o seu govSrno reputava a ce- 
dencia de Goa e suas dependences na quantia de 
500.000 libras, e que, se a sua anterior proposta fdsse 
rejeitada, a Inglaterra se reservava o direito de toraar 



270 


as medidas convenientes, se aparecessem casos id6n- 
ticos aos que davara logar a essa reclaraa§ao. Sabro- 
sa respondeu a lord Howard no sentido em qne o 
havia feito o viscoode de SA e declarou mais qne a 
proposta da c6rte de Londros nilo poderia nunca ser 
admitida por govern o algurn portnguSs, que tivesse a 
consctencia de raerecer este nome. 0 que a Ingla- 
terra nito tinha podido obter pela forqa e pela trai- 
qao nos principios d6ste sdculo queria em 1839 con- 
segui-lo com dinheiro ” (*) 

Em 24 de Setembro de 1840 comegou o gov^rno in- 
terino de Josg Joaqaim Lopes d8 Lima, (1840-42) que se 
achava em Goa servindo de intendente da marinha 
e do arsenal. 

Lopes de Lima era homem inteligente e activo; 
reformou o sistema aduaneiro, organizou o conselho 
de saude publics eo ensino primArio e secunddrio; 

estabeleceu na capital escolas de in- 
Actos liotaveis gles, frances, histdria e do ensino 
miituo; mandou leccionar na Escola 
Matematica e Militar os cursos de engenharia, arte- 
lharia, infantaria e pilotagem, suprimindo o de mari- 
nha ; transferiu o hospital militar de Panelira para 
Pangim; renovou o antigo farol da Aguada (*); man- 
dou abrir na cidade a rua denorainada — 4 de Abril — 
( hoje 31 de Janeiro ); constrain o trapiche da alfan- 
dega principal ( s ); organizou o correio interno e fez 


(') Ismael Oracias, Carla Constitutional annotada, pref&cio, 
pug. XXVII a XXVII. 

(*) O farol de Aguada 6 cocvo da contjuista. A principio 
acendia-se sdraente uaa noites escuras do ver&o. Reformado em 
1841, passon, desde Outubro do mesrno ano, a acender-se cm tddas 
as uoites do verfto, e desde 16 de Outubro de 1864, em tddas as 
uoites do ano, Alcan$a 26 milhas e tern a altura de 85,65 metros. 

(*) ,0 trapiche foi alargado no govSrno do general Macedo e 



271 


outros melhoramentos de reconhecido interesse pu- 
blico. 

Contudo afcraiu bastantes animadversoes, porquc 
ntio priraava pela justiga ; era acusado de concussiio 
franca, e, al6m de algumas reformas intiteis que fizera, 
creara ilegalmente alguns impostos fortes e vexa- 
tbrios, e um batalhiio em Quepera, onde construira 
quarteis com os materiais do extiuto Convento de S. 
Domingos, de Goa, que mandara demolir para esse fim. 
A16m disto, para ocorrer its despesas ordinarias da 
provmcia vendera a artelharia do bronze (fundida no 
nosso arsenal com as annas portuguesas em alto re- 
levo) que talvez ainda pudesse .servir, e contraira um 
emprestimo de 330 mil xerafins, apresentando contudo 
o orgaraento de 1841 o deficit de 1. 312, 162 xerafins, 
que era quasi o duplo do antecedente. (') 

Finalmente em 1842, Lopes de Lima largou o go- 
verno cedendo a uma revolta e fugindo covardemente 
do seu posto. Foi o caso. 

O governo da metrbpole mandara para a India, sob 
o comando do major Francisco Maria Magalhaes, uiu 
batalhiio organizado em Portugal, denominado bata- 
Ihdo provisorio, com o fun de reprirair a tropa local, 
que se raostrava cada vez mais iusubordinada. 

Como Lopes de Lima nfto gostasse do batalhiio, que 
Jho servia de obstaculo a muitas pretences, quis re- 
talha-lo era destacamentos e ordenou que a quarta 
companhia partisse para Macau e alguns oficiais 
fossem em comissilo para Timor em companhia do 
comanc^iute Magalhaes, a quern nomeara governador 
desta nossa possessivo, nesse tempo dependente do 
governo da India. 


Couto e acresccntou-sii-lhe um cnis-ponte de madeira, no governo 
do general Vasco G nodes. 

(.*) Bosquejo das Poss. Port. Vol. l.° pag. 95. 



272 


A corapanhia mostrou tnsi vontade de obedecer; 
chegou ainda a embarcar depois de algumas transi- 
gencias do governador; mas na noite de 26 de Abril 
desembarcou, uniu-se a outras com- 

Kevolta do ba- panhias estacionadas no quartel de 
talhao provisArio Pangifn e, na madrugada de 27, o 
balalbao todo, levautando o grito de 
revolta, cercou o pabicio. 0 governador intimidou- 
se, convocou os comandautes da iropa local e, perce- 
bendo que cstes recusavam dar-lhe o apoio que dese- 
java, entregou o poder ao cousellio do governo,' a-pe- 
sar das reffexoes em contrsirio, e partiu para Bom- 
baiin, ond.. procurou o auxilio dos ingleses para recu- 
perar a sua autoridade em Goa; mas mTo conseguiu. 

Lopes de Lima, homem de talento e ilustragao, mas 
mal intenciouado e de instintos sanguinut'ios, que raa- 
uifestou depois no governo de Coimbra, morrou m.i- 
sen\velraente em 1859 na viagem de Solor para Lis- 
boa a bordo dum navio em que ia preso por ordem 
regia. 

0 conselho do govdrno que lhe sucedeu ( 1842 ) re- 
vogou as ordens do governador interino e apaziguou a 
revoluQao. fiste conselho era presidido por Ai|t6nio 
Hamalho de Sa presidente da Relaqao, sendo vogais o 
brigadeiro Antoqio Jose de Helo Souto-Maior Teles, o viga- 
rio capitular AntOqio Mo de Ataide e os conselheiros elec- 
tivos Jose da Costa Campos e Caetano de Souza Yascoqcelos. 

Pertencia tambern ao mesmo conselho, como escri- 
vao da junta da Fazenda, Antdnio Maria Bouyrat, 
que se escusou de tomar parte no governo. * 

A noticia da desordem ocorrida em Goa ocasionou 
em Portugal a nomea$iio do novo governador geral; 
que foi o conde das Antas Francisco Xavier da Silva Pereira. 

0 conde das Antas, chegado a Goa ein L6 de Se- 
tembro de 1842, encontrou tudo na mais completa 
ordem. Comegando a governar, fez algumas refor- 



273 


raas, tie qne resultaram economias 

para a fazenda; extinguiu o batalhiio „ Reformas eou- 

creado por Lopes de Ijiina eiu Que- ros a y e ®| 1,0 * 

p6ra e dois corpos do exereito, au- 

raentando duas companhias na infantaria; reduziu o 

batalhiio provis6rio e as escolas primarias, creou 

uma escola protmscua e duas primarias etn Dainao e 

quatro nas capitais das Novas Conquitas. Extinguiu 

a casa dos catecrimenos e a da moeda. 


Por antorizagfio superior ordenou a venda das pro- 
priedades pertencentes as extiutas ordens religiosas, 
exceptuando a casa e cerca dos conventos do Cabo c 
de S. Caetano e da casa professa do Bom Jesus. 

Por alvara de 22 de Margo de 1843 foi a povoagilo 
de Pangim elevada categoria de cidade com a deno- 
minagilo de Nova-Goa, onde o con- 
de das Antas mandou erigir uni rao- ®l«vagao ile^Pan- 

nmnento na prana das self. janelas ^^de^cidade 11 
(’) para ali ser transferida a estdtua 
do grande Afonso de Albuquerque do frontispicio do 
recolhimeuto da Serra, na velha cidade, edificio que 
ja era 1841 tinha comegado a ser demolido pelo seu 
raau estado (*). 

Em 25 de Abril de 1843 mandou o conde das An- 


tas abrir no paldcio do govSrno perante a cilmara 
municipal das llhas a carta de prego que llie nomeava 
sucessor, a quern logo entregou o governo e no dia 
imediato embarcou para Lisboa. 

O sucessor designado na carta de prego ao conde 


(!) Assim chamada, porque cada am dos torrefies do quartel, 
qne a defroutam, tern sete janelas. Actnalmeato 4 esta praga 
denominada a prapa de Afonso de Albuquerque. Nova Goa oom- 
preende Pangim, Ribandar e a antiga cidade de Goa, aendo Pan- 
gim o bairro principal. 

(») Cit. memona Telus c Esculpturas. 



274 


das Antas era Joaqnim Monrao flarcez Falha, (18455) des- 
cendente de europeu (*), que governara Diu e fizera 
parte do gov^rno dOste Estado ciu 1821 

Joaquim MourSo creou a escola deruarata em Pan- 
giiD, restabeleceu o curso de raarinlia, que Lopes de 
Lima suprimira, dissolveu as duas companhias que 
restavam do batalhflo provisdrio e tomou algumas 
providencias uteis ao pais. 

Em 20 de Maio de 1844 coraegou a paternal, justi- 
ceira e economica governar;ao do conselheiro Jos6 
Ferreira Pestana, (1844-51) ministro e secretario de 
Estado hononirio e lente de matemdtica na universi- 
dade de Coimbra. Findo o trienio, foi o eonsellieiro 
Pestana reconduzido no governo da Tndia por mais 
trcs anos, pelo que os povos deram em v.irias fregite- 
zias solenes ac^oes de gramas. 

Era 1846 Lopes de Lima, que ja estava era Portu- 
gal e que n:Io havia desistido da sua pretensilo de 
toruar a governar a India, tentou 

Tentativa de deslocar Pestana, insinuando uma 
revolta militar re volta militar em Goa por interme- 
dio de seus amigos que tinha aqui, 
e de uns quatro oficiais superiores, 2 europeus e 2 
descendentes, que, por terera praticado roubo no cofre 
dos armamentos, quando comaudantes de corpos mi- 
litares, haviara sido condenados por* sente uga do 
conselho de guerra, confirmada por acorddo do Su- 
premo Conselho de justi$a militar de 14 de Feve- 
reiro d.e 1846, i\ perda da respectiva patente e a 
inderanisar a Fazenda hacional, sendo publicado o 
acordao junto com a sentenca no Bol. do Gov. de 
13 de Margo do mesmo ano (*). 

(*) Oit. Gatalogo do assenlamento da gente da guerra, pg. 24. 

(*) "" Emqaaato o processso instaarado contra os pouerosos 
comaudantes seguia os trarnites legais no Conselho do gnerra, foi 



276 


A revolta devia rebentar no dia 29 de Outubro, 
dia em que todos os batalhoes costumavam apresen- 
tar-se em parada na capital pelo anivers&rio nataKcio 
de D. Fernando 2.° ; mas descoberta a tempo pelo 
inteligente secretario geral Custbdio Manoel Gomes, 
foi habilmente sufocada pelo governador sem a mais 
leve alteragiio do sossego publico. 

Segundo se deduz dos docurnentos da 6poca, os 
principals ageutes de Lopes de Lima em Goa para 
promover a revolta erain o seu primo Jose C&ncio 
Freire de Lima, juiz servindo de presidente da Rela- 
quo, e o seu amigo Antonio Maria Bouyrat, que viera 
despachado em comissiio de Escrivao deputado da Jun- 
ta da Fazenda de Goa, estando ainda em exercfcio o 
proprietario, seudo o fim principal da sua missao abrir 
uma sucursal do Cabralismo, como fez fundando aqui 
sob a sua chefia semi-olicial o partido cliamado Cha- 
farica , denominando-se entao Patulea o partido popu- 
lar, que apoiava o Governador. A nomenclatura 
vinha do que passava em Portugal. 

A revolta abortou, como dissemos, e Pestana conti- 
uuou impdvido uos seus deveres, e foi ainda recondu- 
zido no Governo. (') 


asaaltada a mao armada em Salvador do Mundo (Bardes), ua 
noite de 8 de Setembro do mesirio auo Cl 844) a residencia do 
juiz substitnto, Aleixo Casimiro Lobo, que, como auditor, tinha 
em seu poder e estava estudando os autps originais do rcferido 
propesso. O auditor, suspeitaudo quo o principal obiectivo do 
assalto fossetn esses autos, fugiu com ties. Os assaltantcs quei- 
maram os puoeis que encontraram, mas o proccsso, que escapou, 
chegou ao seu termo. “ Piste atcntado, que indicava estarcm em 
movimcnto os clementos quo assassinarain o secretario Azavedo, 
n!U) acobarilon PesUtu* uciu o sen secretario. ” Goa sob a 
Doiniti. Pori., pag.178. 

C 1 ) Vid. Uuas Palavras sobre i India por Oustodio Manoel 
Gomes ; e Goa sob a Domin. port. 178-181. 



276 


0 conselheiro Pestana concluiu o modes to monu- 
men to t\ memdria do grande Afonso de Albuquerque, 
cuja inaugura§a.o foi festejada com a 
. . „ _ , . . maior pom pa em 29 de Outubro de 

c 0 1 11 1847, fez alguus melhoramentos ma- 

terials na cidade e tratou bastante 
da via^ao ptiblica ; aboliu a b&rbara usau$a dos engan- 
chados (‘); creou a escola do ensino pritnario para 
meninas, a de filosofia e retorica na capital, e a de fran- 
cos em IViargfio. Foi nesta epoca estabelecida no hos- 
pital miiitar a escola inddico-cirurgica, com quatro anos 
de curso e 2 de farmdcia, e em cada urn dos corpos 
inilitares se abriram aulas regimentals dirigidas pelos 
respectivos capelaes. 

No meio de seus trabalhos Pestana viu-se na ne- 
cessidade de lutar com as pretences do governo bri- 
t&nico, como se vai ver : Em 1844 revoltou-se contra 


( l ) € A Testa que os gentios intitulam Zaira ainda se pniticu 
no I)ccan c Concao acompanhada de uma espectaculosa peniteneia 
chauiadii dos enganchados . Armam era dois mastros uma espeeie 
de sarillio, que uraa manivcla faz girar; era cada extreraidadc do 
tal sarilho estsio dois ganchos de ferro que furara uma por$ao de 
pole distendlda das espaduas dos pacientes, e assira levantados diio 
no ar urn certo nuraero dc voltas, batendo as palmas e procuraudo 
mostrar nas visagens, nao so resigoas&o no martirio, raas ate 
prazer ! No territorio da India portuguesa foi absolutamente proi- 
bido este repugnante sacrificio era portaria de 6 de Dezerabro de 
1844; no gov&rno de Pestana, vinte e dois anos depois ainda 
os gaocares de uraa ald$a das Novas Gonquistas requereram per- 
niissao para fazerera a festa dos enganchados alegando que desde 
a sua supres3fio haviam sucedido naquela aldea as rauiores cala- 
midades, e para terminarera era indispensavel se lhes concedesse 

tao inocentc exercicio! 0 requerimento foi-lhes indeferido, 

mas a pretensao iicou de reraissa para ocasiao quo julguem mais 
oportuna. > Vid. Guaba Rivara, Jornada as paries do sul em 
i&6$ % pnblicada uo Institute Vasco da Gama , n.° 19, 1873, 
pag. 152. 



277 


os ingleses a trilm dos Fondus em Saunto-Varim. ler- 
ritnrio ligado ao de Goa pelo norte; e os revoltosos, ao 
abrigo das florestas, maturam urn grande uuruero 
de ofieiais ingleses ruontados ; mas, nao podendo eou- 
tinuar a.combater com uni exercito de 12 mil homeus 
que os perseguia, eutregaram as armas it trojia por- 
tuguesa, que por causa desta insurreiguo guaruecia 
as nossas i'ronteiras. 


Pestana mandou recoliier os retugiados com suits 


fauulins imm aquartelamento prd- 
ximo da capital, onde eram vigia- 
dos, sendo-lhes tirades todos os 
tneios de voltarem para a terra in- 


Conti nsla com o 
ffoviLmo iiijrli s ca 
tlijrioinacia do oos- 
so guvcruatlor 


0 goveroaJor de Bombaim e o governador geral 
de Caleutii requisitaram que os Fondus fosse in eut,re- 
gues its autoridades inglesas, ao que Pestana respon- 
dcu que, visto estarem sob a proteegao da bandeira 
portuguesa, uao podia, segundo o direito das geutes, 
satisfazer a requisigiio. Continuaram as instancias 
cm tom amearjador, alegando principabueute a mor- 
lundade que os rebeldes lues liaviaui causado; elinal- 
meute veiu de Caleutii o coronel Outram para faster 
embarcar a forga os refugiados e transporbi-los em 
um vaso de guerra, que foi tuudear it piqucua distau- 
cia do paliicio do governo em Pangim , cm atitude 
liostil. 

Pestana, porem, conduziu-se nesta questfio tao liii- 
bilmente, que, replicando its amea<;as inglesas em 
frazes delicadas mas ohorgicas, e correspond enJo it 
altivez do emissdrio de Calcuta com uiiiueiras aluveis 
e obsequiosas, mas iusistiudo sempre nas razoes da 
sua negativa, conseguiu terminal- a eontonda man* 
tendo q direito da hospilalidade o ao mosmo tempo a 
inviolabilidade do territorio portugucs. 1) oomissario 
regressou inuito reeonliecklo a cortuzia do nosso go- 



278 


vernador e do seoretsirio geral Custodio Manoel Go- 
mes. 0 govcrno de Bombaim retirou as tropas que 
defendiam as fronteiras inglesas, poupando assirn 
maiorcs despesas. 

Em 1847, noventa e dois dos refugiados pediram 
perdilo ao govcrno de Bombaim, e os amnistiados 
regrcssaram para Saunlo-Varim. Mas Fondii Saun- 
to e filhos, que nao foram incluidos na aiunistia e 
estavam em Goa sob vigilancia, fizeraiu disti'irl)ios ao 
longo das matas de Saunto-Varim e Canard, e rouba- 
raui varias casas e alfandegas em Belgiio; pelo que 
l’oram pela justiga portuguesa degredados para Timor. 

Muitos auos depois, tetulo pedido perdilo ao go- 
vcrno ingles, foram, era 1861, pcrdoados com a condi- 
tio de pagarem 550 rail rupias por indemnisagfio da 
revolta de 1844, — e pagarain. 

Em 1877 Sauuto-Varim foi incluido nos estados 
menores da presidencia de Bombaim x ‘). 

Aos eslorgos dcste governador e do secretnrio ge- 
ral Custodio M. Gomes foi devido o estabelecimento 
da companhia comercial de Goa, que contava raais 
de 400 associados interessados uo bora do comereio e 
no progresso da industria. 

Durante o seu prolongado govcrno de qmisi 7 anos, 
Pestana procurou melhorar o estado linanceiro do 
pais sem novos irapostos, tratou com igualdadc todas 
as classes dos povos sera faltar iijustiga, e, banindo as 
praticas vexatdrias, fez cumprir com exactidao as lcis 
existeutes. Foi jiistamentc cognouiinado Tito, deli- 
cias da India. 


(') Bapibuy Gaaetcer, Saranl-lihii. vul 10, 41 6: e As 

Colo i lias porhii/iwsas , art. de V. Estevcs. 



CAPlTULO XXII 


1881-1870— Revoltas, desen volvimento 
da instruQSo publiea e melhoramentos 
materials 

Em 15 de Janeiro de 1851 entrou a governar o ba- 
ric, depois visconde, de Vila Nova de Ourero, Jos6 
iWftM Jinuario Laps, par do reino e ministro e secreta- 
rio de Estado honorario (1851-55). 

Os primeiros actos da sua governagao prometiam 
fazer entrar a India num caininho de regular prospe- 
ridade ; mas veio logo a revolta dos ranes de Satan, 
capitaneada por Dipu ou Dipagi Ranes, era 27 de 
Janeiro de 1852, que the consumiu todo o tempo e 
nraito dinheiro da fazenda publica ( l ). 

Durante a administragao do visconde de Ourem 
deu-se tambera mais urn facto notdvel, que alterou a 
tranqiiilidade publica espalhando terror. 

Em 19 de Novembro de 1854 comegou a eleigSo 
municipal, e na assemblea da Piedade (ilha de Divar) 
havendo renhida disputa entre os dois partidos politi- 
cos, o partido popular ganhou contra o governamen- 
tal a eleigfto da mesa definitiva. No dia 20, correndo 
os trabalhos eleitorais, apareceu no local o capitao 
Joaquim Pereira Garces, acompanhado de dois joveus, 
Tabordas, todos os tres filiados no partido do govfcrno, 
mas nao recenseados naquela assemblea. Ao sol- 
•pdsto, recolhida a urna e guardada em um cofre fe- 
chado a trds chaves num compartimento ligado & igreja, 
o capitao Garcds exigiu que uma das cbaves f6sse en* 


(*) Das revoltas de Satari, falaremos em am capltnlo especial. 



280 


tregue ao eleitor de sua confianga, porque receava que 
os mesarios adulterassem a urna durante a no'ite; e, 
como o presidente Ihe respondesse que a lei desiguava 
as pessoas em cujo poder deviam Gear as chaves, e por- 
tanto nao podia satisfazer it au'a exigencia, Garces 
comegou a ditar ao regedor da pardquia um oficio 
requisitando tropa para vigiar o cofre. Os popula- 
res, persuadidos de que essa requisigao tinha por fitn 
o roubo da urna com o auxilio de forga armada, toca- 
ram o sino da igreja a rebate, e unindo-sd'aos nume- 
rosos jornaleiros, que acudiram a voz do sino, agre- 
diram os tres forasteiros, espancando 

Norte tie um biirbararoente o capita© Garces, que 
capitao poucas boras depois faleceju no esca- 
ler, em que ia transportado para o 

hospital militar. 

Chegada a noticia do assassinato ao'-paldcio, foi ex- 
pedida na mesma noite uma numerosa escolta, que 
fechou todas as passagens da ilba, sendo presos no 
dia seguinte alguns proprietaries e jornaleiros. 

Nestas alturas, em que a justiga jd comegara a to- 
mar contas do crime, a 4 de Dezembro imediato, dois 
batalhoes, o de Mapuqd e o de Pondd, 
Revolts mill- saindo dos seus quartdis sem ordem 
tar superior, se postarara, o primeiro na 

ilha de Divar, para onde marchou 
simultaneamente uma forga de sipais tambdm sem 
ordem superior, e o segundo na velha cidade de Goa 
defrpnte da ilha de Divar, com manifestas demons- 
tragoes de que queriam vingar a morte do capitao 
Garces, arrasando essa ilha e decapitando os princi- 
pals influentes do partido popular de Goa. 

0 visconde de Ourdm, logo que teve conhecimento 
do facto, dirigiu-se imedi&tamente ao sitio onde estava 
a tropa e fel-a recolher aos seus quart£is< Este acto 
de energia cativou os povos. 



281 


Como o visconde n;Xo tivessc castigado os agentes 
dessa revolta, e, pelo contrdrio, os propusesse era pou- 
cos dias para os postos superiores, houve quern sus- 
peitasse que esse motiru tivesse sido promovido as 
ocultas pelo prdprio viseoude, corn o tlm de simples- 
mente aterrar os povos e haver a gloria de ter sufo- 
cado uma revolta. Aiuda uao estu bem elucidado 
este ponto. 

0 visconde de Ourem a-pesar-de lutar coin as difi- 
culdades da guerra de Satan' fez muitos beueficios ao 
pais. Organizou o liceu nacional de 
Nova-Goa abrangeudo as seis aulas Acton iiotaveis 
existentes do ensiuo secundnrio, la- 
tim, filosofia, hisldria, ingles, francos e marata ('); 
ereou a escola normal para a habilita^ao do magistd- 
rio jn’imario, a aula de ingles eiu Mapuc.-l, dims de la- 
tirn cm Salsele e llardes, duns do ensiuo priinario 
para o sexo fominino nas capitals destas provincias o 
uma de eusino promiscuo ein Dili. Abriu cm Pan- 
giin a rua denominada llua nova de Ourem que 
so se eoncluiu etn o mandou conslr.iir a oxco- 

lente faeliada da foule Fenix no bairro das Fontai- 
nhas e a casa para a escola medico-cirurgica, ligada 
ao hospital. 

For motivo de doenca, e usando da l’aculdade quo 
llie liavia sido couccdida, cntregqu o poder ao conse- 
Iho do governo a (5 de Maio de is55 o regressou a 
Lisboa. 

O eonsellio, quo assumiu as redeas do governo de- 
pths da retirada do visconde de Ourem, era presidido 
pelo bispo eleito de Cociiiuj e vigario capitular do 


(■) J\* Kilipe Ncii do Sonsn, Aiiiiimrio >!o lyccti nanonat </<-’ 
Nova Goa, no quid >c adia ■oiiijrndiada t-oda ;i liistorin ddste 
estabclcciuiunlu desdu u.- wu* pri'-mirdibs ate 1SD0. 

18 * 



282 


arcebispado de Goa D, fr. Joaqttim de S. ^ita Botelho, sendo 
vogais o brigadeiro do exercito deate Eatado LntS da COS- 
ta CampOS, o escrivfto interino da Junta da Fazenda 
Francisco Xavier Peres, e os conselkeiros electivos Bernardo 
Heitor da Silveira e Loreqa e Yitor Anastacio Monr&o Carets 
Palha. 

Durante a sua gerencia suspendeu-se o levanta- 
mento de Satari, corno diremos ; foi estabelecida a 
escola de francos ein Mapugd e comegou a funcionar 
a escola de fisica, quimica e historia natural ( 1 ). 

A 3 de Novembro de 1855 principiou a governar 
a India Antfqio Cesar do Yaseoqcelos Correia, visconde, e 
depois conde, de Tdrres Novas ( 1855-64 ). 

fiste ilustre general, coadjuvado pelo seu douto 
secretdrio Cunha Rivara, pos terrao definitivaraente a 
sublevagao de Satari restituindo aos dessais emos 
ranes os seus privildgios que o visconde de Ourem lhes 
havia tirado. Lutou com as dificuldades que so- 
brevieram com a celebragdo da concordata de 1857 
entre a edria romana e o governo portugues s6bre 
o real padroado no Oriente, concordata que nao 
teve execuq&o por n&o poder ser determinada a 
circunscrigao das dioceses sufraganeas ( 2 ). Nesta 
epoca realizou-se na velha cidade a imponente cere- 
mdnia religiosa da exposiq£o do corpo de S. Francisco 
Xavier ( a 3 de Dezembro de 1859 ), concorrendo 
milhares de catdlicos de toda a India (*). 

0 conde de Tdrres Novas deu impulso A instrugao 
pdblica, ordenou vdrias obras sanitdrias e de aformo- 


0 M. V. de Abren, Breve noticia da creafao e exercicio da 
aula de prindpios de phisica, chimica e historia natural. 

0 Cunha Bivara, cit. artigos Jornada <ts partes do sul em 
1863 no Inslituto Vasco da Gama , 2.° vol. 

0 F. N. Xavier, Resumo hislorieo da vida de S. Francisco 
*Xavier, 2.“ ed. 



283 


seamento na capital, regularizou o 

bairro das Fontainhas e abriu estra- VArios melhora- 

das nas provincias, sendo a mais no- mentos 

tdvel a que vai de Ver4m a Sun- 

quervale. Em Novembro de 1857, de acdrdo com o 

governo da presidencia de Bombaim, estabeleceu a 

S rimeira linha de telegrafo eletrico de BelgAo a 
oa ( l ). 

Pelos melhoramentos com que dotara o pais duran- 
te o tridnio da sua administraggo havia sido recondu- 
zido no governo por mais seis anos. 

For esse tempo faleceu em Lisboa el-rei D. Pedro 
5.°, de saudosa raemdria, e subiu ao trono seu digno 
irmgo D. Luis l.°, cuja aclama<;go em Goa se realizou 
a It) de Maio de 1862. 

Ao conde de Torres Novas sucecleu o conselheiro 
JGS6 Ferreira Pestana, (1864-70) nomeado pela segunda 
vez governador geral da India, tendo tornado posse 
em 24 de Dezembro de 1864. 

Depois de cinco anos de governo justiceiro, con- 
servador e pacifico, o conselheiro Pestana teve o des- 
g6sto de ver triunfar uma revolta 
militar em Goa, conhecida pelo nome Revolta de 
de revolta de Volvoi. 0 governo Volvoi 

da metrdpole, querendo reorganizar 
por decreto de 2 de Dezembro de 1869 o enorme 
exdrcito da India, que, sem proveito nenhum, absor- 
via mais de metade do rendimento total deste Estado, 
extinguiu algumas companhias em cada um dos bata- 
HiCes. Em 1 de Fevereiro de 1870 Pestana ordenou 
a execugSo deste decreto. 0 resultado foi a revolta 
de quatro batalhoes, que, saindo dos seus quarteis de 


Q) Inaugnrada em Pangim natardede 13 de Fevereiro de 1859. 



284 


Margao, PondA, Bicholira e MapuqA, foram acampar 
em Volvoi (*). 


Q) A proposito do exercito da India convSm dar aqui uns 
ligeiros tragos sobre a saa organizag&o. 

A India portugucsa nfto teve tropas regulares e permanentes 
scnao desde 1670 em diante. Ate cnt&o a gente de guerra vinha 
de Portugal nas monies (3 mil homens), e o que faltasse para as 
expedites em preend idas, os fidalgos e capitaes o totnavam do pals. 

As tropas que guarneciarn as provincias, pragas e embarcagoe3, 
se denominavam Terfos , seguindo nisto o sistema e a •nomencla- 
tura usada em Portugal. 

Em 1670 veio para aqui um batalhao de infantaria com o sen 
west re de campo e quabro capitaes, e formaram-se (piatro compa- 
nliias que passaram a servir no arraial de Saisete. Foi csie o 
principio do cxcrcilo permanent e no Estado da India , diz Gunha 
Kivara. 

Francisco Jose deSampaioc Castro (1720) informou a el-rei 
ter criado, para obviar as grandos faltas de gente, quatro Tergos 
de auxiliares de 600 homens cada um, com patentee e numbramen- 
tos sent soldo c so com alguns privileges. O conde de Sandomil 
eievou o niimero dos Tergos a seis, que mais tarde passaram a ser 
tres. 

Em 20 de Agosto de 1733 teve logar na India o primeiro recru- 
tamento para a tropa regular; e dois anos depois organizaram-se 
as companhias de cavalaria e artelharia, e mais tarde as compa- 
nhias de sipais. 

Por dccreto de 17 de Margo de 1750 as tropas de guarnigao 
foram organizadas em regimento, e em virtude d£sse decreto, o 
marques de Alorna organizou dois regimentos de infantaria cada 
um de 19 companhias. Em 1773 foi creado mais um regimento 
de infantaria e um de artelharia. 

O marques de Pombal mandou constituir a legi&o de Pond& 
num efectivo de 1,200 homens cm dois batalhoes de 12 compa- 
nhias a 50 homens cada utria; e em 1785 foi creada a legi&o de 
Bardes alterando-se a de Ponda e subindo, por ordem superior, em 
1790, o completo de cada legiao a 1,747 pragas. 

Ao tempo do Conde do Rio Pardo (1816-1821) a forga militar 
de Goa era de dois regimentos de infantaria, duas legiOes, cada 
utna com sua companhia anexa de cavalaria dois batalhoes de 
cagadoreb e um regimento de artelharia, ir mtando a 6,920 o 
numero dc pragas de tropas regulares, alcm dr 296 sipais dos par- 



285 


0 governador cotnunicou por tel£grafo a notfcia do 
movimento ao governo da metrdpole e, preparando-se 
para domar os insurgentes, deu providencias para a 
segurangada capital, para o que contava com a guar- 
da municipal e artelharia, que nito haviam tornado 
parte na revolta ; mas, quando percebeu que n5o 
podia confiar Destes corpos, cedeu em tudo aos revol- 
tosos, aceitando as condiqoes que estes Ihe ditaram. 
Foi isto vergonhoso para a autoridade ; mas Festana, 
velho e canjado como estava a 6sse tempo, nao podia 
nesta crise restabelecer doutro modo a ordem e tran- 
qiiilidade piiblica, conio seria para desejar (*). 

Em conseqi'iencia desta revolta, Pestana foi exone- 
rado e partiu para Lisboa depois de entregar o go- 
verno ao seu sucessor. 

Durante o seu governo entraram em execuqSo ob 
iraportantes decretos de 1869, obra do peregrino en- 
genho do ministro Rebelo da Silva, sendo o mais no- 
tdvel a reforma das institutes administrativas ( 1 de 


tirdos dos Dessais com o soldo pago pelo Estado, e obrigados a 
servir em tempo de guerra. 

Mas depoia de paaaar por vftrias orgauizagoes ultimamente, em 
1851, estava fixado o efectivo do exdrcito da India em 8,135 indi- 
vidnos, compreendendo: nm oficial general, nm corpo de 12 enge- 
nlieiros, nm regimento de artelharia de 653 pranas o nm corpo de 
gnarda municipal de 161, estacionados na capital com as respecti- 
vas filarmdnicas: e fora da capital a infantaria, que contava 2,308 
pranas, e era dividida em quatro batalhoes; — o de cagadores In. 0 1 
em Margfto; o de iufantaria n.° 2 em Ponda; o de infantaria n.° 
3 em Bicholim; e o de cajadores n.° 4 em MapugA, tendo cada 
batalhSo anexa a ana filarmonica. 

0 decreto de 2 de Dezembro de 1869, que dava nma nova orea- 
nizag&o ao exercito da India, marcando-lhe o efectivo de 2,694 no- 
mens, den logar a revolta militar de Volvoi em 1870, e depois & 
de Marcela em >1871; e essas revoltas motivaram a exting&o do 
exdrcito. 

f 1 ) Oit. Goa sob a Dominat&o portugueza. 



286 


Dezembro ), altera ndo-se o Cddigo Administrative de 
1842, que tambdm entrara aqui em vigor no anterioi 
governo de Pestana, em 6 de Agosto de 1847 (*). 


capitulo xxrn 


1870-1898 — Extincao de oxercito da India ; 
Tratado luso-britanieo ; e construqiio da 
linha ferrea de Mormugao 


JaijnArio Correia de Almeida, visconde (depots condo) 
de S. Jamnirio empunhou as rt'dcas do governo a 7 de 
Maio de 1870. 

0 visconde de S. Jamuirio, liomeni inteligente e 
en6rgico, coadjuvado polo abalizado secretiirio geral 
o poeta Tomds Ribeiro, ia melhorando a administra§ao 
do Estado e aumentando-llie a receita, scm todavia 
deixar de favorecer a classe militar, a quern a reorga- 
niza<;tio do exercito havia prejudicado. Nestas circuns- 
tancias os quatro batalhues que se tinham revoltado na 
governagSo anterior, vendo que a inetrdpole demorava 
a execuQao das promessas do governa- 
Rcvolta de dor Pestana, decidiram-se a recorrer 
Marccla cle novo ao mesruo meio, e a 22, 23 o 
24 de Setembro de 1 87 1 sublevando- 
sc sucessivamente, foram postar na vellia cidade de 
Goa e depois ecu Marcela. 0 governador, que con- 
tava com o apoio da guarda municipal e artelharia, 


( l ) Ismael Gracias, Carta organica annolada , 2.® cd. 



287 


armou imediataiuente a capital para a defesa cons- 
truindo barricadas na proximidade do paldcio e colo- 
cando nas bocas das ruas algumas pegasde artelharia 
e no oiteiro da Couceigao dois morteiros, alem de es- 
tabelecer na ponte de Ribandar uina obra de fortifica- 
<;fio, e improvizar no Mandovi duas canlioneiras bem 
guarnecidas e umnicionadas; fecliou as escolas, cha- 
mando os alunos inilitares para fazerem servigo nesses 
corpos, telegrafou para o ministdrio e dirigiu ao mes- 
mo tempo aos habitantes da India portuguesa uma 
energica proclamaquo, prometendo empregar todos os 
meios para manter ileso o principio da autoridade. 

0 governo da inetropole tratou logo de organizer 
urn batalhao expediciondrio e, entretanto, mandou para 
a India a corveta de guerra, Este/ania, e o batalhao 
de cagadorcs n.° 1 estacionado em Setubal, pondo-se 
i\ testa da expedigito uni principe da familia real, o 
infante D. Augusto. A noticia destas prontas niedi- 
das e a atitude energica do governador produzirana 
urn efeito tao salutar, qne os insurgentes, apenas fo- 
ram intiinados a recolher-se dentro de seis boras para 
os seus quarteis, sob pena de, uo caso contnirio, iica- 
rein sujeitos ao mdxirao rigor das leis, todos se retira- 
ram submissos i\ ordem da autoridade, restabelecendo- 
se a breve treclio o sossego pdblico ( 30 de Setembro 
de 1871 ). 

Muito depois de apaziguada a revolta, a 9 de No- 
vembro entrou a barra de Goa a corveta Este/ania , 
comandada pelo capikio de mar e guerra, Jose Ba- 
tista de Andrade, o a 10 de Dezembro o vapor Necra, 
trazendo o infante D. Augusto (*), o batalhao de ca- 


0) E* o primciro principe ouropou quo vcio a Goa. Vieram 
depois : o principe uc Gales, Alberto Eduardo, que chegou 
aos 27 de Noveuibro de 1875. no gov&rno do general Tavares de 



288 


(adores n.° 1 e o novo governador, o general Joaquim 
Jos6 de Macedo e Couto, em substituigao do viscon- 
de de S. Janudrio, que foi transferido para a provfn- 
cia de Macau e Timor. 

O indulto prometido pelo visconde aos revoltosos 
nao foi conceaido pelo governo superior. 

Dentre os melhoramentos realizados no governo do 
visconde de 8. Janudrio os mais notaveis sao : 

A reforma postal, introduzindo-se o solo para a 
franquia das correspondences ( 2 ); a 
Ifelhoramen- creagao dos escrivaes vitalicios das 
tos notaveis confrarias ; o estabelecimento do 
imposto aduaneiro de 3% ad valorem 
s6bre as importances, com destino its obras publicas, 
que tomaram incremento; a fundag&o do Instituto 
Vasco da Gama, sociedade literdria e scientifica, inau- 
gurada em Pangim no dia 22 de Novembro de 1871, 
comemorando o 873.° aniversario da passagem do fn- 
clito herdi pelo cabo das Tormentas, quando veio des- 
cobrir a India (*). 

(.1871-75) Joaquim Jose do Macedo e Couto tomou posse 
do governo da India a 12 de Dezembro de 1871; por- 


Almeida; — D. Carlos de Bourbon (ramo de Hespauha), que esteve 
aqui em 25 e 26 de Fevereiro de 1885, no governo do visconde de 
Payo de Arcos; — D. Miguel de Bragan$a (preteudente portugues), 
inc d gnito, que esteve em Mormugao no dia 2 de Fevereiro de 
1898, com o titulo de duque de Newa, no govSrno do contra-al- 
mirante Teixeira da Silva;— e o infante D. Afonso Henriques, 
que desembarcou em Pangim no dia 13 de Novembro de 1895. 
Vide Ismael Gracias, 0 infante D. Augusto em Goa, prologo. 

(3) Os sOlos postais deste Estado entraram em circular em 
1 de Outubro de 1871. 

(*) No Ultramar, n.° 1924 de Dezembro de 1897 se 16 una 
artigo de Ismael Gracias, fazendo a minuciosa historia deste 
Instituto e na Era Nova, n.° 11 de 12 de Janeiro do 1898 a 
rela;£o nominal de todos os seus sdcios fundadores e correspon- 
dentes. 



280 


tador e encarregado de dar cumpriraento aos decretos 

de 11 de Novembro antecedente, en- 

tre os quais avultava o da extinqiio do 

exdrcito da India e o da organizagflo India ' 

da forga annada, executou-os todos 

sem o mais ligeiro obice. Foram, pois, dissolvidos os 

quatro batalhoes revoltados, sendo submetidos a jul- 

gamento em conselho de guerra os respectivos co- 

mandantes, e reduzida a f6r$a militar da India a uraa 

bateria de artelbaria e Algumas companhias de policia, 

aldm de urn batalhuo expedicionirio de Portugal; foi 

extinta a escolo materaatica e militar e estabelecido 

urn instituto prolissional (') e uni corpo de fiscaliza- 

§ao aduaneira. 

A 3 de Margo de 1872 chegou A, barra de Goa o 
transporte hvlia conduzindo o novo batalhao expedi- 
cionario e no dia 24 embarcou no mesmo vapor o in- 
fante D. Augusto, com o batalhao de cagadores n.° I, 
de regresso a Lisboa, tendo publicado na vespera am- 
nistiaaos revoltosos em nome de el-rei D. Luis l.°. 

0 govGrno do general Macedo e Couto foi inquie- 
tado pelas quadrillias de salteadores nas Novas Uon- 
quistas, que sucessivamente se iam formando, mas 
que a energia do governador e dos seus delegados 
concelhios pdde extirpar. Realizaram-se poucos me- 
lhoramentos materiais, porque todo o tempo era pou- 
co para as providencias contra a salteagem e o ban- 
ditismo. 

Ao general Macedo e Couto sucedeu o general 
Mo Tavares de Almeida (10 de Maio de 1875), cujo go- 
verno foi de simples expediente. Tavares de Almeida 


( l ) Oomejon a fnncionar no ano lectivo de 1872-73 e findon 
no de 1892-93, por ter sido extinto por decreto de 31 de Ontnbro 
de 1892. 



290 


era homem liberal e justo, mas ultra-conservador e 
viera j& achacoso de Lisboa. Morreu a 24 de Julho 
de 1877 no paldcio de Pangim. 

Assumiu a administrate um CODSelho gOTOmatiYO 
o primeiro que se constituiu nos t6rmos do art. 8.° 
do decreto orgdnico de 1 de Dezembro de 1869. 
Era composto do arcebispo primaz D. Aires de Ornelas 
e Yaseoncelos, presidente, e dos vogais — o presidente da 
Relagao, conselheiro Mo Ferreira Pinto, que nos seus 
impedimentos foi substituido pelo juiz, conselheiro 
Mo Caetano da Silva Campos, o coronet Francisco Xavier 
Soares da Yeiga e o secretario geral Eduardo Augusto de 
SA Rogneira Piljto de Balsemao. Durou a sua gerencia 
desde 24 de Julho atd 12 de Novembro de 1877. 

Nesse dia tomou posse o governador Antonio Sergio 
de Souza ( 1877-78 ), visconde de Sergio de Souza, 
que apresentou o prospecto dutna administrate de 
largos horisontes, mas veio a falecer no paldcio do 
Cabo a 3 de Maio de 1878. 

Tornou a governar o conselho, sendo desta vez 
composto do mesmo arcebispo e do mencionado juiz 
Silva Campos, e mais tarde do presidente da Relaqao 
conselheiro Tomas Nunes da Serra e Moura, do coro- 
nel Soares da V eiga, e do secretdrio geral interino 
Antonio Sdrgio de Souza, substituido depois pelo se- 
cretdrio geral Pinto de Balsemao. $ste conselho teve 
de conjurar a epidemia da cdlera em Goa e fez os 
preparativos da solene exposigao do corpo de S. 
Francisco Xavier. 

A 2 de Dezembro de 1878 tomou posse de governa- 
dor o contra-almirante Caetano Alexandre de Almeida Albu- 
qnertp (1878—82) e no dia seguinte abriu-se a expo- 
sigSo do corpo de S. Francisco quese encerroua 6 de 
Janeiro de 1879. 

0 governador Albuquerque foi incansdvel em orde- 
nar obras de saneamento em Pangim, a abertura de 



291 


estradas vicinais cm Salsete e Bardcs e v&rios outros 
melhoramentos de subido alcance. Administrador 
en£rgico, justo e zeloso, o seu tridnio 6 notavel pelos 
seguintes factos: 

A execugflo do tratado luso-bri- 
liinico de 26 dc Dezembro de 1878, Melhorametos 
a que logo nos referiremos. notaveis 

A iniciagfio dos trabalhos da linha 
ferrea de Mormugao (contra to de 18 de Abril de 
188 1 ). 

A navegagao fluvial interna nos rios de Goa por 
lanchas a vapor, que principiou no dia 22 de Margo 
de 1880. 

A coordenaguo das Jeis peculiares das comunidades 
era um regimento, o que foi um valioso servigo &que- 
las seculares e benemeritas associagoes. 

As consequeucias do tratado de 26 de Dezembro 
de 1878, podemos resumil-as em poucas palavras. 
Convengoe3 aduaneiras, monetarias, de extradigdo, de 
alianga econdmica, a lfnha fdrrea, em fim, vieram 
estreitar os vfnculos entre as duas Indias, irmanadas 
pelo clima, pela raga e pelas origens histdricas (*). 
Entretanto, como todas as medidas radicais, o tratado 


(') Durante cate tratado “ o comcrcio eateve libertado das 
peia.s adaanciras; mas faltava sal para o adubo da terra. Tive- 
mos tarobdm, como consequCncia dfile, o quebra-mar do pdrto de 
Morraugilo e o respectivo caminho de ferro, que pSe Sate terri- 
torio cm comunica^io, com o visinho; e deade entao ja nSo ha 
obstaculo para continuarem permu taffies nos meaes de Junho, 
•Julho c Agosto com o estrangeiro, como acontecia dantea. 0 
que • trem, e ccrto 6 que as despesas feitas neate melho ramen to, 
estat it« cm cima (fas fOr^as doste pais, que nao pode aatisfa* 
zer o j..ro do capital gasto e o governador Gaetano de Albuquer- 
que reconhccendo que esta colonia nao podia aguentar com as 
despezas das expropriates, conseguiu que a metropole as satisfi- 
zcssc." — Goa sob a dom. port, pag. 232. 



292 


ocasionou protestos, mesmo uma crisc que se p6de 
conjurar com providencias paralelas, avultanao a 
reforma tributdria de 1 de Setembro de 1881, obra 
do emiaente ministro Julio de Vijhena, que remode- 
lou de fond en comble todo o sistema de impostors e 
contribuigoes deste Estado (*). 

Em 10 de Abril de 1882 tomou posse o governador 
Carlos Engfaio Correia da Silva, (1882-86), visconde de 
Pago de Arcos, que funcionou efectivamente ate 2 de 
Abril de 1885 e virtualmente pelo ilustrado e endr- 
gico secretario geral Jose Maria Teixeira Guimaraes, 
atd 4 de Fevereiro de 1886. Durante este perfodo, 
executou-se sucessivamente a reforma tributdria de 
1 de Setembro de 1881 e foram atendidos vdrios 
melhoramentos locais, entre outros a organ izagSo dos 
correios com a introdugao de bilhetes e vales pos- 
tais ( s ). Inagurou-se, tambem, ein 81 de Outubro 
de 1882 uma primeira parte da linha ferrea de Mor- 
mugao e o bairro alto da cidade, denominado Gui- 
maraes. 

Pela exoneragao do governador visconde de Pago 
de Arcos, assumiu (1886) as rddeas do governo o 
conselho presidido pelo arcebispo primaz D. Antonio 
Sebastiao Valente, seodo vogais o presidente da Relagao, 
conselheiro Jos6 de Sd Coutin^o, o coronel Jose Inacio de 
Brito, e o secretdrio geral Jose Maria do Teixeira Cnimaraes, 
que funcionou ate 1 1 de Abril de 1886, em que tomou 
posse o conselheiro Francisco Joaqnim Ferreira d’Amaral, 
( 1886 ). Foi breve a sua gerencia que prometia 
muito, tendo apenas regulado novamente a admin is- 


(*) Alterado em algfltis pontos polo comissiirio regie <’cves 
Ferreira, por sua portaria de 20 de Julho de 1806. 

. ( 2 ) Os bilhetes postais comcparam a circular em 14 de Novcm- 
bro djB 1882 ; e a einissao dos vales principiod no 1.° de Maio de 
1884. 



293 


tragao c econotnia das comunidades e das mazanias 
dos pagodes (30 de Outubro de 1886). A 2 deNo- 
vembro parti u para Europa, eutregando o governo no 
dia anlecedonte ao eonsellio governativo coinposto 
dos mencionados arcebispo primaz, presidente da 
Rela^ao t. cnronel, servindo de secretario geral iute- 
rino Francisco Joao Xavier. 

Flste consellio dnrou ate 10 de Dezembro, em que 
tomou posse o governador contra-alinirante AugUStO 
Cesar Cardoso de Carvaliio, ( i sso-sn). A sua administra- 
te terniinou efectivameute em 28 do Abril de 1889 
em que embarcou para o reino, entregando o governo 
ao secretario geral Joaquirn Augusto Mousinho de 
Albuquerque e virtualmente em 24 de Maio seguinte, 
em que se instalou o consellio governativo, presidido 
pelo referido arcebispo, a esse tempo elevado ao titu- 
lo de Patriarca das Indias Orientals, sendo vogais o 
presidente da Relaqao Jose Jcaquim Borges de AzeYedo 
Eqes, o coronei Brito e o secretario geral M0USil|ll0 de 
Albuquerque. 

Durante este periodo £oi inaugurada e coraejou a 
funcionar a linba fdrrea; executou-se a reforraa fazen- 
daria de 20 de Dezembro de 1888; reorganizou’-se o 
correio c iniciaram-se varias estradas raunicipais. 

Em 16 de Junlio de 1889 tomou posse a governa- 
dor general Yasco Guedes de Caryallio e Meqezes, (1889- 
-91 ). A-pesar da sua administrate ter sido turvada 
por acontecimentos politico-eleitorais, foi assinalada 
pela exposigao • do corpo de S. Francisco Xa- 
vier, que foi solenissima (3 de Dezembro de 1890 a 1 
de Janeiro de 1891) (*); e por tuna exposigao agrico- 
la e industrial, que foi coroada de brilhante resultado 


(') Vide a Notieia historica dcsta exposi^ao, por Viriato de Al- 
buquerque. 

19 



294 


(7 do Dozcmbro <le 1890 a 6 de Janeiro de 1891). 

A 10 de Margo de 1891 toraou posse do govSrno o 
general Francisco Ifaria da Cunha, (1891-92), que fun- 
ctonou efectivaniente ate 1 1 de Dezembro desse ano e 
virtnaimentc pelo secret&rio’geral, conselheiro Joao 
JVIanoel Correia Taborda, atd 4 de Margo de 1892. 
Foi quein la.n<;on os priineiros lincainento's da escola 
do avtes e oficios, ora cxtinta (1898). 

Denunciado e:n 1891 o tratado luso-britiinico de 
1878, (indou a sua vigencia cm 14 de Janeiro de 
1892, tornando-se ao rogimen aduauciro anterior. 

Sucedeu o consclbo govcrnativo composto do raeu- 
cionado patriarca das Indias, do presidente da Rela- 
gao conselheiro Luis Fisher Berquo Pogas Falcao, do coro- 
nel Raimuqdo Maria Correia Mendes e do secretdrio geral 
Taborda; o qual ftincionou ale 28 do Mango de 1892. 

Nesse dia tomou posse o governador eontra-almi- 
te Francisco Teixeira da Silva, (1892) quo <leu execugao as 
novas reformat aduanciras, do abcari e das obras pu- 
blicas. I'] utro tide cguaJmcnlc com as eleieoes politi- 
cas, foi transferido, cm 13 de Margo de 1893, para o 
goveruo da provincia de Mozambique, para onde era- 
barcou a 9 de Abril, entregando o goveruo ao conse- 
lho composto do presidente da Rela«;ao Pogas Falc&O, do 
corouel Luis Carqeiro de Souza e Faro, e do secretario geral 
Taborda, o qual funciouou ate 2 de Julho de 1893. 
Durante o goveruo do contra-almirantc Teixeira da 
Silva, foi pronmlgada e cxecutada a reforma da 
instrugao secundaria e priinaria, de 31 dc Outubro 
de 1892. 

A 2 de Julho dc 1893 entrou no governo o 
eapitao-teneute da armada Rafael JaCODlO de Aqdrade, 
(1893-94) o qual era 30 dc Julho de 1894 largou o 
cxorcicio nas maos do 'secretario geral Taborda, suce- 
dendo-lhe um consclbo govcrnativo, composto do men- 

cionado Patriarca, do juiz du Uektgao Fraqcisco Antdqio 



295 


Ochoa, do coronel LllfS Carnciro e do referido se- 
cret&rio gcral Taborda. itlste conselho entregou o 
go verno em 8 de* Novembro de 1894 ao general de 
divisao, Elesbdo Jose de Betencoart Lapa, (1894-95 ) vis- 
conde de Vila Nova de Ourem (filho do antigo go- 
vernador deste titulo). 

0 facto mais notAvel do seu govSrno foi a revolta 
dos soldados inaratas, que, nao querendo marchar 
para a provincia de Mozambique, 
como ordenara o ministro da mari Revolta tins sol- 
nha Ferreira de Almeida, sairam do dados niaratas 
quartel em massa na noite de 1 .‘5 para 
14 de Setembro de 1895 (') e l’oram acampar no an- 
tigo forte deNanuz em Satan, onde se Dies juntaram 
os ranes e aldeoes, de indole irrequieta e que nao 
estavam satisfeitos com a forma por que se estavani 
distribuindo as terras daquela provincia. Esta revol- 
ta, assim engrossada. causou muitas depredaQSes e 
levou para toda a parte o terror, ate que veio de Lis- 
boa uma expedigao para a debelar, comandada por 
S. A. o infante D. Afonso, que desembarcou era Pan- 
gira no dia 13 de Novembro. Foi substituido o go- 
vernador Our6m pelo seu antecessor Rafael de Andrade, 
que tomou posse a 14 de Novembro (1895-96). 

A expedifjiio, depois de ouvir uma missa cam pal, 
celebrada no domingo, 24 de Novembro, no campo 
de D. Mauoel pelo patriarca das Indias, e que foi a 
priraeira solenidade deste genero em (xoa, marchou 


(') Eis o n.° das pranas qua se revoltaram : 


1. ° cabo 1 

2. °* cabos 6 

Soldados 289 

Cornetciros 2 

Total 298 



296 


no dia 25 para Satan, onde se conservou ate De- 
zembro, pondo etn retirada os revoltosos. 

Durante 6ste governo, o pais todo esteve sob o peso 
da opr6ssiio. 0 governador visoonde de Ourem, pou- 
co depois da revolta dos militares e a sua juinjiio aos 
ranes, tinha declarado suspensas as garantias consti- 
tucionais era todo o territdrio de Goa ( note-se que o 
l.° visconde de Ourem diante da revolta de Dipt! 
Kanes as tinha suspendido unicameute nas provincias 
de Bicholim, Satan, PondA e Einbarbaceni ); a t:lo 
violenta providencia sucederam outras nfto menos vio- 
lentas, mas dispensdveis, do novo governador, espa- 
lhando o sobresalto e terror cm todns as povoa^Ges, 
era todas as farnilias e lares. Mas vainos ii origera 
desta alteragao politica que aiuargurou a India. 

Nos viltimos raeses da governa^ao anterior, 0 Bra- 
do Indiano, jornal redigido pelo bispo scisnmtico 
Francisco Xavier A’lvares, natural de Vernil e resi- 
dente em Pangira, teinperamento exaltado, publicou 
alguns artigos em liuguagem veemente, agredindo 
certos fnneiomirios europeus de urn modo bastante 
desabrido, que produziu nestes irritaffio surda. 

0 administrador do concelho das Ilhas, que era 
urn dos agredidos, lunge de processar o redactor pelo 
crime de abuso da liberdade da imprensu, prendeu-o 
coiuo sediciosn , por haver recebido unias andniinas 
denunciando um projectode sediflfio, e, depois de o ter 
vexado com o encerramento em um calabougo imun- 
do, o remeteu coni o respectivo processo ao juiz de 
direito. Foi isto ua primeira dezena de Setembro 

de 1895. 

0 juiz, que eraeuropeu, nfio encontrando elementos 
do crime de rebeliiio, pos cm liberdade o preso; e, dois 
ou tres dias depois, julgou e absolveu o seu advogado 
Sertdrlo Coelho, que tambem havia sido detido admi- 



nistrativamente no mesmo calabougo talvez como ciim- 
plice no mesmo crime. 

Alguns amigos particulars de cada um dos presos 
receberam-nos, quando restituidos a liberdade, co.m en- 
tusiasmo de memento, o que provavelmente repre- 
sentava um protesto contra as prisoes, que Cstesjul- 
gavam arbitr&rias emquanto nfio estavam suspensas 
as garantias constitucionais. 

Nesta conjuntura ocorreu a referida revolta dos 
soldados maratas, reforfada depois pela vigositna 
insurrei^ao dos ranes de Satari, visdndo cada uma a 
um objective) bem diferente e definido ; em sua con- 
seqiicncia tendo side exonerado o visconde tie Ou- 
rem, veio governar a India Rafael de Andrade ( l ). 

No iriicio mesmo da nova governagao, o grupo de 
funciouarios europeus, que havia sido atingido pelo 
Brado Indiana, ligando os ntaques da imprensa com 
os factos, que, por uma fatalidade, se llies seguirara 
imediutaraente. viu no sen conjunto, n:io it luz do 
criterio, mas pelo prisma das aparencias, uma sediad-j 
nativista provocada pelo referido periddico, e envoi- 
veil nesta numerosos lilhos da India, grandcs e peque- 
nos, tanto os suposlos colaboradorcs daquelc jornal, 
como os que nunca o leram e aiuda os que sempre o 
detestaram. 

A iutriga traballiou nesta terrivel obra iucangiivel- 
mente, algumas cubi<;ase malquercngas se acendcram, 
e a India, que sempre foi cordialmente portuguesa, 
passou de repeute por sediciosa, sem que tivesse 
havido nela a minima convulsslo ncm sombra de mo- 
vimento popular contra a auturidade estabelecida. 

Rafael de Andrade, inspirando-se uas ideas dos 
que o cercavam, participou ao goveruo central a exis- 


(’) Diremoa era outro logur o <|ue se passou cm Satan. 

19 * 



298 


tencia da sedi(;ao, inandou vurios funciomirios eivis 
e militares nascidos na India, uns para Mozambique e 
outros para Damuo e Diu, e exonerou alguns empre- 
gados publicos inuito prestantes e encanecidoa no 
servi^o ('). 

Noineou am conselho de guerra permanente, quo 
enchia as cadeias de prcsos como implication na sedi- 
<;fio e revolta. Organizou uma ronda 
l’rovitlfiiicias volaute, que, por nfio respeitar o di- 

violeutas reito de propriedade do Dessai de 

Sunda, provocon o levantamento 
dCste Dessai com uma nova quadrilba de salteadores 
aliada dos nines j& suhlcvados. Proibiu divulgar a 


(*) Nao nos d possivcl dar a relaziio nominal dos oliciais uiili- 
tares e empregados publicos de difcrcntcs hierarquias afastados 
para pontos distantos de Goa, nein dos que forarn presos, exonera- 
dos ou obrigados a emigrar; mas referir-nos-hemos a uns poucos 
que cheguram ao nosso conliecimento. Dr. Rafael Pereira, chefe 
do scrvizo de saiidc, foi transferido para Cabo Verde, coronci 
•Joao de^'Jfelo Sampaio, reitor do Liceu National, e Ismael Gra- 
cias, professor do mesmo liceu e oficial da secretaria geral, forum 
maudados para Da mao; Bernardo F. da Costa, antigo deputado 
da naeiiu e inspector da instriif/io primaria, para Diu; Jos c 
Antonio Pereira de Azainbuja, professor da escola normal, para 
Mozambique ; Caetano Francisco Ilenriques, administrador do 
coucelho de Bardes exonerado c preso ua Canhoneira Rio Lima 
por alguns raeses e seu sogro, o advogado Inatio Gaetano de Car- 
valho, visconde de Bardes, teve do emigrar e conservar-se por 
muito tempo na India Britanica para fugir da violenta per- 
seguizao line se lhe movia, sendo considerado o principal instiga- 
dor da revolta dos Ranes seus antigos clientes. Nao se fala dos 
que forara detidos por poucos dias. 

A his tor ia desta sedigao e revolta, com os respectivos episo- 
dios tristes c alegrcs, fa-la- ha a poslcridade, c so entao osfaccos, 
hoje aiuda contemporaneos, hfio de aparecer cm toda a sua luz. 

Entretanto, podem encontrar-se muitas informazoes no livro 
Goa sob a domina&lo portuguesa e em varios folhetos contempo- 
raneos. 



299 


noticia de tudo o que passava nas repartiqoes piiblicas 
sob pena de demissSo de quern a divulgasse, ou de 
todos os empregados da repartigdo, uo caso de niio 
se descobrir o divulgador. 

Suspendeu a publicaqao de todos os joruais, sendo 
ainda apreendidos os jornais portugueses, que viessem 
de Bombaim. Dissolveu a junta ae saiide composta 
de trSs facultativos distiutos, fillios da India, consti- 
tuindo uma nova junta presidida por um facultativo 
europeu nomeado chefe dos services de saiide, embora 
degradua^So militar inferior i\ daqueles sens colegas, 
ao qual deu tambem a superintendCmcia de um hos- 
pital de samjue, moutado no rez-do-chfio do pal&cio do 
governo em Pangim. 

Entretanto os ecos da India chegaram a Lisboa: as 
cartas de oficiais expcdiciondrios e ontros europens 
de tempera verdadeiramente portuguesa, informando 
suas relates e os jornais de Portugal de quo a im- 
prensa indiana niio contribuira por forma nenhuma 
para a desergfto dos soldados nem havia em Goa cousa 
alguma que indicasse sedigiio ( J ); o clamor dos pre- 


(') O capitao de estado maior, Garcia Rozado, escreven a ustc 

respeito na Revista do excrcito e armada o seguinte “ Mas 

se esses desertores cram guiados ou inspirados por uma sediyuo <lc 
nativos, nao sc comprccndc que, estando na capital, nao procuras- 
sem assenhorear-se dela, ou ao menos, dos dinbciros piiblieos c dos 
odiados funcionarios curopeus. Alern disto, todos virarn pelas 
describes dos jornais, que os soldados sairam tumultuariamcntc do 
quart?’ vara o largo fronteiro, onde, dentro cm pouco, com algn- 
raas pranas de policia ( iudigena ) conipareceu o administrador do 
concelho ( Gomes da Costa ), sabedor do ocorrido primeiro do 
que ninguem, e que, esgetados outros recursos, procurou dominar 
os discolos dirigindo contra files algumas descargas, limitando-se 
os desertores, a-pesar-de se terem apossado das suas armas, a 
seguir na direcg&o de Ribandar, podendo aquele funcionario — 
contudo um dos mais violentamente agredidos na impreusa — 
acompanhi-los ainda duraute grande extensito, com o fim de con* 



300 


judicados ; a raorte de Bernardo Francisco da Cos- 
ta, ocorrida na praga de Diu, para onde havia sido’ 
oficialmente mandado por espirito de perseguigOo ; 
os artigos do Universal , jornal do depntado pela 
India Constftncio Roque da Costa, que se publi- 
cava em Lisboa, em defesa dos interesses indianos, e 
varies outros factores reviraram a opiniao piiblica da 
metropole, e Rafael de Andrade foi snbstituido pelo 
infante D. Afonso Hflljriqnes com o tltulo de Viso-rei 
(1896), conferindo-se-lhe os poderes do executivo, qne 
desempenhou desde o dia 19 de Margo ate 27 de Maio 
de 1896, dando aos povos a esperanga da paz e dura 
melhor futuro, proinulgando difereintes providencias 
de largo alcance e tendo na despedida concedido em 
nome de el-rei amnistia aos revoltosos. 

Sua Alteza regressou com a expedigao no dia 29 de 
Maio, tendo no dia 27 entregue o governo ao con- 
selheiro Joao Antoqio de Brissac das Neves Ferreira ( 1896- 
-97 ) noraeado comissdrio rdgio, tarabem, com os 
poderes do executivo, por decreto de 22 de Maio 
de 1896. 

0 co selheiro Neves Ferreira governor desde 27 
de Maio de 1896 ate 3 de Margo de 1 897. No uso 
das atribuigoes do executivo reorganizou a instrugao 
secunddria e publicou varios e importantes decretos, 
que uma ordem regia posterior raandou denominar 
portarias. 0 que, pordm, deslustrou a sua administra- 
gSo foi a portaria de 29 de Maio de 1896, com que 
a estreou, mandando passar pelas armas os indivfduos 
que fossem encontrados'em flagrante delito de rnubo 
ou de homicidio, portaria, cujos tristes efeitos foram 
ainda agravados por odios locais, causando muitas 


vencd-losa recolherem ao qaartel, sam ter sido 7ltima de qaalqner 
violdocia Vid. Goa sob a Domin. port, p g. 265-266. 



301 


vitiraas, e qae contrasta frisantemeute com a gene- 
rosidade com qae Portugal, adiante de muitas nagoes, 
aboliu a pena de morte. 

Restabeleceu o exdrcito indiano (qae havia sido 
extinto era 1871 depois da revolta de Marcela) for* 
mando quadros exclusivos para europeus, outros 
para 6stes e seus descendentes, e o terceiro para 
todos. ftste numeroso exercito, pelo qual estavam 
militarizadas at6 as administrates das matas, dos prd- 
dios nacionais e das aldeias, contava 170 obciais, cus- 
tando a despesa anual de 287 contos ou 967.500 
rupias; e por isso esta organiza^ao n&o foi aprovada 
pelo govorno superior. 

Com a retirada do comissdrio rdgio ficou gover- 
naudo o mencionado secretdrio geral Taborda (1897), 
assn mi ado o poder em 13 de Maio de 1897 urn con- 
selho governativo composlo do referido P&triaFCil, do 
juiz da Relaqao OchOa, depois substituido pelo pre- 
sidente do mesmo tribunal, Abel AugQStO Correia do 
Finho, do coronel JoiLo de Melo de Sampaio e do referido 
secretdrio geral. $ste conselho governou atd 18 de 
Agosto de 1897. 


CAPfTULO XXIV 

(1897 — 1925) PaeifieaQ&o de Satarl e 
varios melhoramentos. 

No dia 19 de Agosto tomou posse o governador ge- 
ral Joaqnim Josd Hacfado (1897-1900), cujos primeiros 
actos, recebidos com geral aplauso, foram a concess&o 
definitiva da amnistia em portaria de 9 de Setembro 



302 


de 1897, firmando a pacificagao com pie ta do Estado 
da India, e o lerantamento da suspensao imposta ao 
jornalismo pelo governador R. de Andrade. 

Em aeguida k pacificagao de Satari o general 
Machado promulgou a sua reforma adminisirativa e 
abriu estradas indispens&veis para o progresso daque- 
la provincia e para a mauutengao da ordein publics; 
conseguindo ao mesmo tempo que o governo britani- 
co, a-pesar-de nfLo existir tratado de extradicfio, lhe fi- 
zesse a entrega de 25 prisioneiros pathans , — auto res 
dos importantcs ronbos praticados eni pagodes das 
Novas Conquistas em 1897 e 1898, — e de alguns as- 
sassinos todos refugiados no territorio ingles. 

Continuando a trabalhar criou a escola de tiro 
Infante D. Afonso e o gindsio do batalhuo de infanta- 
ria. 

Constrniu e abriu a exploragao a linlia telegrdfica 
da capital k Ponda, Sanquelim e Valpoi; a qual pou- 
co depois foi prolongada ate Mapugd, e hoje se eticon- 
tra extendida por quasi todos os concelhos de Goa. 

Deu excepcional iuipulso aos trabalhos de viagao, 
construindo principalmente no conceiho de Bardes, 
uma rede de estradas, que ao presente facilitam a 
circulagfto da vida e o movimento rfipido das popu- 
lates rurais. 

Melhorou considen'ivelinente a imprcnsa nacional. 

Por motivos de economia extinguiu a escola de ar- 
tes e oficios, conservando-lhe o que tinha de utilidade 
pratica, — as oficinas de encadernagao, serralharia e ear- 
pintaria. 

Criou a repartigiio de ayrimemura para proceder 
ao levantamento da carta corografica e agricola dcste 
Estado e h organisaqao do eadastro geral, com o fim de 
proporcionar ao pais o melhor rneio d.e definir os lirni- 
tes-da propriedade e evitar as demandas prolongadas 
s6bre as usurpaqoes dos terrenos. 



303 


Criou tambdm a repartkjfio dos serviQOs hidrduh'cos 
era beneffcio da agriculture; e modificou alguns ira- 
postos. 

Transferido para o governo da provincia de Mozam- 
bique por decreto de 22 de Mar<;o de 1900, fez entrega 
do governo era 3 de Abril desse ano ao conselho gover- 
nativo, composto do conselheiro presidente da Relagiio 
Abel de Pinko, e do corooel Joao de Melo de Sarnpaio, 
estando ausento por raotivo justificado o patriarca 
D. Antdnio Sebastiito Valente, e com licenqa na me- 
trdpole o secretdrio geral Taborda. 

Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo, (1900-905) coronel 
de ini'antaria do exercito de Portugal, depois general 
de brigada, transferido por I), de 22 de Margo de 
1900, do governo de Macau para o da India, totnou 
posse na igreja do Bora Jesus a 13 de Maio desse 
ano. 

Depurou com endrgicas provideucias o Satari dos 
eleraentos de perturbagao e desordem, que prejudica- 
vam a tranqiiilidade publics, sendo, depois de sus- 
pends as garantias constitueionais era todos os conce- 
llios das Novas Conquistas era 14 de Fevereiro de 
1902, presos e degredados os desordeiros para Timor. 

Melkorou inuito o edificio do Liceu Nacional, ara- 
pliando-lhe as aulas e os corredores contfguos; e pro- 
pos a remodelazilo da nossa instrufslo secundaria, quo 
foi aprovada provisoriamente por port, ministerial de 
31 de Dezembro de 1900. 

Prestando atenquo as escolas priraarias, ordenou 
a constvuqiio de uovos ediffcios para algumas, distri- 
buindo-lhes mobilia indispensavel. 

Ilegularizou o serviqo do lazareto dos lieis-Magos e 
toraou varias tnedidas para evitar a importaqao da 
peste bubouica e da colera era Goa, seudo coustruida 
uma enferraaria-lazareto no planalto de Morraugao; e 
empregou os sens raelkores esforgos pelo saneamento 



504 


da vila de Mapu$£, cruelmente invadida pela referida 
peste bubdnica ( 1 ). 

Em 30 de Novembro de 1901 foi celebrado o con* 
trato entre o governo portuguds e o Banco Nacional 
Ultramarino para o privilAgio de emissSo de notas e 
obriga§des prediais no Ultramar, recebendo o banco 
todos os rendimentos piiblicos e os depdsitos judiciais, e 
comprometendo-se, como tesoureiro gratuito do Es- 
tado, & pagar nas localidades, onde tiver caixas filial s 
on agendas, as despesas pdblicas ate ao limite dos 
fundos do mesmo Estado que tenha era caixa ou na 
agenda local. 

Realizou-se tarob&n em 1902 a entrega da explo- 
ra$fto da linba fdrrea West India P. Railway A 
companhia Southern Maratha. 

Foram decretadas novas tabelas de portes e taxae 
de corresponddncias postais; e regulamentou-se o re- 
gisto civil dos habitantes nao cristdos do Estado da 
India. 

Foi elaborado na secgao da estatistica da secretaria 
geral o censo da popula^ao deste Estado referido 
a 1 de Dezembro de 1900, trabalho que, tendo reuni- 
do uma valiosa soma de informagoes e de mapas 
estatisticos, foi louvado em port, rdgia. 

Atendendo ao desenvolvimento do pdrto de Mor- 
mugao, reduziu os direitos de tonelagem, estAdio e 
acostagem das embarcagoes, e, conforme as circuns- 
tancias, ainda o imposto de Wharfage, visando atrair 
ao pdrto navios a v^pdr, que o ponham em directa 
comunicagfto com os portos europeus, e aumentar o 
trAfego pela linha fArrea. 

0) Durante rata governanao deu-se em 3 de Dezembro de 1901 
am laqient&vel siniatro mantimo, afuudando-se a lancha a vapor 
GSa na travessia de Yer6m a Pangim causando cSrea de 80 
vitimaa. 



305 


Reorgamzo u a Comissclo Arqueoldgica Permanente 
da India Portuguesa , dando vigoroso itnpulso aos 
trabalhos de conserva$ao dos monumentos histdricos, 
sendo inserida no or<;amento do Estado uma verba 
para fisse fim e publicando-se logo o l.° nuraero do 
Oriente Portugues, revista dessa comissao. 

Regresson h metrdpole em 11 de Junho de 1905, 
entregando o govtirno ao secretdrio geral Dr. Fran- 
cisco Maria Peixoto Vieira, que depois o passou para 
as rmlos do conselho governativo, composto do patri- 
arca Valente, Alfredo Augusto de Mendon^a David, 
presidente da Relagilo, general Jose • Emilio Santana 
da Cunha Castelo Branco e o referido sec. geral. 

Arnaldo de Novais Gnedes Rebelo (1905-907) coronel de 
artelharia, nomeado por I), de 5 de Agosto de 1905, 
tomou posse no Born Jesus a 8 de Novembro do 
mesmo ano. 

Tendo-se descoberto Das Novas Conquistas, em Fe- 
vereiro de 1905, o primeiro jazigo de minerio de 
mangands e publicado no Bol. Of. de 22 de Dezem- 
bro ddsse ano o decreto de 29 de Dezembro de 1898, 
que fixava os direitos e obrigatjoes dos manifestantes 
de winas, apareceram numerosissimos manifestos a- 
t raid os pelo prd^o muito elevado que atingiu o man- 
gands durante os anos de 1906 e 1907. O governa- 
dcr nestas cireunstancias teve de criar uma reparti§So 
especial destinada a tratar dos assuntos de minas, 
ao cargo do director dos servigos de agrimensura. 

Depois de 1907 essa febre do manganes declinou 
por causa da grande baixa no prd$o desse mindrio. 
Contudo continuaram a registar-se muitos manifestos 
de jazigos de carv&o, dxido de ferro, mangands e mica. 

Autorizado pelo govdrno superior, p6s em execuqSo 
neste Estado, por port, de 18 de Abril de 1906, o 
regime vigente da instrug&o secunddria modificado 
pelo decreto de 29 de Agosto de 1905, com todas as 



306 


disposi§oes oompleraentares constantes dos decretos 
porteriormente publicados, sendo. depois da represen- 
ta<;ilo do governador, adaptado ao liceu da India por 
decreto de 23 de Agosto de 1906. 

Reduziu os impostos de tonelagem e os emolumen- 
tos sanitarios dos portos da Tndia. 

Retirou-se para a metropole em 10 de Abril de 
1907, entregando o govcrno ao conselho governativo 
cotnposto de Antdnio Augusto Barbosa Viana, juiz 
servindo de presidente da Rclacfio, Cesar Augusto 
Roncon, coronel. e Francisco Maria Peixoto Vieira 
secretdrio geral. 

Jos6 Karia de Souza Horta e Costa (1907-10), major de 
engenharia do exdrcito de Portugal, noraeado por 
decreto de 14 de Fcvereiro de 1907, tomou posse na 
igreja do Bom Jesus em 9 de Maio d© mesmo ano. 

Durante a sua governa^So em 1908, foram abertas 
muitas estradas nas Novas Conquistas e algumas em 
Bardes, Salcete e Ilhas, entrando neste grupo a Ave- 
nida Aires de Ornelas , importante melhoramento de 
Panjitn ate ao Cam pal ; e como coraplemento da redo de 
via$tlo, Horta e Costa mandou construir as pontes de 
Quepdm, Sanguem, Sanquelim, Bicholitn, Banastarim,, 
Borim e Baga. Das poucas que foram concluidas a 
de Banastarim cam e ainda nilo foi reconstruida. 

Em 25 de Janeiro de 1908 faleceu no convento do 
i ilar o l.° Patriarca das Indias, D. Antonio Sebastiilo 
Valente. E em 1 de Feveriro (sab ado) foram assas- 
sinados no Terreiro do Paqo, era Lisboa, el-rei D. Car- 
los e o principe Luis Filipe. 

Em 1909 concluiram-se as obras do grande reser- 
vatdrio de captagem das dguas de chuva em Chimbel 
e a canalizag&o de abastecimento em v&rios pontos da 
cidade. Utilissimo melhoramento sem duvida ; mas 
infelizmente na pr&tica nSo tem dado os resultados 
bendficos que se esperavam durante a esta$ao calmosa, 



307 


era que a cidade se aflige por absoluta escasses das 
aguas. 

No p 6 rto de Mormugao por autorizaqao do govcrno 
central foram executadas importanles obras, em que 
se gastaram perto de 11 laques de rupias, sem novo 
cncargo para o Estado da India, coni o duplo fim de 
prolongar o mollie de defesa e de aumentar a extensao 
de aeostagem no cais de embarque e desembarque. 

Prestando a ten 5:10 especial k explora$ao mineira, 
llorta e Costa, na iiipotese do que a baixa do preqo 
que tinlia experimentado 0 mauganes seria temporsi- 
ria, e o grande niitucro de jazigos que se descobriam, 
( pois jsi liavia 425 manifestos ) poderiam provavel- 
mente produzir uma eonsideravel quantidade desse 
minerio em Goa e afluir capitais ao nosso pais, orga- 
nizou definitivamente a seegiio de minas, de modo a 
dar o tnais riipido andamento aos processos de conces- 
soes e i\ rcsoluguo de questoes pendentes, requisitan- 
do para Lisboa uni engenbeiro de minas. 

Relativamente a agricultura ordenou com autoriza- 
qilo superior a execugiio das obras hidrsiulicas do canal 
de Paroda, feitas pelo Estado e do reservatorio de 
Bondvol, na freguezia de Santa Cruz, custeadas pela 
respectiva couumidade, iniciando-se os trabalhos de 
irrigagflo dos campos, 0 que prometia melhorar as 
duas novidades. 

Duraute esta governaqito em 5 de Outubro de 1910 
foi proclamada a Rep&blica e por decreto de 10 desse 
mfis Horta e Costa foi exonerado. 

Como 0 regime republicano modificou profunda* 
mente a administragio colonial (‘) e para mais, esta- 


(i) Em 27 de Jalho de 1917 foi decretada a carta orgdnica do 
Estado da India, constituindo oste Estado um orgauismo admi- 
nistrativo e financciro autonomo, sob a superintendencia e fisca- 



308 


mos era plena actualidade, liraitarao-uos a -recolher 
apenas os notnes dos nossos governadores, as datas 
da respectiva posse e a duragao do sou governo. 

0 bacharel Francisco fl[anoel Couceiro da Costa, juiz de 

direito da coinarca de Salcete, uoraeado governa- 
dor geral por D. de 10 de Outubro de 1910, tomou 
posse no paldcio do governo era Pangira era 12 
do mesmo raes e tendo governado quasi 7 anos 
retirou-se para a raetropole em 2 de Julho de 1917, 
fazendo entrega do governo ao'secretdrio geral Pei- 
xoto Vieira, que o passou era 18 do roferido mes para 
o conselho governativo composto de FranciSCO PoilOtO 
de Oliveira e SilYa presidente da lielaQuo, coronel medi- 
co Francisco Antonio Wolfango da Silva, chet’e dos services 
de saude e Peixoto Vieira secretdrio geral. 

Jose de Freitas l(ibeiro, capittlo de fragata, noraeado 
governador por decreto de 12 de Junho de 1917, 
tomou posse no paldcio de Pangira era 24 de No- 
vembro do mesmo ano. e governou ate 16 de Junho 
de 1919, em que regressou para a metrdpole tendo 
entregue o governo ao capitao-lenente AttgnstO do 
Paiva Bobela da t(ota, nomeado governador geral interino 
por decreto de 23 de Maio de 1919, o qaal governou 
ate 12 de Novembro do mesmo ano. 

Jaime Alberto de Castro Morais, capitao-tenente-medico, 
Domeado governador por decreto de 23 "de Maio de 
1919, tomou posse no paldcio do govfirno em Pangira 
em 12 Novembro; e governou atd 6 de Abril iraediato 
de 1925, em que entregou o gov&rno ao secretdrio 
geral e presidente do conselho legislativo FranciSCO 1(. 
PeiXOtO Vieira e regressou & metropole. 


lizag&o da . metrdpole, sendo o principal drgSo da administragto, 
depois do governador geral, o conselho do governo, posteriormen- 
te trdnsformado em conselho legislativo e executivo. 



309 


Em 8 de Julho de 1925 fcomou posse do govthno 
o eapitao de fragata Mariano MartiifS nomeado, por D. 
de 30 de Abril, governador geral da India. 


CAPITULO XXV 

Territdrio portuguAs no oriente nos 
principios do sdeulo XIX 


0 territArio que nos restou do vasto impArio luso- 
indiano nos principios do sAculo XIX, compreendia, 
al6m de Goa, Daroao e Diu, a feitoria de Surrate e as 
terras de Macau, Timor e Solor, achando-se a Area de 
Goa recentemente ampliada com a definitiva anexa- 
#lo das Novas Conquisbas. 

Mas o decreto de 20 de Setembro de 1844 creou a 
provincia de Macau, Timor e Solor, independente do 
Estado da India ; e em 1880 foi extinto o privilAgio 
da feitoria de Surrate. 

Diremos duas palavras sdbre esta feitoria, fazendo 
em segaida uma sinopse da aquisigao das Novas Con- 
quistas. 


Feitoria de Surrate 

Snrrate passara desde 1573 ao dominio do grande 
Akbar, tornando-se um importante empArio comer- 
cial e possuindo ali os portngueses uma feitoria. 

Ha quern diga que Aste estabelecimento portugues 
em Surrate principiara em 1611, por virtude de nm 
tratado celebrado entre o vice-rei Rui Lourengo de 
TAvora e o imperador de Delhi, Jehangir, sendo no- 
20 



310 


taeado feitor Antdnio Pais da Rua (*); mas, parece 
que n&o se ffsz efectivo £ste tratado, pois que o docu- 
ment*) mais ar.tigo da couccssfio da feitoria, publi- 
cado por Cunha Rivara, e o finnan do Grdo-Mogol, 
de 1714. 

Dos v&rios privileges alcangados desse imperador 
pelo governo portugues, o mais iiuportante era o de 
n*Io pagarena os mercadores portugueses it alfandega 
de Sorrate ( britanica ) mais de 2 por cento dos 
direitos, quer na importa^fio quer na exportagiio dos 
artigos do seu comercio, direitos que mais tarde 
(1719) forara elevados a 2^ por cento. Alera disto, 
a aifandega portuguesa de Surrate recebia 2 por cento 
para a representa$ao nacional e sustentaqilo da nossa 
bandeira, que o imperador permitira arvorar na 
feitoria. Esta prerogativa era vantajosa para as mer- 
cadorias portuguesas, que chegavam a veuder-se 
mais baratas, tendo, por isso, mais procura do que as 
outras, despachadas pela alfandega inglesa conforine 
as suas pautas tnuito elevadas ( 7 a 20 por cento ). 

Com esta generosa prote^fto do inogol a nossa fei- 
toria prosperou e chegou a ter alta importaucia polt- 
tica e comercial no golfo de Cambaia, especialmente 
na epoca em que afluiam ao seu porto navios que 
transportavam fazendas e riquezas do oriente e do 
ocidente. ’Em 1795 foi a feitoria elevada a catego- 
ria de consulado geral de Bom bairn e Surrate. 0 
seu pessoal era composto de urn director da feitoria 
com atribuigoes de agente consular, urn escrivao e 
um marfatia ou recebedor, sendo o primeiro nomea- 
do pelo governo da raetrdpole e pages todos pelo 
Estado da India. 

Quando, mais tarde, comegou a florescer a cidade de 


(*) Dr. 'M. de Carvalho, Questdes da India , pag. 447. 



311 


Bombaim, atraindo todo o comdrcio para o seu pdrto, 
era visivel a deeadenoia de Surrate ; contudo, esta 
feitoria, produzia urn pouco raais de 600 mil rupiasao 
ano. Daqui se pode ver a sua importancia e valia 
comercial. Em 1300 os iugloses tomaram posse 
total de Surrate e seus territories; e o seu govdrno, 
que a principio coufirmara o nosso privildgio, reti- 
rou-o em 1843 por um uovo regularaento ; mas o 
nosso patricio Antonio Bernardo Pereira, ao tempo 
director da feitoria, reclamou e conseguiu recupera-lo 
em 1344; o privildgio continuon por algnns anos, ate 
que, em consequeucia do tratado luso-britanico de 1878, 
l'oi extintc por P. P. de 12 de Jaueiro de 1880. 

Desta mancira acabou uni dos monumentos da nossa 
niaior gldria no dominio estrangeiro. 

A casa onde l’unciouou a feitoria por arrendamento 
perpetuo, e lioje habitada por urua familia parse, tal- 
v<\s deseendente do primitivo proprietArio. Lord Cur- 
zon, vice-rei da India inglesa, na sua Altima visita a 
Surrate mamlou colocar na parede interna do edificio, 
em memdria do nosso estabeleciraento, mna Idpide de 
uisinnore coni a inseiijrto = Portuguese Factory— .Da. 
antiga igrej.'j dos capuchiuhos, que foi a pardquia da 
feitoria, hoje couipletamente demolida, foram transfe- 
ridas para unia capela de constru§3o moderna, algu- 
•inas lilpidas com inscri^oes e entre elas aparece a de 
Antdnio Bernard^ Pereira, falecido em 1862. 

Anexaqsio das Novas Conquistas 

A regifio das Novas Conquistas, que se extends do 
Cabo de Rama at6 a fortaleza de Tiracoi e se achava 
dividida em 10 provfncias, anexou-se definitivamente 
ao Estado da India nos fins do secolo XVIII. 

A provxncia de Pondd foi conquistada cm 1763 pelo 



312 


vice-rei conde da Ega. Mas so passou de facto ao do- 
minio portugu&s em virtude do tratado de 17 de Ja- 
neiro de 1791, feito com o fei de Sunda, Savai Bassava 
Linga, sen legitimo senhor e nosso del aliado, a quern 
e aos seus sucessores foi garantido o usufruto das 
suas propriedades de CanAcona e a pens&o Anua de 20 
mil xerafins paga pelo Estado, a qual foi raais tarde 
reduzida a 12 mil xerafins. Pelo mesmo tratado o rei 
de Sunda cedeu a coroa portuguesa todos os direitos 
que tinlia As cinco provinciasde Zambaulim, ou Panch- 
-Mahal, OanAcona e a aldcia do Gabo de Rama, pro- 
vincias que em 1763 haviam sido militarmente ocupa- 
das pelo conde da Ega para nuo cairera em poder do 
marata. 

A provincia de Bicholim foi pela I'lltima vez con- 
quistada em 1781 pelo vice-rei D. Frederico Gruilher- 
me de Souza ao Bounsulo quo nos cedeu depois 
a provincia de Pernera pelo tratado de 29 de Janeiro 
de 1788. mas com uma condi^ao secreta, que motivou 
por vezes reclamayoes daquele potentado. 

A provincia de Satari foi toraada pelc marques do 
Castelo Novo em 1746, juntamente com a de Bicho- 
lim, quando o Bounsuld, aterrado com a derrota sofri- 
da em Alorna, a abandonara ; e foi reconquistada em 
8 de Uezembro de 1782 pelo referido vice-rei D. Fre- 
derico. 

Como o Satari 6 afamado pelas suas sublevagoes, 
nao serA deslocado falarmos delas neste capitulo. 

Satari e as suas principais insurrei<joes. 

. A provincia de Satari (') tern curca de 20 mil ha- 
bitantes pela maior parte hindus pobres e semi- 

(') Hutari f|iioro dizor unin proviiiciu do 70 nnloiiM, cajo niimoro 
cliogn liojc a Hf». 



313 


sclvagens, que, em seu lamcnUivel atraso de civiliza- 
qiio, conservam as suas tendOn cias para o roubo e o 
assassinato (*). 

A ti * esse ano de 1716 o Satari era ieudo dos Sar- 
dessais Kanes de Sanquelim e Gululern, siibditos do 
Kounsulo. 

Os ranes, familia de origem nobre egenio belicoso, 
tendo-se rebelado, coxno por vezes o l'aziain, contra o 
seu soberano, para se evadirem ao pagamento das con- 
tribuigoes que llie deviani. declararam-se linalmente 
siibditos do rei de Portugal sob condieoes feudais, 
assinando o auto de vassalagern no tratado de 20 de 
Outubro do tnesmo ano de 1746, e (icaudo o Rst-ulo 
com o encargo de Hies* pagar SO sipais para a defesa 
do dcssaiado ( 2 ). 


( 1 ) O padre Franci-eo de Sousa refere uo Oricntc Gonqnislado 
tom. 1,° pag. 286 que ulguiis desses povos das Novas Couqiii&tus 
chogaram a pedir lijenga para sairein a roubar as terras vizi nil as 
monos fortes, epagando esta regalia em rclagito a importancia do 
roubo j>. 

( 2 ) Parao sustentoda gontc armada foi concedido aosSar- 
dessais pelos antigos doininantes do Ooncio uum especiede soldo, 
ebatnado Accas, pago pelos foros das aldeias ou em direitos das 
alfandegas. ftste encargo passou para os cofres do Hstado da In- 
dia, que despendiam nisto, por 27 dcssaiados , 83162 xerafins e 

Ungas=5.30G$32 escudos, tendo sido, em 1785, elevado o 
mimoro dos sipais a 296 e mais tarde a 372, fornmudo 6 Partidos. 
Posteriormente a verba das A ecus foi reduzida a 4.000$G0. 

Pcla gosse das Accas os Sardessais sao obrigados a prestar o 
servigo militar. Collectfio dc Ban dos apud Glossdrio do Mon- 
senhor Dalgado ; e cit. Araguo. 

Alem dos Partidos dos sipais, havia nas Novas Conquisbas o.cor- 
po do Sonodo de Pcrnem c Satari constituido de 481 pragas, que 
recebiam nm pequenissirno soldo em tempo de paz, garantido por 
Port, de 26 de Janeiro dc 1801 e quo se llics auincntuva quando 
fossein chamadas ao Bervigo activo. 

O Sonodo nfto era urn "corpo absolutamente regular. As aims 
pragas n&o uaavam uni formes neon o governo dies forncoiu o equi- 
pa men to. 

* 0 * 



314 


0 governo portugues, segundo todas as informa- 
$oes, favoreceu a rebelido e promoveu o tratado, por- 
qne os ranes, desavindos com o Bounsulo, serviam de 
Carreira is incursoes deste regulo nas terras de- Sal - 
sete (*). 

0 Bounsulo, nesta situa^ao, acabou por ceder aos 
portugueses a soberania da provincia e de povos in- 
qnietos que o moiani, pelo tratado de 25 de Outubro 
de 1754, e os ranes assinaram, em 30 de Maio desse 
ano, em seu norae e no de sens descendentes e sdb' 
ditos o primeiro termo de obediencia , vassalagem e 
fidelidade perpetua ao rei de Portugal sob as rcferi- 
das condiqoes feudais (*). 

Mas, como houvesse sido mal defiuida acessao feita 
pelo Bounsuld, que, certamente, niio podia ceder seuuo 
so os seus direitos e nada ruais - , o governo portugufis, 
nito se contentaudo com a suzerania, procurou tomar a 
posse definitive e completa. Os ranes reyoltaram-se 
pugnando pelo sou direito aos foros ou rendimentos 
da provincia que ate entiio percebiam, e a cobran^a 
dos impostos aduaneiros pela raia, de que percebiam 
tambem uma parte ( 3 ); mas submeteram-se e, per- 


A Fazenda pagava genie do Sonodo 8858 xerafins por ano, 
ou sejam 18 xerafins jpor cabega. Hoje o or^amento consigna 
a verba de 280$000. A palavra Sonodo, {SuncuV), aplicada a 
essa exotica indicia, quere dizer alvara on diploma pelo qnal sc 
reconhece direito a certa paga por servi$os militates debaixo de 
certas condi<;<5es. 7id. Bosqncjo das Poss. port, por 0. Soares, 
vol. l.°, pag. 84 e 107 e seguintes ; e Glossdrio Luso-Asidlico do 
Mons. Dalgado. 

O Vid. Memdrtas dos estabelecimentos por Gomes JLonreiro ; e 
DescripfSo das moedas por F. de Arag&o. 

(*) Gabinete Literdrio das Fontainhas , 3. 0 vol. 

(b Uma parte dos diretos da alfandega pertcncia aos ranes e 
outra^parte a Fazenda, e ao governo a sober , da da provincia 
CXt. Memonas por G. Lonreiro. 



315 


doados, ratificararu o juramento de ndelidade e vassa- 
lagem, ern 18 de Janeiro de 1755. 0 governo da In- 

dia coraprometeu-se, pelos bnndos de 6 de Agosto e 
12 de Seterubro de 1763, e de 7 de Seterubro de 1781, 
a conservar-lbes as merces tais eoino as possniam, e 
com as mesrnas coudigoes que existiam ao tempo dos 
autigos dominantes, induindo a obrigajilo de scrvirem 
ao Kstado na ocasiao de gtierra ( l ). 

Pepois destas concessoes era de esperar que os 
raues fossem sonlinelas vigilantes das fronteiras por- 
tuguesas e eolaborassem, seudo precise, na defesa do 
pais; mas eles, pel o contrario, rompendo t:lo de- 
pressaos sous comproroissos e rebelando-se a preUexto 
de que a sua preteu^ilo n soberania de iSatari nao es- 
tava ainda definida, agregavaiu-se ao prdprio Bounsu- 
16 todas as vezes que este potentado nos iizesse guer- 
ra ou ajudasse uossos inimigos ( s ). 

0 governo, para acabar com os litigios acerca 
dessa pretenyao, resolveu reconquistar a provincia; 
o que se efectuou em 8 de Dezembro de 1782, sob 
o governo do capitao general D. Frederico Guilher- 
nie de Souza, tendo marchado para esse fun 2.400 
hotnens, afora a cavalaria. 

Contudo, ainda depois da conquista definitiva, os 
ranes, insistindo na sua idea de serem seuhores di- 


S Entre as mercSs, a ti'talo de mocassos e mamas, os 
jssais possniam Gnlulcm e oufcras aldeias, livres de fdro e 
de encargos, doadas pelo soberano em recompensa dos servijos 
mili taros nas raias da provincia de Satari, que serviam de chave 
ao comercio dos Gates, qne transitava pcla alfandega de Sanque- 
lim; — e cottubanas que eram terras com o fdro limitado, perpetuo 
e inalterivel. Vid. Inslrufoes de El-rei D. Josi , 8. a parte, pag, 
87 e 57; A India Port ., vol. 2, pag. 2 e cit. Descrip p So por. 
T. de AragSo, pag. 25, vol. 3.° e Bosq. hist, das Com. Voc. c 
lnstrufdo de M. de Alorna, parte 1.*, pag. 41. 

(*) Vid. InstrucfSes D’Elrei D. Jose, pag. 37, Nolas. 



316 


rectos e dominantes de Satan, e organizando, com a 
poderosa influencia que exercem s6bre o povo e prin- 
cipalmente sAbre os chamados g nocares das comuni- 
dadcs ontrora extintns ('), numerosas e temivcis 
quadrilhas do salteadores, revoltaram-se, ate o ano de 
1822, catorze vezes, a principio em detnanda do seu 
suposto direito aos rendimentos das aldeias e das al- 
fandegas, e ainda depois que Hies foi concedida a per- 
cep$3o das rendas piiblicas, por pretextos ftiteis (*) ; 
e saquearam, durante cada uma dessas prolougadas 
desordens, as povoayoes inofensivas e inermes das pro- 
vinces vizinhas, ainda das Yelhas Conquistas, incu- 
tind<9 terror em todas elas pelas suas correrias, rou- 
bos e assassinatos, conio se todo o povo da India de- 
vesse ser respon3&vcl pelo mal que Ilies sucedia. 
Nestas circunstancias, o governo lieava obrigado a 


(*) Desdc que os dominantes anteriores aos portngueses, com su- 
cessivas extorsSes extinguiram as comuniJades de Satari (menos a 
de Pissurlem), os gftocares, reduzidos a condi§ao de servos de gleba 
e qu&si escravos dos poderosos ranes e dessais, antigos senhores 
donat&rios desta provincia, hoje portuguesa, vivem numa extre- 
ma iniseria; porque cultivando as terras, c quanto prodnzem e 
para pagar a reuda ao Estado, coutribuindo aos ranes, dessais, 
narcornins, bottos, etc. que muitas vezes, depois da colheita das 
searas, n&o Ihes deixam o necessario para sua alimenta^So » Yid. 
As ComunidacUs de Goa por A. E. de Almeida e Azavedo. 

0 povo de Satari tern sido explorado por todos, ou na qualidade 
de colouo ou na de manducar, ou nas suas relates com os estra- 
nhos. Reslaurafao Social do Estado da India por Jose do Nasci- 
mento Pinheiro, pag. 14-15. 

(*) Vid. citi Instrucfdes D’Elrei D. Jose., pag. 37 Notas. 

Ob levantamentos de Satari tiveram logar: em 1755; em 17 de 
Dezembro de 1797; 8 de Julho de 1806; 1 de Setembro de 1807; 
19 de Maio de 1809; 1 de Janeiro, 25 de Maio e 14 de Julho de 
1813 ; 2 de Junho e 31 de Ootubro de 1814; 24 dn Setembro de 
1816 e 27 de Agosto, 13 de Outubro e 16 de Novembro de 1822; 
Jnlho de 1823;,Y em 1845, 1850, 1852, 1869, 1895, 1901 e 1912. 



317 


despender muito dinheiro e actividade para os bater 
inutilmente nas florestas de Satari, onde se escondem 
sempre que se insurgem, fazendo dali fogo com pon- 
taria segura e escarnecendo do poder. 

Atd aqui o governo, depois de perseguir os revolta- 
dos por algum tempo, punha terrno k situaqao transi- 
gindo com £les e perdoando-lhes os atentados sob o 
juramento de fidelidade perpetua, que ratificavam 
dissimuladamente em todas essas ocasides e repeti- 
ram ainda em 1822. Mas quando, logo depois do 
restabelecimento do regime absoluto em Portugal, 
novameote se sublevaram em Julho de 1823, o vicerei 
D. Manoel da Camara castigou-lhes severamente a 
ousadia e a deslealdade; pois deu baixa aos 296 sipais 
dos Partidos, que se haviam revoltado contra o pr<5- 
prio Estado que os pagava para a defesa do dessaiado; 
e, feito o inventdrio, mandou recolher nos cofres da 
Fazenda todos os rendimentos da proviucia conquis- 
tada, que os ranes indevidamente desfrutavam (‘). 

Responderam a esta provide a cia com nova revolts 
em Setembro de 1824. D. Manoel da C&mara pren- 
deu os mais inquietos e encarcerou-os na fortaleza da 
Aguada atd 1827, mandando proceder k devassa pelos 
roubos, assassinatos e incdndios que haviam praticado. 

Desde este ano (1827) e devido a essas endrgicas 
medidas do governo, entrou de facto a provincia na 
administraqS.o do Estado tendo-lhe side nomeado um 
administrador fiscal. 

Os ranes propuseram ac$ao judicial contra a Fa- 
zenda acSrca dos referidos rendimentos, e prevale- 
cendo a opiniSo que lhes era favordvel, (pois havia 
opinioes diver sas s6bre a justiga que assistia aos ranes 
neste litigio) o seu direito foi confirmado pelo acdrdSo 


(*) Cit. InsUrucfdes UElrei D. Joai, 8.* parte, peg. 87. 



318 


da RelagSo de 30 de Agosto de 1833 (*). 

Mas o vice-rei D. Manoel de Portugal e Castro, 
como regedor das justiga9, votou contra o referido 
acdrdao. demostrando que aos ranes erradamente se 
atribuia esse direito, pois que a coroa portuguesa era 
a unica senhora da provincia, dos feudos e senhorios 
pelo direito da conquista. 

Poucos anos depois, a reforrna aduaneira de 1841 
suprimiu 4 alfandegas das sete estacionadas nas Novas 
Conquistas, as quais todas andavam arrendadas por 
47.655 xerafins e que sendo devidainente administra- 
das e fiscalisadas, deviam render rauito mais; e conser- 
vou sdmente as de Sanguem, Doromarogo e Sanque- 
lim, estabelecendo na alfandega principal da capital 
urn sistema de central izagiio e unidade, fiscalizagiio c 
vigilancia; e livrando os povosdas opressoes e arbitra- 
riedades, que faziam os rendeiros liindus na cobranga 
dos direitos, das prepotencias dos Dessais e Mercena- 
rios na arrecadagio dos seus direitos e das alcavalas 
que se tinham arrogado nas Novas Conquistas ( 2 ). 

Dai ern diante o prejuizo causado pelo cancelamen- 
to do acordao e pela execugao da reiorma aduaneira 
serviu por algum tempo aos ranes de melhor pretexto 
para, ao menor descontentamento, acirrarem contra 
o govurno os animos dos satarienses naturalmente 
combatiros, e repetirem as sublevagoes a curtos in- 
tervalos, com depredagoes ensanguentadas ou provo- 
carem desordens entre si com armas na mfio, era que 
a tropa era tambem obrigada a intervir. 

Vamos referir as mais salientes destas revoltas. 


(*) A India Portuguesa por Lopes Meades, psg. 14, vol. l.°. 
Yid. Cit. Inetr. 2. a parte, pag. 37, Nota. 

(*) Yid. Git.. Inslrucfoes , pag. 22-2 4. Notas. 



319 


Em 1845 Bapu Rau o scus socios, tendo sido pro- 
nunciados pelo poder judicial como autores de vdrios 
roubos c barbaridades praticadas em Satari, Candea- 
par e outros pontos, rebelaraui-se imedi&tamente e 
roubaram com mao armada alguns postos militares e 
fiscais. 0 chefe foi apreendido e preso na cadeia de 
Pangim, sendo perdoados os consdcios. Passados 
poucos anos, os perdoados roubaram (1850-1851) as 
egrejas de Garambolim e de Tivim, as casas de Diogo 
JoSo de Gouveia, de Chorilo, do B6tto Babld, de 
Volvoi, de Joaquim da Piedade Mascarenlias, de 
Loutolim, e de Xembi'i Dondo, de Bicholim, ferindo 
os raoradores, queimando cruelrneute dois filhos me- 
nores deste dltimo e incendiando tudo o que nao 
pudessem levar ( l ). 

Em 30 de Margo de 1851, havendo sido apreendi- 
dos, pelo comandante railitar de Sanquelim, dois des- 
tes salteadores, com uraa parte do roubo, denunciaram 
norainalmente, como autores dos roubos e devastates, 
os ranes Apa e Balbi, de Oorqui e outros; e em 1852 
o superintendente de Sundar Varim ( India inglesa ) 
apreendeu em Bandem alguns destes salteadores com 
uma parte dos diversos roubos praticados neste Es- 
tado e o comunicou ao governo remetendo alguns 
efeitos ( 3 ). 

Emquanto se passavara 6stes factos, urn novo e 
estrondoso levantainento veio alarmar o pais e o afli- 
giu por muito tempo ; pois em 26 de Janeiro de 1852 
rebentou a celebre revolta capitaneada por Dipu ou 
Pipagi Ranes. 

O governador visconde de Ourera, espirito activo e 
reforraador, na persuasilo de que procedia com justiga, 


( 1 ) Viil. liol. tfo Gov. de 1852, pag. 79. 

( 2 ) Bol. do Gov. de 1852, pag. 76-77,100. 



320 


creou alguns impostos e extioguiu os jd referidos pri- 
vil6gios e isentjoes, de que, sob o txtulo de mocassos , 
inamas ou Cotub anas, gozavam desde a antiguidade 
os dessais de Bicholim e Satari, acrescentando algu- 
ruas medidas tendentes a reprimir as velhas praticas 
seguidas pelos habitantes das Novas Conquistas. 

0 desconter\tamento creado pela promulga$iio des- 
tas providencias, algumas meDOS justas, e ainda mais 
pelos abusos dos que as puaham em execugito, deu 
etn resultado esta audaciosa revolta de Satari, que ab- 
sorveu a melhor parte da governa§;to do visconde e 
muito dinheiro do tesouro pdblico. 

Os revoltosos, comandados'por Dipu lianes, apos- 
saram-se engenhosamente do forte 
Revolta de de Nanuz ( l ) e, organizando qua- 

Dlpu Ranes drilhas de salteadores, comeqaram a 

assaltar e roubar. 

Marcliou contra eles uma pequeua fOr^a de 40 ho- 
tnens inclusive utn ali'eres, sob o comando de uru ca- 
pitao do exercito de Portugal, e que, logo na priineira 
escaramuga, foi derrotada, ticando feridos o alferes e 
4 soldados, e rnorto um cabo. 

Nos principios de Fevereiro foi expedida outra 
mais numerosa composta do corpo municipal, do 2.® 
batalhfio de int'antaria, de um tror;o do 4.“ batallulo de 
cngadores e de 550 si pais de Peruera. Os ranes, co- 
nhecedores dos camiuhos e escouderijos, embreuha- 


(') E’ assaz engenhosa a maneira porque Dipa Ranes se assc- 
nhorcou do forte de Nanuz. Era coinandante destc o tcnente 
Francisco de Assis Beleza, com quern Dipu mantinha estreitas re- 
lates de amizade. Certo dia, convidou-o para uma ca^ada de 
javalis num mato distante. Beleza saiu com a sua geute e rnelho- 
res armas para o sitio designado, emquanto I/ipu, por outro lado, 
entfava no forte com os suus ranes, e vestido do uniformc do eo- 
mandante vedou-lhe a entrada. 



321 


ram-se no mato cerrado e irapenetr&vel, donde nfto so 
faziam tiro certeiro contra a tropa, mas urn dia ainda 
se apossaram das arenas da guarnkj&o quo guardava o 
p6sto de Qnelaundtjm. 

Era impossivel continuar a luta com o inimigo, que, 
sendo tenaz no ataque, era invisivel para o castigo. 
0 governador prop6s pazes a Dipu Ra*nes sob a pro- 
messa de perdao e de algumas concessoes ; mas a 
proposta nilo foi aceita e os revoltosos, longe da tropa, 
saquearara Combarjua, levando consigo doismembros 
da fanrilia Quencro, e assaltaram Sanguem e Quepem 
' a, vista da tropa, que, sendo em raenor miraero, foi 
obrigada a fugir. 

Em consequencia destes factos, forara suspensas as 
garantias constitucionais nas provincias de Bicholim, 
Satari, Pondd e Embarbacdm ; foi ordenado o era- 
prestimo fonjado de 600 mil xerafins para acudir ks 
aespesas da guerra; e o proprio visconde de Ourera, 
com a maior parte do exercito (3 mil homens de linha 
e mil sipais), marchou para Satari em 15 de Setem- 
bro de 1852. Depois de percorrer Nanuz e alguns 
sitios, o visconde foi buscar o inimigo, que desapare- 
cera, at6 as montanhas de Caranzol e, vendo que era 
impossivel alcanqd-lo, regressou a 4 de Outubro e 
distribuiu a fdrga por diferentes pontos do pais para 
abrigar as povoaqoes contra os assaltos. 

Contudo os ranes, surgindo dos seus esconderijos, 
continuaram com as excursoes, ora atacando de sur- 
presa a for§a publica, ora arreb^tando consigo um ou 
mais membros de families ricas para lhes exigirem 
grossas quantias de dinheiro pelo resgate. 

Bntretanto Jos4 Paulo de Oliveira Pegado, antigo 
militar que conhecia bem os ranes, foi, com a devida 
autorizagao, entender-se com Dipu em Margo de 1854 
e conseguiu que osta viesse, no dia 4 desse mes, ao 
paldcio do Cabo tratar pessoalmente com o gover- 



322 


nador das condigSes de snbmissSo, tendo Dipa con- 
servado em Gangdm, como refens, tres filhos de 
Pegado, com ordem de serein mortos no caso de nfto 
regressar atd o dia 1 1. Mas como o visconde de Ourdrn 
Ihe tivesse recusado audi^ncia, por n5o ter vindo 
acompanhado dos seus subchefes e principais sequa- 
zes, Dipu regnessou a Gangdm e activou as hostili- 
dades pondo em sobresalto todo o pais ; o que durou 
atd ao fim da administragao do visconde. 

Logo que 6ste entregou o poder ao conselho do 
gov&rno, Dipu Ranes solicitou o perdao, que Ihe 
foi concedido, assinando 61e e os seus sequazes, em 
Sonanlim, perante o comaudante da provincia, 
a 2 de Junho de 1855, o tdrmo de submissao ao 
governo portugues (*). 

0 visconde de Torres Novas mandou, em con- 
seqiiencia desse termo, por port, de 10 de Maio de 
1855, restituir-lhes os mocassds e outros privildgios, 
que haviam sido abolidos, e promoveu Dipu Ranes 
a capitao de sipais, seu sobrinho Apagi a alferes e 
seu parente Rangi a tenente, estabeleceodo-lhes 
soldos mddicos. 

Parecia que a provincia de Satari estava paciflca- 
da para sempre, mas n£o sucedeu assim: pois, como 
se essas concessoes, feitas diante de circunstiincias 
poderosas, f6ssem estimulo para obter outras iguais 
ou melhores, houve pretextos para novas revoltas; e ^ 
primeira destas deu origem o seguinte episddio 
rom&ntico. 

Em 1868 pouco mais ou menos, urn b6to, sacerdo- 
te hindu, raptou uma ranes viuva e, para se livrar da 
teriivel vinganga que o esperava do pai e do irmSo da 


(*> Bol. do Oov. de 1858, pag. 251. Lopes Mendes, A India 
portuguesa, vol. II, pag. 2 e 14. 



323 


raptada, denunciou d jusfciga os dois ranes como auto* 
res de urn assassinato perpetrado, talvez pelo prdprio 
b6to, num mato vizinho, tendo o cuidado de eusaiar 
bem tres testemuohas, que juraram ter visto os dois 
ranes cometerem o crime. 

A justiga, fundando-se nos depoimentos, condenou 
os supostos assassinos a trabalhos pubticos no arse- 
nal de Goa, e a sentenga passou em julgado. Os dois 
ranes, inocentemente condenados, como bem dizia 
a opiuiao publics, eotraram Da prisao dissimulando a 
sua raiva, e, logo que puderam, evadiram-se, levando 
consigo alguns companheiros da grilheta e, entreeles, 
o mais valente e terrivel salteador de Satari, de no- 
me Custobd; organizaram-se em quadrilha, e urn 
belo dia atacaram o boto e o despedagaram; mas, sa- 
ciados os seus iustintos de vinganga, nao descangaram: 
seguiram logo carainlio de rebeliao contra o Estado, 
e praticaram por muito tempo saltea- 
Hevolta de gens, assassinatos e incendios, inu- 

Custoba tilizando todos os esforgos da nos- 

sa tropa; pois, estes bandidos procu- 
ram sempre ligar relagoes com algum individuo da 
tropa, que os persegue, e recebem aviso dos espias 
para se porem a salvo. ( l ). At6 que o chefe dos ban- 
didos, o famigerado Custobd, foi morto de surpre- 
sa ao sair, de uoite, de uma casinha, a 13 de Junho 
de 1871; e a quadrilha, que ainda se dividira em dois 
bandos, foi finalmente extinta, sendo morto tambdm 
no mesmo ano Gal6 Xabd, chefe duma das guerrilhas, 
estando adormir em Quepem, com um tiro no ouvido, 
dado por um outro salteador. Asaim se conseguiu 
salvaguardar por algum tempo a vida e a fazenda dos 


(*) Tais servigos sao religioaaraentc recompensados com quinhfio 
nos roubos. T. de Aragao, Cit. Descrifao , vol. pag. 18. 



324 


cidadfios pacificos (*). 

Elates sucessivos actos de traigao' inesperada, pro- 
cedeotes das suas intitnas relagoes, parece que abate- 
ram am pouco o espirito revolucion&rio dos salteado- 
res, que por uns 20 anos n5o deram novidade impor- 
tant®. 

Em 1895, pordm, uma revolta militar dos maratas 
impulsionou-lhes o instiato e da jungao dos dois 
eiementos nasceu de novo o flagelo dos bandidos que 
atormeutou horrivelmente o pais. 

Antes de entrarmos na historia deste levantamen- 
to de Satari vejamos qual era a situaguo politica in- 
terna da provincia. 

Segundo o sistema especial da administraqao finan- 
ceira, que vigorou era Satari ate 1896, o Estado ar- 
rendava uma parte das terras— vanganas — era licita- 
gao e a contribuigao dos altos e dos arecais era fizada 
por louvados nomeados pelas partes e pelo fisco. 

lllste sistema tinha o inconveniente de nao interessar 
o colono pela cultura das vanganas, que andavam em 
constante giro de uns para outros, netn fizar a popula- 
gao ao logar que habitava, para poder, constituindo 
uma associagao de agricultores em cada aldeia, valo- 
rizar a terra e melhorar suas condigoes econd micas. 

A produgao dos altos iicava merce dos peritos, 
que oprimiam ou favoreciatn o produtor conforms os 
movesse o zelo da Fazenda ou do iuteresse prdprio. 
A reclamagilo dos prejudicados nSo era atendida, pro- 
vocando descdrdias intestinas. 

Os g&ocares e os roitos , que viviam numa extrema 
pobresa, discontentes com esta situaqfto sempre pre- 
cdria, pediram ( por 1880 ) em aforamento as respec- 


(*) Vide : T. Ribeiro, Jornadas, 2. a parte, pag. 22; e T. de A- 
ragfto, Descrifdo geral das Moedas , vol. 8.°, pag. 19. 



325 


tivas aldeias, prometendo como foro a renda actual e 
raais utna quarta parte. 

Mas despertaram-se as ambifoes de individuos es- 
tranhos a Satari, ricos e poderosos, entre outros de 
alguns narcornins (*) e comerciantes do bazar deSan- 
quelira, que requereram em aforamento, em seu nome 
e no desupostos giiocares, as melhorese inais estensas 
terras, ainda as que haviam sido desbravadas pelos 
gaocares e roitos. 

Daqui nasceu iiina pendencia que durou 16 anos e 
em que os uarcornins, protegidos pelos funciondrios 
da localidade e pelos altos personagens da capital, 
levaratu serapre a melhor, vexando os habitantes de 
Satari. 

Em Setembro de 1895 estavam ainda pendentes os 
recursos e protestos dos giiocares. e o administrador 
jt'i designara repentinainence para os fins desse mos a 
entrega dos aforamentos aos narcornins. 

0 visconde de Ourem que a este tempo era o go- 
vernador da India e conhecera bem o banditismo de 
Satari no governo de seu pai, mandou suspender as 
entregas; mas esta providencia, que era apenas um 
expediente oportuno, nao melhorava a situa^ao dos 
giiocares nem os interesses dos ranes ; andavam por- 
tanto uns e outros descontentes ("’). 

Nesta conjuntura, na uoite de 13 para 14 do mesmo 
Setembro fugiram dos quarteis de Pangim 298 solda- 
dos maratas com armas e rnunifoes, revoltados contra 
utna ordem ministerial, que os obrigava a marchar 
para Africa sern Saberem para quanto tempo nem 


(') O uiu'corniia era eru Satari oescrivao privativo de comu- 
nidade, e depois regedor. 

(*) VId. Apoulameiilos para a lltsloria da llcvolla dc /*'<>>, 
peio visconde dc Harden, pag. 23 c seguiutes. 



326 


com que vantagens, e i’oram acampar no antigo forte 
de Nanuz em Satari, onde, depois 
Revolta de que Ihes foi deuegada a amnistia e 

Dadd Ranes a Jispensa do aervigo militar que so- 

licitavam, fizeram levantar os ranes e 
os aldeoes e, juutando-se-lhes sob o comando de 
Dadd Ranes, comegaram a assaltar e roubar. 

0 govSrno enviou contra os revoltosos uma forqa 
de 90 pragas, que infelizmeDte se deixou aprisionar 
por eles e concorreu para engrossar a revolta. 

No dia 14 de Outubro, e bem de dia, os revoltosos 
a to^ue da Xinga invadlram o concelho de Bardes. 
Seriam 800 a 900 homens armados. De caminlio 
para Mapugd arrombaram os cofres da igreja de Ti- 
vim ; e, entrando na vila, preuderam, sem encontrarem 
resistoncia, o destacamento que a guaroecia, o presi- 
dente da camara municipal e*o recebedor da Fazenda, 
e roubaram os cofres do muriicipio, da Fazenda e de 
algumas corporagoes, guardados no edificio da c&mara, 
e de caminho para Dargalim o cofre da comunidade 
de Colvale. 

A populagilo inerme, surpreendida e aterrorisada, 
nao ousou resistir ao inimigo t-lo numeroso. Pouco 
depois os bandidos praticaram muitos roubos ferindo 
e matando impunemente os que reagissem. Mas e 
de justiga deixar consignado que quando o govcrno 
autorizou a organizaqao das vigias aldeas, os briosos 
habitantes de Aldoml, jd armados, destruiram uma 
quadrilha de 35 salteadores aliados dos ranes, que 
veio pela ilhade Corjuem, na noitede 29 de' Outubro 
imediato, roubar a igreja da freguesia, sendo mortos 
16 bandidos e presos quatro, pelo que foram oficial- 
mente louvados ( l ). Deste esplendido resultado se 


P) Sol. Of. de 7 de Novembro de 1895. pag. 788. 



327 


vC* que o assalto & vila de Mapugd tambdm teria sido 
repelido, se a este tempo estivessem organizadas as 
vigias. 

Logo depois das depredagoes de Mapugd, o govdrno 
proclamou a lei marcial em todo o territdrio de Goa e 
expedin contra os revoltosos uma fdrga regular — 450 
liomens mais ou menos — , que foi obrigada a re- 
troceder com a mais lastirndvel precipitagio, dei- 
xando em poder do inimigo duas pegas de c&mpa- 
nha, que se disse tcrem-se racliado e inutilizado ao 
sustentar o fogo no corabate havido em Gutndm ou 
Cudndm, mas o facto e que, alguns dias depois, foram 
encontradas ambas em muito bom estado no forte de 
Nanuz, quando foi abandonado pelo inimigo (*). 

Para a defesa da capital foram levantadas barrica- 
das em diversos pontos e armaratn-se os funcion&rios 
publicos e os proprietdrios. 

A revolta continuou praticando depredagoes e es- 
palhando terror por todo o pais, atd que, para a debe- 
lar, veio de Lisboa, em 13 de Novembro, uma expe- 
digilo sob o comando do infante L). Afonso, e foi 
substituido o visconde de Ourcm pelo seu antecessor 
Kafael de Andrade. 

A expedigito marchou para Safari no dia 25 de 
Novembro e ali se conservou qudsi um mcs, e, obede- 
cendo As order.s do governador, arrazou algumas 
aldeias, pondo em retirada os revoltosos, que foram 
todavia, em mimero de qudsi 300, atacar as povoagoes 
dos concelhos de Ponda, Oandcona e finalmento San- 
guem, donde foram repelidos com valente derrota por 
uma dtizia de briosos soldados nativos postados ao 
abrigo de uma trincheira. 

(*) Goa sod a Dominayxo Portngmsa, pag. 260 ; e Aponta- 
mentos para a Ifisldria da llcoolta dc 1805 pelo Visoonde de 
Bardfia, pag. 3 5. 



328 


0 infante D. Afonso que sucedeu a R. de Andrade 
promulgou providencias conducentes a paz e, na sua 
despedida concedeu arnnistia aos revoltosos (27 de 
Maio de 1896). $stes pordm nilo quiseram aproveitar 
o perdilo concedido e continuaram os assassinatos e 
roubos. 

0 coniissdrio regio Neves Ferreira, mandou por 
port, de 29 de Maio de 1896 passar pelas armas todos 
os individuos que fossera encoutrados em flagrante 
delito de roubo ou de*homicidio. Os efeitos desta 
portaria forarn agravados pelos odios locais, e houve 
scenas de sangue horrorosas. Os ranes, poreua, con- 
servaram-se quietos em espectativa. Mas, quando 
Raugi Ranes, parente de Dadd, foi preso pelo ad- 
ministrador de BardOs e, de caminho para Mapugd, 
fuzilado pela escolta que o, conduzia, renovaratn as 
hostilidades e assaltando a casa dos Bragangas (Pau- 
gues) em Nadord, inimigos de Raugi, arrebataram 
desta familia dois membros masculinos, cujo destino 
nunca mais se soube (*). 

A revolta terminou finalmente no govDrno do gene- 
ral Joaquim Machado com a nova concessao da am- 
nistia a 9 de Setembro de 1897, seguindo-se-lhe, 
providencias correlativas para atalhar os saus in- 
covenientes. 

Ap6s a pacificaqilo de Satari o general Machado 
conseguiu, por uma convengilu provisdria com o go- 
vfirno do territdrio britdnico, prender alguns assassi- 
nos e salteadores de Satari, refugiados na India ingle- 
sa, os quais foram entregues e julgados em (loa, 
cortando assim aos ranes a esperanga de Id se inter- 
narem, como costumavam, quando perseguidos por 
ocasi&o das revoltas, e tornarein ao exercicio dos seus 


(’) Vi«l. Goa sob a Dominacao Porlut^ucsa, pag. 281-283. 



329 


feitos logo que pudessem. (*) 

A 16m • disto, promulgou urn conjunto de medidas 
tendentes a fazer uma distribuiyao equitativa das 
terras pertencentes ao Estado pelos povos da pro- 
vincia, por meio de urn foro raodico, tornando defi- 
□itiva a eofiteuse decorridos 20 anos, para assim 
subtrair os concessionaries a exploraydo dos ranes, 
ainda respeitados pelo povo como senhores da terra. 

Para minar raais profuudamente a nefasta influon- 
cia destes e assegurar a ordem, foi organizado o co- 
mando militar coin s6de cm Valpoi, dividido era 6 
circunscriyoes, sendo confiada cada uraa destas a urn 
sargento, cliefe da circuuscripuo, com atribuiyoes rai- 
litares e civis, imediatamente subordinado ao coman- 
dante militar, o que fez desaparecer para scrapre 
as extorsdes dos infiuente locais, que depois da co- 
Iheita das searas nuo deixavam ao miseravel ydocar 
ou colono o necessario para a sua alimentayao e da- 
vara logar a descontentamento e dcsordens. 

As circunscriyoes foram ligadas entre si corn 
a sode do comando e com os coneelhos limitrofes 
por meio de estradas, cuja falta retardava o raovi- 
inento rapido da tropa, quando houvesse necessidade 
de marchar para manter a ordem. 

A’ sombra destus benelicas providencias, adoptadas 
pelo general Machado, era de esperar que o Satari 
fosse progredindo com o andar do tempo, civilizando- 
se os ranes pelo trabalho lionesto e pacifico, e ga- 
nhando ainor pelo seu solo que e fecundissimo e 
regado por copiosos mananciais; mas, cutretanto, ja se 
revoltou raais duas vezes. 

Em Novembro de 1901 o tenente Bastos e Silva, 
secretdrio do comando militar e comandante da com- 


( l ) Restaur ■ social c ccoit • do EsL- da India pag. 18 . 
31 * 



330 


panhia da 2.* linha, composta de ranes e chamada a 
companhia de sipais do senhor Infante, foi trai§oira- 
naente morto a tiro de espingarda peloa mesmos ranes, 
surdamente revoltados contra o rigor da instrugiio 
intensiva militar. Por Aste crime, suspensas as ga- 
rantias constitucionais nas Novas Conquistas, em 14 
de Fevereiro de 1902, foram presos Dadd Ranes e 
outros da companhia e, sendo julgados em conselho de 
guerra extraordinsirio, na fdrtalesa do Agoada, foram 
degredados para Timor, governando o Estado da 
India, o general Rodrigues Galhardo, que, com esta 
energies medida, manteve, sem alarrne, o prestigio da 
autoridade e a tranqiiilidade geral. 

Em 1912 novamente se insurgiram os ranes por o 
governo nao ter atendido s\ sua reclamagiio contra as 
alvidraqoes de terrenes cultivados, que alegavain 
terem sido muito alteadas nesse ano por ordem 
do comandante militar de Satari. O governador 
Couceiro da Costa, empregando o mellior da sua 
actividade, requisitou uma companhia de landins, que 
veio auxiliar a nossa tropa, e, perseguindo com esta 
for$a os bandidos, conseguiu finahnente acabar a insu- 
bordinagfio com a prisuo dos seus chefes e principais 
consdcios na canhoneira Sado, dondc, com todas as 
formalidades legais, sairam deportados para a ilha do 
Principe. Foi mais uma providencia de sanearnento, 
que, levantando mais alto o prestigio da autoridade, 
garautiu ao pais uma situagilo normal duradoura (’). 

Silo estas as subleva^oes e desordens mais salientes 
que tern havido na provincia de Satari, umas reclaman- 


(') Neata revolts fazia parte (la quadrillia dos ranes um cristilo, 
lavrador de palineiras, natural de Ozri, de iSanrjue’i.m, vulgarraento 
chamada Custulo ( Oustodio), que se sulicntou ias atrocidades e 
foi uaorto em Asaonora. Era gSocar da cornu idade agricola de 
Ucassaim. 



331 


clo a reivindicaqfto dos supostos direitos k provincia, 
outras provocadas pelas extorsoes doa poderosos do 
logar, on pelas niedidas rnenos justas do governo, e 
outras, finalraente, por pretextos futeis; mas todas, 
raenos as de 1755 e de 1901, acopanhadas de roubos, 
incendios, barbaridades, mutilagoes e assassinatos pra- 
ticados pelos sublevados e produzindo sempre forte 
abalo nos cofres do Estado. 


CAPITULO XXVII 

Instruqao piiblica 

Ao tempo da conquista havia em Goa entre os 
liindus o ensino da lingua marata, acorn panhado de 
opera<;6es fundamentals de aritmdtica com a t&boa de 
multiplicagao de inteiros e fracqSes. Leccionavam-se 
tambem as primeiras no^oes da lingua canaresa, que 
era usada na escrituragao das actas das comunidades 
agricolas e de vdrios documentos, alguns dos quais 
ainda exlstem. 

Poucos se dedlcavam ao ensino superior dos xastras , 
que, entre as sciencias positivas, exigidas pelas neces- 
sidades da religuio e da vida social, compreendiam a 
medicina indiana. 0 dr. Garcia da Orta em 1542 e 
o holandOs Linschotten em 1583 encontraram em Goa 
mddicos hindus peritos em curar vdrias doenqas e 
muito recorridos ainda pelos portugueses (*). 


0 c Ha em Goa mnitoa medicos gentios qne passeiam mnito 
graves com chapdus de sol, como os portugueses, o que a outros 
gentios n&o e permetido, a nilo ser a embaixadores e alguns ricos 
mercadorea.D Linschotten Viagem as Indias Orientais. 



332 


Eram vestigios da cultura ariana que se difundira 
pela India. (*) 

A instrugao portuguesa publica comegou ern 1541, 
no setninario da Santa Fe, anexo depois ao coldgio de 
S. Paulo. 

Em 1545 o vice-rei D. Jo3to de Castro, etn obe-. 
diencia i\s ordens do governo central, mandou abrir 
escolas para se doutrinarem os meninos e aprenderem 
a ler, escrever, contar , canto e orgao , por todas as ilhas 
de Goa onde houvesse cristaos, extendendo-se tnais 
tarde por Salsete e Bardes. 

Estas escolas, chamadas paroquiais,. cuja criacito, 
conforme o Oriente Conquistado, t'oi devida aos piedo- 
sos esforgos de S. Francisco Xavier, e que ainda hoje 
existem, mantidas, coino sempre o forata, pelas comu- 
nidades agricolas, confrarias ou labricas das igrejas e 
dirigidas pelo respectivo raestre-capela sob a inspec- 
gdodo pdroco da freguesia, sfio os primitivosinstitutos 
publicos da instrugao primaria neste Estado ( 3 ). 

0 ensino secunddrio e superior era ministrado nos 
colegios das ordens religiosas fundados a partir de 
1541 ( 3 ) onde eram admitidos d primeira matricula 


( l ) Goa sob a Dominafflo Port, por A.. A. Bruto da Costa, pag. 
224; e A Educafdo e o Ensino na India Port, por Menezes 
Braganga, pag. 2-13. 

(*) «Aa escolas paroquiais sSs nucleos proveitosos, tanto para a 
difusSo do eusino ern geral e para o esplendor do culto, como por 
que neles recebem a primeira instrugao artistica os que se dedicam 
& profissao de musicos, nilo somente satisfazendo as necessidades do 
pais, mas principal uieute encontrando vantajosa colocagio ua 
India Brit&nica e ate na Africa Oriental.” Ismael Gracias, Genso 
da Populafdo do Estado da India de 1900, pag. 62. 

(*) Fora dos colegios das Ordens religiosas e em virtude da 
Provis&o Regia de 8 de Margo de 1564, o vicerei D. Antfto de No- 
ronlia criou na So de Goa “urn mestre de gramatica para ensinar 
aqoeles mogos filkos dg portugueses, que aprendem para andarem 
na dita Sc, e nela se ordenaram de ordens para aerrigo de Nosso 



os que viessera habilitados no programa das referidas 
escolas. A lingua portuguesa aprendia-se juntamen- 
te com a latina, que se cursava por 5 ou 6 anos, e 
dava ingresso nos cursos de filosofia e teologia, que 
se professavam geralmente ern todos os colegios. 

Depois da extinjSo da companhia de Jesus ( 1759 ) 
foratn, em obedicncia As instrugoes pombaiioas, es- 
tabelecidos os semindrios de Chorao e de Rachol 
(1761) sendo incumbidos da sua direcqUo os congre- 
gados de S. Filipe Neri. Etn 1774 foi suprimido o 
seminArio de Rachol, ooruo veremos, mas restabele- 
cido em 1781; e ueste mesmo ano, por uma carta do 
secretario de Estado Martinho de Melo e Castro, foi 
criado mais um seminurio na easa professa do Bom 
Jesus, sendo cntrcgues todos os tres seminArios aos 
padres Vicentinhos (') italianos, mandadosa India para 
a educagilo do clero. Os italianos foram expulsos em 
1790 por ndo quererern admitir os regulamentos or- 
denados pelas autoridades civil e eclesiastica, e 3ubs- 
tituidos pelos Vicentinhos portugueses de Rilhafoles, 
dos quais falecendo uns e retirando-se outros foi su- 
primido o seminArio do Bom Jesus, sendo novamente 
confiada a direc<;fto dos restantes dois aos Oratoria- 
nos^ (*). 

Em' 1772 o marques do Pombal, no intuito de pro- 
mover no pals, ao lado do ensino eclesiastico ou con- 


Senhor, com 20 mil reis por ano. ”, 0 Cron, de Ttss ., vol. 3.°, 
pag. 53. 

('). Da CongregrijJo da S. Vicente de Paula, cbamados tarn be in 
Lazar is tas, por se terern estabelecido primitivamente em uma 
casa, pertencente a ordem militar de S. Lazaro. 

( 2 ) Para se fechar o seminurio da Casa do Bom Jesns concor- 
reram tambein ontras ctiusas ; uma grande parte da casa foi de- 
vorada por um incendio; o sitio tornou-se epidcmico, e a Fazenda 
achou-se em apuros. Vid. Mitras L:*silanas,Y>&". 303. 



334 


greganista, ministrado nos serainArios e col6gios das 
ordens religiosas, (que subsistiam depois da supressiio 
dos jesuitas), a inslrugilo p&blica secular, instituiu, 
por alvardde 6 de Noverabro, uma cadeira de portu- 
gues e outra de latitn na vila de Pangim e urn grupo 
de 5 escolas de portugues, latim, grego, retdrica e 
filosofia na cidade de Goa, como havia, feito no reino. 

Procedendo-se ao concurso por provas, nos ter- 
raos das instruQdes recebidas pelo ouvidor geral des- 
te Estado, foram nomeados (incluindo os que deviain 
servir em Pangim) para as cadeiras de portugues 
Caetano Ventura de Saldanha, clerigo, e Jose Ant.6- 
nio Martins; para as de latim Domiciano Francisco 
da Costa, cldrigo, e Luis Antrinio Gonsalves; para 
ade retdrica o advogado Vitorino Pereira, e para a 
de filosofia frei Antonio de Assunqito, religioso de S. 
Agostinho. A todos estes professores foram passadas 
cartas de provimento por 6 anos. A cadeira do gre- 
go nSo foi provide ( l ). 

A rainha D. Maria I, querendo extender o ensino 
oficial secular ks provincias de Salsete e Bardes, 
criou em 1778 mais 4 cadeiras. sendo duas de por- 
tuguSs e latim, colocadas em Margao, e outras duas 
das mescuas disciplines em Mapu§&, elevando assim o 
mimero das cadeiras a dez. 

Todos os dez professores eram pagos pelo cofre do 
Subsidio Liter drio, importanio as despesas em 8 mil 
xerafins, o que seria um quarto da receita que pro- 
duzia o imposto do subsidio. Mas o governador Vei- 
ga Cabral, achando suficientes os dois seminarios, 
mandou por port, de 4 de Janeiro de 1808 suspeu- 


(0 Noticia Hist. « Legist, da Instr. Pub. por Filipe, Nery de 
Soasa, pag 33 e seg. ; e A fiducafdo e c Ensino por Meuezes 

Bragan9». 



335 


der os ordenados dos professores, pelo fundainento do 
que a real Fazenda tinha de acudir a outras despe- 
sas mais indispens&veis, ficando conseguintemente 
fechadas as escolas, que haviarn funcionado por 20 
anos. Deve-se notar que os seiuinarlos eram pagos 
pela folha do confisco dos hens dos jesuitas e nilo 
pelo subsfdio literdrio. 

Os professores reclamaram para o governo supe- 
rior, mas o governador informou-liie que essas escolas, 
aletn de serem dispendiosas, nao erara freqiientadas, 
e que. aos professores, que nflo fossem ocupados em 
algum emprego civil ou eclesiastico, se devia pagar a 
quarta parte do ordenado que percebiam antes da 
sua suspensao; e em sua conseqiiencia foi confirmada 
a suprcssiio de todas as escolas. Contudo, pouco 
depois, o governo central fez saber a Junta da Fazen- 
da que uao se devia distrair do seu destino a dotagao 
escolar, mas que primeiro tinham de ser pagos os 
professores e s6 depois as sobras podiatn ter outra 
aplicagao (*). 

Em seguida, iiin alvard regio de 9 de Setembro de 
1799 recornendava ao governo deste Estado e ao pre- 
lado diocesauo estabeleeer escolas do ensino primdrio, 
latim, grego e outras disciplinas, mas nao foi execu- 
tado. Ainda subsistia o pretexto das dificuldades do 
tesouro. 

Decorridos longos 8 anos, o vice-rei coude de Sar- 
zedas, fundando-se nesse alvard, criou em 1808 cinco 
cadeiras de iatim, instalando-se uma destas na velha 
cidade de Goa ; duas em Salsete, nas freguesias de 
Majorda e Ohinchinim, e duas em Bardes, nas fregue- 
sias de Mapuqd e Candolim. Os professores providos 


(') Oit. A Educ. por Menezcs Bragauya, pag. 76. 



336 


foram : o pe. Diogo AntAnio Colago, na cadeira da ve- 
lha cidade; o pe. Bernardo Antonio Xavier Gomes, na 
de MajordA. Deodato Francisco Alemio, na de Chin- 
chinim; Pedro Paulo de Gouveia, na de MapugA, e o p.° 
Custodio Francisco Xavier Pereira, na de Gandolim. 
Ate esta epoca era no curso de latim que se minis- 
travam os elementos da lingua e gramAtica portu- 
guesa; e era preciso conhecer bem a lingua latina, em 
(|ue se escreviam os livros de texto de todas as discip- 
lines atA nos cursos superiores. Dcste modo o resul- 
tado foi cultivar-se mais o latim do que o portugucs, 
que ficava sendo apenas uma lingua de comuni- 
cagfto. 

Em 1831 D. Manoel de Portugal e Castro, vendo 
por experiencia propria que era rarissimo o papel, 
dentre os muitos que diAriamentc se lhe apresenta- 
vam, que fosse escrito conforme as mais triviais re- 
gras da gramatiea e ortogralia portuguesa, reorgani- 
zou o ensino, dando-lhe uma orientagfio relativamente 
melhor ; pois, snprimindo duas dessas cadeiras, 
que estavam vagas por falecimento dos respectivos 
professores. colocou as restantes ties em Pangim, 
Margfio e MapugA, sob a inspecgilo dos respectivos 
ouvidores e creou 6 escolas primaries com sens pro- 
fessores e ajudantes em ltibandar, Pangim, Margfio, 
PondA, Bicholim e Colvale, subordinando-as a fisca- 
lizagilo dos coraaudantes dos aquartelamentos. As 
noraeagoes dos professores foram feitas mediaute 
concurso, preferindo-se ua igualdade do circunstancias 
alguns europeus deportados para aqui pela usur- 
pagiio. 

A esse tempo ja se s^ntia na India o impulso dado 
a instrugao piiblica na metrdpole pela revolugao de 
Setembro (1836), de que saira a ret'orma da univer- 
sidade, a organizagilo das escolas medico -cirurgicas, 
a criagilo dos liceus o. de vArios institutes e a refer- 



337 


id a e a liberdade do ensino prim&rio ( l ). 

POste salutar impulso dimanaram sucessivas provi- 
dencias oficiais, que difnndiram crescentemente e 
melhoraram a instruQao publica neste Estado. 

Em 1810 o governador interino Lopes de Lima, 
iniciando a aplicagao da reforma de 1836, estabeleceu 
na capital uma escola normal de ensino miituo pelo 
metodo de Lancaster, chamada por isso Lancastriana 
( 2 ), tres aulas de ensino secundario: francos, ingles e 
histdria universal e geografm, como veremos ; e no 
ano seguinte criou em diversas fregtiezias das Velhas 
Conquistas 40 escolas do ensino primario, pagas pe- 
las conumidades agricolas, encargo que pouco depois 
foi transferido para o Estado pelo eonde das Antas. 

O inesmo conde, sucessor de Lopes de Lima, redn- 
ziu o nuniero das escolas primarias, conservando 6 
nas Ilhas, 9 em Uardes e 10 em Salsete; e em 1842 ins- 
tituiu 6 do mesmo programa, mas com a exclusao do 


Q) Hist, da I nstr. popular cm Portugal por 1). Antonio da 
Costa, cap. 0. n , pag. lll,c cap. 7. u . 

O’) 0 pedagogista Joseph Lancaster, natural de Londres, orga- 
nizou uuma escola piimaria dost a cidade, nos principios do seculo 
1 IV', o ensino nnituo, ja praticado pelo escoces Andrew Bell, direc- 
tor dnina escola de drfaos em Madrasba, que tivera a idea de fazer 
ensinar os discipulos mais atrazados pelos tnaia adeantados segiin- 
do urn metodo usado nas escolas indianas. 

Lancaster conseguiu dptiuios resnlbudos na instruyfio prim aria; 
mas, quercndo apliear o sea sistema ao ensino secundario, falhou. 
Scgundo este metodo, clmmado de Lancaster, “os principiantes ” 
e.serevern as letras corn o dedo sobre area; os mais com o lapis M 
“ sobre ardosia, o que habit ua o aluuo a tirmesa da mao; so a ” 
“ iS. u classe esc re ve tres ve/.es na sfcmana sobre papel. O dis- 
“ cipulo esta sempre atenfco :i liyao com o fim de emcndar o seu ” 

“ companheiro, e tomar o soil lugar ” 

Vide. Die. Larousse Verb . Lancaster; e Almanac de Goa para 
o Ano dc 1840, pelo coaego Caetano Joiio Peres, pag. 220, onde 
se enoontra am extracto duma memoria impressa cm Lisboa eui 
1837. 



ensino religioso, nas capitals das provincias das Novas 
Conquistas: Perndra, Bicholitn, Satari, Ponda, Zara- 
baulim e CanAcona; e no ano imediato mais algumas 
□a provincia de Bicholim. Criou tarnbem uma escola 
do ensino promiscuo ( primdrio e secunddrio ) e duas 
do ensino primdrio em Damao. Aos seas sucessores 
se deve muito o progresso da instrugao na India. 

Em 1845 o governador Jose Ferreira Pestana 
criou na capital uma escola de ineninas, que foi a 
primeira d&ste genero, e em 1846, reconhecendo a. 
grande vantagem de difuudir o ensino das linguas 
verndculas, jd introduzido no liceu peio seu ante- 
cessor Joaquim Monrfto Garces Pallia, impos, aos 
intdrpretes oficiais das Novas Conquistas, de Damao, 
Diu e Angediva, a obrigaqao de regorem uma escola 
de marata, industani oil guzerate na localidade onde 
estivessem servindo, com o vencimento mensal de 
20 xerafins. 

0 visconde de Ourem estabeleceu em Fangiiu, em 
1854 uma escola normal qse era de absoluta neces- 
sidade, para a habilitagao do magisterio primdrio (ctir- 
so dividido em 2 anos); e 5 escolas de ensino prima- 
rio complementer pelas Velhas Conquistas e duas do 
sexo feminino em Margao e Mapuga, e reformou a 
escola promiscua de Diu. 

Nao obstante a habilitaqao da escola normal, o pro- 
vimento das cadeiras do ensino oficial se Cazia com 
preced&ncia do concurso de provas publicas, como 
era determinado pela lei desde 1835. 

Ao conde de Torres-Novas se deve a instituiqao 
das escolas prim&rias do sexo feminino de Damao e 
Diu (1859 e 1861) e o regulamento da escola normal. 
Em 1869 foi reorganizado o ensino primdrio, que an- 
dava muito atrazado. 

Pela sucessao do tempo vieram mais reformas e o 
estabelecimento de novas escolas priisdrias em varias 



339 

localidades, com que temos hoje 122 escolas oficiais 
do eusino portugues, sendo 21 nas Ilhas, 84 em Bar- 
des, 32 em Salsete, 5 em Mormug&o e as outras pelas 
Novas Conquistas; afdra as 8 escolas de raarata nas 
mesmas Novas Conquistas e 11 de guzerate nos dis- 
tritos do norte. 

A escola normal foi reorganizada por decreto de 
31 de Outubro de 1892 e, depois, por decreto de 23 
de Maio de 1907. O seu curso acha-se hoje dividido 
em 3 anos e leccionado por 4 professores e nma pro- 
fessora e e obrigatdrio para o desempenho do inagis- 
tdrio prira&rio. Alern de portugues, francos, pedagogia 
e outras disciplinas, ensina-se ali a gin&stica, musica e 
canto, e trabalhos de agulha e lavores para os alunos 
do sexo feminino. 

Em 1887 a Santa Casa da Miseric6rdia instituiu, no 
antigo convento de Chimbel, um colegio de meninas, 
dirigido pelas irrnas hospitaleiras Franciscanas, que 
se denominava o, Colegio de N. Sra. da Piedade e 
passou depois a funcionar em Pangim em ediffcio do 
Estado, ficando sujeito i\ superitendencia do governo 
civil. Ensinava-se ali o portugues, francos, ingles e 
os trabalhos prdprios do sexo. Cessou de existir o 
coldgio com a queda da monarquia, e em sua substi- 
tuigfio foi criada pelo governador Couceiro da Costa, 
em port, de 4 de Janeiro de 1911, a Escola Nacional 
do sexo feminino com o regime de internato volun- 
tdrio. 


Liceu Nacional, Geral e Llceus Municipals 

Em 1841 o governador Lopes de Lima instituiu, 
como vimos, um grupo de cadeiras do ensino secun- 
ddrio : francos, ingles e histdria universal e pdtria em 
curso bienal, ficando esta ultima, denominada escola 
normal da hisldria , a cargo do bibliotecario da Biblio- 



S40 


teca Publica. Esla instituigao tinha por fim formar, 
incluindo a escola matermitica militar, am liceu pro- 
visorio. Seguiram-se pelo correr do tempo as esoolas 
de marata, e de filosofia e retorica em curso bienal, 
criadas aquela em 1843 e esta em 1850, pelos gover- 
nadores Joaquim Mourtlo GarcGs Pallia e Jose Fer- 
reira Pestana, respectivameute. 

fiste ultimo governador estabeleceu tamb6m uma 
escola de francos em Ma^gao. 

JA havia, portanto, em Pangim 6 cadeiras do ensino 
secundiirio, incluindo a antiga de latim, elementos 
entao suficientes para a organ izaqao de um liceu, 
faltando-lhe apenas uma direcgilo uniforme. Pois o 
visconde de Ourern agrupou- essas cadeiras e instituiu 
por port, de 9 de Novembro de 1S54 o Liceu Nacio- 
nal de Nova-Goa, em harmonia com os decretos 
organicos de 17 de Novembro de 1836 e 20 de Se- 
tembro de 1844 ('). Era indispensavel este melhora- 
rueuto desde que, extintos os colegios das ordens 
religiosas, aiuda o ensino ministrado pelo elemento 
eclesiastico estava limitado apenas a 2 seminaries. 


(*). Os professores dcssas cadeiras que passaram para o qntulro 
do Liceu, foram: 0 pe. Floriano Mateus do Rozurio Barreto, 
natural de Margilo, para a lingua portuguesa e latina; Antonio, 
Filipe Rodrigues, natural de Salvador do Mundo, para a lingua 
iuglesa; Francisco Gonsalves Ferreira, natural de Santa I.ul>s, pa- 
ra a lingua franccsa; Suriaji Anauda Riu, natural do concciho 
de Pondu, para a lingua marata; c pe. Scbastiito Salvador Batista 
Can5, natural de Benaulim, para a cadeira de filosofia e retorica 
em curso bienal; e o pe. Antonio Manocl Soares da Veiga, natu- 
ral de Ribandar, egresso do extinto convcnto do Santo Agostinho 
e antigo lento de filosofia c tcologia no Colcgio do Populo, para o 
lugar de rcitor do liceu c professor da cadeira de geograiia c 
histdria universal e piitria em curso bienal; e depois de organi- 
zado o liceu, foi notneado o pc. Jose Antonio da ConceiQ&o e 
Souza, natural de Calaugute, pant substitute das cadeiras de latim, 
tilosolia c historia. 



341 


Nuo se estabeleceu no liceu a cadeira de matema- 
tica por haver outra igual na vizinha escola raatemd- 
tica e railitar, como era tambem a concepijilo contida 
na port.de 17 de Agosto de 1841 do governador inte- 
rim) Lopes de Lima. 

Os principios de ftsica, quimica e historia natural 
deviam ser leceionados na aula destas disciplinas, 
criada por decreto de 10 de Dezembro de 1853, que 
brevemente se havia de abrir. 

0 visconde de Onrem criou tambem, cm 1854, uma 
cadeira de ingles era Mapugd. e mais uma escola de 
latim era cada urn dos ooncelhos de Salsetee Bard Os. 
sendo colocadas uma era Chinchinim e outra era Sali- 
gao em edificios oferecidos pelas respectivas comuni- 
dades, e ao conde de Torres Novas se deve a cria^So 
de urn logar de ajudante e substituto para a cadeira 
de latim do liceu nacional (decreto de 5 de Julho 
dc 1865). 

Em 1859 foi feehado o seminiirio de Chorilo por 
iusalubridade do logar, sendo criados em Bardes em 
1863 duas cadeiras — de fxlosofia e retdrica, como dire- 
mos. 

Muitos anos antes ( 1844) liavia sido estabelecida 
na ilha de Divar uma cadeira de latim, paga pelas 
respectivas comuriidades sendo o professor nomeado 
pelo governo provincial com precedencia de concurso. 

Seguindo o exemplo, a comunidade dc NeurA criou 
pouco mais tarde uma cadeira de ensino proiniscuo 
( portugues e latim ). 

Destas cadeiras a ultima durou pouco tempo, mas 
a primeira sd cessou de funcionar depois de se adop- 
tar no liceu nacional o regime das classes. 

Voltando ao liceu. ]£ste estabelecimento conti- 
nuou qudsi informe e . imobilizado por muitos anos & 
espera da reforma pedida, regendo-se pelos programas 
aprovados em 1857 e prestando eontudo bora servigo 
83 



342 


k instrugao publica; pois habilitou numerosos alunos, 
alguns dos quais freqiientaram depois com distin<;<lo 
os cursos super iores do continentc ('). 0 estabeleci- 
raento foi dirigido, de 18(58 a 1877, pelo enulito 
comissario dos estudos, Joaquim lleliodoro da Ctinha 
Rivara, que, loraando parte aetiva nos trabalhos iuter- 
nos da casa, imprimiu ao ensino seeundArio a orien- 
tiK'ilo classica, melhorando-o e tornamlo-o mais ruetb- 
dico, e mais proficuo; e a sua iniciativa se deveu a 
fundafslo da biblioteca liceal para a consulta e estndo 
dos prof esso res e al linos. 

A nomeaqao dos professores era feita uessa epoca, 
e ainda algum tempo depois, por meio do concurso de 
rigorosas provas publieas, embora os candidates apre- 
sentasseiu, eomo rnuitos o faziam, os melhores diplo- 
mas de liabilitagao nos estudos preparatories e nos 
cursos superiores. 

Havia portanto no liceu professores espccialistas 
em uma disciplina e dilctantes cm outras, como reco- 
menda o pedagogista Herbart; e algous deles aliavam 
u sua ocmpetencia profissioual uma forte cultura 
humanista. 

Decorridos alguns anos, o antigo deputado da na$ao 
e, ao tempo, inspector dos estudos neste Estado, 
Bernardo Francisco da Costa, tendo sido nomeado 
reitor do liceu em 1888, empregoa seus particulares 
esforqos perante o gov^rno, em ordem a conseguir 
a projectada reforma do liceu ; e o decreto de 31 de 
Outubro de 1892 reorganizou-o radicalmente, incor- 
porando nelealgumas cadeiras do Institute Profissio- 
nal, que foi extinto, e equiparando-o aos liceus nacio- 
nais da metropole, sendo nomeado reitor o que era 


( ( ) I'arecer da coioiss&n da instrugao publica da Camara dos 
Pares,.cin 6 do Jallio do 1889. 



343 


o director do referido Institute, o coronel Joilo de 
Melo de Sampaio, e para professor da cadeira da lin- 
gua e literatura portuguesa. criada nesta ocasiito. uni 
oficial europeu. 

Esta organizagao, que melliurava e actualizava o 
ensino, abrangia tres cursos: o curso geral era 4 anos, 
seguido do de letras em 1 ano e do de sciAncias ern 2 
anos. Estes cursos estavam distribuidos nas seguin- 
tes 9 cadeiras : 1.* — lingua e literatura portuguesa ; 
2. a — lingua francesa; 3. a — lingua inglosa; 4.“ — lingua 
latina ; 5. a — inatemAticn ; 6.“ — fisiea, quimica e his- 
tdria natural; 7. a — geografia e histdria ; S. a — filosofia; 
e 9. a — dezcnho. 

Tinba mais duas cadeiras anexas: a de raarata 
e a de econoraia politica e direito adrainistrativo, as 
quais, juntas as outras 9, forraavaui o curso complete 
dcsse liceu, que dava direito ii matricula nos institutes 
superiores, ao exercicio do magistcrio seeundArio e 
dos cargos graduados cla burocracia local, e ao exame 
para aavogado de provisilo. 

0 decreto, porem, de 22 de Dezembro de 1894 re- 
formou sob novas bases a instrugao secundAria em 
Portugal, organizando liceus nacionais e centrais com 
as disciplinas, designadas nos respectivos prograraas, 
a estudar simultAneamente, pelo sistema de classes; 
e da convenioncia de subordinar o ensino seeundArio 
dcste Estado ao regime estabelecido na iuetropole 
proveio o decreto provincial do comissArio rAgio, de 
9 de Janeiro de 1397, que constitute em Goa utn 
liceu nacional, isto A, o curso geral era 5 anos, cora- 
preendendo as duas priraeiras secc;6es, as quais juntas 
As cadeiras anexas de filosofia, econoraia politica e di- 
reito adrainistrativo e marata, formavam o curso com- 
plete, que dava direito a obter a carta de advogado 
e k matricula na Escola medico-ciriirgica de Goa e 
nos institutes industriais e comerciais. 



344 


Cora esta reforma ficou o liceu, corao se ve, burn 
piano de inferioridade relativamente it organisa^ilo de 
1892; mas, corao todos reconheciam que cste curso 
rautilado era preparatdrio insuficiente para a freqiien- 
cia da Escola Mddica, e os alunos habilitados (*) mlo 
podiam ter ingresso nos cursos superiores da metro- 
pole, sem que ali completassera os sens estudos, o 
decreto de 31 de Maio de 1919 elevou o mesmo esta- 
belecimento t\ categoria de Liceu Central, que com os 
cursos coraplementares completa a instruqao secun- 
daria. Desde 1901 lecciona-se nas classes a lingua 
alema, que tendo sido logo suprimida, foi restabele- 
cida pela reforma de 1919. 

Estao anexas ao liceu as cadeiras de economia 
politica e direito administrative, de raarata e a 
de sanscrito em 2 anos. Estao -1 he anexas tarabdm 
uraa biblioteca, uma aula de gindstica, um gabinete de 
fisica, um laboratdrio quimico e um museu do liisto- 
ria natural. 

No edificio do liceu funciona o Instituto Comercial 
criado por decreto de 25 de Noveinbro de 1916, dan- 
do ligoes nocturnas. 

Pelo citado decreto de 31 de Outubro de 1892 era 
autorizado o governo local a criar escolas municipals 
de portugues, francos e ingles, aproveitando as 8 ca- 
dei as do ensino secundario que ao tempo existiaui 
em Salsete e Bardes, e nito havendo entidade, que 
pedisse essa criaqao, seriara extintas (como de facto o 
foracn) it proporgao que vagassem, visto nao pode- 


0) Deste sistema de eabudar 8 ou 9 disciplines aimultanea- 
mente, embora fragmentadas, e supostoa todos os requisites peda- 
gdgicos, resnlta no fim uma percenbagem de aproveitados bas- 
tante reduzida, ainda qnando os estudos sao menos desenvolvidos 
como aoontece nos exames de matricula da universidade de Bom- 
baitn. 



345 


rem ser encorporadas no liceu ( ] ). 

i)a extingfio destas 8 cadeiras germinou a idea da 
criagao de 2 liceus municipals nos concelhos do 
Salcete c Bardcs, os qtmis, depois de rauitos anos, 
forain organizados por decreto de 29 de Maio de 1913 
e se abriram era 1914, tendo a seu cargo o ensino 
das tres prirneiras classes liceais. Os professores sao 
nomeados por concurso de provas publicas. 

Escola Matematica e Militar de Goa 

Os estudos matcmaticos, quo o gu\vrno central 
niandava cstabelccer ern Ooa ein 169!), ndo prinoipia- 
rara senuo so no 3.° quartel do st'culo XVII I por 
falta de pessoas iddneas ]>ara ensinar. O condo 
da Ega criou a aula de navegaydo ein 1759 on capi- 
tiio-general I). dose Pedro da (.Vunara a aula da 
artrlhavia ray i mental ein 1776. A primeira foi depois 
reformada e deuominada aula dc mar inha. , e a 
segimda substituida por um cur so da /brfi/irurao, regi- 
do por dois oliciais engenheiros, (pie para esse lim vie* 
ram de Lisboa ( 1807 ). A aula de marinba iicava 
anexa a este curso, a tpie servia de preparaciio. 

Estes dois eursos, quo durante 3 anos n;lo tinliam 
freqiioncia nenhumn, motivaram a iustituiyao da Aca- 
demia Military quo foi fnndada pelo conde do liio 
Pardo e se abriu cm Janeiro de 1818, governando-se 


(0 Destas cadeiras achavam-se oolocadas 3 em Mapuo.i: dc 
latim, ingles e francos. criadas iil. a cm ISOS, a 2.“ cm 28 de 
Setembro do 1851 e a 3. 11 em 20 de Setembro dc 1855; e uma de 
latim em Saligao estubeleeida cm 0 de Novcmbro do ]S54. 
Assim como lia via 3 cadeiras do iguais disciplinas em Margao: 
a de latim estabelecida em 1808, a de fiances cm 20 do A gusto de 
1850 c a de ingl&i em 17 de Marr;o de 1800; e uma cadeira tie 
latim cm Chincbinira, criada em 9 de Novcmbro de 1854. 



346 


pelo9 estatutos dados pelo fundador, por port, de 26 
de Julho de 1817. Compreendia 3 cursos: o de 
artelharia e o de marinha, de 4 anos cada um, e o de 
engenharia de 5 anos. Tinha 7 leotes proprietdrios 
e 2 substitutes ('). 

Em 1830 D. Manoel de Portugal e Castro f6z de- 
pender destes estudos a promoqiio a oficiais superio- 
rcs e a alguns cargos da Fazenda. 

0 governador Lopes de Lima reformou a Acade- 
mia, por port, de 18 de Agosto de 1841, e deu-lhe a 
denomina^ao de Eseola Malemdtica e Militar, melho- 
rando os metodos do ensino; e, destribuindo os estu- 
dos por 6 cadeiras, incluindo a de desenho, forraou 
os cursos da ariua de eugenharia, de artelharia e 
de infanteria. O desenho era comum a todos os 
cursos. Foi abolida a cadeira de marinha prometendo- 
se substituf-la pela de pilotagem. 

Os lentes, que eram cinco, deviam ser oficiais do 
corpo de engenheiros. Havia dois substitutes e um 
ajuaante da cadeira de desenho, que podiam ser pessoas 
iddneas. Por port, de 14 de Agosto de 1843 foi 
restabelecida a aula de marinha constituindo a 7.* ca- 
deira (*). 

A eseola tinha anexas uma biblioteca matemdtica 
e militar e um gabiuete de instrumentos de carapo e 
modelos de material de guerra. Esta eseola, de- 
pois de vdrias vezes reorganizada, foi, finalroente, 
com a extingao do exdrcito da India, extinta tambdrn 
e substituxda pelo Instituto Profissional de Nova Goa, 
pelos decretos de 11 de Novembro de 1871; e o Ins- 
tituto, decorridos anos, foi ainda fundido no liceu 


( l ) Bosquejo das Posses. Pori, por Celesbin Soares, bomo 1. 
pag. 208 e aegs.; e Annaes maril. e cols., v? . 2.°, pag. 207. 
(*) Cib. Bosquejo das Boss. Port., vol. l.°, pag. 208. 



347 


national de Nova Goa em 1892, como atrAs ficou 
dito. 

Suprimido o Instituto Professional, o uninistro Fer- 
reira do Amaral criou uma Escola de artes e oficios 
unde, al6m da instrugiio tedrica, ministrada em 4 
cadeiras, havia mestres, que vieram da metrdpole, 
contratados para as oficinas de encadernaffto, serra- 
Iharia e carpintaria. Esta escola instalou-se em 1893 
e foi extinta por imitil em 1898. 

Aula de fisica, quimica e historia natural 

Ao tempo em que florcscia a Escola matemAtica 
e militar, o governo central, paratornar mais proficuo 
e complete o ensino ministrado neste estabelecimento 
e na escola tnedico-cirurgica de Goa, criou, por de- 
creto de 10 de Dezembro de 1853 ( em substitui$ao 
da Escola Principal da instruguo primaria, institiuda 
em 1845, que nunca so abrira ) a Aula de fisica , qui- 
mica e histdria natural , com o programa mnito mais 
desenvolvido que o da Escola Principal, sendo no- 
meado professor o capitao do exdrcito de Portugal 
Luis Jose de Melo, natural de Salvador do Muudo 
( Bardes ). Esta aula teve, desde a sua criagfio, uma 
vida bastante agitada, pois havendo sido, pelo citado 
decreto, encorporada na Escola matemAtica, foi vi- 
vamente irapugnada (*) essa encorporaQilo pela 


(*) 0 principal fundamento da impugnagao era de ser onerosa 
aos alunos da eBCola matemdtica a obriga^ilo de apresentarem a 
aprovagto da aula de fisica para todos os corsos da referida escola, 
eroquanto os estudos do quadro da esoola nilo fosse m reduzidos. 
0 professor Melo respondia a isto na sua reolamagSLo que na me- 
trdpole os estudos matemiiticos abrangiara 22 cadeiras, afora a 
picaria, e em Goa apenas am tftrjo do numero daqnelas; e que, 
portanto, 0 acrdscimo da nova aula n&o podia dificultar os estuuos. 



348 


maioria do respectivo conselho escolar, cuja delibera- 
gito foi aprovada e louvada pelo conselho governativo. 
0 professor Melo reclamoo e o conselho escolar, insis- 
tindo no seu anterior voto, teve um grande debate 
corn o governador do Estado que acabava de chegar 
a India, o conde de Torres Novas, o qual deu parte 
desta singular questito ao govcrno superior, mas emi- 
tindo, infelizraente, ern dpoeas diferentes duas opinioes 
perfeitamente opostas (*). Entretanto faleceu o pro- 
fessor Melo e a nova cadeira permaneceu na referida 
escola ate 1SG5. Neste ano o governador Ferreira 
Pestana agregou-a a Escola incdico-cirurgica por 
port, de 18 de Dezembro, e por outra port. ( de 12 
de Janeiro de I860 ) obrigou os alunos da escola 
matematica e militar que se destinasseui as armas de 
artelharia e engeuharia, a apresentarem, antes de 
obterem a respectiva carta, a certidao de aprova^uo 
nas disciplinas da referida aula. O conselho da Es- 
cola matematica, que nfio queria a desanexagao, sur- 
preendido com a determinagao do govcrno, reclamou 
contra a citada port, de 18 de Dezembro, abrindo 
nesta ocasifio novo debate com o governador, o qual, 
insistindn na sua vesolugfio, permitiu ao referido con- 
selho recorrer ao govcrno central, e para instruir con- 
venientemente a sua suplica enviou-lhe todos os do- 


Os lentes, rpie votaram pela incorpora§iio e constituiam a minoria, 
eraui o tenonte coronet Jose da Costa Campos, director da Escola 
matematica, Jose Soares da Veiga, Jose Antonio Gomes, que 
passavam como as primuiras capacidades da Escola, c Manoel (io- 
dinho Fernandes, como muito proliciente. A testa da maioria 
porem (que se compnnlm de 5 lentes) estava o major (depois 
coronet) Candido Jose Monrfio viscondede Bucclas, que tinha a 
reputagao de sabio. 

(') Oit. Hr eve noliciu da aula de principios dc Pltisica, doc. 
li.o ii'2, pag. 68. 



349 


cumentos relativos ao assunto, ainda os que nao tiohara 
ehegado ao seu conhecimento, mandando publica-los 
tamb4m no Boletim Oficial. 

Foi isto bastante para se fechar o debate, e a aula 
foi defraitivaruente anexada & Escola medica por de- 
creto de 23 de Outubro de 1867, sendo dividido o 
seu curso em 2 anos, ate que o tnesmo gov6rno cen- 
tral, etn 31 de Outubro de 1892, reorganizando o li- 
ceu a encorporou neste estabelecimento. 

Durante o periodo de peripdcias por que passou, a 
aula de fisica, quando contava 18 anos de crea$ilo 
( 1872 ) ja havia sido regida sucessivamente por 18 
professores. Contudo o ensino nao deixou de ser 
proficuo. 

No primeiro ano do exercicio desta aula, que foi o 
de 1855 a 1856 forain aprovados 7 alunos dos 16 
raatriculados, sendo premiado um deles, Miguel Anto- 
nio de Melo, e nos anos subsequentes nito lhe faltou 
a freqiiencia nem alunos distintos. 

Ura dos referidos 18 professores foi o antigo depu- 
tado Bernardo Francisco da Costa, que inelhorou o 
ensino com demonstrates praticas, organizando, para 
Gste lira. um laboratdrio quiniico e habilitando muitos 
alunos, entre os quais foram laureados Dem6stenes 
Mascarenhas. Claudino Carneiro de Souza e Faro e 
Joaquim Jose Fernandes Arez, ao depois, todos os 
tres lentes de escolas superiores. Era 1861 o profes- 
sor Costa pediu a sua exoneraqao por raotivos poli- 
ticos. 


Escola Medico-Cirurgica de Nova-Ooa 

Houve quem fizesse remontar o estabelecimento do 
ensino medico em Goa ao tempo do celebre Dr. Gar- 
cia da Orta que, licenciado por D. Joao 3.° para 



350 


curar de Jlsica, passon k India em 1542 (‘). 

Mas nao ha documento que afirnie que Gste fisico 
d'El-rei , ou o licenciado Dimas Bosque, que foi fisico- 
-mor em 1562, ou qualquer outre fisico ou cirurgiao- 
-mor da India ate 1690 tenha dado li$oes de raedicina 
ou cirurgia em Goa ( 2 ). 

0 ensino m5dico-cirurgico regular devia principiar 
em 1691 no antigo Hospital Real conforme as ordens 
do govgrno superior de 23 de Marqo desse ano, mas 
consta sbmente que dos dois facultativos, Manoel Ro- 
drigues de Souza e Feleciano Gonsalves, formados 
na universidade portuguesa e nomeados lentes dcste 
curso, o segundo nao chegara it India atd o Dezembro 
daquele ano, e o primeiro, que viera era fisico-mor, nao 
abrira a aula por doente e.por estar it espera do outro 
que era lente de v^spera. Presume-se que com a che- 
gada deste, que era aguardado na segunda nau, se tenha 
instalado o curso. 0 certo 6 que antes de 1723 o ci- 
rurgiao-mor do Estado . leccionou a cirurgia em Goa, 
porque consta que, por consults do conselho ultrama- 
rino de 18 deMarco de 1723, se mandou dar aocirur- 
giao-mor do Estado a gratificatjfio de dez mil rets men- 
sais fazendo, como o seu antecessor , de Mestre ensinan- 
do cirurgia na India ( 3 ). E’ possivel que fiste curso 
nao tenha sido regular. Entretanto houveem Goa 
medicos que ensinavam particularmente a sciencia de 
curar, e alguns dos seus discipulos, depois de terem 
feito exame publico e vago perante o fisico-mor, obti- 


(») Garcia da Orta era doutor pelas universidadea de Alcala 
e Salamanca < nataraliata distintiasimo. 

(*) Ao tempo o fisico-mor fazia parte do pessoal maior do 
servico do vice-rei, como se verd no capitulo qne trata do P&la- 
cio Vice. real; e inter vinha oficialtuente nos scrvigos de sanidade. 
( Garcia da Orta e o seu tempo , por Conde de Ficalho). 

(*) Bosquejo das Possessdcs Port., vol. l.°, pag. 29D. 



351 


nham diploma passado pelo governo provincial, que 
lhes dava o titulo de medico for Sua Magestade e au- 
torizaqao para exercer a clinica. Oa outros eram 
licenciados. Mais tarde, e principalmente ern 1839, 
abusou-se extremameute da concessao de tais diplo- 
mas, pelo que o conde das Antas mandou inutilizar 
tnuitos deles. Mas estas rnedidas nao foram aprova- 
das pelo ministro por ter cm efeito retroaciivo com pre- 
juizo de terceiro ('). 

Em 1774 vieram novaraente ordens do governo da 
metrdpole para abrir no hospital de Panelim aulas de 
tnedicina e cirurgia, de que deviam ser encarregados 
o fisieo-raor e o cirurgiao-mor do E3tado. 0 fxsico- 
-mor, que entao era o Dr. Luis da Costa Portugal, 
transferiu-se para Mozambique em 1779, sendo no- 
meado em sen lugar pelo governo provincial o dis- 
tinto medico Indcio Caetano Afonso, natural da Pie- 
dade, por port, de 4 de Maio de 1782, o qual desem- 
penliou o cargo por 16 anos ate a sua morte ocorrida 
em 1798, mas nao consta ter leccionado. Entretanto 
veio despachado para India como cirurgiilo-mor Fran- 
cisco Manoel Barroso da Silva com a obrig,a<;&o de 
abrir aula de cirurgia. 

Alguns anos depois, em virtude de uma requisite 
dogovernador Veiga Cabral, que pedia um facultativo 
diplomado na raetrdpole para ensinar a medicina, veio 
para India o doutor Antonio Jose de Miranda e Al- 
meida, lente substitute da Faculdade de Medicina da 
Universidade de Coimbra, nomeado fisico-mor deste 
Estada por decreto de 29 de Novembro de 1799, o 
qual abriu o primeiro curso medico em 30 de Dezem- 
bro de 1800, e habilitou muitos filhos do pais e entre 
estes Bernardo Peres da Silva, que depois foi lente (*) 


(*) Cit. Bosquejo das Possesses Port., vol. l.°, pag. 299. 



352 


substitute) da escola, nomeado por port. pror. de 15 
de Junho de 1804, e mais tarde pret'eito do Estado. 

0 governo superior mandou louvar o zelo e presti- 
mo com que o fisico-mor desempenhara os seus de- 
veres. Ate o ano de 1805 muitos alunos haviam 
completado o curso, sendo vinte destes aprovados 
coin louvor, segundo informa o proprio fisico-mor. 

Regressando o doutor Almeida a metropule em 
1816, ficou na regoncia do curso o cirurgi&o-mor Bar- 
roso da Silva, atd que viesse nomeado fisico-mor e 
lente de medicina, por decreto de 16 de Junho de 
1819 o doutor pela universidade de Coimbra, Antonio 
Josd de Lima LeitSo, o qual propds urn piano de es- 
tudos para os facultativos do pais, ao Conde do Rio 
Pardo, que ih’o aprovou e mandou adoptar por por- 
taria de 23 de Junho de 1821. Era um curso medi- 
co-cirurgico de 4 anos. 

Mas o doutor Lima Leitfio envolvido nas altera$oes 
political do pais nao chegou a leccionar nem por um 
ano e regressou a Lisboa, em 5 de Mar§o de 1822, 
como deputado pela India. 

De 1827 a 1838 o curso medico ciriirgico foi regido 
pelo fisico-mor Manoel Jose Ribeiro e pelo cirurgiao- 
-mor Totnaz da Silva Correia, e depois ate 1840 pelo 
fisico-mor Vitorino Pinheiro de Lacerda. 0 priraei- 
ro e o ultimo eram bachareis em medicina pela Uni- 
versidade de Coimbra. 

Por oficio de 22 de Abril de 1833 o governador 
Portugal e Castro participou ao governo superior que 
os aludidos facultativos Ribeiro e Correia eram me- 
diocres na sua profissao e indbeis para ensinar Q ) ; e 
que, porisso, iam estudar A. metrdpole, conforme deter- 
nava a carta regia de 2 de Maio de 1832, 4 raancebos (*) 


(*) Goa sob a domittafao port., pag. 227. 



353 


talentosos da India ; e foram de facto Manoel Jos6 
Feledssimo de Abreu, Raimundo Venancio Rodri- 
gues. Aureliano Aleixo Leandro Mascarenhas e An- 
t6nio Jose da Gama, todos subsidiados pelas c&ma- 
ras agrarias. Destes o l.° e o 3.° falecerara em 
estudantes havendo obtido os primeiros pr£mios, e o 2.° 
formou-se doutor em matemdtica e foi lente catedra- 
tico da Universidade de Coimbra (*); e o 4.°, tendo- 
se formado mddico-cirurgiao pelo coiegio de S. Jose, 
regressou a Goa em 1842 e no ano imediato foi 
nomeado lente da escola medico-cirurgica. 

O governador interino Lopes de Lima remodalou 
o surso e transferiu em 15 de Abril de 1841 o hos- 
pital militar de Panelim para Pangira onde foi criadr. 
uma Junta da saude publica, bem como um Institute 
vadnico. 

0 fisico-mor do Estado, Dr. Mateus Ces&rio Rodri- 
gues Moacho (*), apdstolo das ideas novas irradiadas 


(*) Os filhos da India que se tern formado doatores pela nni- 
versidadede Coimbra sao: 

] .° — Raimundo Ven&ncio Rodrigues, natural de Bad6m (Salva- 
dor do Mundo), Doutor em Matematica, 1840 e lente da mesma 
Faculdade. Faleceu em 22-11-1873. 

2. " — Fr. ConstAncio Floriano de Faria, natural de Loutolim.; 
Doutor em Toologia, 1850, e lente da mesma Faculdade. Faleceu 
em Outubro de 1872. 

3. ° — LuisCaitano Lobo, natural de Saiigao, Doutor em Direito, 
1851. 

4. °—Raimundo Francisco da Gama, natural de Bombaim, 
mas oriundo de uma famllia do mesmo apelido, de Salig&o e 
gauncar dacomunidade agricola desta aldeia, Doutor em Medicina 
1858, Faleceu em 31-1-1895. 

5. ° — Luis da Cuuha Gonsalves, natural de Pangim, Doutor 
em Direito, 1909. 

Vid. Anudrio da Universidade de 1901-1902; e Or. Port., 
vol. 6., pag. 176. 

( 2 ) Era medico-cirurgiSo pela Escola de Lisboa e Doutor em 
medicina pela Universidade de Lovaina. 



354 


pela revoluqSo de Setembro, reconhecendo o atraso, 
em que a sciencia de curar aqui ae achava, propds ao 
conde das Antas um piano do cur so medico-cirurgico 
e farmaceuV'co de 4 cadeiras era 4 anos, exigindo 
para a primeira matricula a liabi 1 i ta<;ao em latim, e fi- 
losofia e o conheeiraento da lingua francesa. 

0 piano foi aprovado por port. prov. de 5 de No- 
vembro de 1842, sendo nomeados professores o fisico- 
-mor Moacho, os dois cirurgioes-raores do exdrcito, 
Josd Frederico Teixeira de Pinho e Antdnio Josd da 
Garaa, natural de Vernd, mddico diplomado na me- 
trdpole pelo co logic de S. Jose, e provisdriamente, era- 
quanto nao viesse o professor requisitado para Lisboa, 
o fisico do hospital Antonio Caetano do Rosdrio A- 
fonso Dantas, natural de Serula, medico rauito popu- 
lar ao tempo e autor de um livro sobre o cdlera-mor- 
bus (*). 

Abriu-se o curso mddico-cirdrgico regular em 1 de 
Dezembro de 1842 no edificio contiguo ao hospital 
militar, hoje Hospital Central , sendo no fim do ano lec- 
tivo aprovados os 8 aluncs matriculados e dentre Sa- 
tes, laureados com o l.° prdmio Agostinho Vicente 
Lourenqo, de Margao, que depois foi lente substituto 
da escola medica em 1847, cargo que deixou seguindo 
para Europa, onde se formou Doutor pela Universi- 
dade de Paris e teve nesta cidade a reputagiio de sa- 
vant, sendo posteriorraente nomeado lente da Escola 
Politdcnica de Lisboa; e com o 2.® prdmio Pedro Gon- 
zaga Augusto de Melo, da Raia, que chegou a ser 
cirurgiao-mor do exdrcito. 

Este importante melhoramento do ensino nao me- 
receu a san$ao rdgia ( pois o conde das Antas jd 


(*) Oriente Port., vol. 4.°, pag. 479. ( Subsidios etc. por I. 
Gracias). 



355 


saira da Tndia); todavia continuou felizmente auto- 
rizado pelo governador Joaquim Mourfto Garcez Pa- 
Iha, at 6 que aua magestade, por decreto de 11 de Ja- 
neiro de 1847, criou a Escola Medico - Cinmjica de 
Nova- Goa, coin 6 cadeiras era 4 anos, destinada a 
habilitar facultativos e farraaceuticos. 

A reforma aprovada por decreto do 1 1 de Outubro 
de 1865deu ao ensino naaior desenvolvimento, passan- 
do o curso a ter 9 cadeiras distriluudas era 5 anos. 

Iloje, pom a evolutjilo progressiva, o curso m6dico-ci- 
riirgico d leccionado por 12 professores era 18 cadeiras 
distribuidas tambdm por 5 anos. A Escola tern uma 
biblioteca rnddica, uin gabinete anatomico e cirurgico, 
casa de dissecqao e laboratdrio quimico-farmaceutico. 

O curso farmaccutico e dividido era 3 anos. E 
estiio anexos ii Escola raais dois cursos, o tie eufer- 
raeiros eodc parteiras. 

• Ao Hospital Central estiio anexos dois estabeleci- 
raentos, entre si independentes, o Instituto Bacterio- 
ldgico e o Instituto de analises quiraicas e toxicolo- 


CAPITOLO XXVI11 
O Padroado Portugues no Oriente 

Antes da institui^uo do padroado do Oriente, Goa 
e todas as conquistas dos portugueses na Asia e na 
Africa estavara sujeitas, na parte espiritual, ao Vig.i- 
rio de Tomar, Prior-mor da Ordera de Cristo, e 
vdrias Bulas haviam concedido aos reis de Portugal 
o direito de levantar edificios reliogiosos e enviar 
missionaries para a evangelizayao destas conquistas. 



356 


Em 1514 foi criada a S£ do Funchal, tendo o seu 
bispo jurisdigao era todo o Ultramar, e o papa Le;lo 
X c’oncedeu o padroado desta S4 aos reis de Portu- 
gal e, dois anos depois (1516), concedeu-lhes tambera 
o direito de apresentar pessoas iddneas para todas as 
igrejas que fossem fuudadas ou dotadas nas terras 
descobertas ou conquistadas, reservando & autoridade 
eclesiastica a confirmagao. Aqui se vc ja instituido 
o padroado do oriente. 

Em 1534 o papa Paulo 3.°erigiu o bispado de Goa, 
compreendendo todos os estabeleciraentos porhtigue- 
ses desde o Cabo de P>6a Esperanga at6 a China; 
e, renovando o direito do padroado, irap6s ao padro- 
eiro a condigao de sustentar e conservar todas as 
igrejas, capelas, conventos e outros lugares de devo- 
g&o, e fundar e dotar novas igrejas conforme as exi- 
gences dos tempos. 

A inst&ncias del-rei D. •Sebastiao, foi Goa elevada 
em 1558 & categoria de arcebispado metropolitano 
com dois bispados sufraganeos: o de Cochim e o de 
Malaca. 

Em 1575 o papa Gregdrio 13.°, atendendo, ao pe- 
dido del-rei, por Bula Super specula militants Eccle- 
sia , criou o bispado de Macau sufraganeo A metropole 
de Goa, concedendo tambdtn o padroado desta dioce- 
se aos reis de Portugal, com a condigao de proverem 
de fundos necessarios os bispos e missionarios, e denla- 
rando que ninguern, nem raesmo a S 6 Apostdlica po- 
deria anular b direito do padroado, tal qual era con- 
cedido aos reis de Portugal, sera o consentimento 
formal do soberano reinante. 

Esta mesma cldusula de irrevogabilidade vem con- 
signada posteriormente todas a vezes que um novo 
bispado se estabelece no oriente. Pode, por ex6m- 
plo, ver-se a Conslituigdo de Clemente XI, Gopwsus, 
ae 1719. Assira se erigiram as dioceses de Cranga- 



357 


nor (da antiga Angaraale), Jap&o, Meliapor, e a pre- 
lazia de Mozambique, todas sufraganeas ao arcebis- 
pado de Goa. 

Deve-se notar, porem, que, quando a Igreja conce- 
de semelhantes direitos, exige sernpre que os padro- 
eiros sejam catolicos e se hajam catolicamente. 

Os reis de Portugal, no exercicio da prerogativa 
obtida, conferiam os beneffcios eclesiasticos em tao 
vasto territdrio, cumprindo fielmente os seus compro- 
rnissos com o aplauso dos Pontifices; e os numerosos 
missionaries portugueses, (jesuitas e outros religiosos 
que saiara dos 39 conventosda India e aiguns clerigos 
seculares indigenas) propagando o cristiauiasmo, com 
o risco da vida e sacrificios incriveis, prestaram, ao 
lado dos guerreiros, relevantes servigos t\ civilizagao 
crista, que tarabem foram elogiados pelos Pontifices 
em Letras Apostdlicas. 

0 padroado do oriente, portanto, representava 
um monumento mixto levantado & gloria dos conquis- 
tadores e aos triunfos da religiao, e era, ao mesrao 
tempo, um elemento de influSncia e ainda de riquezas 
temporais. A sua conservagiio viria a ser um gran- 
de interesse nacional ( 1 ). 

“ Mas, assim que, pela perda do dominio temporal 
em varias partes do imperio lusitano, se viu tambem 
dificultada a entrada dos missionarios do Padroado 
em os territdrios ocupados pelos iniraigos, e, deste 
modo, prejudicadas as cristandades, a Sagrada Con- 
gregaqSo da Propaganda Fide comeqou a enviar Vi- 
gdrios Apostdlicos ao oriente, aberto ao catolicismo 
pelos nossos evangelizadores. Deu-se este passo 


(') XJm Brado pelos Coldnias por 1). Isidore de Noronha, pg. 
58 e Memdria sobre a Alocufao do Sant. Padre Pio g. u no con- 
sist. seer. de 17 de Fev. de 1851. 

38 



358 


sem a audigiio do Padroeiro, aiuliguo que nao se es- 
perava fosse dispensada atentns us boas relagoes entre 
a Santa So e a Corte de Madrid. 

Ap6s a restauragiio, em 1640, veio a rotura das re- 
lates diplomaticas entre as Cortes de Roma e de 
Lisboa. — Sob a pressfto do gorerno hespanbol a S. Se 
nsto q«is reconbecer a independence de Portugal e os 
seus reis, D. Joilo 4.° e sueessoros; e, desta maneira, 
deixou de confirmar os prelados apresetitados por &stes 
para as dioceses do Padroado. Durou mnitos anos esta 
situa^fio, cujo resultado — mas nao pela culpa do Pa- 
droeiro — foi o de fi care in vngas todas as dioceses, que 
cocstituiam a Provinda Leiesubstka de Goa, e des- 
providas do mimero necessario dc mission tirios portu- 
gueses as cristandades. A Propaganda enviou-lhes, 
pois, directamente missionaries estrangeiros, que 
tomaram posse de muitas igrejas do Padroado. Da- 
tam daqui as lutas escandalosas e desedificantes entre 
a Propaganda e o Padroado. Nos diplomas ponti- 
ficios, que erigiram Vieariatos Apostdlicos em os 
territories que constituiam parte integrante .das 
nossas dioceses — como Tonkim, Cochiuchina e Nan- 
kim — ; no Breve Christi jidelium, que anexou ao 
Vicariato A posted ieo de Bijapur, na India, os reiuos 
do Pegu e Golconda ; e noutros que, ainda depois 
de reatadas as relates emanaram da S. Se, a Coroa 
de Portugal viu cereeado e, ate, derrogado o privi!6- 
gio do Padroado, e, porisso, continuou setnpre a pug- 
nar corn energia e liriueza pela manutenqio integral 
da sua prerogativa. A Coroa portuguesa, reinando 
D. Pedro 2.°, conseguiu a cria^ao de dois novos 
bispados — Pekitn e Nankim — cujo padroado Ihe foi 
dado e aos sucessores. 

E’, porein, for$oso confessar que a manutengito do 
Padroado jd se ia tornando pesada a Coroa. Era o nu- 
tnero, cada vez decrescente, dos missionrarios; o arre- 



fecimento do zelo e fervor dos religiosos; era a faltn 
da influcDcia po Utica de Portugal etn alguns reinos do 
oriente. Cristandades havia. privadas de padres do 
Padroado; outras, como cm Bengala, mule a acQtlo 
raission&ria era quasi mi la . 0 Aroeliispo S. Galdino 

exorta os cmt&os de Siam a obedeeer ao Vigario 
Apostolico, sem cuidarem em cliamar os padres do 
Padroado. Devemos ter em vista o estado das mis- 
soes para apreciar, com imparcialidade e sen; paixito, 
o procedimento da Propaganda. 

A ext.in<jao das Ordens lleligiosas, euja relaxagao, 
devida em parte ao poder secular, exigia apenas unm 
reforma; — a confiscate dos bens conventuais ; a 
oposi^ao, sob ameayas feitas polo GovOrno portuguos, 
para a S. Se nao coufirmar os bispos apresentados 
por D. Miguel; — em lima palavra, a persegui^fio reli- 
giosa decretada pelo Puque de Bragan§a, ocasionou 
urn novo rompimento de relates entre as Cortes de 
Roma e Lisboa. Fomin graves as conseqiiOncias 
para o Padroado... Os Oratorianos de Ceilao pnseram- 
-se sob a protecgilo da Propaganda ; a Propaganda 
erigiu os Vicariatos Apostolicos de Calcuhi, Ma- 
drasta, Madure e Ceilao; e, por ultimo, veio o cdlebre 
Breve Multa praeclai'e, de Gregorio XVI, extinguin- 
do as dioceses de Ccchim, Malaca e Meliapur e cir- 
cunscrevendo o Padroado imicaniente ao territdrio 
portugu^s. Gsse Breve, datado de 24 de Abril de 
1838, foi o epitdfio do Padroado. 

Renasceratn, atingindoa maxima acuidade, as lutas 
e os ddios. Ahusaram ambasas partes. Os propa- 
gandistas escreveram diatribes contra a nagilo e os 
soberanos de Portugal, liepontaram os padroadistas, 
escrevendo, tarabem despejadamente, contra a Propa- 
ganda e a ciiria romana, sendo para lameutar que, 
entre §stes tivesse havido um mi trad o e outros apre- 
sentados para a mitra. 



360 


Na recusa da S. Se ern confirmar os bispos apre- 
sentados pelo Padroado, tem-se querido ver o seu 
propdsito de deisar vagas as dioceses portuguesas do 
oriente e diminuido o niiraero de sacerdotes, para desta 
raaneira, coonestav a extinqilo do Padroado, decreta- 
da pelo Breve Multa praeclare; mas, antes de formu- 
lar uma acusaq/Io tilo grave contra a corte pontificia, 
ninguem tern querido estudar os arquivos da ttuncia- 
tura e do rainisterio,. para se avaliarem as razoes que 
deterrainaram a S. S6 para nao confirmar os Bispos 
propostos ” (*). 

Contra 6ste Breve, que nao versava sAbre mate- 
ria dogm&tica nem moral, mas somente sobre as re- 
galias da coroa, e foi reputado em Portugal como 
ob — e subrepticiamente obtido pela Propaganda, sem 
anuencia nem audiSncia do Padroeiro, protestou o go- 
verno portuguos e o arcebispo eleito de Goa, e primaz 
do oriente D. Antonio Feliciano de S. u Rita Carvalho, 
o qual ordenou tarabem, na sua pastoral de 8 de Ou- 
tubro de 1838, a todos os seus subditos que nito re- 
cebessem nem executassera esse Breve, sem que 
viesse munido do benepldcito rdgio, que era a lei 
do pais. 

Desde entao houve duas jurisdigoes em todo o 
padroado compreendido na India inglesa e continuas 
lutas e conflitos entre os propagandistas e os missio- 
naries portugueses, com grave perturbagSo da paz e 
consciencia das respectivas cristandades (*). 


(') A parte ddste capftulo qne vai entre aspas « » 6 da lavra 
do Sr. 06nego Francisco Xavier V&s, a qnem agradecemos o 
particular favor da sua colaborag&o neate asaunto intrincado e 
controvertido. 

( s ) Milras Lusitanas no Oriente, do Sr. Padre 0. 0. de Na- 
zareth, 2. a ed., pag. 462, ; As Cdlonias Portuguesas por P. Chagas 
pag. 140; e Anais Marti, c Col., vol. 5, pag. SM58, e Sega. — 



361 


Estas lutas continuaram, ate que pela eoncordata 
de 21 de Fevereiro de 1857, foi acordado o statu quo 
emquanto se niio circunscrevessem as dioceses por 
dois comissarios, o pontificio e o portugues; e que de- 
pois de circunscrita cada diocese, sairiam dela os vi- 
gtirioa apostolicos, ficando as igrejas sob a jurisdigfio 
do padroado, e o arcebispo de Goa governaria as dio- 
ceses sufraganeas por vig&rios gerais, nfto como ine- 
tropolita, mas como delegado da Santa Se, com juris- 
digilo provisoria ate ao provimento definitivo dessas 
dioceses. 

Os comiss&rios nomeados i'oram o arcebispo titu- 
lar de Cartago, Fr. Salvatore Saba d’Orsiori e o 
conselheiro Joaquim lleliodoro da Cunha Rivara 
(1862). 

Apenas comegados os trabalhos da delimitagao, fa- 
leceu repentinamente ern Nilghiris, o arcebispo Saba, 
que nunca mais foi substituido, vendo-se Portugal ua 
necessidade de assinar nova eoncordata era 23 de Ju i - 
nho de 1886, que, alem de marcar limites mais estrei- 
tos ao nosso padroado, nos tirou as melhores tms- 
sdes, e entre estas a de Ceilao, fruto dos trabalhos 
apostdlicos do nosso patricio, o veneravel padre 
Jose VYis. 

Em corapensagao dos limites cerceados, a eoncordata 
deu ao Arcebispo de Goa o titulo de Palriarca ad 
honorem das Indias Orientais, com o privilegio de pre- 
sidir aos concilios provinciais destas Indias. 

As reliquias do padroado, que nos ficaram, com- 
preendera a provincia eclesiastica de Goa, organizada 
actualmente pela forma seguiute : a arquidiocese de 
Goa, ahrangendo toda a India portuguesa, excepto 
Damfio e Diu ; na India ingleza o territdrio perten- 
cente ao Gauarii do norte, e o qtie foi do antigo va- 
rado de Savant-vari, e a igreja da lmaculada Oon- 
ceigao de Puueni. S;Io sufraganeas de Goa as dioce- 
38 * 



362 


ses de Cochim (*), Macau, Meliapor, e'a de Dainao, 
que compreende Diu, e cujo prelado tern o titulo de 
arcebispo de Cranganor, sendo lamb6m sufraganea ao 
arcebispado de Goa a prelazia de Mozambique, pela 
constituigfio In eminent/ dr 1612 ( 2 ). Estas reliquiae 
ainda merecem ser conservadas nao s<$ corno unia glo- 
riosa tradiqao histdriea, ruas tambcm como um impor- 
lante valor politico. 


CAITPULO XXIX 

Serie cronologics dos prelados da 
Arquidiocese de Goa 

l) D. Fr. Joao de Albuquerque, l.° bispo de Goa, che- 
gou a India em 1538. Por seu falecimento em 1553 
governou a diocese o cabido, segundo a disciplina da 
igreja universal, desetnpenhando as f undoes episco- 
pais D. JoSo Nunes Barreto, da companhia de Jesus, 


( l ) Por Bnla do papa Gregorio 13.°, dc 13 de Dezembro dc 
1572, foi concedido aos bispos de Cochim o direito de governor a 
diocese de Goa na Sale vacancia e por bula d£ Leilo 1 2.°, de 12 de 
Dezembro de 1826, se extendeu esse mesmo direito ao Arcebispo 
de Cranganor ua falta do bispo de Cochim, e ao de Meliapar na 
falba do de Cranganor. 

Por declaraf&o posterior da Secretaria do Bstado Pontificio, 
datada de 9 de Abril de 1919, durante a vac&ncia da S6 de Goa, 
o bispo de DamSo 6 o governador da arquidiocese em primeiro lu- 
gar, seguindo-ae-lhe o bispo de Cochim e o de T .Ieliaput . 

Na vacancia das dioceses sufragilneas gover iarA o respectivo vi- 
gario geral. 

( 3 ^ Vid. A Wove Conconlala enlre a Sank: Si c Portugal 1886. 



patriarca de Etidpia, que desde 1558 fixou a sua resi- 
ddncia na ilha de Chorffo, onde fundon uraa casa da 
saa ordeno, que depois veio a ser noviciado e, poste- 
riormente, seminArio diocesano, ora extinto. Faleceu 
em Goa no coldgio de S. Panlo em 1562. 

2) D. Gaspar de Leio Pereira de Ornelas, i. # arcebispo 
de Goa, chegou A India pelos fins do ano 1560. Fez 
a l.“ ordena^So episcopal en> Goa na igreja de S. 
Paulo. No seu governo foi ihtroduzido aqni o tribu- 
nal da Inquisiqfto ( 1560 ) e celebrou-se o l.° conci- 
lio provincial (1567), presidido pelo niesrao arcebispo. 
Depois de administrar a diocese por 7 anos obteve o 
breve da resigna^ao e recolheu-se ao convento da 
Madre de Dens, que fundara em Daugim a suas ex- 
pensas. 

8) D. Fr. Jorge Temudo, bispo de Cocliim. promovido 
a, diocese de Goa, governou-a desde 1567 ate 29 de 
Abril de 1571, em que faleceu no colegio de S. Pau- 
lo em Goa. Em 156.8, imprimirain-se em Goa as 
Constituigoes deste arcebispado. 

4) p. Gaspar de Leao Pereira, obrigado pelo Papa 
Gregdrio 13.°, reassumiu as funjSes arquiepiscopais 
em 1574. Presidiu ao 2.° concilio provincial (1575) 
e faleceu a 15 de Agosto de 1576. Jaz na sd ca- 
tedral. 

5) D. Fr. Heqriqne de Tivora. transferido de Cochitn 
para Goa em 1578 na conformidade do breve Pasto- 
ralis officii cura do papa Gregorio 13.°, que deterrai- 
nava que, vaganao a igreja primacial de Goa, devia 
o bispo de Cochim transfer ir-se para ela e regd-la 
atd ser provida de pastor pela Santa Se. Governou 
por trds anos. 

6) D. Fr. JoEo Ticente da Fonseca, arcebispo de Goa, 
tomou posse da diocese em 1580 e faleceu 6 anos de- 
pois, de regresso a Portugal. Celebrou sob sua pre- 
siddncia o 3.° concilio provincial ( 1 585 ). 



364 


7) D. Fr. Mateos de Medina, bispo do Cochim, foi no- 
meado arcebispo de Goa ein 1588. Celebrou o 4.° 
concilio provincial ( 1592 ) e no inesmo ano rcnunciou 
s\ mitra. Faleceu em Goa e jaz na capela-morda se. 

8) D. Fr. Aqdri de S, Maria, tambera bispo de Co- 
chim, governou a diocese de Goa desde 1593 ate 
1595. Resignou o logar e recolheu-se ao convento 
da Madre de Oeus em Goa. Faleceu em 1618 e jaz- 
na s£. 

9) D. Fr. Aleixo de Ifeqezes, arcebispo de Goa, gover- 
nou desde 1595 ate 1610, em que regressou a Portu- 
gal, deixando por governador da arquidiocesc o seu 
coadjutor D. Fr. Domingos Torrado ou Trinda.de , 
bispo de Sale, que o substituiu ate 30 de Dezeinbro 
de 1612. D. Fr. Aleixo de Menezes fundou o rnos- 
teiro de Santa M6nica, 116 igrejas paroquiais em 
Goa, e os recolhimentos de N. S. da Serra e de S. Ma- 
ria Magdalena. Convocou o 5.° concilio provincial, 
onde tomou para si e para seus sueessores o titulo de 
Primaz do Oriente e celebrou o sinodo de Diamper, 
no Malabar, para a uniiio da cristandade de S. Tome, 
que vivia na heresia e no seism a. 

10) D. Fr. CristdvEo de 84 e Lisboa, bispo de Malaca, 
transferido para Goa em 1616, governou ate 31 de 
Margo de 1622, era que faleceu. Foi este arcebispo 
que compds o Oficium S. Catarince V. et M., que se 
resa nesta arquidiocese em 25 de Novernbro, e obteve 
a aprovagao do Papa; celebrou de # pontifical pela 
primeira vez na catedral de Goa, que a este tempo 
estava ja perfeita. A este arcebispo dedicon o jesuita 
Tomds Estevam, autor do catecismo em concani, o 
seu Puranna ou auto, em verso, dos misterios da en- 
carnaqfio, paixao e morte de Jesus Cristo, que se lia e 
cantava em muitas igrejas da India. Jaz na se cate- 
dral. 

11) D. Fr. Sebastiao de S. Pedro, governou corao bispo 



365 


de Meliapor de 1623 a 1625, em que foi nomeado ar- 
cebispo de Goa. Era tilo destemido, que, em bispo 
de Meliapor, defendeu esta cidade por 3 ineses contra 
os liolandeses, que a liaviam sitiado e Hies tomou a 
fortaleaa de Paleacate. Por sua inorte foi governada 
a diocese pelo cabido ( 7 de Novembro de 1629 ) e 
depois pelo vigario capitular, o deilo da s6 Gongalo 
Ve/oso , a quern seguiu o vigario capitular D. Fr. 
Jodo da Roelia , bispo de Hierapolis, depois substi- 
tuido por Fr. Jeronimo da Faixdo, da cotigregaqiio 
da India. 

12) D. Fr. Miguel Rangel, transferido de Cocliim, em 
conseqiieiicia da inorte do arcebispo I). Fr. Manoel 
Teles de Jirifo , ocorrida na sua viagem para a India, 
governou esta diocese por tempo de um ano e 7 lue- 
ses a contar de 16 de Maryo de 1634, em que tomou 
posse. 

13) D. Fr. Francisco dos Martires, arcebispo de Goa, 
tomou posse a 21 de Outubro de 1636. Tendo fale- 
cido a 25 de Novembro de 1652, a se de Goa esteve 
vaga por 22 anos, por ntlo querer a S. Se confirmar os 
prelados apresentados por D. Joa-o 4.° e seus sucesso- 
res, aos quais uflo reconhecia como reis de Portugal, 
em atengiio ti corte de Madrid. Durante este perio- 
do liouve oscandalosas desordensno cabido, procuran- 
dc cada um dos conegos a priraazia no governo da 
arquidiocese, excoinungando uns aos outros ; ora go- 
vernava o cabido, ora um vigdrio capitular, que logo 
era destitui'do. * Em 1652 chegou a Goa, vindo de 
Roma, T). Mateus de Castro, natural da ilha de Divar, 
bispo de Crisdpolis, vigario apostdlico do impArio do 
l’reste .Ioao,Jdos reinos de Jdalcilo, Pegu e Golconda. 
Edificou as igrejas de Bicliolim, BandA e VingurlA. 
Em 1671 regressou a India D. Custddio de Pinho, 
natural de Verna, ( Salsete ), bispo de Hierapolis ; 
residiu em Bicliolim, onde erigiu uraa ermida, de que 



366 


ja nflo ha vestxgiog e outra en? Cundaim, hoje etn rui- 
nas ; coaferiu o rdens, vacante , a muitos Candida* 

tos. 

D. Fr. CrlstOViO da Silreira, nomeado arcebispo de Goa 
em 1672 tom on posse porseu procurador Fr. Antdnio 
de Carvalho e faleceu na viagem para a India. 

14) D. Fr. Antdnio Brand&C, arcebispo de Goa, che- 
gou a 24 de Setembro de 1675 e faleceu a 6 de Julho 
de 1678. Reformou uma casa de recreio, que os ar- 
cebispos possuiam em Panelim, Icgada'h mitra por 
urn liindu, convertido t\ fe catdlica. Com o tempo 
vein a ser esta casa am grande palacio, onde residi- 
ram os arcebispos ate 1,831. 

Para coadjutor deste arcebispo foi nomeado D. Fr. 
Jacintq de Saldanka, que parece nao veio India. 
Durante a vaganqa da S6 provs\velmente governou c 
cabido at/; 1681. 

15) D, Dfanoel de Souza e Menezes, arcebispo de Goa, 
governou desde 20 de Setembro de 1681 at6 31 de 
Janeiro de 1684. 

16) D. AibertO da Silva, arcebispo de Goa, tomou 
posse a 24 de Setembro de 1687 e governou ate 18 
de Abril de 1688. 

17) D. Fr, Pedro da Silva, bispo de Cochim, achan- 
do vaga a S6 de Goa, tomou posse desta diocese e 
governou ate 15 de Mar<;o de 1691, em que faleceu. 

18) D. Fr. Agostinho de Al)UI|Cia(aO, arcebispo de Goa 
chegou em 1691 e faleceu em 6 de Julho de 1713. 

19) D. Sebasti&o de Aqdrade Pessaqha, arcebispo de 
Goa, governou desde 24 de Setembro de 1716 ate 
25 de Janeiro de 1721, em que resignou o logar, dei- 
xando por governador do arcebispado o seu vig.lrio 
geral Henrique Bravo Morale. 

20) D. Inicio de S. Teresa, arcebispo de Goa, go- 
vernou desde 1721 a 1739, em que foi transferido 
para o bispado do Algarve era Portugal. Escreveu 



367 


algumas obras. Foi substituido por />. Fr. Eugenio 
Trigneiros, bispo de Macau, que faleccu na viagera 
para Goa. 

21) D. Clemente Jose, bispo de Gochim, tomou posse 
da diocese de Goa depois da raorte do bispo anterior, 
e governou-a a to 1642. 

22) D. Francisco de Vascoijcelos, bispo de Gochim, go- 
vernou desde 20 de Dezembro de 1742 ate a sua 
morte em Margo de 1743. 

23) l), Fr. Lourengo de Santa Maria e Melo, arcebispo 
de Goa, goveruou de 1744 a 1750. 

24) D. Antonio Taveira da Neiva Brum da Silveira, arce- 
bispo de Goa, ehcgou a 23 de Setembro de 1750 e 
goveruou a diocese ate 4 de Margo de 1775. Fale- 
ceu na viagem para o reino. Ordenou as novas 
ConstituieoGs Goanas, eouforme a autorizagao do 5.° 
concilio provincial, as quais, depois de correctas e 
aurnentadas por sen sucessor 1). Fr. Manoel de S. 
Catarina em 1788, lb ram impressas em Lisboa em 
1810. 

25) D. Francisco de Assuqgao e Brito, arcebispo de 
Goa, tomou posse em Margo de 1775 e governou ate 
5 de Fevereiro de 1780. Era protegido do mar- 
ques de Pombal, que lhe deu as Instrugoes , jYi atrds 
mencionadas. 

26) D. Fr. Afaitoel de S. Catarina, bispo nomeado de 
Gochim, governou a diocese de Goa, desde Fevereiro 
de 1780 ate o seu falecimento, ocorrido no palacio do 
defto em Quepdm a 10 de Fevereiro de 1812, a prin- 
cipio como governador apostdlico do arcebispado e 
depois como arcebispo. 

27) D. Fr. Manoel de S. Galdino, bispo de Macau e de- 
pois arcebispo de Goa, governou desde 18 de Feve- 
reiro de 1812 ate 15 de Julho de 1831, e faieceu no 
paldcio de Panelim. 

Depois da sua morte, foi governada a diocese pelos 



368 


seguintes vigdrios capitulares: 

a) Jos6 Paulo da Costa Pereira de Almeida, natural de 

Braga, deUo da s6 pritnacial, governou ate 1 1 de Ja- 
neiro de 1835. Foi 6ste deSo que deu principio ao 
estabelecimento da povoag&o de Quepcrn e fundou ali 
a igreja de Santa Cruz com uraa casa apalaqada. Con- 
aeguiu que o bispo titular de Diocleia, fr. Manrelio 
Sabelini, coadjutor do vigdrio apostdlico do Borabaim, 
conferisse, em 1834, ordens sacras a. ruuitos cldrigos 
do arcebispado de Goa. Pastas ordonagocs forara i'ei- 
tas em Sunquerim por o nosso governo civil as nito 
permitir no territdrio portugucs. 

b) Paulo Antonio Dias da Concei(io, natural de Cave- 
lossim, de Salsete, tesoureiro-mor, depois defio da so, 
governou desde 18 de Janeiro de 1835 ate 1!) de No- 
vembro de 1837. 

c) D. Antonio Feliciano de S, Rita Carvalho, arcebispo 
eleito desta diocese, govevnou-a corao vigdrio capitu- 
lar desde 29 de Novembro de 1837 ate 1 de Feverei- 
ro de 1839, em que faleceu. 

d) AntOttiO Mo de Ataide, natural de Scrub! de Bar- 
des, chantre da s4 pritnacial, governou ate 7 de Margo 
de 1844. 

28) D. Jose Maria da Silva Torres, arcebispo de Goa, 
governou desde 7 de Margo de 1844 ate 26 de Margo 
de 1849, em que regressou a Portugal em conseqiicn- 
cia das desinteligencias havidas com a Santa Sr sobro 
as questoes relativas ao padroado, de que ole fora ze- 
loso propugnador. Encarregou o governo da diocese, 
com o titulo de governador do arcebispado, a />. Fr. 
Joaquim de S. Rita Botelho , natural de Pangim, que, 
estando em Lisboa, havia sido eleito bispo de Cochim, 
por decreto de 28 de Fevereiro de 1840, e o quid, de- 
pois da resignagSo do arcebispo Torres, governou co- 
mo tfigdrio capitular. 

Em 1853 esteve em Goa o bispo de Macau, D. Ja- 



369 


rdnimo J. Mata , que exerceu as fungoes episcopais de 
erismar e conferir ordens. 

Essa sna vinda a Goa, as festas com que foi recebido 
pelas cristandades da India, as ordenagoes que f£z 
com o consentimento e a pedido do prelado de Goa, 
suscitaram queixas de alguns vigArios apostdlicos e da 
congregagilo da propaganda perante a cdrte de Roma, 
a ponto de o papa Pio IX fulminar o bispo de Macau 
com o breve epistolar Probe nostis , de 3 de Maio de 
1853. 

Ndste breve foi taxado de anticandnico e criminoso 
o proccdimento do bispo Mata, em exercer fun joes 
episcopais nos territories dos vicariatos aposlblicos ; 
reputados fomentadores de scisma os eelesiasticos do 
arcebispado de Goa e das dioceses snfrag&neas que 
defendinm a integridade do padroado portugues no 
oriente, e denunciados quatro dfistes eclesiAsticos, os 
padres Antonio Mariano Soares, natural de MapugA, 
vigArio geral do arcebispado de Goa em Bombaim, 
Gabriel da Silva, Joao BrAs Fernandes e JosA de 
Melo ( naturais de Bombaim ) e ameagados com ex- 
comunhito como principals autores, motor’es e impul- 
sores para o bispo de Macau exercer em Bombaim 
as fungoes episcopais, se, em 2 meses, nilo mudassem 
de comportamento, e se nito submetessem Sts disposi- 
gc3es do breve Multa prceclare, de 24 de Abril de 
1838, no que diz respeito k jurisdigao dos vigArios 
apostolicos creados por aquele breve. 

Por confissilo do visconde de Bussi&res, autor da 
Historia do scisma portuguQs , cap. 12, ve-se que estas 
medidas foram sugeridas ao sumo pontifice pelo vigA- 
rio apostdlico de Bombaim A. Hartmann, a quern se 
dd comumente a paternidade daquela publicagao. 

Contra o breve Probe nostis reclamou o govern o 
portuguSs, dirigindo ao interudncio extraordindrio e 
delegado apostdlico em Lisboa, uma nota a 28 de 



Juniio de 1853. Na crimara dos deputados hnuve, 
tarn bum, interpelajSo e debates, falando sobre cste 
facto atentatdrio das regalias da cor6a o deputado in- 
diano, conego Esteviio Jeremias Mascarenhas, natu- 
ral de Ucassaim. 

llespondeu o miuistro dos eclesidsticos Rodrigo da 
Fonseca Magalhfies dizfendo, que o govcrno n5o havia 
de abandonar os prelados portugueses, que na India 
tinham dado um nobre exemplo de patriotismo ; que 
o bispo de Macau fizera o que o govcrno lhe insinuara. 
dando ordeus aos clerigos qir# delas oareciam, para 
maior espleudor e respeito da Santa Sc, acudindo 
assim as necessidades da igreja; e que os eclesidsticos, 
que tom permanecido fieis ao real padroado. se ban 
por isso tornado benembitos. 

Foi, tambern, impugnado aquele breve pontificio 
por outros deputados com largas consideragoes, de- 
fendendo osdireitos do padroado. e sustentando que 
o govcrno devia defender o bispo de Macau e mais 
dignos eclesidsticos, do abuso da espada da igreja. 
quando tflo extranhamente se desembainhava. 

Em seguida o deputado Antonio Rodrigues Sam- 
paio apresentou a seguinte proposta assinada por mais 
26 deputados : 

“ A c&mara entende que o reverendo bispo de Ma- 
cau, e os reverendos Antonio Mariano Soares, vigario 
geral do arcebispado de Goa, no pais de Bombaim o 
os presbiteros Gabriel da Silva, Bras Fernandes e 
Josd de Melo, defendendo o padroado portugucs, bem 
mereceram da patria. — Sam pain, J. M. de Andrade. 
Pinto deJAlmeida. Justino de Freitas, Paiva Barreto. 
J. Pimentel, Archer, Pestaua. «los6 Guedes, Santos 
Monteiro, Souza Pinto Basto, Pinto Basto (Jose), 
Bivar, Ferreira de Castro, Cesar de Vasconcelos, No- 
gueira Soares, Macedo Pinto, Souza Cabral, F. da 
Gama, C. M. Gotnes, Calheiro, Soar*??- de Azevedo. 



371 


Palmeirim, PlAcido de Abreu, Roussado Gorjao, A- 
dritlo AcAcio, Pegado.” — 

Kata proposta foi unAnimemente aprovada. 

Verdade seja que contra esta deliberaqiio da cAmara 
liouve. alguns protestos, mas tiveram eles por objecto, 
nao o contrariar a votaqilo da camara a favor do bispo 
de Macau e eclesinstico? do arcebispado de Goa, mas 
censurar as f rases acrimooiosas corn que alguns depu- 
tados qualificaram o mencionado breve pontificio. 

Por sua parte, lambem, o governo deste Estado, 
protestou .contra os ftfcdamentos do referido breve, 
por sua circular de 18 de Julho de 1853. julgando-o, 
sc uilo apbcrifo, conseguido subrepticiamente do santo 
padre, e dotdarando-o ateutatdrio dos direitos da co- 
roa ; bem assim reclatnou o vigario capitular na sua 
pastoral de 21 de Julho de 1853. 

Polo i'aleciuieoto de D. l’r. Joaquim de S. Rita Bo- 
telho elegeu o cabido para vigArio capitular, a 13 de 
Fevereiro de 1859, o ( bn ego da so de Lisboa D. An- 
tdnio da Trindade Vasco ncelos Pereira de Melo ( de- 
pois apreseutado arcebispo de Goa e niio confirmado 
pela Sauta Sc por faltarem tunas formalidades na 
upresentaqfio ) o qual, emquanto nfio cliegasse a Goa, 
nomeou governador desta diocese, o cbnego Cnetano 
Jodo Peres, natural de Margfio e presideute do cabi- 
do. Teudo falecido oste a 24 de Janeiro de 1860, 
logo depois da soleue exposiquo do corpo de 8. Fran- 
cisco Xavier, sucedeu-lhe o cbnego Antdnio Josd Pe- 
reira, natural de UtordA, que governou atb 3 de Ja- 
neiro de 1861, em que cessou a jurisdiqfto do vigario 
capitular D. Antonio da Trindade por ter sido trans- 
ferido para a 8b de Braga. 

A 12 de Janeiro deste ano foi eleito vigArio capitu- 
lar o cbnego da 8b tie Evora Antdnio Ribeiro de Aze - 
vc 'do Bastos e, como nfio se soube se este aceitara o 
cargo, contiuuou o cabido a governar ate 29 de Julho 



572 


tie 1862, etn que chegou a provisfto arquiepiscopal de 
I), rlofio Crisdstomo de Amorim Possoa, nomeando 
governador do arcebispado o cdnego Joaquim Antdnio 
do Rosario, natural da ilha de Divar. 

20) D. Jo Jo Crisdstomo de Amorim Pessoa, aroebispo de 
Goa, transferido do bispado do Cabo Verde por de- 
creto de 22 de Outubro de 1860. Nas bulas da sua 
conlirmnqilo foi restringida a jurisdigao deste arcebispo 
ao territdrio de Goa, conferindo-se-lhe na conformi- 
dade do artigo 2 das notas reversals a eoncordata de 
23 de Fevereiro de 1857, pqlo breve Ad reparanda 
damna, jurisdijfio extraordinaria s6bre as igrejas e 
missoes sitas nos antigos bispados sufraguneos da rai- 
tra de Goa. 

Antes de entrar no exercicio do seu cargo, a ciiria 
romana exigiu que lizesse el’ectivas as ceusuras ful- 
minadas no breve Probe nostis contra os 4 missiona- 
ries de BomHairn, o que o arcebispo executou chegan- 
do aqtiela cidade. Fstas censuras forarn poucos dias 
depois levantadas. Sobre este facto da o mesmo pre- 
lado interessantes portnenores e explicates nas suas 
obras idtimamente publicadas. 

Fste arcebispo chegou a Goa a 31 de Dezernbro 
de 1862 e, regressando a Portugal a 5 de Fevereiro 
de 1869, resignou ali o seu logar em 1874. 

Foi eleito vigario capitular o padre Antdnio Correia 
dos Reis (Joe l ho, natural da Pedreira, Braga, que 
tinha sido presidente da junta governativa da diocese 
de f »oa durante a ausencia do arcebispo. Governou 
ate 28 de >1 ulbo de 1875, em que chegou a provisito 
expedida gelo arcebispo D. A’ires de Ornelas, no- 
meando uma junta governativa. 

30) D. Aires de Ornel&s e Yasconcelos, arcebispo de 
Goa, chegou a 27 de Dezernbro de 1875 e regressou 
doente a Lisboa a 6 de Abril de 1879. 

D. Tomas Gomes de Almeida , bispo do Teja. (do- 



373 


pois bispo da diocese da Guarda), veio a G-oa coino 
coadjutor do arcebispo Ornelas a 14 de Novembro de 
1880, e, apos o faleciinento derate, que ocorreu em 
28 de Novembro dcste ano, governor!, cotno vigdrio 
capitular, atd 15 de Dezembro de 1881, ern que par- 
tiu para Europa, encarregando o governo da arqui- 
diocese ao vigario geral Pc. Ant&nio Gaetano do Ro- 
sdrio e Melo , natural de Moira. 

31) D. Aatdoio SebastiS.0 Yalcnte, arcebispo de Goa, 
cliegou a 5 de Maio de 1882. Foi o l. c Patriarca das 
Indias Orientais, ern viftude da Constitui$3o apostdli- 
ca llumance Salutis Auctor. Presidiu o 6.° concilio 
provincial, ao qual assistiram todos os prelados da 
Provincia Eclesnistica de Goa. Faleceu no extinto 
convento do Pilar a 25 de Janeiro de 1908 e foi se- 
pultado na Se Patriarcal no dia 29 do mesmo mes. 

Durante a Scde vacante , e emquanto o bispo de Oo- 
chiin esteve ausente na Europa, govern ju a arquidio- 
cese, desde 1 de Fevereiro de 1908 a 30 de Junho 
de 1909, o bispo de Meliapor, D. Teotdnio Manoel 
liibciro Vieira de Castro, por delegagito do bispo 
ausente e com a aprova^fto do papa. 

32) D. Sfateus de Oliveira Xavier, transferido da dio- 
cese de Cocliim, liavendo sido apresentado para a Se 
de Goa pelo rei de Portugal D. Manoel 2.°, e confir- 
mado pelo papa Pio X, tomou posse na So Patriarcal 
a 1 de Julho de 1909. E’ o 2." Patriarca das Indias 
Orientais. 



374 


CAPITULO XXXV 

Estado da India ; sua divisao administrativa, 
judicial e eclesidstica. 

0 Estado da India (; constituido por tres distritos 
administrativos: Goa, Daman e Diu. 

0 chefe superior do Estado £ o governador geral 
com atribui<;oes civis e militates. Os distritos de 
Da mao e Diu teem goveruadores subalternos, su jeitos 
ii autoridade do governador geral. 

Ha no Estado da India urn tribunal de 2.' 1 install - 
cia, a ltelagilo de Nova Goa, e seis coraarcas: Ilhas, 
Bardes, Salsete, Bicbolim, Quepetn e Daraao ; a 
Procuradoria da ltepiiblica ; e quatro julgados muni- 
cipals. 

Goa, como metrdpole da provincia eclesiastica, tern 
um arcebispo metropolita, com o titulo de Primes do 
Orieate e Patriarca ad honor cm das Indias Orientais, 
sendo sufraganeos o bispo de Damiio e Arcebispo 
titular de Oranganor, os bispos de Cochim, Meliapor, 
Macau e o prelado de Mozambique. 

(.> distrito de Goa divide- se era Vclhas e Noras 
Conquistas . coutando 486,752 liabitantes. 

As primeiras, quo tem a area de 712 quildmetros 
quadrados, forraara ties concelhos : Ilhas, Salsete e 
Bardes, coin os respectivos adrainistradores do conce- 
lho, das coraunidades e das confrarias. 

Modernaraente foi constituido o concelho de Mor- 
mugSo, que fassia parte do de Salsete, e subordinou- 
se directaraente ao Governador .Geral o concelho de 
Pragana Nagar-Aveli ( 1 ). 

('*) A Pragana Nagar-Aveli, c constituida por 72 aldsias, 
terras de ricas florestas, sitnadas no interior, para E. da costa do 



375 


ILHAS 

0 concelho das Ilhas e um arquipelago, que compre- 
ende as ilhas seguintes : Tissuari ou a iliia de Goa, 
Choriio, Divar, Capiio on Vanxim, Acard ou Motta, 
Jna, Combarjua, S. Venancio, Dongrim, e Toltd. 

A sua populaqilo esta dividula em 27 paroquias on 
freguesias, encontrando-se 21 destas na ilha de Goa : 
S6 patriarcal, A gaga i in, Azossim, Bambolim, Batim, 
Carambolim, Corlim, Curca, Gandaulim ou S. Br/is, 
de que faz parte a ilha de Combarjua. Goa-Velha, 
Mandur, Merces, Nenra, Pangitn, Ribamlar, Santa 
Cruz, Santa Tnos, S. Pedro, Siridao, Taleigao e Te- 
laulim. Tres pardquias na ilha de Divar : Piedade, 
S. Matias e Naroa. Duas na ilha de Choriio : Graga 
e S. Bartolomeu, e uma na ilha de Jua ou S. Kstevao. 
E agrupada em 17 regedorias. 

Das suas 3-1 comunidades agricolas acham-se hoje 
3 ou 4 desertas. 

Alem da . pardquias que desapareceram da area da 
velha cidade, extinguiram-se nos arredores as pard- 
quias de S. Jose, de Dangim. S. Tiago, de Banastarim, 
S. Simao. de Gancim, 8. JMrbara, de Morombim o 
grande, e N. Sra. do Loreto, de Goalim-Moula. 

Na ilha de Goa, que d a maior do grupo das ilhas, 


golfo avabico e a S. E. do priraitivo territorio de llamao, que pas- 
sarnm ao doininio portugues cm 1783 c 1785, cedidas pelo m a rata 
douiin.inte da cdrte do Pnnem, Madurau Pandito Pradan, cm 
smbstituiQgo das que nos promctcra junto do Damfio, pelo tratado 
dc G de Janeiro do 1 780, por indeniziujilo de prfisas, que nos tinlia 
feito no estado de paz, e deveriam render 12,000 rupias. Destas 
aldeias tomou posse o Alcaide-mor c Feitor, qnc entiio era Manoel 
Antonio de Faria. 

Este concelho por rauitos a nos fez parte do distrito de Damilo, 
de qne e separado pelo territorio ingles. 



376 


est& situada a capital do Estadc, elevada Ji cidade por 
a] vara de 22 de Margo de 1843, corn a designagfto de 
Nova Goa, compreendendo os bairros de Pangim, 
Ri bandar e Velha-Goa. 

SALSETE 

Esta provi'ncia, situada ao sul da ilha de Goa, divi- 
de-se era 31 pardqnias : Margdo, Areal, Assolnii, Be- 
naulim, Betalbatim, C.irmonA, Chau dor, Chicalim, 
Chinchinim, Colva, Cortalim, Cuncolim, Curtorim, 
Loutolim, Macazana, MajordA, MormugSo, Navelim, 
Nuvem, Rachol, Raia, Orlim, Parodii, Sancoale, S. Ja- 
cinto, S. Tome, Seraulira, Varca, Velgao, Velira e 
Vernd, formando estas paroquias 30 regedorias, pois 
Nuv6m, desmetnbrada de Margao, foi elevada a pard- 
qnia em 1903 ( l ). 

Tern 54 comuuidades agricolas. 

Margao e a capital da provincia, elevada, poralvara 
de 12 de Junho de 1799, a categoria de vila, para onde 
foram transferidos de Rachol os estabelecimentos e 
repartigoes publieas. 


bardEs 

A provincia de Bardes, que se extende ao nordeste 
da ilha de Goa, compreende 27 pardquias : Mapugi, 
Aldond, Anjuna, Assagao, Assonorii, Calangute, Can- 


( l ) A ilha de Angediva, que pertencia ao concelho de Salsete, 
esta hoje anexa ao concelho de Oanacona, e consfcitui uma das 
tuissoes eclesiasticas do varado de Sadashivgod. Tcm igreja pr6- 
pria e 49 habitantes. Os religiososs francisoanos, que vteram na 
armada de Pedro Alvarea Cabral, em 1500, converteram ao cris- 
tianismo 28 habitantes de Angediva e os batizaram, tendo cele- 
brado a primeira missa nesta ilha, segundo refers a ffisldria 
Serdfica da Ord. de S. Francisco. 



dolirn, Golvale, Guirim, Linliaros, Moira, Nachinohi, 
Xagfiii, Nerul, Oxel, Parra, Penha da PraiiQa, Pilerne, 
Pomburpa, Ueis-Magos, JJevora, Saligao. Salvador do 
Mundo, Sioliru, Socorro, Tivim, e Ucassaim, as quais 
coustituem 2<5 regedorias, tendo-se agregado Linhares 
a Candolim. 

Tern corminidades agricolas. 

A capital da provincia 6 Mapu<;u. olevada ii vila per 
alvani do 5 de Agosto de 1859, muito antes do qual 
era essa aldeia considerada vila e a capital de Bardes. 

Por 1810 foi coustruido em Mapuya, cujas ruas se 
mandaram desobstrnir e alinliar, o quartel do bata- 
lhao de cayadores n.° 2, sendo abandonado o quartet 
de Colvale, do antigo 3.° batallulo da rnesma arma, que 
guaruecia a fronteira ; e, depois de uiontadas as re- 
partiyoes publicas, 1‘oi transit rida, em 1841, para essa 
cliamada vila a cadeia de Bardes, que se acliava colo- 
cada cm Verem, bairro Tuanto ( sem seguranyu nem 
eapacidade alguiua) por ser t dvez cste logar proximo 
da Ouvidoria, que licava nus Illias e, segundo a lei, 
tinha uni so duiz Ouvidor para servir mis Illias e 
em Bardes. (') 

NOVAS CONQU1STAS 

As Nouns Conqvistas com a area de 2,058 quildme- 
tros quadrados, compreendern, as proviucias de Pcr- 
nem, Bicholim ou Batagrama, Satan' ou Sanquelim, 
Pondd ou Antruz. Camicona, Kmbarbacem, Astragar, 
Balli, Cliondrovaddi e Oacora, (tendo as cinco ultimas (*) 


(*) Est? jniz, segnndo o alvani dc 2 5 de Janeiro de 1816, era 
nomcado trienalmento, com prcdicamenlo de primeiro banco a 
acoesso ituediato a ReliKjao. Salacte tinha um jniz com exercicio 
na RelagRo, como extravagaute. Annacs inaril c col. vol. o.° 
pag. 450. 

84 * 



378 


o nome colectivo de Zambaulira, ou Panchmahal) e as 
peguenas aldeias de Tiracol e Oabo de Rama, nos ex- 
tremos norte e sul da costa. Todo este territdrio for- 
ma os concelhos de Pernem, Sanquelira, PondA, Que- 
pem, Candcoua, que tern a sua sdde era Chauri, o con- 
celho e comando militar de Sanguem e o concelho e 
comando militar de Satan, com a sede em Valpoi. 
Dcstes concelhos os primeiros quatro e o 6.° teem a sua 
sede na respectiva Cassabe. 

Adquiridas era epocas menos reraotas, em que o 
inonaquisrao in declinando e o govcrno adoptara o 
regimen de tolerancia religiosa, as Novas Conquislas 
teem cootudo alguma populagfto catolica, que estAdi- 
vidida em 17 pnrdquias : Quepetn, Agonda, Cabo de 
Rama, Candcoua, Calgibaga. PondA, Sanguem, San- 
vordero, SirodA, Tilamoia, Bicholim, Arambol, Mar- 
cela, Morgim, Pernem, Sanquelim e Valpoi; e com- 
preendera 96 rgedorias. 

HA nas Novas Conquistas duas cascatas : a de 
Dudsagor ( mar de leite ) na aldeia de Sonaulim, da 
provincia de Embarbacem, e a de Arvalem, na provxn- 
cia de Richolim. Aquela despenha-se da alturu de 
1 65 metros e esta de 1 9 metros. 

Tefn-se tentado explorar a ffirga propulsora da cas- 
cata de Dudsagor para fins industrials, mas por ora 
sem resultn lo. Bernardo Francisco da Costa foi o 
primeiro que (d)teve, em 1890, da municipalidade de 
Sanguem, a concessilo da cascata e dos terrenos adja- 
centes, mediante a taxa anual de 293 rupias; mas, 
pouco tempo depois raorreu em Diu. 

Seguiram-se-lhe na tentativa sucessivamente algu- 
mas entidades extraugeiras, que tambem nao foram 
bem sucedidas 



379 


Notas flnais 

A 

(Pag. 168-169) 

Entrega da ilha de Ilomhaim aos iugleses. 

A relagfto pormenorizada de tndo quanto ocorrcu na ooasiOo 
da cntrega da ilha de Bom bairn, cedilla a Curios [I, rei da 
Or2.-Bretanha, era dote de sna esposa, a infanta 1>. Catarina, de 
Portugal, so por si pode constituir uma voiuiuosa monografia, 
fornecendo intercssanto contribnig&o para a liistdria da India. A- 
inda nko honve quem a escrevesse, nem fkcil e a tarefa, tendo-se 
publicado apenas varies documentos avulsos, sendo maior o niimc- 
ro dos que sairam a lume no tomo III da ColcccCio de Tralados 
da India por Julio Firmino Judiee Biker, Lisboa, 1883, conforms 
uma copia — diz ele — da coiecgao mandada, em 10 de Fevereiro de 
1742, ao secretario de Estado, Antonio Guedes Pereira, pelo vi- 
ce-rei Marques de Lourical, com o seguinte oficio : 

cc 'Em execugao do que achei recommendado ao conde vice-rei, 
meu antecessor, por carta de v. ex. ft dc 25 de abril de 17S8, sobre 
a disputa com os inglezes de Bombaim a respeito dos direitos dos 
portos da ilha de Salcete, mandei trasladar na secretaria d’este Es- 
taclo tudo que n’ella se acha a este respeito, de que remetto a copia 
inclusa, ainda que, com a perda d’aquelln ilha, me parece inutil 
esta diligencia. d 

Este oficio, que reproduzimos do livro das monfdcs , do arqnivo 
da secretaria do governo d6stc Estado, n.°lll, fl. 822, onde se 
acha regi3tado com a rnbrica do vice-rei, transcreve o sr. Biker 
na introdngao do citndo tomo III, pags. XIV, com dims incor- 
reegoes tipogrificas ou erros de copia : dando a ordetn superior 
como de 26 de Abril de 1738 e a data do oficio — 10 de Fevereiro 
de 1743, sendo que o Marques de Lonrigul faleeeu cm Goa a 13 
de Jnnho de 1742. Nao se encontra, de 1m muito, na secretaria o 
traslado, a que se refereo vice-rei, e aos que preteudam dedicar- se 
a esse importante estudo serA necessario penetrar no labirinto dc 
cansativas buscas. Sem prestimo, nem tempo park o empreen- 
der, porque o engenho se nos acanha na ocupag&o do necessario , 
como de si jA dizia Jo&o de Barros, interpretando muito fielnente 
o virtutibus obstat res angusta do mi, oferecemos, com tudo,* dk 
nossa parte aos investigadores o fio de Ariadne, na seguinte si nop- 



380 


®e eronologica de todos os documentos que existem no arqnivo da 
secretaria do gov^rno dSste Kstado, acorn punhada de informa95es 
correlativas. 


1 

Carta regia de 21 de Maio de 1661, comunicando ao governo 
da India o a juste do casnmento da infanta D. Catarina com Car- 
los II, rei da Gra-Bretanha, e a cessfto da ilha de Bombaim em 
dote. Este e os documentos segnintes ate ao n.° 10 inclusive, en- 
contram-se no livro das moncocs n.° 28. 

2 

Dita de 27 de Outubro de 1661, sobre o mesmo assunto. Tan- 
to esta carta, como a anterior estfio por copia . autenticada polo 
secret&rio do Estado Domingos da Silva de Mendoza. 

3 

Dita de 9 de Abril de 1662, ordenando a Antonio de Melo de 
Castro, nomeado governador da India, que, logo depois de chegar 
a India, fa(?a entrega da Ilha de Bombaim pessoa que por el-rei 
de Inglaterra for comissionadu, conforme a ustipulatjsio original. 
Esta carta, que ainda 6 assinada pela Kainha Regente, I). Luiza 
de Gusm&o, e cujas copias se cncon train em varios logares do mes- 
mo livro, foi encorporada no ter mo da entrega (doc. n.° 14 da 
presente sinopse ) e publicuda, conforme o registo existente no li- 
vro rente da Kclagao de Goa, por Abranches Garcia, no Archivo 
da Ftela\do % Parte II, pag. 531. Curnpre notar, para explica^ao 
da divergdneia dos t rata mentis que nesta carta e em outras sub- 
sequentes se da a Antonio de Melo do Castro, que L*sbe veio nomea- 
do, por al vara de 11 de Abril de 1662, governador e capitao gene- 
ral da India, cargo de que toncou posse a 14 de Dezeinbro de 1662 
na igreja dos Reis-Magos. Usou durante urn uno, do titulo de 
governador e depois do de viee-rei, que, logo a principio, lbe nfio 
foi conferido, porter de passar a India a bordo dutna nan inglesa, 
pois nao bavin entfto no reiuo embarca 9 oes disponiveis. 

4 

Carta do governador a corte, de 28 de Dezerabro de 1662, infor- 
muudo-a dos sneessos da viagem e de nao ter f“ito a entrega de 
Bombaim. Estii publicada por Ciinlia Rivar . nurn aditauieuto 
fcs Meworias do desembargador Magalhacs Tei'-^va Pinto, impres- 



381 


sas em Nova Goa no ano do 1859, pag 174, e por J. Biker, tanto 
na Colecgao dos tratados etc.' tomo IX, I do Suplemento, pag. 229, 
como na Oolecgao de tratados da India , tomo III, pag. 18. A- 
corapanha esta carta a 

5 

Relagao ( didria ) da via gem do governador, desde qae saiu de 
Lisboa (19 de Abril de 1662 ) e do mais que Ihe sucedeu com os 
ingleses, ate que ehegou a Goa. Publicada no citado tomo III da 
Colecfdo de tratados da India , pag. 3-17. Menciona-se neste 
diario frcquentes vezes o nome do condc de Male bur go, coman- 
daute duma nan, que e o lord Marlborough (vide o livro A new 
account, of the East Indies by cap. A. Hamilton, vol. I, pag. 182 ). 

6 

Dita de 4 de Janeiro de 1663, declarando si corte as razoes por- 
que ainda n;To cnmpriu a C. R. de 9 de Abril de 1602. Publicada 
no citado tomo III, pag. 23. Acompanbada dos segnintes docu- 
mentos: 

A —Carta do governador, dirigida de Bornbaim, a 18 de Outubro 
de 1602, aos governadores interinos da India ( Luis de Mendon<;a 
Furiado e Albuquerque e D. Pedro de Leucistre) pediudo-llies o 
sen parecer sob re si entrega de Bornbaim. Com os segnintes docu- 
mentos. 

a ) Carta, por copia, em latirn, de Carlos II, de 25 de Mar^o de 
1662, pedindo a Antonio de Melo de Castro que enfcrcgue Boinba- 
im a Abraham Shipman, cavalleiro da insignia dourada e presi- 
dente, por turno, do conselho sccreto do mesmo rei, nomeudo go- 
vernador da mesma ilha e porto. 

b ) Tniducgao da mesma carta, feita pelo padre Manoel Barreto, 
da companhia de Jesus. 

c ) Carta em ingles, de lord Marlborough ( que se assina com 
todas as letras inainsoulas )de 7 de Outubro de 1662, a presen tando 
aos governudoros;interinos da India o portador da carta, Abraham 
Shipman, constitmdo procurador por Carlos II, para tomar posse 
de Bornbaim e queixando-sejdo procediiuento de Antonio de Melo 
de Castro. 

d Vrraduyao da mesma carta, pelo dito padre Manoel Barreto. 

c ) Traslado da patente de Carlos II, nomeando Abraham Ship- 
man, governador e capitao general da ilha de Bornbaim, de 14 de 
Mar£o dc 1662, traduzida de iugles pelo padre Joao Gregorio, da 
coinpanhia de Jesus. Publicado i> » citado Archivo da Relagao, pag. 
532, e no citado tomo II I, da Colleccdo dc tratados da India , pag. 



382 


23, ondc todavia vem in cor re to o ano, 1663 cm ve/. del 662. 
Encorporado no termo ( doc. n. e 14 ). 

B — Bcsposta dos sobreditos governadores interinos a Antonio 
de Melo de Castro, de 27 de Outnbro de 1662. Dizero que ouvi- 
vam os conselheiros do Estado, cujos pareeeres inandani. n&o opi- 
nando porque n3k> Ikes toca votar nesta materia, e aludem a outros 
assunfcos. Acompanhada dos seguintes documentos. 

(i ) Voto de Martim \ r elho Barreto, vedor da fazenda — 26 de 
outubro. 

b ) Do conBelheiro Lopo Bavriga, capitfio da cidade do Goa 
— mesma data. 

c ) Do conselheiro I). Francisco Castelo Branco — mesma data. 

d ) Do conselheiro I). Francisco de Souza, inqnisidor — mesma 
data. 

e) Do conselheiro Panlo Castelino de Freitas, l. c inqnisidor 
— mesma data. 

/) Do conselheiro D. Gil Eanes de Noronha — 27 de Outubro. 

jsJ ) Do conselheiro Antonio de Souza Coutinho— mesma data. 

It ) Do conselheiro Francisco de Melo de Castro 24 de (Outnbro. 

7 

Carta de Antonio de Melo de Castro, aos governadores interinos, 
de 1 6 d'Outnhru de 1662, recomcndando-llus que nao entrognem 
Bom bn ini a Abraham Shipman. 


8 

Ontra carta de Antonio de Melo de Castro, aoh ditos governa- 
dores, sobre o tnesmo assimto, datada de 17 de Ontnbro de 1662 
com os seguintes documentos: 

a) Prolesto,em latim, de Abraham Shipman, feifco <*m Bomba* 
im a 7 de Outubro de 1662. 

b ) Resposta do governador ao protesto — mesma data. 

c )Papel com reflexoes feitas por Antonio de Melo de Castro 
aos governadores interinos. 

d ) Copia da carta que o governador escreven a Abraham 
Shipman, — 15 de Outubro de 1662. 


9 

Carta de Antonio de Melo de Castro aos governadores interinos, 
de 1 de Outubro de 1662, com os seguintes documentos: 
a ) 0. R. de 9 de Abril de 16622 ( doc. n.° ?* ). 
b ) Copia dos art.°* ll.\ 12.° e 14.° do bratado de paz o alian$a 



383 


entre el-rei D. AfTonso VI de Portugal e Carlos II da Gra-Brcta- 
nha, e do casamento dSste mouarca com a infanta de Portugal, 
D. Catarina, assinado em Londres a 23 de Junho de 1661, pclo 
embaixador porbuguez Conde da Ponte, depois Marquez de Sande. 

c ) Artigo secreto do mesmo tratado. Este tratado foi escrito em 
latim na forma usual da 6poca. Pela primeira vez foi publicado 
o original por J. Biker na citada Golcc^do delratados IX, I do 
suplernento, Lisboa 1872. A versao portugueza estii publicada 
porextrutoua historia de Portugal, tom. XVII, pag. 211; e por 
mteiro nas P rovers da historia ymcalogka da casa real porfuguesa, 
tom. IV, pag. 827, e na Col lectio de tralados , de Borges de Castro, 
tom. I, pair. 234, com a versfto inglesa de G. Chalmers. Cunba 
Rivara, qne diz nao conheccr o original latim, mostrou no cit. 
Aditamento , pag. 177, a dilerenga que ha entre o* texto portugues 
dos art. os 11.°, 12/' e 14.° e secreto, constantes das copias supra - 
mencionadas, com o que dfto as mencionadas Proms da historia 
geneulogica , Gollec^do de Borges de Castro e a versfto ingloza de 
Chalmers. A ratificatflo portugueza tanto do tratado, corao do ar- 
tigo secreto, foi feita em Lisboa a 28 d’Agosto de 1661. e esta pu- 
blicada no cit. tom IX ( Biker ) pag. 209 e 215, conforme as co- 
pias obtidas do Public Record Office Treaties , de Londres. 

10 

Carta de Antonio de Melo dc Castro aos governadorea interinos, 
iuformando-os do ocorrido com rela^io a eutrega — 18 de Outubro 
de 1662. 

Seguem-se os pareceres que novamente deram sobre o assunto 
os conselheiros do Estado, ouvidcs pelo governador por circular de 
25 de Janeiro de 1663 : 

a) Be D. Francisco fie Casbelo Branco — 28 de Janeiro de 1663, 

b ) De Lopo Hurriga — 27 de Janeiro, 

c) De desembargaclor Luis blendes de Vasconcclos -1 do Fevc- 
reiro, 

d) De Antonio de Souza Coutinho — 29 de Janeiro, 
c ) De Francisco dc Melo dc Castro — idem, 

/) De Gil Eannes de Norouha — sem data, 
g) De Antonio de Melo de Castro ( conselheiro do Estado e 
parente do governador ), — 4 de Fevereiro, 

li) De Paulo Castelino de Freitas — 29 de Janeiro. 

11 

C. R. de 16 de Agosto de 1663, determinando quo so faca a en- 
trega sem diluyilo, netn impedimento. Encorporada no termo da 



384 


entrega (doc. n.° 14). Pablicada por Cunha Rivara, cifc. Memo - 
rias , pag. 189, e por Abranches Garcia, conforme o registo da 
Relagko, no cit. Arquivo da Rela^So, pag. 531. 

Em consequAncia da determinagfio contida nesta carta, o vice- 
rei ouviu o tribunal da Rela<;£o sobrc a duvida que tinha cm entre- 
gar Bombaim a Humphrey Cooque, a cujo favor Abraham Ship- 
man, que era falecido n£sse meio tempo, tinha substabelecido a 
procuragso, enviando em 3 de Novembro do 1GC4 as cdpias da 
mcsma carta, da de 9 de Abril de 1662 ( doc. n.° 3 ) da paten te 
de 14 de Margo de 1662 ( doc. n.° 6 e ), da procuracfto de Carlo* 
II a Abraham Shipman de 23 de Novembro dt; 1663 c do substa- 
bclecimento feito por cste em 5 de Abril de 1664 a favor de Hum- 
phrey Cook (doc. n.° 13 fog). 0 tribunal req nisi ton, em 4 
de Novembro, a tradugao do substabelecirnento on testamento que 
era escrito em ingles, e quacsquer outros papeis que os ingleses es- 
tacionados na ilhade Angediva tivessem em sen poder. Satisfeita 
a requiaigao, opinou em 13 de Novembro que so podia fazer a eu- 
trega a Humphery Cook (cit. Archivo da Rclacao, pag. f>30 a 
536 ). Nao se sabe, porcm, em que data faleceu Abraham Shipman, 
que F. N. Xavier diz algnres ser 5 de Abril de 1664, sendo esta 
como se viu a data do substabelecimento. 0 autor da obra A new 
account of the East Indies diz que, em Janeiro de 1664, lord Marl- 
borough regressou a Inglaterra e os ingleses com suas naus foram 
meter-se na ilha do Angediva, oude desde Abril a Outubro de 1664 
tiveram 200 mortos. Esta carta regia esta no livro das monies 
n.° 81. 

12 

0. R. de 8 de Fevereiro dc 1664, repetindo a ordem contida na 
anterior. Publicada por ('unha Rivara, cit. Memor ias , pag. 183 
e por J. Biker, Collect do de iratados etc. tom. IX, pag. 235 e 
Collecedo de Iratados da India , tom. Ill, pag. 29. EstA no livro 
das monfdes , n.° 30. 


13 

Carta de Antonio de Melo de Castro, de 5 de Janeiro de 1665, 
informando a c6rte que vae fazer a entrega, e as providdneias qne 
tern adoptado. Publicada por C. Lagrange em nota as Instrupdes 
de El-Rei D. Jose 2.°, Pangim, 1841 com notas. Parte 3. a , pag. 
76, — por Cunha Rivara, logar citado, pag. 185, — por Tomas 
Ribeiro, no seu opusculo Entre Palmeiras, pag. 60 e por Biker, 
cit. tom. IX, pag. 237 e tom. Ill, pag. 32. 

Acempanhada dos seguintes documentos: 



385 


a ) C. R. de 9 de Abril de 1662, ( doc. n.° 8 ). 
b ) Dita de 16 de Agosto de 1668, ( doc. n.° 11 ). 
c ) Parecer do desembargador, vedor da fazenda Luis Mendes dc 
Vasconcelos. 

d ) Regimeoto dado pelo vice-rei para se fazer a entrega — 14 de 
Janeiro de 1664. Encorporada no tcrmo da entrega (doc. n.° 14). 

c ) Cdpia do braBlado da patenfcc de 14 de Maiode 1662, (doc. 
n.° 1 1 ). Encorporada no cit. termo. 

/ ) Dita da procnragao de 23 de Novembro de 1665 ( doc. n.° 
11). Encorporada no b^rmo. 

h ) Parecer do bribunal da Relag&o, de 13 de Novembro de 1664 
(doc. n.° 11 ). E’ assinada pelos desera bargadores Sebasbiao Al- 
vares Migos, Manoel Martius Madeira (e nao Medeiros como pu- 
blicou o sr. Hiker ), Antonio da Maia Barrel ra, Francisco de Fi- 
gueiredo Cardoso e Luis Monbciro da Costa ( quo servia fcambem 
de secretario do Estado ). 

% ) Dibo do conselheiro Manoel de Saldanha, — 30 de Onbnbro 
de 1664. 

j) Dibo do conselheiro I). Alvaro de Atafde — 27 de Novembro. 
k ) Dibo de D. Francisco de Lima — 25 de Novembro. 

/ ) Dito de Inacio Sarmento de Carvalho-18 de Novembro 
m ) Dito de Antonio de Souza Coutinho — 15 de Novembro. 
n )Dito de D. Francisco de Melode Castro-14 de Novembro. 
o ) Certidilo passada pelo secretario do Esbado dr. Luis Montei- 
ro da Costa, de que o vice-rei resolveu em conselho fazer a entrega, 

de Novembro ( o algarismo totalmente apagado ). 

Todos Sste8 documentos no livro das monies n.° 31 e o doc. a 
tambem no livro n.° 80. 


14 

Tdrmo ou auto da entrega da ilha de Bombaim aos ingleses, cjue 
se lavrou nas caeas de D. Ines de Miranda, viuva de D. Rodrigo 
de Monsanto, em Bambaim — 18 de Fevereiro de 1665. Est&o en- 
corporados neste instrumento : 

a ) Alvard do vice-rei, ordenando a entrega e nomeando seus 
procuradores a Lois Mendes de Vasconcelos, vedor da fazenda ge- 
ral e Sebastiao Alvares Migos, chanceler do Estado, para a faze- 
rem — 10 de Janeiro de 1666. 
b ) C. R. de 9 de Abril de 1662, ( doc. n.° 3) 
c) Dita de 16 de Agosto de 1663, ( doc. n.° 11 )• 
d ) Regimento dado pelo vice-rei para a entrega ( doc. n.° 13 d) 
e ) Procnra 9 ao de el-reida Inglaterra, de 28 de Novembro de 
1668 (doc. n.° 11). 

f) Sub&tabelecimento ou testamento de Abraham Shipman a fa- 



386 


vor de Humphrey Cook, de 5 de Abril de 1664, ( doc. n.° 11 ). 

g) Cartas do vice-rei a Humphrey Cook — 26 de Dezembro de 
1664 — 8e 14 de Janeiro de 1665. 

Publicado na Integra pelo dezembargador Gomes Loureiro nus 
snas Memoriae (Lisbda, 1835 ) pag. 204, mas oonforme o treslado 
que achou no livro dos visitadores da igreja matriz de N. Sra. 
de Esperanga, de Bombaim, acusando, porisso, algumas incor- 
rec 9 oes. como por exemplo a data da entrega, que, sendo 18 de Fe- 
vereiro, se escreve por extenso dezeseie de fever eiro. Enganou-se tam- 
bem neste ponco C. Lagrange (ciL InstrucqOes , ) dizendo que a 
entrega se fez no dia 26 de Fevereiro, que c a data em que o 
juiz das jnstiiicajoes Vicente Rebelo de Almeida certificou a assi- 
nature do tabeliOo Antdnio Francisco da Fonseca, que lavrou o 
auto e subscreveu o seu traslado — eertidao esta que vem no 6m da 
cdpia do mesmo auto. 

Publicado tambcm na integra e com a versao inglesa pelo sr. J. 
Biker, Colecfdode tratados da India , torno III, pag. 32. 

L.° das monies n.° 30. 

15 

C. R. de 15 de Abril de 1665, declare ao vice-rei que S. Mages- 
tade, aceitando-lhe a indica^o, quer trocar Bombaim a dinheiro; 
que el-rei de Inglaterra anuiu a essa troca, exigindo grandes quan- 
tias, e manda que se lancu uma contribui^ao para satisfazcr essa 
exiggncia ( L.° das moncde s n.° 32 ). Publicada pelo sr. Tcixeira 
de Arag&o na Descrip^do gcral c hislorica das moedas , tom. Ill, not. 
4. a , a pag. 246 e pelo sr. Biker, cit. tom. Ill, pag. 67. E’ evidente 
que esta carta foi escrita, sem ainda S. M. ter conhecimento da 
entrega realizada dois meses antes. 

Referindo-se a esta carta, escreve o sr. Tomas Ribeiro no seu 
aludido opusculo Enirc Palmeiras: u Num documento indubita* 
velmente daquela epoca, em que esta compendiado todo o processo 
da entrega de Bombaim, se 16 cste periodo: “ A resposta de S. M. 
“ mandava suspender a entrega da ilha de Bombaim, no caso 
14 que n&o tivesse executado a sua real' ordem, porque, mandando 
“ v6r as cartas do dito sr. A. de Melo de Castro no seu conselho 
14 tiuha re&olvido seguir a sua insinuatjao. As ditas respostas che- 
“ garam a tempo que ja estavam de posse os ingleses e celebrada 
“ a entrega. ” Acrescenta que eucontrou esse documento no arqui~ 
vo da secretaria seen desiguar o livro ( Entre Palmeiras, pag. 58 
nota). Foram infrutiferas as nossas diligencias em descobrir 
esse ou qualqueroutro docuiLento no sentido indicado, mas parece- 
not. que nao houve ordem regia suspendendo a entrega , pois, a ter 
havido, o sr. Biker, que diz possuir o traslado completo dacolec§ao 



387 


mandada peio vice-rei Marques de Louriyal, nao deixaria de publi- 
car tao important# peya. 


16 

Carta do vice-rei inforruando a corte o quc os ingleses tein feito 
depois que tomaram posse de Bombaim ( L.° das monies, n.° 30 ). 
Rcfere-se a oatra da montfLo j-assada, em que diz ter dado conta da 
emrega de Bombaim; nao se encontra no arquivosenao ade 5 de 
Janeiro de 1665 (doc. n.°12). Pubticada no cit. bom. Ill da 
Oolecpao dc Lralados da India , pag. 94. 

Alera dos documentors aciina resum idos, o sr. Biker pnblicon a 
carta dirigidu pelo chauceler Sebastiilo Alvares Migos a el-rei, em 
28 de Pevereiro de 1065, referindo o modo como foi mandado pelo 
vice-rei a Bombaim, para fazcr entrega aos ingleses, carta cujo 
original achon no arquivo do conseiho ultramarine. 

No iim declare que tambem foi mandada iguai carta, com a 
assinatura d61e chanceler c do vedor Lius Mendes dc Vascon- 
celos, quo nao pdde asssinar aquela por haver passado a Bayaim 
como mal de gota quc Ihe deu nau milos (cit. bom III, pag. 73 ). 

Nao tcrminarcmos esba nota sem transcrever o que o sr. Biker 
escreve na mencionada inbroduyao a respeito do tratado de 23 de 
Junho do 1661: 

44 Kste tratado foi, e tern sido mnito censurado pelos portngue- 
ses, por conceder aos ingleses as vanbagens que facilitaram o sen 
engrandecioiento ua India. 

41 0 cmbaixador D. Luis da Cunha diz no §.° 11 do tom. l.° das 
suas memorial manuscritas da Paz de Utrecht, que possuo: 
14 liestituido Carlos a Inglaterra, ajustou tambem oseu raatrimonio, 
“eo celebron em Portsmouth aos 31 de Maio (1662) com a 
“ serenissima senhora 1). Catarina, infanta de Portugal, e com 
41 ela levou em dote a Praya de Tanger, na costa de Africa, e a 
“ ilhade Bombaim, da India oriental, com outras vanbagens, que 
4 4 facilitaram mais aos ingleses o grande comercio que hoje tern 
u eiu toda a Asia; porem a coroa portugncsa niio deixou de sentir 
44 os bons cfeitos desta alianya, ussim nos socorros para guerra, 
44 como na mediayao para a paz com Hespanha.” 

Ablancourt nas suas memorias diz a pag. 54 : “ 0 tratado do 
“ casamento da aenhoni 1). Catarina com Carlos II, foi celcbrado 
44 com regosijos publicos pelo cxercito portngues, porque entre 
41 outras condiyocs csbipulava quc S. M. Britfuiica enviaria i media - 
41 tamente a Portugal tics mil homens de inlauteria e mil cavalos, 
44 e mandarin cruzar no vcrfio sobre as costas dc Portugal oito fra- 
44 galas com ordciu de socorrer os paring noses. " 



388 


“ Pjelo fcratado de 23 dc Junho de 1661 cedemos pois a Ingla- 
fcerra a cidade c a fortaleza de Tanger era Africa e o porta e ilha 
de Bombam nas Indias orientals ; e deram-se dois milhoes de cru- 
zadas portaguesas em dote da infanta ; e era considerado t&o im- 
portatante este negocio, que estava para dar-se Setubal ! 

“Deve reconhecer-se que a alianga da Inglaterra foi muito util 
para Portugal na Europe, porque nos livron da sujeig&o a Hespa- 
nha, e consolidou no trono a dinastia da casa de Bragang.i. Na 
India, porem, nao aconteceu o mestno, pois, teudo-sc obrigado os 
ingleses a defender e proteger os portugueses contra a forga e in- 
vasao dos Estados das Provincias Unidas, etc., etc., falbarutn a 
tudo quanto se estipulou no tratado, e as capitulagoe* que so fize- 
ram na ocasi&o da entrega da ilha de Bombairn, apossando-se de 
territories que lhcs nao foram cedidos, etc. ” 


J. A. Ismael Gracias . 



389 


B 

(Pag. 209) 

("asa de Sun da 

Era autiquissimo o rcino de Sumla oil Sundem, consbibirido por 
nma exlensa parte do untigo Bisungur, Lendo dois teivos do sou 
torritorio, a leste c a oesto da cordilhvira dos Onirs. no Cunara do 
Sill, confinnndo com as provinces portuguosas do Goa, Pond a 
( Anlntz}, Zambanlim ( Panchuiahal ) c Cansicona (Aih'ota), 
alein dns a ide ins Parodsi, Muldin e Talaviirda, uu provinciu do Sal- 
sebe e a jurisiii^fio do Cabo do Rama, aorcscentulas ao Sundem 
por coneessoos espoeiais dos impcranti s.mogdis do lliudostilo. Vi- 
veram scmprc os reis dc Sundein na mclhor Rmnonia o paz com 
os vizinlics csbudos do Goa, do quo cram aliados no iutcresso co- 
lumn, bcudo-se outre ambos celebrudo di reroutes fratudos e capitu- 
lates, que mais adiantc viio mencionados. 

O primeiro rei do Sundem ons se noolhea a Goa, 'foi Sava}' 

I modi Sadassiva, o ipml, ac >.«ado polo nababo Aidar-AH-Khan, 
vein coin sua fanulia o tesouro, em virtude do seguro linnado polo 
vice-rei Cotide da Ega, aos 23 do Janeiro de 1764, indo habitat* a 
quinta da Stu. Rosalia, unbign propriedadc dos jesnitas, situada na 
aldoia Goalim-Monla. Tcndo-se-lhc, a prinefpio, oferecido o 
subsidio de 8 mil xoraiins por ano, niio o acciton, sendo, por isso, o 
rnesmo subsidio olevado a 12 mil xoraiins, que o govurno de Sim 
Magestade a proven em 1) dc Abril de 1765, recomondando ao 
vice-rei quo tratasse aquele principe com “ atencao o ngasalho, 
visto que, a-pesar-de injiistig-as c vioiOncias quo Ihe fizeram, sera- 
pro foi leal ao Estado Ao rci foi dirigida uma carta regia em 
1 de Abril de 1768, em analogous termos. 

Em 1774, o rei Savay, precedendo licence do governador D. 
Joilo Jose de Mclo, passon com sua farmliu para Bandoni, con- 
celho de Ponda, sua antiga residencia, onde, junto dum pagode, 
existe uma casa nobre, a quo se tern dado o nome dc pal&cio, e 
donde nem die, nem sens doscendeiites, que noinearemos, tornaram 
em tempo algum, para a quinta dc. Sta. Rosalia, pretextando mo- 
tivos religiosos, 

A Savay Imodi Sadassiva, que faleeeu em 10 de Fevcreiro de 
1775, sucedeu sen filho Savay Bassava Linga Rnjendra, que casou 
com Razamaji, princcsa de Corga, cujo pai foi riomeado primeiro 
Adikari do paliicio e tutor do novo rei. Em 2 de Abril de 1778 
mandou Sua Magesfcade elevar o subsidio a 20 uul xeratina meu- 

35 



sais, como cl-rei D. Jose ou, antes, o marques de Pombal v\ tinha 
determinado nas famosa9 Instru^des de 1774, por ser it conVenien- 
te coiiservar o dito rei unido a coron de Portaural e desviar todas 
as ocasioes de poder entrar em alguiua negociayilo oculta com 
Aidar-Ali-Kbau ou com o Marata*, reeomcndando ao gorernador 
tornar todas as can te las para que se evite a comunica^lo do referi- 
do rei ou do seu bramine (o sogro) com o nababo Aidar-Ali-Khan 
e os maratas. 

O rei Savay Bass:* v a, on mellior, seu sogro e tutor, pediu snc.s- 
sivamente ao goverimdor D. Jofio Jose de Melo e ao vice- rei D. 
Fvedcrico 0 nil berm e de Souza, liccnga para ir visitar seu reiuo, 
dizendo se cbamado por Aidar-Ali-Khan, e bemassim a ivstituiciio 
das terras de Pondsi, Zambaulitn, Oanacona e Cabo de Rama, licen- 
ya quo em conselbo do Fstado ilic roi ncgada. Kste procedimento 
foi aprovado pel a Corte em 28 de Fevereiro de 1782, recomendan- 
do-se ao vice-roi que persuadisse o rei e sua in fie a passarem para 
a quinta co Sta Rosalia. Pouco depois, em 11 de Fevereiro de 
1785, o governu, a pcdido do rei, a quern liavia assegurado, por 
carta regia de 38 de Fevereiro do 1782, toda a liospitalidade e 
seguruuyu, elevou ainda o subsidio a 28 mil xeralins. 

Fm 171)7 saiu o rei para fora do estado, deixando contudo a fa* 
lin'liu em Baudord ; eessou*si\ pois, c suludio ^iquele, e a esta so 
mamlaram abouar 10,000 xeralins. Sua magestado aprovou a de- 
liberayao tom ad a, recoin eiidaudo que, se o rei voltasse sem praties r 
alguma perfidm, fosse abonado de todo o subsidio. Savai Bassa- 
va voltou em *814, toruou air eui lsi7 e, ultimamente, regresson 
cm 1824, faleccudo em Bandura u 15 de Fevereiro de 1884, dei- 
xando viuva, a rainha Razamuji e dois lilhos, Sadassiva Ragen- 
dra e Vira ltageudru. 

Sadassiva liageiidra, maia voilio, obtevc cm 14 dc Maryo de 
1884 a suces&iio na merce do subsidio, lionras e tratamento de seu 
pai, mas pouco Ihc sobreviveu, vuido a falccer em 20 de Agosto do 
met mo uno, deixando apeims uma liliia legitima, (Jhinamogi, de 
sua luulber Deumagi. 

8uoedeu-lhe sen innfio Vir Ragendr.i, a ijuem se repcfciu a iner- 
ce em 2i de Outubro <le J 804 , a qual inandou ijiio o subsidio se 
reduzissc a !8 :UU0 xeralius, distiibnindo-se assim : 12 :000aorei 
e a sua mfie e 0 :0OU a olilim raiuha viuva, Peomagi, c sua iilha. 

Vir Kagcndra representou contra a reduyfio c divisao do snb- 
sidio ; foi, porem, atendido apenas ua primeira parte, oonceden- 
do-se-ilic eui 22 do Agosto dc i«8i», alum dos 12 mil mais 5 mil : 
oomplcLandu-sc assim os mi; .\cralins. Xao chcgou, comtudo 
u logiar esu* aiimciitu. poi.-s lai. ccn ;* ^ do tfetombro do mesmo li- 
no. lira oasadu ami K-.tz.imagi. pmiccsa de Belgui, que pela ho- 



391 


tend o^nn r n c S n S °^ ra ’ P a88 °u B chamar-se Razamagi junior. Nao 
doDClo „Slo“r uhna fizeMm aiubos - raiir ido e mnlher, a a- 
teKouddl li T d °^ S US ° S , e °° st “ mes hindus ' de nn> «lho de Oon- 
arimrfn!? f Ur ’ Chamad0 C ” Ila,n8 Gondda, que. depois 
d r a cenmon,a . tomou o nome de Savay Bassava Linga Ragen- 

dissensfil^pn'fiif^ V C ^ a £ ei . ldra 0 P° nt0 de partida para graves 
e Raz'imnai ,v - 13 trea raulbas v ‘ u vns Razamagi senior, Deomagi 
e subsiding unwr, seja quanto a administrajao doabens familiais 
adonSo nno oS s ® ,a quaat0 a le 2al‘dade e legitimidade da 
de 8 <ie Abril j* 58 , i^ 01 10808 ^ or ? 08 » foi confirms la por senfcenga 
1857 -Ll*! "! d . S . 4G ’ 0 ac °rdain da RelagOo, de 4 de Setmbro de 
tribunal' "j!? *l nest0es °cupsirain por largos auos o govOrno e os 
c . ie ,, ‘ 111 0 em r(1 sultado a decadencia, quasi ruinu daquela 

fortmw r ton , 10 " .°P un ,°, F?sto de ambioiosos, Avfdoa de fazer 
in indaVi invifl ^ a P ols do folocimeuto de Vir Ragendra, o govdrno 
!> wNio quo se nchon e que importou em 

Dirte iw." ' " 100 reis, moeda do reino ) mas a maior 

parce a esa pa ieceu. 

seidor n!!! 1 nI )COn . ,nKi ( al, ‘ cen 11 18 tle t’evereiro de 1837, Razamagi 
reiro de 1857 " 1848 e RaZiUna b'i junior aos 24 de Fcve- 

coma"miZ? Ljnga Ragendra, adoptado pelo ultimo rei, casou 
Xencor RopI F Non ^ m : Ma K*. ^ de Raja Sungntur Smodi 
reZvUU m Lsvo " ta Ra luulnr, do prinoipado de Panganur o da 
ends puncesa Ohinamogi, li ilia do rei Sadassiva Ragendra. 

vav vfr 1 ’ « u Ji ' nei, ;,° do I860, deixando nm fill.o menorSa- 
denois 1 Sf 81 ? Ra * endra V °dder Raja Bahadur, o qnal, 
nhec doltln de S ? “ fte ' 27 de Novembro de 1862, foi reco- 
dmo ™ ^ ov f 1 ' 110 loca I aa > 12 de .Tnnho de 1869, como legi- 

Smid0m P ? ! C . U . 8 " CCM0r dos direitos c bens da casa de 

Pan<i-mm. t r" 1 rp '- Clisadt) co,u 811:1 priuia, filha do rei de 
iiingdiiui, seu tio materno. 

c;hmHn!l dl ° u ' inaI 1 <|,,e Ule f,)i concedidoede 5,661:11:00. Na 
Dezembro r^hon" d ° 18a5, 0 rel dc Sll ndein foi julgado, em 4 de 
mercen-irio - " a ° tel ,’ co, , n P arccido no praso marcado aos 

one eli*' n,° • ’ ,nail (lainlo-se reverter ii fazenda os bens 

nuvhdo a .!“ G . cessar ; *i e 0 pngatnento doquela pensiio. Desa- 
?ebetdia P » r«vi ,U ^ I , ,oll I tlCO - fui declurada sen, efeito a nota de 
t r dos bens ; mais tarde obteve o rei de Snndern 

fixado 9 tlUha d ‘ reit0 ’ ° oontiruVl a Perceber o aubsidio 

. trafcado3 c capitulates celebradr.s entre o govdrno da India 
]x>i tuguesa e o rei de Sunda, desde o seculo XVII, silo : 



392 


Capitulos coin qne se deferiu a Hari Paota, embaixador do rei 
de Sunda, nas proposbas que fgz no vice-rei Conde de Vila-Verde, 
16 de Agosto de 1697 ( Boletim do govirno de 1873, n.° 102 ). 

Capltnlos pelos qnais o embaixador do rei de Sunda, Apagi 
Panba, se obriga pelo dito sen rei a guardar e fazer dar inteiro 
curaprimento — 1703-1707 ( Boletim do govcrtto, 1874 n.° 2 ). 

Capitulos com que se deferiu a Ramaya Navara, Sarsubebar das 
terras de Pondi, na proposta qne f6z ao vice-rei D. Rodrigo da 
Costa, 1707-1709 (cit. Boletim , n.° 5). 

CupitnlagOes com o rei de Sunda — 1714-e docnmentos rcferen- 
tes (cit. Boletim , n/ ?s 7, 8, 9, Dell ). 

Trafcado e concludes com qne o vice-rei Conde de Sandomil 
uceiton a satisfa$&o que o rei de Sunda, Savai Bassava Lingo, Ihe 
inandou dar por sens embaixudorc*, para se rcstabdccer a antiga 
paz entre este Kstado e os sens dominios, alterada por alguns do 
sens capitaes nas provipcias de Carvar e Sinvangar — 4 de Dezem- 
bro de 1735 ( Boletim , n. c * 28 e 29 ). 

Tratado com o rei de Sunda — 24 de Jullio de 1742 ( cit. Bole- 
tim u.° 33 ). Tarn born esta irnpresso no torno X. parte l. ft da 
Colecgao dos Tratado*, tomo III do suplemento, tirado do ftrquivo 
do Conselho ultramarino, segundo a cdpii rernetida pelo vice-rei 
Oonde de Alva, em 9 tie Janeiro de 1756 ; saiu com alguns erros 
de copia 

Tratado de tregoa entre o vice-rei marquSs de T&vora e o rei 
de Sunda, Savai Imodi Sadassiva -25 de Maio de 1754 (cit. Bo- 
letim n.° 41 ). 

Tratado de paz— 2 de Novenobro de 1755 (cit. Boletim n.° 45). 

Tratado de paz modificando o antecedente — 20 de Fovereiro de 
1756 ( cit. Boletim n.° 48 ). 

Tratado de paz — 24 de Ontubro de 1760 (cit. Boletim u.° 55). 

Tratado de paz— 12 de Setembro de 1762 ( cit. Boletim n. oi 83 
e 84 ). 

Tratado de perpetua araisadee alianga entre o governador Fran- 
cisco da Cunha e Meneses e o rei de Sunda Savai Bassava Linga 
— 17 de Janeiro de 1791 ( Boletim do Qoverno de 1875, n. 0B 45 e 
46, e os docuraentos referentes a este tratado e a conquista de 
Piro seguem no cit. Boletim , n. os 48 a 79 ). 

Com respeito £ aquisigao da praga do Cabo de Rama e da pro- 
vlncia de Candcona, 6 interessante a relag&o apreaentada era 16 de 
Novcmbro de 1780 pelo sargento-m6r de infanteria, encarregado 
do govdrno da mearaa praga, JoHo Marinho de Moura, ( Boletim 
do Governo n.° 92 ). 

As fdrraulas seguidas primitivamente nas cartas dirigidas ao rei 
de Snnda sfto estas : 



393 


“ Ao prcsado e generoso amigo Savay Bassava Linga, Rei de 
Sunda. 

Eu F. governador ou vice-rei etc. 

Dcpois de se Ike restituir o anbigo titulo, foi e continua a ser 
esta : 

“ Magnlfico e grandioso Savay Bassava Linga, Raja ( ou Rci ) 
de Sunda, cuja amisade seja perpetoa e o t rata men to de AUeza, 
terminando com as seguintes palavras : 

“ Deus ilumine a Voasa Alteza m\ aim diviua grnca 

Por eua parte o rei de Sunda, que na correspo id^noia de sua 
Magesbade, tern sido trabado de Augusto Prime, etnprega nas car- 
tas aos governadores as seguintes palavras : 

“ Eu F 

Envio cordeais saudagOcs ( anbigamenbe a alamos ) 

( Fecho ) Deus Nosso Senhor ilumine etc. 


»/. - 1 . Ismael Gracia*. 


46 * 



391 


C 

(Pag. 8i») 2 3 1 
0$ ingleses eta Goa 1801 • 


Sem qae precedesse requisi^ao, on pedido algum do governador 
da India porbuguesa, o governador de Borabaim, Jonathaa Dun- 
can, tomou por seu arbitrio-a resol 119^0 de raandar para Goa, ondc 
chegaram no dia 6 de Seterabro, 7 embarca^oes inglesas, qne trans- 
portavam a sen bordo 1:000 homens europens, sendo uui batalhac 
do regiraento n.° 84, urn destacamento do regimepto n.° 77, outro 
de artilheria e dois batalhOes de tropa nativa, tudo comandado 
pelo coronel William Clark, baronet. No dia imediato desem- 
barcou esta geute, qne se acampou no O&bo, e no forte de Caspar 
Dias, estando tarabdra por algum tempo no c&mpo e quinta de 
Santa Rosalia. A 1 vista de uma surpresa destas,, que serviu de 
exemplo i da Madeira, de que jd aeima trataraos, o governador sd 
traton de aquartelar os recem-chegados 00m ai cautelas que pode, 
para evitar os cooflitos de md inteligdncia-, que podiam dar-se 
entre as tropas inglesas e portugnesas, sendo a paga daquelas e os 
mais socorros, que Ihes podiam ser necessdrios, fornecidos pela 
tesouraria inglesa, para cujo fim tinham jd trazido consigo cinco 
milhOes de patacas, ficando sbmente a cargo do governador portu- 
guds de Goa dar todas as providdncias que dependessem da sua 
jurisdicfto. Para Lisboa dizia 0 dito governador, qne o bardo 
comandante tinha chegado pouco tempo bavia da Europa, havendo 
servido era todas as cumpanhas do dnque de York, com quem se 
correspondia corao seu particular amigo. Acrescentava die que a 
tropa era escolhida, e que tinha sido acompanhada por nm pequc- 
no parque de trds obuses de cinco polegadas e meia, duas pe$as de 
calibre 6, doze carros manchegos. trinta rail cartuchos, com 0 
abarracamento competente, e duas rail armas com as suas muni- 
90es, para die governador se servir delas, armando a tropa qne 
j nlgasse conveniente. 

Veiga Cabral era jd um velho, fraco e pusildnime. Temendo 
um conflito com os ingleses e conformando-se, ao mesmo tempo, 
com as ordens que recebdra de Lisboa, para conservar com dies a 
maior harmonia possivel, entendeu que 0 melhor meio era cons- 
tituir-se inteiramente seu escravo. Pela sua parte Clark buscava 
por toda a maneira adula-lo, e por tal modo conseguiu agradar-lhe, 
que, no$ oficios dirigidos para a corte, die Clark se tornou 0 alvo 



dos mais esperdigados elogios de Veiga Cabral, n&o sd quanto A 
discipline e arranjo, que manbinha nas tropas do seu comando, 
mas tarabem quanto aos sens conhecimentos mil i tares, ao seu nas- 
cimento, e A extrema civilidade com quo o tratava a ele governa- 
dor. Mas a politica inglesa n/lo se limitou so a isto, porque dis- 
pondo-se a fazer am partido scu em Goa, e a promover prosAlitos, 
comegou a seduzir com promessas de interesses, considerag<5es, pos- 
tos, etc., todos aqueles indivlduos que Ihe pareceram de influSncia 
c podiam concorrer para os seus fins. Alcm do exposto, os ingle- 
ses empregaram tambem todos os meios tie conhecerem o mais 
exactamente poesivel, nAo so a extensAo do pals, do qual tiraram 
algumas plantas, mas ate mesrno as suas rendas, recursos c cstabe- 
lecimentos mi li tares, civ is e economicos, pam cnjo fim se Hies pro- 
porcionaram todas as facilidades e o mais que muito bein quiseram. 
As tropas portuguesas de Goa consistiam por entao cm dois regi- 
men tos de infantaria, um com and ado pelo coronel Manoel Godi- 
nho de Mira, e outro pelo coronel Manuel Antonio Diniz de Aiala. 
llavia mais urn regimeuto de artilharia, coinandado pelo coronel 
Jo.iC Alves de Souza. Uma legiAo de voluntArios reaisde BardGs, 
comandada pelo coronel Joaquim Vicente Godinho de Mira ; on- 
tra de voluntArios reais de Pondii, comandada pelo coronel Jose 
IuAcio de Brito. Havia mais um corpo de cavalarin, composto de 
quatro cornpanhias, cada uma das quais tinha o seu comandante 
especial, e um corpo de engenheiros, de que era tenente-coronel 
Filipe Catalane. Finalmente havia tatnbAm um ccrpo de tropa 
volante de Sipais, de que era primeiro comandante o tenente- 
coronel Francisco Ricardo da Silva. No dia dos anos da ruinha 
D. Maria I, 17 de Dezembro de 1799, as tropas portuguesas em 
numero de 2.300 homens, fizeram na presenga de Clark, e dc todos 
os mais oficiais ingleses, raanejo de arraa e exerclcio de fogo no 
terreno fronteiro ao palAcio de Goa por destacainentos dos regi- 
rnentos de infantaria e legioes com oito pegas de artilharia, servi- 
das pelo regimento aesta armu. Clark den-se por satisfeito, fa- 
zendo os maiores elogios ao estado de perfeigao em one dizia achar 
as referidas tropas. 

Quanto A esquadra francesa, saida do porto de Brest, da qual s® 
snpunha destacaBse uma divisAo para a conquista de Goa, conform^ 
o piano, que se dizia achado entre os papeis de Tipu-SultAo, nun 
oa de tal aivisfio houve notlcia algnma na costa do Malabar, na 
qual sbmente apareceram nos primeiros diasde Novembrode 1799 
defronte de Manga lor tr$s navios, que observando a terra, se nAo 
avizinharam nunca a ela, nem pnderarn ser reconhecidos, Depois 
do dia 2 de Dezembro passaram defronte da barra de Goa para o 
norte, muito araarados, quatro navios, um dos quais parecia uma 



396 


grange nau ; mas tambem deles tifto tornou a haver noticia 


Quanto a Goa, o uegocio foi ainda mais serio, porque no dia 31 
tie Dezeinbro de 1801 ancovaram na barra da Agoadacinco navios 
de transporto com o regimen to europeu n.° 77, am batalh&o de 
granadeiros de tropa nativa, quo se acliava ern Seringapatarn, 
mais dois batalhoes dos mcsinos nativos, e LOO hotnens europeus 
da artilheria do departamento de Bengala. “ N^ao podendo opor- 
-me, dizia Veiga Cabral para o governo da raetropole, ao desem- 
barque destas tropas scin fazer gnerra aos nossos unieos, poderosos 
e experimentados alia dos, nao hesitei na in in ha deliberagao, que 
podia nao somente destruir a alian<;a, tras at6 mesmo arriscar a 
perdu do Estado, quundo o govgruo, pela imprnddneia de desco- 
nheccr as circunstancias e ignore r as couseqnencias, fizesse qual- 
quer resistencia O desembarque desta tropa foi feito em esca- 
lercs e lanclms portnguesas, sein o v .dlio goveruador o saber, sendo 
este acto manejado somente pelos sens ajndantes dc ordens, que 
sobre ele tinham decidido iraperio, e que se achavam vendidos aos 
ingleses, tais eram o sen chamado ajndante general, Joaquim Vi- 
cente Godinho, n os mais ajndantes, Joaquim Manoel Correia da 
Silva e Gama e urn fulano Biester, sendo Osteda reparti^So dos 
ingleses, e aquele da repart^ilo da marinha. Quando o governa- 
dor soube disto, inflamou-se para a resistSncia ; mas tranqnilizado 
pclas rusfles que Gates e ontros que tais indivklnos lhe expuserara, 
cedeu finalmente, anuindo sem mais repngnancia alguma ao refe- 
rido desembarque. 

0 citadodia 31 de Dezembro foi aquele em que os ingleses mais 
se esmeraram em adular o guvernador Veiga Cabral, tratando-o 
como costumavam fazer a qualquer regulo da Asia, isto e, usurpan- 
do-lhe o poder, e prestando-lhe as honras e eontinGncias, como se 
na realidadc o tivesse. No referido dia 31 de Dezembro o regime u- 
to u.° ti4 fazia exercicio de fogo, c como Veiga Cabral a Gle com- 
parecesse, Clarck o recebeu, mandando-lhe abater as bandeira 9 , 
quando o dito regimento lhe apresentou as arums ao toque da mar- 
cha, honras estas que os ingleses so fazem ao seu rei. Estas lison- 
jas acabaram de render Veiga Cabral ao partido inglds,pondo 
ciimulo ao seu louco desvaneci men to o convite que o mesmo Clarck 
lhe fGz para urn refresco, que desejava fdssc honrado com a sua 
presenga, como efectivaineute aconteceu, sendo Gate refrGsco rebri- 
buido pelo mesmo Veiga Cabral, no dia l de Janeiro de 1802 , com 
urn esplendido jantar de cento e vinte seis taP ..res, a que assisti- 
ram nao somentc Clarck com todos os oficiei do seu regimento, 
mas igualmente todos os mais, que este julga a dignos de fazerem 
companhia ao governador portugues. F^m tuao isto Clarck obrava 


897 


com sinistras vistas. Foi die qnem apresentou uma carta do go- 
vernador de Bengal* ao governador Veiga Cabral, em que se The 
pedia a entrega do govdrno do pais. P6sto que dste liltimo gover- 
nador se achasse ja disposto para uma tal proposigSo, todavia 
mostrou-se sobresaltado, do que resultou modificarem-na por dif- 
fered nte maneira. lira chega !o o dia de Reis, e o mesrao Clarck, 
alegando ser o dia de merces entre os portugueses, pediu a Veiga 
Cabral que o honrasse com a nouieag&o de major general do exdrci- 
to portugues (general de divisao), maudando alera disso unir as 
tropas portuguesas as inglesas, atim de se distribuirem e alter- 
nadamente se empregarem na defesa dos postos e baterias mais 
importantes, coroo lhe recomendara o marques de Wellesley. Veiga 
Cabral esteve por tudo quanto dele se cxigiu, entregando assim as 
tropas e as fortalezas de Goa ao poder dos ingleses, n&o se lem- 
brando qne na sua qualidade de governador da India, nem coronets 
podia nomear, mas so propo-los ao govtrno da metropole, e por- 
tanto muito menos podia dar postos de oficiais generais, particu- 
larmcnte a estrangeiros, conferindo-lke assim de sal to uma tal 
patente, so para lhe por debaixo das suas ordens, nao s6 as tropas 
de que di9punha, mas ate as proprios fortalezas do Estado qne 
governava, como efectivamente praticou. 0 certo 6 que por Sste 
modo e sem o recurso de um rompimento formal, conseguin o 
marques de Wellesley fazer-se, como pretendia, inteiramente 
senhor dos dominios portugueses na India, porque Clarck, elevado 
a major general, pelo governador portugues Veiga Cabral, dis- 
punha pela superioridado da sua patente de todas as tropas com- 
binaJas, iudo diariamentc simular obedieucia ao dito governador 
como receber dele o santo, e a sen ha e todas as mais ordens, que 
ele mesmo lhe impunha indirectamente. Clarck fez ler na freute 
das tropas a noraeagao de marechal general, que lhe f6ra concedida 
para ser como tal reconhecido, fazendo-sc-lnc as honras mili tares 
devidas a sua patente, salvando as mesmas tropas, concluiado-se 
esta farga com os vivas dados ao soberano de Portugal, misburados 
com os dados ao rei de Inglaterra, que por eatc modo foi aclama- 
do de facto rei dos dominios portugueses na India. 

Foi esta portanto a epoca mais critica por que passaram aqueles 
nossos dominios. A venda caiu inteiramente dos olhos aos que 
mais duvidavam da sorte, que Ihes estava preparada. Os traiao- 
res que cercavam o governador, descaradamenfce lhe disseram c^ue 
a sorte da India eHtava decidida passando dentro em poucos dias 
os estados de Goa a serem inteiramente brit&nicos, nSo havendo 
meio algum de se evitar esta fatalidade, setido portanto forgoso 
coder ao imp4rio das circa nstAncias do tempo, De reforgo com 
iBSO recorreram hs mais insidiosas tramas. As gazetas inglesas 



398 


foram infielmente traduzidas na presents do governador, e ao in- 
teiro sabor de quern as lia. Figuraram-se e apareceram cartas, 
que anunciavam a inteira aniquilag&o de Portugal, estendendo a 
todo o reino aqnilo que s6 tinhi acontecido a uma parte da pro- 
vlncia do Alemtejo. Acrescentava-se que o pricipe regente tinha 
ido para Londres com a real famllia a bordo de uma fragata in- 
glesa ; que defroote da barra de Goa se achava uma poderosa es- 
quadra francesa, tendo-se com efeito avistado ao longe algous 
vasos, que depois se soube serem ingleses, os quais rauifcas vezes 
cruzavam na albura de Goa, Ao mesmo governador ohegou-se at6 
a propor, que se reduzisse ao caracter de urn simples particular, en- 
tregando o govSrno politico e railitardo Gstado, aando-lhea compa- 
nhia inglesa das Indias annalmenbe setenta mil rupias, proposi^&o 
que Sle honradamenfce regeitou. Houve depois nova proposta para 
que entregasse o govSrno militar e ficasse s6 com o politico, como 
am simples fuucion&rio britanico. Supos-se que conveio nisto, 
bem como na desorganizagao dos corpos de tropas, devendo todos 
reunir-se cm um so, comandado por oficiais escolhidos pelos ingle- 
ses ; os nativos deviam ter baixa, e para remate de tudo, seriam 
expulsos do Estado todos os portugueses suspeitos aos ingleses, 
entre os quais se contava ochanceler e o secret&rio de Estado, Jose 
C&etano Pacheco Tavares. JA no dia 1 de Janeiro de 1802 tive- 
ram alguns indivlduos o desaforo de se apresentarem no pa&cio 
com penachos brancos do uniforme que trazia Clark, e por Sste 
distribnidos aos seus apaniguados como sinal da vitdria politic*, 
alcangada jti pelos ingleses. A nrd : dura dSstc piano ainda passou 
mais avante, designando-se os despachosque haviara de conferir-se 
aos que com tanto afineo trabalhavam na sua reuliza^&o, atrai- 
$oando infAmemente a sua pAtria. Foram Sates os que chegaram 
ate a fazer fardas do uniforme inglSs do resimento n.° 84, sendo 
uma para o governador, outra para o seu ajudante general, Joa- 
quim Vicente Godinho, duas para o seus dois ajudantes de ordens 
(o Biester e Joaquim Manuel Correia da Silva e Gama ), desti- 
nando-se a quinta para o coronel Manuel Godinho de Mira, irm£o 
do dito ajudante general. Felizmente os destinos da ProvidSncia 
Divina raalograram esta projectada e pacificamente realizada ocu- 
pa$ao britiinica, porque ao cabo de nove dias, isto e, aos 15 de 
Janeiro de 1802, recebeu-se em Goa pelo paquete de BassorA a no- 
ticia da paz da Inglaterra corn a Fran£a, anunciada pelos prelim i- 
nares de Londres, do dia 1 de Outubro de 1801, a qne depois se 
segaiu o tratado geral de Amiens. Pelo 6.° artigo preliminar do 
sobredito tratado, ordenava-se que todos os domlnios portugueses 
ficassem no mesmo estado em que cstavara antes da guerra. Em 
consequSncia disto o mesmo Clark fSz partir para Boinbaim o 
regimunto europeu n.° 77 e retroceder para o sal alguma tro- 



399 


pa nativa, expedindo-se a par diafco as necessarias ordens para a 
evacna$£o do chamado socorro brifc&nico era Dam&o e Diu, donde 
ali£s pouco havia que refcirar, pelas enferraidades que naquelas 
duas pragaa mataram a maior parte dos inglesesque para la foram, 
ja enf razfto de se nao quererein sujeibar as curas do pais, e jii em 
razao do nao quererem tambdm emendar-se das suas exbravagancias 
e dissolug&o, sendo reconhecido que o clima, parbicularmenfce o de 
Diu, 6 bastante danoso aos europeus 

( Si mao Jose da Luz Soriano, His tori a da Guerra Civil , T. 
2.° pag. 443-703). 



Obras coasultadas 


a 


Andrade (Jacinto Freirc de) — Vida dc D . dodo de Castro 
— 1 vol. 

Annaes titan timos c colot lines — 10 vol. 

Balscmao (E. de ) — Os Portuguese* no Orients , 3 vol.. 

Barnett (Lionel D .) — Antiquities of India. 

Barros (J. de) — Asia — Dccadas — 9 vol. 

Bernardos Branco (M .) — Portugal c os Estra/u/eiros , 2 vol. 

Biker (J. F. Jiidicc) — Co I fat do dc Tratados . 

Bordalo (F. M.) — Enmios shine a lislafislica das Possessdes 
porluguczas 11a U It nunor , II. seric, liv. V. 

Bullifio Palo (R. A .) — Document os rented idos da India , 1 vol. 
— Portuguese* na India. 

Camara Manuel (Jeronimo & t i)-Missdcs dos Jcsuitas no 
Orients . 

Castro ( D. Joao de )— Roleiro dc Lisboa a Goa unnotado, 1 
vol. 

Cclestino Soares (J. P .) — Bosque jo das Possessors portnguezas 
no Orients , 2 vols. 

Commcnlarios dc Alfonso d' Albuquerque . 4 vols. 

Conde de Ficalho — Garcia da Orta c 0 scu tempo , 1 vol. 

Cottincau de Klogucn (D. L .) — Bosqucjo historico de Goa , 
trad, de Miguel Vicente d’Abreu, 1 vol. 

Couto (Diogo do) — Dccadas , t5 vols. 

Danvers (F. M .) — The Portuguese in India , 2 vols;— e o Re- 
port cit. a pag. 147. 

David Lcpcs f — JJisloria dos Portuguese* no Malabar por Zi - 
nadim, 1 vol. Chronica dos Reis de Bisnaga , 1 vol. 

D’Orsey (Rev. Alex.) — Portuguese Discoveries , Dependencies 
and Missions, 1 vol. 

Fonseca, Jose Nicolau da, An Historical and Archeological 
Sketch of the City of Goa . 

Caspar Correa — Lendas da / ndia, 4 vol. 



401 


Historia de Portugal — por A nt6nioi Ennes e outros homens 
de lettras, 6 vols. 

Hubner (B. de ) — Through the British Empire , 2 vols. 

Hunter (Sir W. W .) — Imperial Gazetecr , vol. VI. 

Indian Antiquary — 21 vols. 

Kincaid (E. A .) — History of the Maratha People . 

Lopes Mendes (A .) — A India Poriugueza , 2 vols. 

Marsden (E .) — History of India, Part I. 

Martins de Carvalho (J .) — Apontamentos para a Historia 
Conlemporanea, 1 vol. 

Meadows Tailor — Manual of the History of India. 

Nairne (Rev. A. K .) — History of the Kotikan . 

Oliveira Martins (J. P.) — Historia dc Portugal, 2 vols. 

Pietro della Valle — Travels in lndia Y 2 volsi 

Pinheiro Chagas (M .) — Historia de Portugal , 4 vols. — Diccio - 
nario Popular, — Migalhas da Historia poriugueza , — A Desco - 
berta da India, — A Joia do vice-rei , — As Colonias portuguezas e 
vArias outras niemorias. 

Pyrard (Francisco) — Viagens , trad, de Cunha Rivara, 2 vols. 
Roteiro da Viagem de Vasco da Gama, ano. 2. fl ed., 1 vol. 

Souza (P. e Caetano Francisco de) / ns tilwpdcs portuguezas no 
Orients , — j.° vol. 

Stephens ( H. Morse) — Albuquerque, 1 vol, — Portugal, 
trad, de Silva Bastos, revista por Oliveira Martins, 1 vol. 

Strachey (sir John) — Vlnde, trad, e prefacio de J. Her- 
mand, 1 vol. 

Tavernier (J. B.)— L«s Voyages ent Perse et aux Indes, 1 vol- 

Teixeira de Aragao (A. 0 . ) — Descrippdo geral e historiea das 
Moedas, t. 111 , — Vasco da Gama c a V idigueira, 1 vol. 

The International Numismata Orientalia — 3 vols. 

Tomaz Ribeiro — Entre Palmeiras . 

Vincent Smith (A.) Oxford History of India e Early History 
of India . 

Alem dasobras, revistas e jornaes citados no corpo do livro. 



S6rie Cronoldgica 

Dos vice-reis e govemadores 


Pag. 


1 

D. Francisco de Almeida... 

... ... 

l.° vice-rei 

33 

2 

Afonso de Albuquerque ... 

... ... 


... 

37 

8 

Lopo Soares de Albergaria 

... ... 


... 

47 

4 

Diogo Lopes de Sequeira ... 

... 


... 

49 

& 

D. Duarte de Menezes . . 

... ... 


... 

52 

6 

D. Vasco da Gama, comic da Vuligucira 

2.” 

•* 

56 

7 

D. Henri que de Menezes... 

... 


... 

58 

8 

Lopo Vas de Samp&io 

... ... 



61 

9 

Nano da Cunha 

... 


... 

64 

10 

D. Garcia de Noronha 

... ... 

3.° 


73 

11 

D.Estovao da Gama 

... • • • 


... 

77 

13 

Martim Afonso de Sousa ... 

... ... 



78 

13 

I). Joao de Castro 


4.° 

n 

81 

14 

Garcia de S& 

. • ... 



92 

15 

Jorge Cabral 



... 

93 

16 

D. Afonso de Noronha ... 


5.° 


94 

17 

D. Pedro Mascarenhas 

... . . . 

6.° 


102 

18 

Francisco Barreto 

... ... 


... 

103 

19 

D. Constantino de Bragan$a 

... 

7.° 


106 

20 

D. Francisco Coubinho, comic do Redondo 

8.° 

K 

112 

21 

Jo&o de Mendoza 

• « * • • • 



111 

22 

D. Antaade Noronha 

.••• ••• 

9.° 

M 

114 

23 

D. Luis de Abaide 

• • • • • • 

10.° 

*» 

116 

24 

D. Antonio de Noronha ... 

... 

11.° 

»* 

126 

25 

Ant6nio Moniz Barreto ... 

... ... 


... 

129 

6 

D. Diogo de Menezes 

... 


... 

130 

27 

D. Luts de Ataide (pela 2.* 

vez) ... • . . 

12.o 


131 



403 


Pag. 


28 

FeroSLo Teles de Menezes 


• . • 

140 

29 

D. Francisco Mascarenhas 

13.° 

v.-rei 

99 

30 

D. Duarte de Menezes, conde de Tarouca ... 

14.° 

*» 

142 

81 

D. Manoel de Souza Coutinho 



143 

32 

Matias de Albuquerque 

15.° 

ii 

99 

83 

D. Francisco da Gama, conde da Vidigueira 16.° 

M 

144 

34 

Aires de Saldanha 

17.° 

91 

146 

35 

Marti m Afonso de Castro 

18.° 

n 

99 

36 

L). Fr. Aleixo de Menezes, Arcebiepo 



147 

37 

Andr6 Furtado de Mendonga «... 


... 

150 

38 

Rui Lourenyo de T&vora ... 

19.° 

99 

151 

39 

1). Jerdnimo de Azevedo 

20.° 

99 

99 

40 

D. Joao Coutinho, conde do Redondo ... 

21.° 

9< 

152 

41 

Fern&o de Albuquerque 


99 

153 

43 

D. Francisco da Gama, conde da Vidiguei- 





ra (pela 2. a vez) 

22.° 

91 

154 

43 

D. Fr. Luis de Brito, bispo de Meliapor... 


... 

99 

44 

D. Miguel de Noronha, conde de Linharcs 

23.o 

99 

99 

45 

Pero da Silva 

24.° 

99 

156 

46 

Antonio Teles de Menezes 


99 

99 

47 

Joao da Silva Telo de Menezes, conde de 





Aveiras 

25.° 

99 

99 

48 

D. Filipe Mascarenhas 

26.o 

99 

159 

49 

D. Vasco Mascarenhas, conde de O'bidos .. 

27.° 

99 

160 

50 

D. Rodrigo Lobo da Silveira, conde de 





Sarzedas ... 

28 .o 

99 

163 

51 

Manoel Mascarenhas Homem 


99 

9* 

52 

Ant6nio de Melo e Castro .•* 

29.o 

99 

166 

53 

Joao Nunes da Cunha, conde de S. Vicente 

SO. 0 

9* 

170 

54 

Luis de Mendonga Furtado de Albuquerque, 




conde de Lavradio 

SI. 0 

99 

173 

55 

D. Pedro de Almeida, conde de Assumar 

32.o 

99 

99 

56 

Francisco de Tavora, conde de Alvor ... 

38.o 

99 

174 

57 

D. Rodrigo da Costa 


»9 

176 

58 

D. Miguel de Almeida 

»» 

99 

99 



404 


Pag. 


59 

D. Pedro Antonio de Noronha, conde de 




Vila Verde ••• ••• ... 

34.° 

v.-rei 176 

60 

Antonio Luis Oonfcinho 

35.° 

»> »» 

61 

Gaetano de Melo e Castro 

36.° 

„ 189 

62 

D. Rodrigo da Costa 

87.° 

„ 191 

63 

Vasco Fernandes Cesar de Menezes, conde 




de Sabugosa 

38.° 

>* »* 

64 

IX SebastiSo de Andrade Pessanha, Arcebispo 

193 

65 

IX Luis de Menezes, conde de Ericeira ... 

39.° 

M 

66 

Francisco Jos6 Sampaio e Castro ... 

40 « 

194 

67 

IX CristovSo de Melo 


195 

68 

Jo£o de Saldanha da Gama 

41.° 

»♦ n . 

69 

D, Pedro Mascurenha*, conde de Sandomil 

42.° 

196 

70 

1). Luis de Meneies, conde da Ericeira 




(pela2. a vez) ... 

43.° 

201 

71 

I). Pedro Miguel de Almeida e Portugal, 




marques do Caslclo Novo e de Alorna .... 

44.° 

„ 203 

72 

Francisco de Assis de Tivora, marques de 




Tdvora ... 

45.° 

„ 209 

73 

D. Luis Mascarenhas, conde de Alva 

46.° 

211 

74 

Manoel de Saldanha de Albuquerque, conde 




da Ega ... ... ... ... 

47.° 

„ 217 

75 

D. Jofio Jose de Melo 


... 221 

76 

Filipe de Valadares Souto-Maior ... 


... 222 

77 

IX Jose Pedro da Camara ... 


... „ 

78 

D. Frederico Guilherme de Souza ... 


... 224 

79 

Fr.’.ncisco da Cnnha e Meneses 


... 225 

80 

Francisco Antonio da Veiga Cabral 


... 231 

81 

Bernardo Jose de Lorena, conde de Sarze - 




das ... ... ... ... ... 

48.° 

„ 284 

82 

D. Diogo de Souza, conde do Rio Pardo ... 

49.° 

„ 287 

88 

D. Manoel da Camara 

50.° 

„ 249 

84 

D. Manoel de Portugal e Castro 

51.° 

„ 250 

85 

Bernardo Peres da Silva ( prefeito ) 


... 253 

86 

Si mao Infante de Lacerda, bar do de Sa - 





405 


Pag 

broso 260 

87 Jos6 Anbdoio Vieira da Fonseca ... • a* • • a 267 

88 Mauoet Jose Mender, btirdo do Caudal 268 

88 Jute Joaquin* Lopes do Liiiia 270 

80 Francisco Xavier da Silva Pereira, conde 

das Aulas • ... ... ... 272 

91 Joaquin) Mi uido Garcg* Paiha 274 

92 Jose Feireira Pesiaim ... ... ... ... 274 

93 Jose Joiiqtiuti Januar.o La pa, bardo e de* 

poia visconde de Vila Nova de Ourem ... ... 279 

94 Autouio Cuftur de Vaacoir eUm CorteiH, vis- 

* con te depute conde de Ton es Novas 282 

95 Jose Ferreira Pentium, (pet* 2. tt vez) ... ... 283 

96 Jauuano Correia de Alaitid.i, visconde de 

S. Janudt io 286 

97 Joaquim Jo«e Macedo e Conto 288 

98 Jo&o Tavares do Almeida ... ... ... ... 289 

99 Atiiouio .'Sergio de Souza, visconde de Sergio 

de ^oii la ... ... ... ... ... 290 

100 Caetauo Alexandre de Almeida e Albu- 

querque ... „ 

101 Carlas Eugenio Correia da Silva, visconde 

de Pa$o de Arcos ... •• +*• 292 

102 Francisco Joaquim Ferreira do Amaral „ 

103 Augusto Cesar Cardoso de Carvalho 293 

104 Vasco Guedes de Carvalho e Meuezes „ 

105 Francisco Maria da Ounha 294 

106 Francisco Teixeira da Silva „ 

107 Rafael Jacome de Andrade „ 

108 Elesbao J. de Betencourt Lapa, visconde 

de Vila- Nova de Ourem ... ... ... 295 

109 Rafael J&comede Andrade (pela 2. & vez)... , v 

110 D. Afonso Henriques, duque do Por - 52.° e dlti- 

to ... mo vioe-rei 800 

111 Jo&o Antonio de Briss&c das Neves Ferreira, 

comissdrio regio ,* 

86 



406 


Pag. 

112 Joaquim Jos6 Machado ... ... ... ... 301 

113 Eduardo Ausjusto Rodrigues Galhardo ... ... 303 

114 Arnaldo de Novais Guedes Rebelo ... ... 303 

115 Jose Maria de Souza Horba e Gosta ... ... 306 

116 Francisco Manoel Couceiro da Costa 308 

117 Jose de Freitas Ribeiro „ 

118 Aqgusbo de Paiva Bobela Mota ... ... ... „ 

119 Jaime Alberto de Castro Moraie ... ... ... „ 

120 Mariano Martins ... ... ... ... 309 



INDICE ALFABlSTlCO 


N. B. — O indice dos vice-reis e governadores encontra-se 
na respectiva Ordem cronologica pag. 401. 


Abade Faria, 229 
Abusos dc autoridade, 21 6. 

Academia militar, 238. 

Accas, 313. 

Aden, ana conquista e perda, 94. 

Adil-khan (Yusuf), 21. 

Adil-khan (Ismail) 41, 44. 

Adil-khan (Ibraim) 66, 79. 

Adil-khan (All) 106, 121. 

Afonso de Albuquerque, 30, 35 — 46. 

Afonso Mexia, 61, 63. 

Aldon&, 204, 326. 

Alorna e oufcras pranas fcomadas, 204. 

Angediva, 33, 175, 376. 

Angrita, 192, 195. 

Armadas port, no oriente, 29, 30. 

Arcebispado em Goa, 112. 

Artelharia vendida, 271. 

Arvaldm, cascata de, 378. 

Assad-khan, 67. 

Assassinato : do conde de Alva, 215; de L. Prates 248; de A. M. 

de Azevedo, 267 ;de Bustos e Silva, 329 ; do cap. Garcda 280. 
Aula de fisica e quimica, contenda s6bre a, 347 f 348. 

Axoka, 11. 



Bacais, porta dos, 23. 

Bamanidas, 8 f 18. 

Banavasi, 4. 

Bandel 179. 

Barcelor : conquista, 120 ; feitoria, 173 ; perda, 180. 

Bardes — vid : Salsete e Bardea. 

Bassaim : conqnista e cess&o, 66 ; capital da Provlucia do Norte, 
197 ; perda de, 198. 

BassorA, 94, 95, 176. 

Bataihao : cm Quepem, 271 ; provisorio, 27 i; oxpi-dicioriiirio, 287. 
Bedar, festas cm, 19. 

Bijapur, 21. 

Bilhetes postais, 292. 

Bisnagar, 7 ; monopolio do comercin, 9 1 . 

Bispo de Halicarnasso, 207, 219. 

Bocageem Goa, 230. 

Boletim do Gove mo, 265. 

Bombaim : oferecida aos port. 66 ; sim ccssflo e entrega nos ingle- 
ses, 167, 168 ; arrendada a Compnnhiu ing., 197 ; consulado 
port, ern, 310. 

Bounsulo, 189, 199. 

Br&manes, 2, 3. 


C 


Oabrali8mo ua India, 275. 

Calicut : furtaieza port, em, 46 ; cerco e abanddnoda fortaleza de, 
59, 61. 

CaraOes em Goa, 101 , 105 . 

( ananor, 34, 108, 114, 167, 180. 

Cargos public: *s em ahiioeda, 152. 

Caruificiua : de Gi.sjuir Di i*. :.v» ; do Tiracol e Gululem, 258. 
Carta de Martim Af. de Sousa, *>0. 

Castas, 2, 3. 

Ceilfto : descoberta, 85 ; foitalexa, 49 ; exacts. 98 ; anexa^Ao 



409 


de — f 144 ; acontecimentos deplordveis, 160 ; perda de — 164. 
Chafarica e Patuleia, 275. 

Chale: fortl. port, era—, 121 ; perda de— 126. 

Chalukyas, 5 e seq. 

Clfaul : fortaleza de — , 49 ; joias oferecidas pelas damas de— 87 ; 

e§rco de — , 123 ; perda, 197-8. 

Ckegada dos portuguescs d India, 24. 

Cidade de Nova Goa, 273. 

Cidade de Goa : na mutgern do Zuari, 12, 13 ; na margem do 
Mandovi, 17, 22 ; extensilo e populag&o, 136. 

Coohuu : ataque ao raja de — 31 ; sede do gov. port, 34 ; perda, 
165, 166 ; diocese ctn — , 356, 302. 

Culera era Goa, 134. 

Coligagiio contra os portuguescs, 121. 

Oomercio tlorescentc, 32, 139. 

Companliias : kolandesa, e inglesa 177. 

Coraunidades agricolas, 10, 43. 

Uonjura^ao dos Pintos, 225. 

Constibui^ao cm Goa, 240. 

Oontenda com o gov. ingles, 277. 

Uorjuein e Ponclem, eonquista de — ,191. 

Ootubanas, 315. 

Granganor, 165, 180, 356, 362. 

3 > 

Daniao : eonquista, 106 ; inquietagdo mogol, 119 ; itivasao uia- 
rata, 198. 

Dente de Buddha, 109—10. 

Derrota : de Adil-khan ein Banastarim, 44 ; em Cuneolim, 83, 
91 ; era Pondd, 82 ; 

Desastre em Pondd, 215. 

Desaubora$ao dura vice-rei, 129. 

Deposi§ao : do conde de Obidos, 161 ; do coude do Rio Pardo, 
240 ; do Prefeito, 255. 

Depubados, os priraeiros, 245. 

Despaeko jocoso, 194. 

Dessai de Us pit 234. 

M* 



410 


Diocese de Goa, l.° bispo da ? 77. 

Dia : bombardeamento, 65 ; I.® cSrco, 72—6 ; 2.° cSrco, 83—9 ; 
constrajao da fortaleza, 66 ; invasao marata, 198, morbe do 
sultaode Cambaia, 71. 

Dominag&o em Goa : hindu, 9 ; maometana, 18 ; porbuguesa, 27. 
Dom Joao IV, aclama^&o de — , 158. 

Dndsagor, cascata de — 378. 

Durga Bai, bosfcilidade de — , 235, 238. 


Etnblenia de Dotu Constantino, 111. 

Esoola : de artes e ofi'cios, 347 ; de gramitica, na Se, 332 : de 
fisica, 347 — 8; Lancasbriana, 337; Matemabica e inilitar, 345; 
Medico— cirurgica, S49 ; Nacional, 339 : Normal 338—9. 

Esoolas : paroquiais, 332 ; prim&rias, 336—8 ; secundaria*, 334, 
339—45. 

Escravos, venda dos-, 139. 

Estado da India e sua divis&o. 374. 

Esfcados vizinhos, 3. 

Est&tua de Vasco da Gama, 144. 

Ex6rcito da India, 284 ; extingao do—, 289. 

P 

Peitorias : as porbug. 29 ; de Surrabe, 309. 

Fortaleza : de Calicut, 46 ; abandono desta, 59, 61 ; de Cochim, 
165-6; de Ghale 121—126; Panane, 143 ; de Rachol, abacada, 
68, 174. 

Forfcalezas : assalto as-, 50 ; construidas pelos port, nos dominios 
do Samorim, 46, 59, 61, 125—6, 143. 

G 


Garsopa, oidade, 41. 

Caspar Dias, forbe de, 144, 256. 

Gazeta de Goa, o l.° periodico, 345. 

General do Norte, 197. 

Goa, situagao geogrifica, l ; — origem do hoc it 1 , populayfto o divi- 



411 


83(0 em classes, 2 ; — linguas, 3 ; — seus primeiros habitantes, 
9 ; — sob a domina^o hindu, 9—18 ; — suacidade na marge m 
do Znari, capital dos Kadarabas ; sua prosperidade e a aisa 
misericord iosa, 12-13 ; — transferida para a margem esquerda 
do Mandovi, 17-18 ; — sob a dominag&o maometana, 18-24 ; 
— cidade predilecta do Adil-Khan, 22 muralha e edificios, 
riquesa e comercio, 22-24 ; — conquistada por Albuquerque, 
l. a vez, 38 ; 2. a vez, 40 capital do imperio luso-iudia- 
no e seu florescimento, 133-9 ; — decadSncia, 180-9 inva- 
dida por | A.dil-Khan l 44 ; — cercada por Sste rei, 49 e 122 
bloqueada pelos holandescs, 146, 156 ; — pretendida por Si- 
vagi, 1 7 i ; — salva do ataque de Sambagi, 174 invadida 
por tropas inglesas, 231 ; — solicitada pelo governo britanico, 
268-70. 

Governo provisional, sous despotismos e violdncias, 257. 

Grao-Mogol, impcrador de Delhi, e a extensao do seu imperio, 

194. 

Grumete Bastifto, 60. 


Holandeses em Malaca, 146, 156 ; — nas Molucas, 147 ; — em Goa, 
146, 756 ; — em Ceil3o, 157, 164 ; — em Coulao, Oranganor, 
Cochim, Cauanor e outras partes, 165-7. 

Hospital real, 43 ; — hospital do N. S. da Piedade, 154. 

X 


Idalcfto, 22. 

Ilhas de Goa, permanentemente ocupadas pelos portugueses des- 
de a sua conquista, 79. 

Ilhas, concelho das, 375. 

Ilhas das especiarias, vide Molucas. 

Imperio dos Mog6is, vid. Gr5o Mogol. 

Imperio Marata, 171. 

Imperio luso-indiano, sua extensao e florecimento, 132 desmo- 
ronamento, 177. 

Inaugura$&o da linha fdrrea de Mormug&o, 292. 



412 


lndependfincia de Goa, 17. 

Ingleses em Goa, 231. 

InfluGncia da dominafao castelhana, 157. 

Infludncia da admiaistrag&o do Marques do Pombal, 223. 
Inqaietag&es dos Bounsulds e Banes, 235. 

Inqnisigfto em Goa, 112 ; — sna extingAo, 2 22, 236. 

Institute Vasco da Qama , 288. 

Institnto Pro6ssionaI, 346. 

Institute Oomercial, 344. 

InstrugAo publica e seus primeiros professores, 331. 

Insurrei$£o em Salsete, 141. 

Invas&o maometana, 15 ; — do marafca Sambagi, 174 do marafca 
e Bonnsuld em Salsete e Bardes, 198 ; — das tropas ingl., 231. 

J 


Jesultas presos, 217. 

Joias oferecidas pelas damas de Chaiil, 87. 

Junta Provisional, 241, 243 . 

Junta da Justiga, 255. 

Juramento da Carta Constitucional em Goa, 252. 


Kadambas : de Banavasi , 3 ; — de Goa, 11. 
Kanogi AngriA, 192*4. 

Katif. ( no gdlfo Pdrsico ), 94. 

Kemd Saunto Bounin 16, 189. 

Koja Safar, 72-3, 84. 


L 

Levantamentos de Satari, 316 e seg. 

Licea naeienal, central e lioens mnnicipais, 339. 
Linha terrea de Mormug&o, 291-2. 

Lata sobre a sucesafto no govdrno da India, 61. 


Maoau, cidade, 180;— sua separaflo do Eitado da India, — 309. 



413 


Malaca, conquistada, 44; — teatro de diacordias entre o» capitftea 
49; — oprimida pelo sultfto de Bin twin e ouiros r^gulos, 54, 
-5; — defend ida dos assedios, 97, 115; — bloqueada pelos ho- 
landezes, 146; perdida, 156; 

Mapuysl, 626, 377. 

Maratas, vide imperio marata. 

Margfco, Vila, 198, 200, 376. 

M&rtires de Cnncolim, 141. 

Mascate, conquistada por Albuquerque, 95;* — sua perda, 179. 
Massinga, rei de, 149. 

Meale Khan e suas qiiestoes dc sncessao, 66 — 7, 78 — 9, 81 
feito rei de Bijapur, 108. 

Melhoramentos materials em Pangim 250, 283, 291 ; — ern 8a tar i, 
301. 

Meliapur cidade portuguesa, 207. 

Minas de manganes, 305 — 7. 

Mocassbs, inamas e cotumbanas, 315. 

Mozambique, sua separayiio do Estado da India, 211. 

JMogol, vide Grao Mogol. 

Molncas, opriu.idas pelo capitao da fortaleza, 98; — perdidas 130, 
147. 

Mombaya, sua conquista, 33, e perda, 180. 

Monopolio do comcreio asiatico, 29, 32 ; — sua extiny&o, 143. 
Mormugilo, sua fortaleza, 154 edificios construfdos para a trans- 
ference da capital, 184, — melhoraiiieulos posteriores 291, 
307. — construyao da linhu ferrea, 291 — 2. 

Morte de Bahadur- xii. 71. 

Morte de 8... Francisco Xavier 102. 

Mudanya da sedo do governo para Pangim, 218. 

M ulher- soldado, 1 90. 

W 

Nana Far navis, 212. 

Narsingn, rei no de, 7. 

Navegayao fluvial, 291. 

Nizam, 121. 

Nova Goa, 273. 

Novas conquisras 311. 



414 


O 

Onor, sua conquista, 119; — feitoria fortificada, 173 s — sua per- 
da, 180. 

Ordenado e ostentagAo dos vice-reis, reduzidos, 221. 

OrdeDS religiosas extintas, 255. 

Orrnus, conquista de — 46 ; revolta do son sober a no, 61 — 8 ; — 
fortaleza sitiada pelo pachA do Egibo, 95 ; — sua perda, 158. 

P 


Pacem, perda de — , 54. 

Padroado portuguds no oriente, 855. 

Panane, fortaleza de — ,148. 

Pangim, vila, 250 ; — elevada a cidade, 273. 

Patuleia, Ohafarica e — 275 

Paz com Samorim : l. a vez, 46; — 2. a vez, 121, n. ; — 3. 11 vez, 
76 ; — 4. a vez, 143. 

Paz com Adil-khan, 93 ; definitive, garantindo aos portugueses a 
posse de Salsete e BardAs, 126. 

Paz definitive com os maratas, 186, 203. 

Pe$a de Banasbarim, 45 ; — de Diu 89. 

Pegu, reino de— , sua conquista e perda, 148. 

Periddico, o primeiro, 245. 

Perda das possessOes, 177. 

PexvA, ininistro, 172, 198. 

PerseguigAo a CamSes, 105. 

Pirata AngriA 192, 194. 

Polibica comercial, 36 ; — imperial, 37 — governativa de Albu- 
querque, 43 ; de Dom Jo&o de Castro, 91. 

PondA, conquista de — , 82, 219. 

Ponelem, conquista de, 191. 

Ponte de Pangim a Ribandar, 154. 

Portugueses a India, ohegada dos, 24. 

Pragas tomadas, 204. 

Praganft Nagar-Aveli, 374. 

Prefeitura, regime de, 253. 



415 


Primeiro vice-rei, 33. 

Primeiro Conselho governativo, 290. 

Principes europeus em Goa, 287. 

Prisao : de Dom Bras de Castro e outros, 1G3 ; — do governador 
inilitar, 259. 

Progresso material da cidade dc Goa, 133. 

Proposta do govSno ingles para a cedencia de Goa, 268. 

It 

Rachol, pra$a, 51, 68, 82, 174 — 175, 199. 

Rattas, 6. 

Recrutamento era Goa 194. 

liei de Sunda ou Sundetn 209-10; — extensao do sea reino, a sua 
familia e o subsidio, — Nota final B. 

Relag&o, extingao da,— 255. 

Redoes de Portugal com a China, 47. 

Retirada de Sambagi, atribuida a intervengao de S. Francisco 
Xavier 175. 

Revolta : do batalh&o provisdrio, 272 ; — de dois batalhoes e corpo 
de sipais para arrassar a ilha de Divar, 280 ; — dc Volvoi, 283; 
— de Marcela, 286 ; — dos soldados maratas, 295. 

Revoltas de Satari, 312 e seg. ; sob a chefia de Bapu Rau, 319 ; 
— de Dipu Ranes, 320 — de Custoba, 323 de Dada Ranesi 
326 revoltas posteriores, 329—30. 


Salsete e Bardcs, provinces ; vieratu k posse do Estado, 39 — 40; 
2/ vez, 44 ; — perdidas, 45 doadas ao rei de Portugal pelo 
rei de Bisnagar, 51 ; — de novo perdidas, 53 ; — cedidaa por 
Assad Khan aos port ; 67 levadas, 69 novamente 
doadas por Adil Khan, 78 — 9 ; — atacadas por die, 82 — 3 ; — 
confirmadaadoagiio — 93; — novamente assaltadas, 104; — ga- 
rantida a posse pelo tratado de 1571, 126; — legadas pelo neto 
de Meale Khan, 104; — invadidas pelo maraba e o Bouneuld 
( puruias ) 198; — rcstauradas pelo marquds de Lour^a!, 
202—3. 



416 


Santom&i (moedas de ouro) vellios e novos. 207. 

Satari e suas insurrei$6e9, 312 — 31. 

Sede do governo port, ero Cochim, 34. 

Sedi$Jo He Cnncolirn e aldeias viziohas, 141 contra o conde 
deObidos. 161 ; — imputadu k India, 296, 300. 

S6los postais*, 288. 

Semin&rio : de Ghor&o, Rachol e o do Bom Jesus, 333. 

8<$rie croaoldgica doa prelados dc Goa, 362. 

Sinopse do desmoronamcnto do imperio luso-indiano, e a deca- 
dSncia de Goa, 177. 

Sivagi, fundador do imperio marata, 171. 

Sonodo, 313. 

Sucessos no Golfo Persico, 94. 

Sunda ou Sunddm vid. Rei de— , 

T 


Tanadarias, 44 — 5, 50. 

Templo: de Saptanalha , 16 ; — de Mabalsa, 67. 

Tentativa : da reedifioagao da oidado de Goa, 187 ; — do revolt* 
militar contra o gov. Pestana, 274 ; — de ataque ao quarbel 
de Col vale, 217. 

Territorio restante nos princlpios do sec. XVIII, 180 ; no 

sec. XIX, 309. 

Tesouro : de Assad- Khan, . doado ao rei de Portugal, 80 ; — do rei 
de Pegu, 118—9. 

Timoja, soberano de Onor, 38, 41. 

Timor, Solor c as ilhas udjacentea, sua separagao do Estado da 
India— vid. Macau, 309. 

Tipografia em Goa, 102. 

Tipu Bultao dc Maisur, 225. 

Tirtha de Naroii, 17. 

TransferSucia da capital para Mormugao, 182;— do algumas 
repurtiyoes publicas para Pangiui, 238. 

Tropas inglesas urn Goa, 231. 

U 

Uhos e costumes dos habitautes da cidade de 6oa, 138. 



417 


Uspt, dessai de, 234 ; sua casa — forte, 237. 

V 

Vasco da Gama em Calicut, 27 seu car&cber 56. 

Viaa de aucessfto, 58. 

Vice-rei ; estingfto do cargo 221 ; sen restabelecimento 234. 

Velba de Diu, 85. 

Vila de Pangim, 250. 

Vijayanaerar, 7. 

Xau-raja, 172. 


Yadavaa, 7 ; sua tlotmna<?&o, 14. 



Erratas not&veis 


Pag. 

lin ha 

ottde se lc 

devc ler-se 

2 

15 

450,551 

486,752 

29 

26 

estabekceram-se 

se estabeleceram 

30 

19 

dee tin in ? todos 

destniiu todos 

32 

r+ 

i 

imporio 

emporio 

35 

21 

tom ar a posse 

tomar posse 

n 

15 

Adil-Sha 

Adil-xa 

40 

23 

•Jorje 

Jorge 

52 

7 

1552 

1522 

67 

l 

(Malta) 

(Abdull*) 

•» 

83 

Mhla*a 

Mahalsa 

74 

34 

eu o prendi 

cu prendi 

75 

8 

veulia 

vinham 

80 

16 

estave 

estava 

!• 

21 

rle opera 

deo pern 

113 

3 

1654 

1564 

122 

15 

a tudo 

budo 

133 

20 

e 

se 

»> 

21 

sendos 

sendo 

13 1 

32 

capitulo seguinte 

vol. 2.° 

141 

19 

com sangue 

com sangne de vaca 

146 

2 

603 

605 

173 

6 

de Bom Jesus 

do Bom .Jesus 

176 

2 

corno atraz esta dito 

corno se vai ler no 
capitulo seguinte 

180 

21 

o arcpiipclago de 

as ilbas d< 

2C3 

26 

1748 

1744 

227 

11 

5 a pena 

e 5 k pena 

231 

25 

a mats 

ha mais 

235 

23 

Cud ale 

Kudal 

260 

1 

1832 

1867 



419 


268 

13 

conselhairos 

conselheiroa electivo* 

273 

31 

a defrontam 

defrontam com ela 

284 

28 

regimento 

regimentos 

286 

5 

1898 

1897 

M 

5 

de exercitc 

do ex&cito 

290 

30 

do govern ad or 

do governo 

298 

11 

Sunda 

Surla 

SOO 

30 

eneontrados em 

encontrados com ar- 



■flagrante delito 

mas na mao ou em de- 



de roubo ou ho- 

lito de atentado con- 



micidio 

tra pessoas ou pro- 




priedade alheia 

313 

14 

80 si pais 

800 sipais 

** 

26 

elevado 

reduzido 

316 

35 

1823 : em 

1 823 ; setembro de 




1824; em 

318 

1 

1883 

1833 

322 

18 

1855 

1856 

326 

30-31 

Outubro iaiediato 

referido Outubro 

329 

16 

influente 

influentes 

339 

4 

da Santa F6 

de Santa F4 

i» 

37 

ordenaram 

ordenarem 

384 

31 

1808 

1798 

335 

9 

inforuiou-lbe que 

informou-o de que 

339 

29 

laoeu Geral 

Liceu Central 

341 

20 

criados 

criadaa 

356 

28 

mi It /antes 

militants